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II. Costs Of Ignoring Women’s Unpaid Work and Time use

II.1 Costs of Women’s Unpaid Work and Time use

Para Antonio Candido é uma “autobiografia em potencial”, e que “Luís da Silva é muito do que foi pisado em Graciliano Ramos”99. Para Roger Bastide, “transição entre período romanesco e o período autobiográfico”.100 Hermenegildo Bastos101 diz que se Angústia fosse posterior a Memórias do

cárcere se poderia afirmar que o autor estaria reaproveitando no romance o

material das experiências vividas.

Na realidade, Angústia foi escrito antes, mas publicado na época da prisão. Talvez muita revisão ainda deveria ser feita pelo autor, tendo em vista seu costume de retocar sempre os textos. Aliás, uma das suas grandes preocupações quando foi preso era como concluir o livro, e lhe faz referência tantas vezes nas Memórias:

Na casinha de Pajuçara fiquei até a madrugada consertando as últimas páginas do romance. Os consertos não me satisfaziam: indispensável copiar tudo, suprimir as repetições excessivas. Alguns capítulos não me pareciam muito ruins e isto fazia que os defeitos medonhos avultassem. O meu Luís da Silva era um falastrão, vivia a badalar à toa reminiscências da infância, vendo cordas em toda a parte. Aquele assassinato, realizado em vinte e sete dias de esforço, com razoável gasto de café e aguardente, dava-me impressão de falsidade. Realmente eu era um assassino bem chinfrim. O delírio final se atamancara numa noite, e fervilhava de redundâncias. Enfim não era possível

99

Ficção e confissão. ed. cit. p. 62.

100

BASTIDE, Roger. Graciliano Ramos. Teresa. Revista de Literatura Brasileira. Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. USP, nº 2, Editora 34, 2001, p. 136.

101 BASTOS, Hermenegildo. Memórias do cárcere: literatura e testemunho. Brasília: Editora UnB, 1998

, p.108.

canalizar esses derramamentos. O diabo era que no livro abundavam desconexões, talvez irremediáveis. Necessário ainda suar muito para minorar as falhas evidentes. (MC, vol. 1, p.42).

Descrente do romance, Graciliano fala no lançamento do romance assim:

Enfim o romance encrencado veio a lume, brochura feia de capa azul. A tiragem de dois milheiros rendia-me um conto e quatrocentos e esta ninharia ainda significara para mim grande vantagem. Minha mulher apareceu com alguns volumes. Guardei um e distribui o resto na enfermaria e na Sala da Capela, mas logo me arrependi desses oferecimentos. A leitura me revelou coisas medonhas: pontuação errada, lacunas, trocas horríveis de palavras. A dactilógrafa, o linotipista e o revisor tinham feito no livro sérios estragos. Onde eu escrevera opinião pública havia polícia; remorsos em vez de rumores. Um desastre. E nem me restava a esperança de corrigir a miséria noutra edição, pois aquilo não se reeditaria. Eu próprio dissera ao editor que ele não venderia cem. (MC, vol. 2, p. 243).

É constante o descontentamento do autor com os próprios textos, o que pode parecer uma justificativa pelo fato de não ter havido tempo de concluir o livro como gostaria. A presença do romance nas Memórias aparece talvez como uma tentativa de correção ou conclusão. Em “A figura da grade”, Marcos Falleiros aborda toda a obra de Graciliano Ramos, mostrando que o conflito entre o sujeito e o mundo está representado na figura da grade e que a linguagem já é o primeiro cárcere nesse autor. :

A linguagem é a grade entre o sujeito e mundo, desenhando com a mancha tipográfica de seus textos a seco um contorno de prisão e proteção, em cujo fundo escuro se encontra a autoria: ir ao dicionário é uma das formas de estancar a fluidez do discurso, que carrega, na embrulhada do contexto, gato por lebre, e a intenção a-histórica da gramática quer se sustentar na lógica de um logos primordial.102

No caso de Angústia, não é a experiência da prisão que invade o texto,

102

FALLEIROS, Marcos Falchero. A figura da grade. In: Teresa, revista de literatura brasileira, nº 3, Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, FFLCHA – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. São Paulo: Editora 34, 2002, p. 237-251.

mas o contrário, o próprio romance é recorrente nas memórias como forma de catarse. Preencher as lacunas que ficaram, expurgar os idéias e sentimentos que não foram bem ditos. Recuperar o romance nas lembranças da prisão foi também um meio de se livrar do fantasma da palavra perdida e a dúvida sobre a recepção da leitura. Os comentários da crítica eram limitados, não atingiam a profundidade do romance. Observando apenas a estrutura do romance, muitos ainda não percebiam a poesia contida nesse romance:

Arriscara-me a fixar a decadência da família rural, a ruína da burguesia, a imprensa corrupta, a malandragem política e atrevera-me a estudar a loucura e o crime. Ninguém tratava disso, referiam-se a um drama sentimental e besta em cidade pequena. (MC, vol. 2, p. 244).

Retorno ao pensamento Gramsciano para explorar essa questão. Nos

Cadernos, o escritor italiano faz uma leitura crítica do Canto X do “Inferno”, na Divina Comédia103. Nessa análise, o autor destaca a figura de Cavalcante e o seu drama de não poder conhecer a situação do filho Guido Cavalcanti. A crítica de Benedetto Croce problematizava a estrutura (— o que as almas podem saber e ver sobre o mundo dos vivos?). Refutando um dos pilares da teoria de Croce, que separava a estrutura da poesia, para Gramsci, esse canto mostra que o drama de Cavalcante é importante tanto do ponto de vista estético quanto do ponto de vista estrutural, porque, na realidade, a estrutura é também poesia. A pena de Cavalcante é de poder ver o passado e o futuro, mas não o presente, por isso pergunta pelo filho. Usando o verbo ‘’desdenhou’’

103 Dante ingressa no sexto círculo do inferno, conduzido por Virgílio, onde estão os condenados por

heresia, e em particular, os epicuristas. Dante demonstra interesse em conversar com seu conterrâneo Farinata, um líder gibelino, que, ouvindo o poeta falar em florentino, dirige-se a ele, sendo logo informado de que Dante, um guelfo branco, é seu adversário político. Durante esse diálogo, ergue-se de sua tumba incandescente outro florentino, Cavalcante, cujo filho, Guido, é um poeta ateu, amigo de Dante. Surpreso por não ver Guido ao lado de Dante, Cavalcante pergunta: “Meu filho onde está? Por que não está contigo?” E o poeta responde: “Não vim por vontade minha. Esse [Virgílio] que me espera é meu guia, a quem vosso filho Guido desdenhou.” Diante dessa resposta, Cavalcante retruca: “Por que disseste que meu filho ‘desdenhou’? Ele não vive mais? Não mais a doce luz solar ofusca seus olhos?” Tardando a resposta de Dante, Cavalcante caiu de costas e não mais apareceu. Farinata, enquanto isso, não muda o semblante, não abaixa a cabeça, não dobra a coluna. Informa a Dante sobre o exílio político do poeta e a condição dos condenados: eles vêem o passado e o futuro, mas não vêem o presente. Isso explica o sofrimento de Cavalcante. Cf. DANTE, Alighieri. La Divina Comedia. Milano: A. Mondadori, 1966. p. 40-43.

no passado, o pai subentende que o filho está morto. “Como Dante representa este drama? Ele o sugere ao leitor, não o representa; fornece ao leitor os elementos para que o drama seja reconstruído e estes elementos são dados pela estrutura.” (CC, vol. 6, p. 18).

Sobre esse assunto, Gramsci envia, através da cunhada Tatiana, carta ao Professor Cosmo, professor de Literatura da Universidade de Turim, em 21 de setembro de 1931:

É estranho que a hermenêutica dantesca, embora minuciosa e bizantina, jamais tenha notado que Cavalcante é o verdadeiro punido entre os epicuristas das tumbas incandescentes, aquele que é punido com uma punição imediata e pessoal. [...] A lei de talião aplicada a Cavalcante e Farinata é a seguinte: por terem querido ver o futuro, eles (teoricamente) são privados de conhecimento das coisas terrenas por um tempo determinado, ou seja, eles vivem, num cone de sombra de cujo centro vêem o passado, até um certo limite. Quando Dante se aproxima dos dois, a posição de Dante e de Farinata é a seguinte: eles vêem Guido vivo no passado, mas o vêem morto no futuro. Mas naquele momento, Guido está vivo ou morto? [...] O drama direto de Cavalcante é rapidíssimo, mas de enorme intensidade. [...] Na primeira parte do episódio, o ‘desdém de Guido’ torna-se o centro de todos os fabricantes de hipótese e de contribuições, enquanto na segunda parte, a previsão de Farinata sobre o exílio de Dante absorveu a atenção.104

Nessa carta, Gramsci buscava a opinião do professor para saber se sua análise tinha fundamento e se poderia desenvolver o assunto “para passar o tempo”. Apesar de ter seus estudos sobre a literatura ainda pouco explorados, essa análise minuciosa de Gramsci sobre o clássico italiano, mostra-nos sua superação até mesmo em relação à crítica da época. Observando num elemento aparentemente irrelevante da forma, Gramsci compreende que A

Divina Comédia era política não somente pelo conteúdo, mas também pela

estética. Sua análise literária é única e ampla, pois não dicotomiza a estrutura da poesia, mas vê que na arte estão sempre acopladas. Da mesma forma, mesmo quando criou Luís da Silva com suas obsessões e deu-lhe a memória para narrar, Graciliano foi sempre político. O novelo entrelaçado de presente, passado e sonho na mente do personagem é organizado também para isso.

O assassinato de Julião é a representação máxima do fim da burguesia. No trecho em que narra o crime, demonstra a efervescência dos sentimentos mais obscuros do homenzinho de vida regrada. Para o leitor fica a impressão de que a cena não concluirá nunca. O prolongamento desse clímax contém a queda da vítima, mas também a construção de um novo homem, que finalmente se rebela de forma mais concreta, numa expressão de violência, já tão banalizada atualmente:

O corpo de Julião Tavares ora tombava para frente, ora se inclinava pra trás e queria cair em cima de mim. A obsessão ia desaparecer. Tive um deslumbramento. O homenzinho da repartição e do jornal não era eu. Esta convicção afastou qualquer receio de perigo. Uma alegria enorme encheu-me. Pessoas que aparecessem ali seriam figurinhas insignificantes. Tinha-me enganado. Em trinta e cinco anos haviam-me convencido de que só me podia mexer pela vontade dos outros.105

Apesar de não se conformar com o mundo, o personagem de Angústia não tem coragem de travar um confronto direto com ele: “Quando avisto essa cambada, encolho-me, colo-me às paredes como um rato assustado. Como um rato exatamente” (p. 8). A figura do rato demonstra a sua impotência diante das hipocrisias e futilidades que detestava, às quais não consegue se opor de maneira concreta. É assim com a namorada que o trai, com o Julião Tavares que lhe toma a mulher desejada, e, até mesmo, com a empregada que lhe rouba, sem que ao menos consiga tomar uma atitude.

O prisioneiro também tem essa debilidade diante do mundo, sua habilidade estava ‘limitada’ a escrever. Poderia ocasionar mudanças no mundo através desse ato:

Realmente não me envolvera em nenhum barulho, limitara-me a conversas e escritas inofensivas, e imaginara fica nisso. A convicção de própria insuficiência nos leva a essas abstenções; um mínimo de honestidade nos afasta das empresas que não podemos realizar direito. Mas as circunstâncias nos agarram, nos impõem deveres terríveis. Sem nenhuma preparação, ali me achava a embrenhar-me em dificuldades, prometendo mentalmente seguir o caminho que me parecia razoável. (MC, vol.1, p. 84).

A fraqueza do encarcerado é acompanhada sempre da modéstia, entretanto as atitudes comedidas são sua força diante do desajuste do mundo.

O meu companheiro Mata ia muito além: confessava-me a sua ignorância em revolução (fora preso injustamente, não se cansava de afirmar isto), considerava-me um técnico neste assunto e pedia-me que o instruísse com rapidez. Se me acontecia alegar incompetência, achava-me discreto e modesto. (MC, vol.1, p. 81).

2 – A Terra dos meninos pelados (1937)

Após sair da prisão, com poucos recursos financeiros, Graciliano Ramos precisava escrever para jornais e conseguir sobreviver. O escritor e amigo, José Lins do Rego, sugere que participe do concurso de literatura infantil promovido pelo Ministério da Educação. Nesse contexto de preocupação, surge Raimundo Pelado. Em carta de 11 de abril de 1937, sempre desconfiado, escreveria à sua esposa, Heloísa de Medeiros Ramos:

Por falar em prêmio, o negócio do Ministério da Educação está sendo lido. [...] Certamente os meus meninos pelados se enterram. É bom. Você ficaria satisfeita se eles conseguissem o terceiro lugar. É melhor não terem coisa nenhuma. Um terceiro lugar seria um desastre. E não acredito que paguem estes prêmios. Convém não pensar nisso. (p. 197).

Obtendo o terceiro lugar no concurso, mostrava aos leitores um livro infantil que encanta inclusive os adultos. Nesse conto infantil, o menino Raimundo possui diferenças estéticas do padrão de beleza: é careca e tem um olho preto e outro azul. Por causa disso, é rejeitado por todos os seus conhecidos e ainda também suporta os apelidos dos amigos. “— Ó pelado! Tanto gritaram que ele se acostumou, achou o apelido certo, deu para assinar a carvão nas paredes: Dr. Pelado. Era de bom gênio e não se zangava. (p. 104)106. Sua defesa era fechar um olho de cada vez, como se quisesse fugir do mundo. O personagem do conto infantil é visto por Clara Ramos como “uma

106

RAMOS, Graciliano. A terra dos meninos pelados. In: Alexandre e outros heróis. 19ª. ed. São Paulo: Martins, 1980.

personalidade dupla em processo de adaptação”107, pois tanto a aparência do personagem central como as humilhações sofridas por ele remetem ao sofrimento do autor encarcerado, que teve a cabeça raspada na prisão.

Como não tinha com quem conversar, o menino fala sozinho e, numa dessas fugas de fechar o olho direito e depois o esquerdo, vai parar num lugar mágico chamado Tatipirun. No quintal de casa, onde o menino brinca à vontade, é que ascende o mundo diferente. Em Tatipirun até as ladeiras se abaixam para as pessoas passarem; não existem obstáculos nem violência todos os caminhos são seguros; para dormir, basta fechar um dos olhos e o outro fica aberto vendo tudo; a visão das coisas é sempre adiante; não existem casas e as pessoas dormem na rua; não há noite nem chuva; ninguém adoece, nem envelhece; os animais não mordem e os meninos não fazem brincadeira de bandido. Quando conversa com a aranha vermelha, a representante da indústria de tecidos, Raimundo percebe que até as roupas são formas de cadeias:

— Boa tarde, d. Aranha. Como vai a senhora?

— Assim, assim, respondeu a visitante. Perdoe a curiosidade. Por que é que você põe esses troços em cima do corpo?

— Que troços? A roupa? Pois eu havia de andar nu, d. Aranha? A senhora não está vendo que é impossível?

— Não é isso, filho de Deus. Esses arreios que você usa são medonhos. Tenho ali umas túnicas no galho onde moro. Muito bonitas. Escolha uma. — Raimundo chegou-se à árvore próxima e examinou desconfiado uns vestidos feitos daquele tecido que as aranhas vermelhas preparavam. Apalpou a fazenda, tentou rasgá-la, chegou-a ao rosto para ver se era transparente. Não era.

— Eu nem sei se poderei vestir isto, começou hesitando. Não acredito... — Que é que você não acredita? Perguntou a proprietária da alfaiataria.

— A senhora me desculpe, cochichou Raimundo. Não acredito que a gente possa vestir roupa de teia de aranha.

— Que teia de aranha! Rosnou o tronco. Isso é seda e da boa. Aceite o presente da moça.

— Então muito obrigado, gaguejou o pirralho. Vou experimentar.

— Escolheu uma túnica azul, escondeu-se no mato e, passados minutos, tornou a mostrar-se, vestido como os habitantes de Tatipirun. Descalçou-se e sentiu nos pés a frescura e a maciez da relva.108.(grifo meu).

107

RAMOS, Clara. Cadeia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1992, p. 164.

Trocando as roupas e sandálias apertadas por túnicas soltas e leves, Raimundo desfruta da liberdade de viver naturalmente. Ficar descalço era ser livre também de qualquer amarra social.109

Em carta à esposa, Giulia Schucht110, Gramsci também demonstra interesse pela educação dos filhos de um modo mais tranqüilo e sem tanta superproteção:

Uma das coisas que mais me interessaram na sua carta de 8/13 de agosto foi a notícia que Delio e Giuliano se empenham em pegar rãs. Há alguns dias vi citado num artigo de revista uma apreciação de lady Astor sobre o modo como na Rússia são tratados os meninos. [...] Ao que parece pelo artigo, a única crítica que lady Astor faz ao tratamento dado aos meninos é esta: que os russos mostram-se de tal modo preocupados em manter limpas as crianças, que nem sequer lhes dão tempo para se sujar.

Gramsci continua explicando o artigo da revista, em que o autor questiona: “Mas o que é que será desses meninos quando estiverem crescidos o suficiente para que se torne impossível obrigá-los a tomar banho?”. Acreditando ser importante na educação das crianças o contato direto e espontâneo com a natureza, Gramsci antecipa duas formas de violência: uma é de não deixá-los livres para depois obrigá-los à limpeza forçada:

Parece que ele pensa que uma vez tornada impossível a coerção, os meninos não farão mais que se espojar programaticamente na lama como reação individual-liberal ao autoritarismo de que são atualmente vítimas. De qualquer modo, parece-me que Delio e Giuliano têm alguma oportunidade de se sujar caçando rãs. Gostaria de saber se se trata ou não de rãs comestíveis, o que daria à sua atividade um caráter prático e utilitário não desprezível. 111

109 Philippe Ariès explica que na Idade Média não havia distinção entre os trajes dos adultos e das

crianças e que as roupas somente demonstravam a classe social das pessoas. A partir do século XVII é que surge a diferença no modo de se vestir, mas apenas para as crianças burguesas, pois as do povo continuariam a se vestir como adultos. Isso ocorreu pela mudança de visão sobre a infância. Na verdade, as crianças passaram a utilizar as roupas que caíram em desuso pelos adultos como forma de serem adornadas, ou seja, os infantes tornaram-se uma espécie de bibelô para o mundo adulto, mesmo que as vestimentas não fossem tão confortáveis e sufocassem os pequenos. (Cf. ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Guanabara, 1981); Walter Benjamin também comenta sobre essa questão, pois somente no séc. XIX haverá a emancipação dos infantes no vestir, sem que sejam tratados como adultos em miniaturas. (Cf. BENJAMIN, Walter. Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação. São Paulo: Duas Cidades, Ed.34, 2002. p. 86).

110 Gramsci teve dois filhos com Giulia Schucht: Delio (1924) e Giuliano (1926), o segundo ele não

chegou a conhecer.

111

Em Memórias do cárcere, o narrador também representa a prisão através da vestimenta:

Ignoro onde me escondi para mudar a roupa. Na véspera, dentro da escuridão leitosa, ter-me-ia podido arranjar facilmente. Fugindo às luzes do centro, buscando as margens obscuras onde fervilham sombras vivas, teria conseguido meio de arrancar do corpo os medonhos constrangimentos de lã, insuportáveis naquela temperatura. Com o dia, a vista habituando-se na indecisa claridade que vinha das aberturas superiores e laterais, todos os recantos se devassavam. Pouco a pouco me livrei das peças incômodas, tirei a gravata, o colarinho, o paletó, enquanto prosseguiam a conversa com Miguel Bezerra, iniciada a noite, interrompida muitas vezes. (MC, vol. 1, p. 139)

Até mesmo o processo de criação do texto é um momento de aprisionamento comparado ao vestuário. É preciso manter, elaborar e vestir as idéias para tecer o texto. Não deixar passar a idéia, não fazer escapar a palavra mais precisa naquele momento eram preocupações do escritor: “Sempre compusera lentamente: sucedia-me ficar diante da folha muitas horas, sem conseguir desvanecer a treva mental, buscando em vão agarrar algumas idéias, limpá-las, vesti-las;” (grifo meu), (MC, vol. 1, p. 97).

Por outro lado, o narrador despreza também a formalidade que a roupa pode representar. É notório muitas vezes o juízo aversivo às armas e ao militarismo arrogante. Quando é levado para o 20º Batalhão, critica a aparência impecável dos militares e a superficialidade dessa precisão com particular sarcasmo:

Eram possivelmente integralistas aqueles viventes miúdos, de rostos inexpressivos, quase microcéfalos. Esse caso me insinuou, a respeito da disciplina militar, uma opinião, talvez falsa, que ainda hoje conservo. Nela o rigor é superficial, imagino. Indispensável estarem os sapatos cuidadosamente engraxados, os fuzis brilhantes à custa de lixa e azeite, os colarinhos mais ou menos limpos, todos os botões metidos nas casas, os espinhaços tesos. As pernas direitas devem mover-se simultaneamente, depois as pernas esquerdas, e nenhum dedo se afasta dos outros na continência. É preciso olhar vinte passos em frente, e os passos, em conformidade com a marcha, têm o mesmo número de centímetros. Certo, há outros deveres, mas desse gênero, tendentes à mecanização do recruta. Decoradas certas fórmulas, aprendidos os movimentos indispensáveis, pode o soldado esquecer obrigações, até

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