Sendo assim, o momento da organização das entrevistas, deu-se na escolha de alguns tópicos para nortear o trabalho, sendo que em cada um deles o pesquisador descreve um breve comentário para salientar qual era seu objetivo inicial com estes tópicos24. A seguir, apresento cada um deles.
3.4.1. Como aprendeu língua de sinais?
Entendo que a forma como aconteceu a aquisição da LS é uma das questões chaves na área da interpretação. Para ser intérprete de qualquer língua, seja ela oral ou sinalizada, há necessidade de adquirir as línguas. Isso não se discute, pois há maneiras diferenciadas de tornar-se um intérprete. Alguns buscam aprender a língua e todos seus desdobramentos (estudos da tradução, estudos gramaticais, estudos da interpretação) nas universidades. Alemão, Inglês, Francês, entre tantas outras línguas, seriam alguns dos exemplos que oferecem essas possibilidades nas diversas universidades brasileiras. Mas os ILS como adquirem a língua? Conforme mencionado no capítulo anterior, no Brasil ainda não existem cursos de formação universitária para os ILS.
3.4.2.Que traços servem como marcadores culturais para as identidades dos ILS?
O grupo de ILS vem desenvolvendo, nos últimos anos, discussões que compõem parte da política cultural que as pessoas surdas têm traçado, em especial solicitando formação e qualificação dos trabalhos. No entanto, essas discussões ganharam pouca visibilidade nacional, porque a carência de materiais científicos e o interesse do governo, há pouco atrás, não era o de qualificar o ILS. Um exemplo dessa afirmação é a falta de registros sobre a história de como os ILS se constituíram. Alguns desses marcadores culturais serão apontados no próximo capítulo, como parte das identidades desses profissionais.
3.4.3. Como aconteceu o processo de formação dos ILS?
É fundamental entender os lugares onde os ILS se posicionam. O processo de formação é recente em grande parte do Brasil, pois a exigência nos últimos anos em relação à presença dos surdos nos mais diversos espaços tem provocado a reflexão sobre a formação necessária para esse profissional. Palestras, oficinas, encontros, reuniões entre grupos, organização de associações de intérpretes, seminários são possibilidades de formação desse grupo.
3.4.4. Em que espaço está atuando como ILS?
Esse tópico tem objetivo de trazer a reflexão sobre os espaços de atuação dos ILS. Os apontamentos (dos conhecimentos teóricos, culturais e técnico-práticos) sinalizaram narrativas que remeteram aos desafios enfrentados pelo grupo de intérpretes. Os discursos entrelaçaram-se em determinados momentos, porque os ILS têm experiências comuns.
A partir dessa contextualização, falarei sobre os lugares em que as entrevistas foram realizadas. Os lugares escolhidos para a realização das gravações e filmagens ficaram à escolha de cada participante, a fim de que os mesmos tivessem identificação pessoal e/ou profissional do espaço escolhido. A decisão em escolher os nomes fictícios para compor os discursos narrativos dessa dissertação também ficou sob a responsabilidade dos participantes ILS. Em relação aos aspectos formais da entrevista, para maiores esclarecimentos, consta em anexo o termo de consentimento.
Apresentarei os participantes que deram significado à dissertação, por terem aceito participar expondo mais do que falas, mais do que diálogos, expondo suas vidas, suas identidades, suas subjetividades que sem dúvida são alguns dos primeiros discursos narrativos que entram em cena na história dos ILS. São eles: Barriga Verde,Contestado, Chimango e Chimarrão. A escolha desses pseudônimos para todo esse trabalho aconteceu de acordo com personagens históricos e costumes significativos para cada estado. Por exemplo, Chimarrão é um traço cultural para o estado do Rio Grande do Sul bem como Chimango que é parte da história de um grupo relacionado a lutas políticas daquele estado. Barriga Verde e Contestado, da mesma forma são figuras centrais para o estado de Santa Catarina, co-relacionadas à Guerra do Contestado. Os demais personagens envolvidos na dissertação seguem esse mesmo modelo de “dar vida” a essas pessoas que trazem suas identidades regionais visivelmente localizadas em suas narrativas.
As palavras, as narrativas se entrecruzam e se distanciam nas entrevistas. A entrevista envolvendo a idéia de fragmentação enquanto narrativa carrega consigo duas tendências, como explica ARFUCH (1995:93): “la primera tiene una connotació arqueológica, no solo respecto de algo perdido, sino también de lo que puede reconstruirse a partir de ello: el fragmento como índice. La segunda evoca la citación, el entrecomillado, la transposición de una palabra a otra”.
Para ARFUCH (1995, 2002), a entrevista carrega pontos de vista importantes de serem abordados e questionados. Essa autora enfatiza o quanto à atualidade tem sido assinalada pelas marcas subjetivas da contemporaneidade constituídas pelo espaço biográfico, que abarca em seu seio: biografias, autobiografias, diários íntimos, testemunhos, histórias de vida, entrevistas. Todos esses apontamentos nos servem como exemplo para entender a entrevista enquanto um gênero narrativo, capaz de nos mostrar os dois lados que compõem a mesma.
Assim ARFUCH (1995) aponta a entrevista sob dois ângulos importantes a serem entendidos. Mostra-nos, por um lado, a tentativa que enfoca a reconstrução das vivências experimentadas pelo narrador, sendo que essa poderá ser a reconstrução da própria vida. Nesse caso, trabalha com a idéia de flexibilidade, pois a reconstrução da vida não significa ser recomposta no seu todo. Por outro lado, a autora nos mostra que esse resgate histórico pode ser enunciado através de diálogos, gestos, palavras, olhares que são partes e se entrecruzam ao longo da entrevista.
O sujeito contemporâneo ocupa lugar nas muitas histórias e narrativas enunciadas na atualidade. Assim, ARFUCH (1995: 96) alerta para a presença do interesse em colocar essa pessoa e sua subjetividade nos tempos atuais: “El lugar destacado que ocupan los relatos biográficos em el horizonte massmediatico delinea um espacio de identificación respecto de la macro-narratividad en que está immerso, anonimamente, el sujeto contemporâneo”.
É esse diálogo, com os espaços que as entrevistas ocupam, com os participantes que enunciaram suas narrativas e escritos teóricos, que me permite compor essa dissertação em que desejo desenhar as interpretações das análises com foco nos seguintes aspectos: a questão do assistencialismo, do voluntário e da religião como marcos iniciais da atuação dos ILS; sobre a formação dos ILS e a profissionalização dos mesmos no contexto atual e, por fim, pensando nas múltiplas identidades que compõem esses profissionais.
CAPÍTULO 4