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III. Where are we from Copenhagen and Beijing?

III.4 Examples of Engendering National Budgets

Viventes das Alagoas é outra obra póstuma composta predominantemente pelas crônicas publicadas na Revista Cultura e Política, do

Departamento de Imprensa e Propaganda da ditadura de Getúlio Vargas no período conhecido como Estado Novo. Parece incoerente que um homem que foi preso pelo governo ditador depois trabalhasse para esse mesmo governo. Porém, não se pode simplificar o fato dessa forma, pois o escritor precisava se manter — com a esposa e filhos, não era muito fácil viver apenas da literatura no Brasil, ainda mais sendo ex-preso político. Apesar disso, ele nunca levantou a bandeira do Estado Novo ou cantou loas à Era Vargas em seus textos. Em carta à esposa, escreve sobre isso:

Zélins acha excelente a nossa desorganização, que faz com que o sujeito esteja na Colônia hoje e fale com ministros amanhã; eu acho ruim a mencionada desorganização, que pode mandar para a Colônia o sujeito que falou com o ministro.145

Na verdade, o que se vê em Viventes das Alagoas é um escritor habituado a conviver com sua gente e conhecedor dos seus costumes. As crônicas tratam, dentre outros assuntos, do jogo do bicho, das festas populares, do repente, do cangaço e da educação arranjada no interior do país.

Para essa análise, destaco a crônica “Transação de Cigano”, cuja referência principal para o início da exposição do assunto é o conhecido ladrão na Colônia Correcional. Segundo a filosofia de Gaúcho, no mundo existem malandros e otários, e que na ordem natural da vida os malandros existem para lograr os otários. Daí, que o cronista compara a resignação do sertanejo em aceitar as diferenças de classes como fatalidade: “— Quem é do chão não se trepa. Quem nasceu para vintém não chega a tostão.” 146

Em seguida, o autor exemplifica a frase de Gaúcho para mostrar os tipos que facilmente ludibriam o matuto. Os ladrões de animais são a primeira categoria e que vendem longe o animal roubado.

Nas memórias da prisão, Gaúcho contou o fato do roubo de um paletó e que depois se encontrara justamente com o dono do casaco. O senhor lhe

145 RAMOS, Graciliano. Cartas. Op. cit., p. 178. 146

pergunta curioso onde havia comprado o paletó, pois haviam-lhe roubado objeto igual naqueles dias. Gaúcho mais uma vez dá uma lição de malandragem, dizendo que um sujeito que rouba deve expor longe o material adquirido.

Na crônica, essa lição de Gaúcho aparece para mostrar como os trapaceiros se perdem no grande sertão, sem que sejam apreendidos pela polícia. O sertanejo aprende a se defender sozinho desses tipos (o autor inclui nesses tipos os ciganos e os trocadores) para não ficar como otário. Mas a sua tirada final nessa crônica é com a história do cigano que troca um burro por uma égua com o senhor de engenho. Depois do negócio feito, na primeira passagem pelo riacho o animal perde todo o pelo, mostrando apenas sarna; em seguida, perde o rabo e por fim nem caminha mais. O chefe dos ciganos resolve voltar à fazenda para desfazer o negócio.

Vendo-os, o Coronel gritou do alpendre da casa-grande:

— Que é lá isso? Arrependimento? O que se fez está feito. Negócio é negócio. — Sem dúvida, ganjão, respondeu o cigano descobrindo-se, curvando-se em profunda reverência. Quem falou em arrependimento? Negócio é negócio. Eu resolvi largar esta vida. E venho entregar o bando a vossa senhoria.147

O embuste do fazendeiro serve para mostrar que o proprietário pode ser também o grande malandro na sociedade. O povo cria preconceitos em relação a determinados grupos sociais e, em contra-partida, venera a grandeza dos ricos, numa resignação fatalista. Daí, porque o cenário de discrepância é sempre maior, pois os detentores do poder são os gatunos mais espertos no final. Graciliano aproxima-se a Gramsci com sua questão meridional. Mudando apenas de país, a realidade é muito símile, pois no Mezzogiorno ainda prevalece a idéia de que a Itália funciona apenas de Roma para cima e que todos os corruptos estão apenas no Sul.

Nas crônicas sobre o cangaço: “O Fator Econômico no Cangaço”, “Lampião”, “Virgulino”, “Cabeças”, “Corisco”, “Dois cangaços” Graciliano fala do fenômeno típico do Nordeste. Esse tipo de banditismo surge justamente no

meio árido e agressivo, onde a necessidade de viver transforma o indivíduo: “A vida humana, exposta à seca, à fome, à cobra e a tropa volante, tem valor reduzido e por isso o júri absolve regularmente o assassino.”148 O cronista explica que os proprietários não podem castigar os cangaceiros porque eles são fortes e temidos, então é melhor estabelecer alianças.

Na evolução do cangaço, notamos, pois, três fases: a princípio mandavam os grandes, os condottieri que se entendiam bem com os proprietários e às vezes se punham a serviço deles; depois a massa anônima de capangada cresceu e livremente escolheu mandões entre os seus membros; afinal vemos indivíduos que vêm de cima rebaixarem-se, misturarem-se à multidão criminosa e dela emergirem de repente, dirigindo os companheiros, como Corisco.149

Nessas três fases, a rebeldia do cangaceiro é admirável por parte do autor, porque, assim, manifesta a insatisfação de modo concreto perante o flagelo da seca e a inoperância das autoridades em deixar o nordestino morrer à míngua. Mas esse desagrado não é somente em relação à seca do Nordeste, é em todas as esferas de domínio e submissão que sofremos. Ele mesmo se inclui nessa apatia do cidadão comum de não rebelar-se diante dos abusos. Na crônica “Lampião”, é muito claro seu pensamento nessa guerra de posição:

Como somos diferentes dele! Perdemos a coragem e perdemos a confiança que tínhamos em nós. Trememos diante dos professores, diante dos chefes e diante dos jornais; e se professores, chefes e jornais adoecem do fígado, não dormimos. Marcamos passo e depois ficamos em posição de sentido. Sabemos regularmente: temos o francês para os romances, umas palavras inglesas para o cinema, outras coisas emprestadas.

Apesar de tudo, muitas vezes sentimos vergonha da nossa decadência. Efetivamente valemos pouco.

O que nos consola é a idéia de que no interior existem bandidos como Lampião. Quando descobrirmos o Brasil, eles serão aproveitados.

E já agora nos trazem, em momentos de otimismo, a esperança de que não nos conservaremos sempre inúteis.

Afinal somos da mesma raça. Ou das mesmas raças.

É possível, pois, que haja em nós, escondidos, alguns vestígios da energia de Lampião. Talvez a energia esteja apenas adormecida, abafada pela verminose e pelos adjetivos idiotas que nos ensinaram na escola. 150

148 Ibidem, p. 129. 149 Ibidem, p. 132. 150

O cronista possui discurso apropriado para defender os pobres-diabos, visto que sua prisão o levou a dividir os dias com essa gente. Seu convite à rebeldia contra as injustiças no país serve para demonstrar que esse fenômeno social acontece no Nordeste, não porque ali o sertanejo é débil e fraco, mas porque não existe colheita regular, salário decente e a garantia de sobrevivência com dignidade, pelo menos.

Em “Dois cangaços”, Graciliano fala dos dois aspectos originários do cangaço: o social e o econômico, e diferencia também o movimento do início do século com aquele do momento. Os cangaceiros atuais eram oriundos das camadas mais pobres, enquanto que no início, eles uniam-se ao proprietário. A distância econômica entre o bandido e o proprietário fez com o primeiro caminhasse por conta própria, fazendo justiça com as próprias mãos para si e seu grupo. Surgiram, assim, os chefes, como Lampião. “Foi a miséria que engrossou as suas fileiras, a miséria causada pelo aumento de população numa terra pobre e cansada”.151 O aspecto social é que o aparecimento desses bandos criou verdadeiros heróis para os necessitados de vingança. “A verdade, porém, é que ele molesta, não apenas o adversário, mas o meio social em que este vive, as instituições que o amparam.”152 Sem apologia ao cangaço, pois mostra as atrocidades deixadas por ele no sertão, o autor sabe da origem do problema: rotina na agricultura, indústria precária, exploração do trabalhador rural, falta de administração dos recursos sociais que fazem da seca uma cadeia de engrenagem problemática no Brasil.

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