Problématique II Tutorat collectif
Section 3 Interprétation des données
Sobre as Duas Alm as foi escrito entre 391 e 392, logo nos
prim eiros anos de seu presbiterado em Cartago180. O tratado antim aniqueu, apesar de pouco conhecido, tem sido recentem ente citado por estudiosos tanto do m aniqueísm o quanto em pesquisas agostinianas. Os prim eiros estarão m ais interessados na reconstrução do m aniqueísm o, que, quanto ao presente dogm a, tem em Agost inho ainda sua principal fonte. Para esses estudiosos, dos quais citam os François Decret, J. Ries, H.- C. Puech, G. Quispel, Hans Jonas e outros, é am pla e polêm ica a quest ão de se saber se realm ente houve um a doutrina das duas alm as t al com o Agostinho a descreve neste tratado, vist o que se carece de fontes docum ent ais que a com provem181. Dentre os estudos agostinianos, citam os publicações recentes de Wetzel e Babcock182, que buscarão nesse livro um
180 cf. ret r I 14 . Agost inho nos inform a que a obra foi escrit a quando era
presbít ero, port ant o post erior a prim avera de 391 e ant erior aos últim os m eses de 395, quando j á era bispo. Mais precisam ent e, pode- se pensar que seu t érm ino se deu em 392, m eses ant es do debat e cont ra Fort unat o e depois da produção da Ut ilidade da Crença ( Ut ilit at e Credendi) . Assim , o t rat ado deverá t er sido escrit o precisam ent e ent re o verão de 391 e o verão de 392. Consult ar t am bém as int roduções ao livro e aos escrit os ant i- m aniqueus em geral : Jolivet , in Bibliot heque Augustinienne v.17; e Roland Teske in The Manichean Debat e, New Cit y Press. New York, 1990;
181 Para um a discussão recent e ent re as provas t ext uais hist óricas da exist ência do
dogm a das duas alm as na ant iguidade t ardia, consult e- se R. Ferwerda, Two Souls. Origen's and August ine's At t it ude t oward t he Two Souls Doct rine. I t s Place in Greek and Christ ian Philosophy Vigiliae Christianae Vol. 37, No. 4 ( Dec., 1983) , pp. 360- 378; Ferwerda apoia- se em rica docum ent ação de ant igos t ext os para defender a exist ência do dogm a t al com o Agost inho o descreve. Opõe- se a t ese de Decret , François. Aspect s Du Manichéism e Dans L'Afrique Rom aine: Les Cont roverses De Fort unat us, Faust us, Et Felix Avec Saint August in. Paris: Ét udes august iniennes, 1970.
182 Cf. Wet zel, Jam es. August ine and t he Lim it s of Virt ue. Cam bridge [ England] ;
New York, NY, USA: Cam bridge Universit y Press, 1992. e Babcock, William . Review. I m ages of Conversion in Augustine's Confessions by Robert J. O'Connell . Church Hist ory, Vol. 67, No. 1 ( Mar., 1998) , pp. 124- 126. Babcock enfat iza o debat e cont ra os m aniqueus ocorrido em 391 com o prim eiro indício de inflexão da noção de vont ade no cont ext o do hábit o: “ developm ent s in Augustine's t hinking about t he will's bondage t o habit ( consuet udo) , and t herefore about t he working of God's
prim eiro indício de t ransição entre um a prim eira fase, m ais otim ista e voluntarista quanto à potência ética do hom em , e um a segunda, baseada no reconhecim ento da lim itação m oral ( cham am de pecado
involuntário183, progredindo para a doutrina do pecado original) j á
consolidada nas Confissões. Na verdade, am bos partem da obra de Alflatt184 ( 1974) que explora a “ culpabilidade do que não é voluntário”185, principalm ente nas obras agostinianas entre 391 e 393. Alflatt, no ent anto, cit a Sobre as Duas Alm as em fase anterior ao que denom ina “ pecado involuntário” , perante o qual Wetzel e Babcok divergem , pois percebem no tratado de 391 o prim eiro indício de um a insuficiência da vontade.
Esses parecem concordar com o testem unho de Peter Brown ( 1967) :
Agostinho passaria vorazm ente de um problem a ao outro: o que talvez houvesse com eçado com o a perigosa desilusão de um perfeccionista em ergiu, nas
Confissões, com o um a nova visão do hom em , um a
reavaliação de suas potencialidades, um a descoberta em polgante e profunda das verdadeiras fontes de suas m otivações ( ...) . Podem os ver essa consciência im pondo- se a ele quando padre, especialm ente nos
grace, t hat began in his works On Two Souls ( 391) and Against Fort unat us ( 392) and t hat represent anot her sharp break bet ween his outlook at Cassiciacum and his outlook in t he Confessions.” . grifo nosso. Nossa dissert ação deverá dem onst rar esse “ sharp break” . Não farem os, cont udo, um a análise t ransversal das obras no período que com preende Cassicíaco ao presbit erado de Cart ago; ant es, prent edem os esclarecer com o as principais linhas de força que est ão por t rás dos conceit os são gradat ivam ent e elaboradas para enfrent ar problem as em ergidos do com bat e cont ra a gnose.
183 Wet zel, op. cit ., p. 97 "The connect ion bet ween Adam 's volunt ary sin and t he
involunt ary sins of his descedant s is adm it t edly m yst erious, and it is difficult t o underst and how t he not ion of volunt ary sin gains any fut her clarit y by virt ue of its ret rict ion t o an original agent e." ( grifo nosso) .
184 cf. Alflat t , Malcom . The Developm ent of t he I dea of I nvolunt ary Sin in St .
August ine. Ét udes August iniennes, 1974. Tam bém : Alflat t , Malcom . Responsibilit y for I nvolunt ary Sin in Saint Augustine. I n: Recherches August iniennes. vol. 10 1975
textos que escreveu contras os m aniqueístas, entre 392 e 394186.
De fato, a questão da inflexão cristã em Agost inho rem onta para bem antes de Brown ou Courcelle. Em 1897, conform e aponta F. Lossl187, L. Loofs j á indicava 391 com o o ano em que se inicia gradativa inserção de elem entos cristãos no pensam ento do hiponense, rem odelando sua “ conversão” platônica inaugurada pelo encontro com quosdam libros platonicorum em 386. Opinião que não dem orou para ser refutada j á em 1908, quando Thim e discordaria severam ente: “ Augustine's conversion to Christianit y was still far from being com plet ed [ in 391] ”188.
Não se trata de reviver tão antiga polêm ica dos estudos agostinianos, m as sim de localizar o tratado, Sobre as Duas Alm as, j ustam ente nesses textos escritos contra os m aniqueus em 391- 392, a fim de cham ar a atenção para a necessidade de se m anej ar argutam ente o instrum ental filosófico de sua tradição.
A nós, diante da lim itação de extensão da nossa dissertação, interessa m enos a evolução no quadro geral do pensam ento de Agostinho do que at entar, conform e anunciam os, para a im bricação da dupla orientação do pecado: eticidade e tragicidade. Em plano m ais geral, trata- se da difícil discussão filosófica acerca da relação entre im anência e transcendência no interior da filosofia agostiniana, que insiste no caráter racional do
186 Brown, Pet er. Sant o Agost inho: um a biografia. Edit ora Record. Rio de Janeiro,
2008. p. 182; .
187 cf. F.LOOFS, art August inus, Realenzyklopaedie für prot est ant is che Theologieund Kirche I I , Leipzig 1897, 257 ff ; apud LOSSL, Josef. The One ( unum ) – A guiding concept in De vera religione. I n : Revue d’Et udes August inienne,40, 1944, p. 81
188 W.THI MME, August ins geist ige Ent wicklung in den erst en Jahren nach seiner
hom em , ao m esm o tem po em que se vê necessariam ente com prom etida com a alteridade do divino face à finitude hum ana.
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Talvez, a form a m ais sucinta de introduzir a particular doutrina m aniqueia sobre as duas alm as sej a evocar o próprio texto de Agostinho, o A Verdadeira Religião ( 390) , escrito aproxim adam ente um ano antes que Sobre as Duas Alm as, quando o autor esboçara o princípio m aniqueu das duas alm as, prom etendo m aior desenvolvim ento no futuro, o que realm ente se deu:
9.16. Creio, com a aj uda de Deus, que este texto, precedido pela piedade, possa servir aos bons leitores contra não som ente um erro, m as contra todos os erros e opiniões falsas. Mas o texto é dirigido principalm ente contra aqueles que julgam exist ir duas nat urezas ou
subst âncias de princípios dist intos, que lutam um a
contra outra. Pelo fat o de algum as coisas ofenderem , e outras deleitar querem eles que Deus seja o autor não do que os aborrece, m as som ente do que lhes agrada.
E, com o não podem vencer seu hábito, prisioneiro dos laços carnais, est im am que em um corpo existam duas
alm as: um a de Deus, que por natureza seria com o ele;
outra, da raça das trevas, a qual não seria criada por Deus, que não a fez, não a produziu e não a descartou. Essa alm a, porém , teria sua própria vida, sua terra, suas produções e anim ais. Enfim , possuiria seu reino e um princípio não- criado. Em algum m om ento, ela teria se rebelado contra Deus, que não tendo o que fazer e nem encontrando algum a m aneira de resist ir a essa hostilidade, sendo levado pela necessidade, teria enviado aqui um a alm a boa e algum a partícula de sua própria substância que por am álgam a e m istura – segundo deliram – t eria suavizado a força hostil e fabricado o m undo.
( 9.17) Por enquanto, não refutem os essas teorias, que em parte j á fizem os; façam os a refutação do restante à m edida em que Deus nos perm it ir189
Agostinho está preocupado em com bater as falácias ( falsas opiniones) em geral, m as dedica especial atenção aos m aniqueus, cuj o dogm a descreve com o “ o com bate de substâncias de princípios contrários” . Dado que dessas duas substâncias, um a causa ofensa, a outra, prazer, e sendo Deus autor apenas da substância prazerosa, resulta que a outra substância não é criada por ele, m as está m isturada na sua criação desde o ataque das trevas. O m undo é fruto dessa m istura190, um a origem trágica em que Deus foi obrigado a ceder sua própria substância ao dom ínio das trevas.
189 de vera relig. 9,16.Credo aut em affut urum Deum , ut ist a script ura, praecedent e
piet at e, legent ibus bonis, non adversus unam aliquam , sed adversus om nes pravas et falsas opiniones possit valere. Cont ra eos t am en pot issim um est inst itut a, qui duas nat uras vel subst antias singulis principiis adversus invicem rebelles esse arbit rant ur. Offensi enim quibusdam rebus, et rursus quibusdam delect at i, non earum quibus offendunt ur, sed earum quibus delect ant ur, volunt esse auct orem Deum . Et cum consuet udinem suam vincere nequeunt , iam carnalibus laqueis irret it am , duas anim as esse in uno corpore exist im ant: unam de Deo, quae nat uralit er hoc sit quod ipse; alt eram de gent e t enebrarum , quam Deus nec genuerit , nec fecerit , nec prot ulerit , nec abiecerit ; sed quae suam vit am , suam t erram , suos fet us et anim alia, suum post rem o regnum habuerit , ingenitum que principium ; sed quodam t em pore adversus Deum rebellasse, Deum aut em qui aliud quod faceret non haberet , et quom odo alit er posset host i resist ere non inveniret , necessit at e oppressum m isisse huc anim am bonam , et quam dam part iculam suae subst ant iae, cuius com m ixtione at que m iscela host em t em perat um esse som niant, et m undum fabricat um . 9 .17.Neque nunc opiniones eorum refellim us, quod part im iam fecim us, part im quant um Deus siverit faciem us
grifo nosso.
190 Puech I n Hist oire des Religion I I , p. 554 “ O m aniqueísm o, no ent ant o, se
t om ado com o oposição levada ao ext rem o, enrij ecendo essa oposição naqueles dois princípios radicalm ent e distint os, o Bem por um lado e o Mal pelo out ro, o fará em diferent e operação ou int erpret ação: para ele ( Mani) , o responsável da queda, da cat ást rofe que est á na origem do m undo m at erial e conseguint e infelicidade que subm et eu a hum anidade, é j ust am ent e o “ Príncipe das Trevas” , m as a organização dest e m undo onde se m ist uram os elem ent os bons e elem ent os m aus, o carát er provisório que ela represent a é a obra de ent idades em anadas do Deus suprem o” .- ( Le m anichéism e, t out efois, s’il pousse l’opposit ion à l’ext rêm e, en la durcissant en celle de deux principes radicalm ent distinct s, l’un du Bien et l’aut re du Mal, l’exploit era ou l’int erpret ra différem m ent : pou lui, le responsable de la chut e, de la cast rat ofe qui est à l’origine du m onde m at ériel et de la suit e de m alheurs qu’y subit l’hum anit é, est bien le « Prince des Ténèbres », m ais l’organizat ion de ce m onde où se m êlent élém ent s bons et élém ent s m auvais, les pis- aller qu’elle représent e, est l’ouvre d’ent it és ém anées du Dieu suprêm e) .
O dogm a das duas alm as, anunciado na segunda parte de nossa divisão do parágrafo, é um caso particular da teoria geral das duas substâncias contrárias. Segue coerentem ente a m esm a dicotom ia substancial do m undo, um dualism o m icrocósm ico191 que pretende explicar os m óbiles hum anos, pois o hábito carnal que escraviza os m aniqueus é a causa deles terem “ estim ados que em um corpo existam duas alm as.”
Vale, sobretudo, m arcar que as linhas gerais do gnosticism o estão postas com nit idez. As duas forças absolutas e et ernas, um a natureza m á cham ada de Raça das Trevas, e outra boa, o próprio Deus, estão presentes no hom em com o partículas m ateriais da m esm a natureza de suas fontes criadoras distintas entre si. Adão e Eva são frutos dessa gênese cósm ica causada pelo Princípio das Trevas, filhos de entes dem oníacos, criados para im pedir o retorno das partículas de luzes à sua origem . Desse ponto, refere J. Kevin Coyle192, em acordo com Puech193, que o Deus da bondade passa a organizar o m undo para salvá- lo desta m istura cósm ica. Constrói- se um m ecanism o celestial em que a lua, o sol, e os planetas do zodíaco funcionariam com o um tipo de arm azém de partículas lum inosas libertadas na terra a partir de rituais litúrgicos de seus adeptos.
191 As duas alm as seriam um m icrocosm o, cópia em m enor escala de t oda
cosm ologia m aniquéia. cf. De nat ura boni, 46
192 J. Kevin Coyle, Saint August ine´ s Manichaean Legacy. Universit é Saint Paul,
Ot awa, Canada. 2002. August ine Lect ure. August inian St udies 34: 1 ( 2003) p. 1- 22. “ To free t he light from t he m at t er wit h which it was now ent angled, t he God of goodness const ruct ed a celest ial m echanism , including t he m oon, t he sun, and t he planet s t hat m ake up t he zodiac. These were t o serve as collect or st at ions for t he light event ually freed; t hey in t urn would pass t hat light back t o it s t rue hom e. To forest all t his, t he evil principle caused a m ale and fem ale dem on t o m at e, and t heir union produced Adam and Eve. They were t he world in m iniat ure, since t hey cont ained in t hem selves bot h light ( soul) and m at t er ( body) . The first hum ans, t herefore, were not a creat ion of God, but t he consequence of an evil initiative, t heir sole purpose being t o keep as m uch light ent rapped in t he visible world as possible, chiefly by generat ing offspring.”
Som ente o divino conhecim ento, gnosis revelado aos eleit os, poderia desprender as partículas de luzes aprisionadas nos corpos.
I I ,1 ,1 UM TRATAD O EN TRE A M I SÉRI A H UM AN A E A