A sociedade capitalista consolida-se ao incorporar ciência e tecnologia em todas as suas atividades. Ao adotar o conhecimento cientifico como fonte única de verdade, rompeu com tradições milenares e impôs uma renúncia a outras fontes de conhecimento. O papel da ciência em nossa organização social implicou na emergência de domínios explicativos diferenciados em que cada um destes gerou procedimentos e competências operacionais distintas no âmbito das diversas organizações sociais.
Neste contexto, as inovações tecnológicas ampliaram a eficácia do trabalho humano para transformar os mais variados ambientes e, com isto modificaram não só as relações do ser humano com e para com a natureza, colocando-a cada vez mais dependente do uso da ciência e da técnica, como também ampliaram em escala planetária, a degradação ambiental, que torna iminente o risco de uma catástrofe ecológica global.
Tem se tornado inconteste afirmar que, em decorrência da globalização, com seu ritmo acelerado, esta performance vem ganhando novos contornos e traz novidades presentes, simultaneamente, em todos os pontos do nosso planeta, e que tem impactado fortemente nossas organizações sociais e exigindo de todos nós mudanças profundas(SANTOS,2002; BAUMAN,2003).
Santos (1998,p.24), particularmente, nos chama a atenção para o fato de que a crise decorrente desta configuração tem resultado em conseqüências desastrosas, principalmente no que diz respeito às condições sociais e teóricas, ou seja, esta crise decorre da própria aplicação de seus avanços, que sugerem então mudanças significativas em seu tecido social.
Mayor (1998,p.07), por sua vez, destaca que essas condições teóricas e, por seu turno, o conhecimento científico acumulado à luz do capital intelectual, apesar de configurarem importantes conquistas, trazem em seu bojo uma fonte de imenso poder e que, por resultante, numerosas contradições emergem nesse desenvolvimento do conhecimento e na construção de uma sociedade tecnológica.
Mayor faz ainda referência ao fato de que os problemas ligados à ciência e às suas aplicações, ao estarem intimamente relacionados ao poder, também atingem aos conteúdos e princípios estruturais de algumas áreas de conhecimento científico. A título de exemplo cita a biologia, em particular, durante o período do nazismo alemão, em razão de ter sido usada como um instrumento de justificação do racismo e do nazismo, na medida em que o recrutamento de cientistas pelo Estado serviu para compor um “documentário”, separando aqueles que mereciam viver, dos alemães que fossem judeus, ciganos ou pertencentes a grupos minoritários (p.16).
Assim, o confronto entre ciência e poder se constitui em um debate entre a ciência e cientistas; cientistas com o Estado e toda a sociedade onde se destaca que o Estado foi e ainda é a principal fonte de financiamento de pesquisas na maioria dos países.
Neste sentido, os investimentos em Ciência e Tecnologia nos levam a refletir sobre o papel das organizações governamentais e não-governamentais e de que forma elas poderão ser reformuladas para conviver em um sistema competitivo e, também, em que medida as inovações tecnológicas sinalizam para a construção de um modelo de sociedade sustentável, incorporando, neste âmbito, as variáveis sociais, culturais, econômicas, etc. que subsidiam a construção de uma sociedade democrática.
Tais questões encontram subsídios para um aprofundamento nas reflexões que se dedicam à problematização sobre a gênese e o raio de ação da crise paradigmática da ciência. Assim, a emergência de novos paradigmas, a partir desta proposição, postula um entendimento inicial de que a ciência não responde aos principais problemas da sociedade
contemporânea. Urge a necessidade de integrar a ciência com outras práticas humanas que contemplem em seus conteúdos esta reflexão.
Prigogine(1996,p.09), problematizando sobre essa necessidade de novos paradigmas, ressalta a capacidade de reconsiderar-se o relacionamento entre ciência e tecnologia, de um lado, e o poder político e o governo, de outro. Segundo o autor, as políticas científicas governamentais não podem mais ser decididas com base em perícias fornecidas por um pequeno grupo de especialistas, mas devem ser o resultado de um longo processo, em que todos os sujeitos da sociedade participem das várias etapas dos empreendimentos científicos.
Mészaros (2004,p.265), nesta linha de argumento, chama atenção para a afirmação de que nossa sociedade tecnológica é um tipo totalmente novo de sociedade, pois a ciência e a tecnologia ditam o que acontece nesta sociedade, e considera uma completa mistificação, haja vista o fato de que ciência e tecnologia sempre estiveram inseridas nas estruturas e determinações sociais de uma época, ou seja, a ciência e, por extensão, a tecnologia a ela associada não são autônomas. Contêm em si os princípios ideológicos das classes que a elaboram e, sobretudo, de quem postula o poder e a capacidade de sua aplicabilidade.
O referido autor trabalha de maneira aprofundada os liames constitutivos desta relação entre ciência, tecnologia e ideologia, e ressalta a necessidade de empreender-se indagações do tipo de ciência que desejamos, quem deve realizá–la e como deve ser controlada à luz da dinâmica contraditória do capital.
É neste sentido que se busca aprofundar-se nas variáveis que compõem esse processo de produção do conhecimento à luz das transformações históricas e processuais no âmbito do capitalismo, ou seja, focalizar a interface entre Tecnologia x Natureza e Sociedade.
Andery (2004,p.13) chama atenção que, no âmbito da produção do conhecimento científico, é imprescindível refletir-se sobre a capacidade do ser humano na produção de conhecimento referente ao mundo, e têm em vista que sua produção exprime, sobretudo, as condições materiais de um dado momento histórico1.
1 MARX, K. O capital, Livro 1. v.1 produção clássica e genuína ressalta a capacidade e potencialidade do ser
humano em, através do trabalho, transformar a natureza e se transformar em decorrência das suas próprias necessidades humanas, bem como em O Dezoito de Brumário e O Manifesto Comunista que revelam as contribuições desta perspectiva teórica para entendimento e explicação do capitalismo.
Considera que, além de estar referindo-se a produção das necessidades materiais, é também uma maneira de expressar e representar aquilo que se faz, a maneira de viver, como se relaciona e, sobretudo, a concepção que tem sobre si e sobre o mundo. Ainda, neste sentido, ressaltam a necessidade de analisar-se as condições concretas e de representação que condicionam tal elaboração de conhecimento, ou seja, as determinações históricas e as alterações decorrentes das descobertas e avanços científicos como sinalizadoras: “de uma nova forma de ver a realidade, um novo modo de atuação para obtenção do conhecimento, uma transformação no próprio conhecimento”(p.14).
Segundo Chrétien (1994,p.17), os resultados da ciência, e, por extensão, da práxis humana, vista sob este prisma, não se contentou somente em invadir e transformar o meio ambiente com os objetos técnicos cuja criação ela possibilitou, mas, é a partir de sua fecundidade na conversão de fórmulas teóricas em “aparelhagens úteis”, que esta conseguiu penetrar nas nossas formas de representação e saber sobre/para/o mundo. Como ressalta:
Ela possibilita se reproduzir e renovar à nossa volta num ritmo exponencial após haver cercado o trabalho, os transportes, o lazer, a vida doméstica, a saúde dos corpos ou a comunicação dos espíritos, a tecno – ciência insinua-se até em nossas maneiras de calcular e de pensar (microcomputadores), de fazer amor (pílula anticoncepcional), de dar a vida ou de ir para a morte (bio – ou tanato – tecnologias).
Neste processo ritualístico da passagem da produção do conhecimento para a tecno – ciência, outras questões emergem como fundamentais para o aprofundamento de uma reflexão sobre a performance da ciência, e tem em vista, sobretudo, suas conseqüências para a vida em sociedade, ou seja, considera a sua performance, através dos objetos que utilizamos, enquanto produtos da técnica e, por resultante, impregnados de conhecimento científico.
Mayor (1998,p.07) assinala ainda que vivemos numa época em que a ciência demonstra a cada dia o seu poder através do intensivo e progressivo desenvolvimento tecnológico, emergindo, portanto, inúmeras contradições decorrentes deste processo. Cita, a título de exemplo, os resultados da 2a Guerra Mundial como ilustrativos da potencialidade da produção de conhecimento, o que, por extensão implicaram na necessidade de reflexão sobre as questões éticas que envolvem a atividade científica:
Governos de muitos países e instituições de financiamento às pesquisas públicas e privadas debatem permanentemente esse problema [...] a questão ética na ciência suscita novas e fundamentais ques tões– como a manipulação genética, clonagem, eugenia– e problemas relacionados as suas aplicações são também parte dessas necessária e profunda discussão sobre a ciência do futuro( p.09).
Em análise retrospectiva da história, Japiassú (1999) já assinalava, no que diz respeito à ciência e à razão no Ocidente, que este processo não se constituiu apenas de “jogos históricos, contemplativos e transcendentais” no que diz respeito à representação entre sujeito e objeto, mas também expressou e materializou-se em conflitos envolvendo pessoas, grupos, organizações internacionais e países que disputam o poder e o exercem num tecido social, e que continuam avançando na conquistas do mundo material e da natureza.
A partir desta configuração, é possível observar que tem sido recorrente apontar-se que o processo de modernização, através do desenvolvimento tecnológico, apesar de ter trazido inúmeros benefícios para a melhoria da qualidade de vida das pessoas, também tem gerado degradações ambientais e problemas sociais e econômicos locais, nacionais e globais.
No tocante à degradação ambiental, destacam-se abordagens que focalizam os inúmeros fatos/acidentes/desastres ecológicos, que se, por um lado, sinalizam para a magnitude do problema, de outro, para a necessidade de elaboração de distintas abordagens sobre o tema o qual envolve uma amplitude de questionamentos sobre os modelos de desenvolvimento(ACOT,1990; ALMEIDA,1988; ARAÚJO, 2003;VALLE,2003).
2.1.2 Desenvolvimento e a Questão ambiental: o ponto de partida do conceito, suas