Retorno à Itália e ao Mezzogiorno, para explicar muito brevemente a gênese do problema italiano entre o Norte e o Sul. O Risorgimento (movimento que unificou os reinos da Itália em 1861) não trouxe benefício algum para o Sul, já que os dois lados da península se uniam depois de mais de mil anos em condições antitéticas. As comunas do Norte haviam dado impulso à história e uma organização econômica similar aos outros estados europeus, por outro lado, no Sul havia a herança da política paternalista herdade pelos Bourbon e da Espanha que não criara nada, deixando a agricultura primitiva que não abastecia nem mesmo o mercado local. A conseqüência da centralização foi a emigração de todo o dinheiro líquido do Sul para o Norte com o fim de encontrar rendimentos maiores e imediatos para a indústria. O protecionismo
industrial aumentava o custo de vida no Sul, sem que o protecionismo agrário ajudasse o camponês, visto que grande parte era agricultura de subsistência. Criam-se os rótulos e preconceitos de que o sulista não tem iniciativa. A acusação injusta é refutada por Gramsci88: “O fato é que o capital busca sempre os investimentos mais seguros; (...) onde existe a fábrica, essa continuará a se desenvolver com a poupança; mas onde toda forma é incerta, a poupança suada e acumulada com dificuldade não confia e fica onde encontra lucro tangível” (p. 63).
Ainda hoje o sul italiano é uma região muito mais agrícola e continua a produzir profissionais para a Itália setentrional. Essa diferença, com o passar dos anos, dividiu o país também economica e socialmente, pois, atualmente, a Itália meridional forma intelectuais que, devido à falta de oportunidades, acabam migrando para o norte. Se pensarmos no Brasil, vemos algumas semelhanças, pois durante muito tempo, com o flagelo da seca e a falta de políticas públicas voltadas para o Nordeste, foi imperioso a migração nordestina e a maior parte do desenvolvimento econômico do país ficar concentrado nas regiões Sudeste-Sul. Graciliano toca sutilmente a questão do sonho nordestino de ganhar a vida no sul ironizando a si mesmo: ”Uma viagem ao sul por conta do governo” (MC, vol. 1, p. 117).
Esse tipo de preconceito que se reproduz é lembrado por Graciliano, quando conhece o russo Sergio Snaider. Ramos faz a seguinte comparação em relação ao companheiro: “a delicadeza fria do russo dificilmente se hamonizaria com os meus hábitos vulgares de sertanejo; a minha ignorância compacta iria experimentar dura humilhação junto ao saber forte daquele homem doutorado em Leipzig, intimo de Einstein e Hegel”. Logo a barreira se desfaz, os dois tornam-se amigos apesar da dureza da língua: “–Vamos deixar de egzagero, não existe egzagero, o que há é exagero, ei-za-ge-ro, e corrigia- lhe a prosódia. Apresentando-lhe Manuel Bandeira e o julgamento do russo : “– Oh! Vocês aqui tem disso? E noutro tom: – Ainda não conheço o Brasil. Leviandade manifestar-me sobre ele” (MC, vol. 1, p. 228). O narrador mostra
que se o nordestino, que já é rude em relação ao sulista, sente-se mais distante ainda diante do europeu.
Em carta a irmã Teresina, em 26 de março de 192789, Gramsci lhe orienta para que fale em dialeto com os filhos, sabendo que é muito mais coerente ensinar às crianças a língua materna naturalmente. Mais uma vez, sem pedantismo, o autor aprecia sua cultura de origem, sem complexo de inferioridade:
Franco mi pare molto vispo e intelligente: penso che parli già correntemente. In che lingua parla? Spero che lo lascerete parlare in sardo e non gli darete dei dispiaceri a questo proposito. È stato un errore, per me, non aver lasciato che Edmea, da bambinetta, parlasse liberamente in sardo. Ciò ha nociuto alla sua formazione intellettuale e ha messo una camicia di forza alla sua fantasia. Non devi fare questo errore coi tuoi bambini. Intanto il sardo non è un dialetto, ma una lingua a sé, quantunque non abbia una grande letteratura, ed è bene che i bambini imparino piú lingue, se è possibile. Poi, l’italiano, che voi gli insegnerete, sarà una lingua povera, monca, fatta solo di quelle poche frasi e parole delle vostre conversazioni con lui, puramente infantile; egli non avrà contatto con l’ambiente generale e finirà con l’apprendere due gerghi e nessuna lingua: un gergo italiano per la conversazione ufficiale con voi e un gergo sardo, appreso a pezzi e bocconi, per parlare con gli altri bambini e con la gente che incontra per la strada o in piazza. Ti raccomando, proprio di cuore, di non commettere un tale errore e di lasciare che i tuoi bambini succhino tutto il sardismo che vogliono e si sviluppino spontaneamente nell’ambiente naturale in cui sono nati: ciò non sarà un impaccio per il loro avvenire, tutt’altro (p. 43)90.
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GRAMSCI, Antonio. Lettere dal cárcere. Org. de Antonio Santucci. Sellerio, Palermo, 1996. (A edição organizada por Santucci possui novas cartas em relação à edição brasileira também utilizada neste trabalho).
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Franco me parece muito esperto e inteligente: acho que já fala fluentemente. Em que língua fala? Espero que vocês o deixem falar em sardo e não lhes desagrade essa idéia. Foi um erro, para mim, não terem deixado que Edmea, desde criança, falasse livremente em sardo. Isso prejudicou a sua formação intelectual e colocou uma camisa de força na sua fantasia. Não deves cometer este erro com os teus meninos. Entanto, o sardo não é um dialeto, mas uma língua em si, embora não tenha uma grande literatura, e é bom que as crianças aprendam mais línguas, se é possível. Depois, o italiano que vocês lhes ensinarão, será uma língua pobre, mutilada, feita somente daquelas poucas palavras e frases das suas conversas com ele, puramente infantil; ele não terá contacto com o ambiente geral e acabará por aprender dois jargões e nenhuma língua: um jargão italiano pela conversa oficial com vocês e um jargão sardo, aprendido a pedaços e bocados, para falar com as outras crianças e com as pessoas que encontra na rua ou na praça. Recomendo-te mesmo, de coração, de não cometer tal erro e de deixar que os teus filhos suguem todo o sardismo que quiserem e se desenvolvam espontaneamente no ambiente natural em que nasceram: isso não será um impedimento para o futuro deles, pelo contrário.
Mais uma vez, a atualidade de Gramsci se faz presente, pois hoje a maioria das crianças que frequentam regularmente a escola italian não falam em dialeto. O boom tecnológico com o “milagre econômico italiano” e, consequentemente, a escolarização em massa, principalmente nas décadas de 60 e 70, fizeram com que a população em geral aprendesse o italiano. A escola, por sua vez, privilegiando sempre a língua oficial, excluiu os dialetos, que ficaram desvalorizados socialmente.
4 – Literatura nacional-popular
Nos Cadernos do cárcere, quando escreve sobre o público e a literatura italiana, Gramsci declara que a literatura italiana não é nacional porque também não é popular e os italianos lêem mais os escritores estrangeiros porque os intelectuais italianos não se ‘aproximam’ dos sentimentos do povo:
Os intelectuais não saem do povo, ainda que acidentalmente algum deles seja de origem popular; não se sentem ligados ao povo (à parte a retórica), não o conhecem e não sentem suas necessidades, suas aspirações e seus sentimentos difusos; mas são, em face do povo, algo destacado, solto no ar, ou seja, uma casta e não uma articulação (com funções orgânicas) do próprio povo. (CC, vol. 6, p. 43).
Ele ainda observa que os escritores mais populares não são italianos, mas estrangeiros, como: Zola, Balzac, Victor Hugo e Tolstoi. Contrário ao que aconteceu na Itália, a burguesia francesa soube criar uma literatura nacional- popular que chegou realmente até o povo. Porém, no seu país, a ausência desse tipo de literatura não permitiu uma reforma intelectual e moral. 91 No máximo, existia um regionalismo apresentando o povo como pitoresco e folclórico: “O que prejudicou os escritores italianos foi precisamente seu íntimo
91 Para Gramsci, o Renascimento italiano foi um movimento cultural essencialmente elitista. Diferente da
Reforma protestante, que envolveu todo o povo. A Igreja não contribuiu para promover qualquer reforma popular, pelo contrário, coibiu com a Contra-Reforma.
‘apoliticismo’”92. A falta de organicidade entre os intelectuais e o povo, fez com os italianos se identificassem muito mais com a literatura estrangeira e isso significava sofrer a hegemonia intelectual e moral de outros países. Portanto, não existia um bloco histórico nacional: os artistas formam uma casta sem organicidade com o povo.
Nas idéias do autor, o forte Catolicismo presente na sociedade italiana seria um dos motivos para essa desarticulação. Como a Igreja não se preocupa em educar o povo para uma reforma social, a religião é vista pelos fiéis como algo mítico e que um dia o bem vencerá sempre o mal. Daí, o interesse dos leitores italianos pelo folhetim que faz “sonhar com os olhos abertos.”
Um outro fator que o escritor aponta para a inexistência de uma literatura nacional-popular é que não existiam memorialistas e eram poucas os biografias e as autobiografias. Não havia preocupação com a vida vivida e estaria nisso a conseqüência da falsa de identidade cultural dos italianos, que continuam divididos pelo dialeto e com a aparente unidade política.
Porém, o que Gramsci propõe não é um populismo na literatura e que o autor deve escrever para agradar o público. Os textos de memórias são importantes por falarem dos sentimentos do eu narrado, além do conterem um possível significado estético aliado a um componente histórico. A conseqüência foi que o povo começou a relacionar escrever com atividade circense e fazer uma festa, isto é, fingir um estilo retumbante:
Com efeito, deveria sempre ser chamada de ‘industrial’ qualquer manifestação artística dirigida para satisfazer o gosto dos compradores individuais ricos, para ‘embelezar’ a vida deles, como se costuma dizer. Quando a arte, particularmente em suas formas coletivas, dirige-se para a criação de um gosto de massa, para a elevação deste gosto, não é ‘industrial’, mas desinteressada, ou seja, arte (CC, vol. 6, p. 251).
Assim, Gramsci é do parecer que o narrador-testemunha não está na ‘tribuna’ para exercitar um estilo excepcional, mas analisa até mesmo suas
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próprias convicções, como, por exemplo, quando Graciliano Ramos se compara aos outros: “Se todos os sujeitos perseguidos fizessem como eu, não teria havido revolução no mundo. Revolucionário chinfrim” (MC, vol. 1, p. 52); “Débil, submisso à regra, à censura e ao castigo, acomodara-me a profissões consideradas honestas. Sem essas fracas virtudes, livre do alfabeto, nascido noutra classe, talvez me houvesse rebelado como José93” (MC, vol. 2, p. 170). Ou ainda por não tirar proveito da situação de prisioneiro para se autopromover: “Diversos escritores começavam a interessar-se por mim; exagerando padecimentos, declarando-me vítima da iniqüidade, caíam num sentimentalismo propício a deformações. Talvez nunca me houvessem lido” (MC, vol. 1, p. 290). Nesses casos, há sempre a possibilidade do sensacionalismo e isso Graciliano também sabia, mas nunca se aproveitou dessas situações, nem mesmo quando escreve sobre os presos.
Em Memórias do cárcere, Gaúcho é o criminoso orgulhoso do ofício: “—
Vossa mercê usa panos mornos comigo, parece que tem receio de me ofender. Não precisa ter receio, não; diga tudo: eu sou ladrão” (...) “— Não senhor, nunca tive intenção de arranjar outro ofício, que não sei nada. Só sei roubar, muito mal sou um ladrão porco.” Ao saber da preparação de um livro, ansioso e feliz responde: “— Sei. Vossa mercê vai me botar num livro. — Quer que mude seu nome? — Mudar? Por quê? Eu queria que saísse o meu retrato. (MC, vol. 2, p. 87-88).94 Tanto Graciliano quanto Gramsci mostram-se contra a exploração da curiosidade popular, pois pretendiam organicidade entre os artistas e o povo.
93 Prisioneiro da Colônia Correcional. José teve uma infância difícil, rebelou-se das surras dos pais não
frequentando a escola, não procurando emprego para tornar-se ladrão.
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O livro Gomorra (2006) descreve as várias formas de atuação da Camorra (máfia napoletana), desde o tráfico de drogas, armas, o problema do lixo em toda a Campânia até a falsificação chinesa das grandes marcas italianas, e seu escoamento através do porto de Nápoles. O autor conta ainda sobre a vida dos Boss (chefes da máfia) e cita os principais nomes da Camorra. A princípio a idéia de um livro denunciando a Camorra foi recebida como uma ameaça ao crime organizado, o autor Roberto Saviano94 precisou ser escoltado, mas conta que depois todos (mafiosos, familiares de Boss, inclusive jornalistas) queriam aproveitar a situação e aparecer no livro. Alguns jovens até fingiam despachar pacotes de droga para serem “filmados”. Depois da publicação do livro, em várias entrevistas, Saviano disse ter recebido propostas de mafiosos para serem citados nos próximos livros do autor. Cf. SAVIANO, Roberto. Gomorra: viaggio nell´impero econômico e nel sogno della Camorra. Milano: A. Mondadori, 2006. p. 105.