As estratégias constituem um arcabouço fundamental para uma prática pedagógica que resulte num processo eficaz da aprendizagem, por isso não há como o professor passar despercebido às exigências necessárias ao ato de ensinar.
É a prática pedagógica acertada, balizada em estratégias que buscam oportunizar ao aluno a construção do conhecimento, direcionando-o pela trajetória de um processo, no qual elaborará seus saberes a partir de sua reestruturação psicocognitiva e social.
Masetto (1997) assinala que as estratégias são instrumentais utilizados pelo professor para facilitar a aprendizagem de seus alunos. Ao discutir a importância das estratégias como recursos, Masetto (1997) as organiza de acordo com a competência, habilidades, objetivos do professor, recursos, métodos ou técnicas para alcançá-las. Balizada pelo QUADRO 8, propõe-se uma categorização de acordo com o questionário respondido pelos docentes, em que foram identificados os tipos de aulas mais utilizados em suas práticas pedagógicas. Como também desejava saber a intensidade do aparecimento das diferentes estratégias utilizadas pelos docentes, decidiu-se quantificá-las, utilizando-se da frequência de percentuais obtidos.
QUADRO 8 - Categorização das estratégias de ensino utilizadas pelos docentes
Categorização das estratégias Estratégias utilizadas pelos docentes
Percentual Estratégias que propiciam o conhecimento
do grupo e a participação de todos os envolvidos
Brainstorming 3%
Estratégias que propiciam o desenvolvimento de atitudes Monitoria Debates Atividades em grupo 1% 5% 14%
Estratégias que propiciam adquirir conhecimentos
Aula expositiva Expositiva dialogada Expositiva com auxílio de
quadro e giz Expositiva com recursos
audiovisuais
4% 11% 13% 14%
Estratégias que propiciam o confronto com a realidade
Estudo do meio Fórum de discussão
1% 5%
Estratégias que propiciam desenvolver a capacidade de trabalhar em equipe
Jogos educativos 2%
Estratégias que propiciam o desenvolvimento habilidades
Experimentação Aulas práticas
5% 12%
Estratégias que propiciam a busca por informações
Elaboração de projetos Pesquisa
5% 8% Fonte: adaptado do quadro de estratégias elaborado por Masetto (1997, p. 97).
Entre os mais altos percentuais destacam-se, com 12%, as aulas práticas, cuja evidência está supostamente relacionada aos aspectos formativos da escola – a formação de
profissionais para o mercado de trabalho. As estratégias de aquisição de conhecimento concentram-se mais em aulas expositivas – o que pode indicar a preferência por um ensino mais tradicional. Destacam-se também, com 14%, as atividades em grupo. Portanto, aulas práticas, expositivas, atividades em grupo constituem, em elevado grau, as representatividades das estratégias das práticas docentes mais utilizadas.
Neste caso, pode-se inferir que elas possuem uma finalidade específica e intencionalidade que deverão estar vinculadas a objetivos definidos principalmente no projeto político pedagógico da escola.
As diferentes categorizações e estratégias não são definitivas, nem lineares, nem estanques, pois dependem de fatores variados, podendo em alguns momentos emergir uma ou outra ou até em alguns momentos coexistirem várias (MASETTO, 1997). Dito de outra forma, essas estratégias podem ser implantadas de acordo com o docente, a qualquer momento durante o ensino e aprendizagem, com vistas a facilitar a aprendizagem.
É importante ressaltar que não se deve ignorar o fato de que os alunos têm diferentes estilos para aprender – auditivo, visual, cinestésico, etc. – e a contemplação de estratégicas diversificadas de ensino contribui para a aprendizagem mais eficaz.
Nesse sentido, as estratégias utilizadas por alguns docentes demonstram interesse pela participação dos alunos, desenvolvimento de habilidades, atitudes e conhecimentos que propiciam a aquisição do saber. “Tenho comigo que minha prática pedagógica está e sempre estará alicerçada na tarefa de formar alunos críticos e responsáveis pelo seu próprio desenvolvimento pessoal. Minha prática pedagógica consiste na didática de ampla participação de todos os alunos” (P43 C). Apesar da postura assertiva desse professor, sabe-se que não basta a intenção, é preciso direcionar essa intencionalidade no sentido de definir ações, estratégias e alternativas que realizem esse estímulo. Ou seja, não basta ficar em nível do discurso pedagógico.
De acordo com o PPI, um dos elementos caracterizadores da prática pedagógica é a metodologia de projetos. Nesse caso, a prática pedagógica deverá ser repensada na escola profissional, pois o percentual obtido é baixo (6%).
Práticas pedagógicas que facilitem a interação do conhecimento do aluno com o conhecimento científico criando oportunidades para que o aluno desenvolva a criatividade e o espírito inventivo são eixos norteadores que contribuem para a aprendizagem discente, tendo em vista o melhor desempenho no futuro mercado de trabalho.
Da mesma forma, a escola poderá criar estratégias que viabilizem o aprimoramento da prática pedagógica por meio de ações que permitam a troca de experiências entre os
professores, o planejamento coletivo, a criação de grupos de aprendizagem intraescolar e a busca constante por um contexto escolar que faça sentido para o aluno.
As estratégias que propiciam adquirir conhecimentos obtiveram elevado índice de citações, tais como: aula expositiva; expositiva dialogada; expositiva com auxílio de quadro e giz; expositiva com recursos audiovisuais. Nesse caso, os tipos de estratégias denotam mais uma vez um ensino centrado na figura do professor, dificultando o aluno a construir suas próprias aprendizagens. Detecta-se, ainda, que há pouco ou nenhuma estratégia centrada na construção de competências e habilidades do aluno.
Os dados parecem indicar que, entre as estratégias didáticas mais utilizadas, não se percebe a orientação dos alunos no sentido de relatar suas experiências e conhecimentos prévios como forma de fomentar as discussões. Promover a aprendizagem significativa é essencial no processo de ensinar e aprender, em que os alunos podem expressar livremente suas ideias, conhecimentos e vivências, facilitando a interação na construção do conhecimento.
As evocações elaboradas pelos professores pesquisados sobre o que seria sua prática pedagógica parece identificar um discurso centrado no “eu”. Assim sendo, esta análise indica que ainda é preciso investir na aprendizagem do aluno do ponto de vista desse aluno como centro da aprendizagem. Apesar do discurso reconhecer que é fundamental que o professor proporcione ambiente interativo, interdisciplinar, que relacione teoria e prática, que oportunize a participação do aluno e que ofereça bons modelos, etc., ainda assim percebe-se que o professor se comporta como se o cerne da aprendizagem estivesse centrado na sua figura
As estratégias de ensino-aprendizagem não demonstraram a preocupação de averiguar o que o aluno aprendeu e não aprendeu. Para esses professores não está claro que a aprendizagem precede o desenvolvimento, pois as estratégias usadas por eles ainda se reportam a uma forma tradicional de perceber o processo de ensino-aprendizagem.
A importância de se colocar o aluno como protagonista no processo de aprendizagem ainda está longe da realidade exposta pela pesquisa.
O meu sentimento é de que há uma defasagem entre o currículo ideal e o currículo real, o prescrito e o realizado. Como o tempo escolar é cronometrado em horas-aula, a disciplina fragmentada em conteúdos estanques, muitas vezes o aluno não vê sentido naquilo que é ensinado para ele. Então, é um trabalho constante de procurar contextualizar o conteúdo. Ficamos sempre com o sentimento de que o tempo é muito curto para ensinarmos tudo o que queríamos. Nós, professores, temos
que lidar com as prescrições curriculares, com o que é cobrado dos alunos nas avaliações oficiais, como o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), e nos vestibulares. Então, temos que estar atentos para não colocar a importância da aprendizagem só nos estudos posteriores, mas sim procurar dar significado àquilo que a gente ensina. Temos que dar conta de cumprir as datas dos calendários; temos que ser guardiões da cultura do passado, conhecer o presente, nos atualizando constantemente na nossa área e sobre o mundo e ajudar os alunos a vislumbrar o futuro. Não é uma tarefa das mais fáceis! (P03 E).
Em outra resposta o professor afirma:
Acredito que a relação professor-aluno é significativa na aprendizagem. No entanto, me preocupa o acúmulo do trabalho do professor nos dias de hoje. O que acontece é que o professor não dedica tempo para preparar aulas e acaba improvisando, comprometendo a qualidade do ensino (P36 C).
Nas falas citadas ficam perceptíveis os enfrentamentos de conflitos pelo professor na sua prática pedagógica. Entretanto, entende-se que somente a formação continuada, planejamento coerente com o contexto escolar e social do aluno, bem como o domínio de aspectos teóricos e práticos ligados à aprendizagem, possibilitem as transformações aspiradas por esses docentes.