Revision unit 1-5
Lesson 3 International festivals
Em Portugal a viagem desde cedo esteve presente como uma prática ligada ao domínio do religioso, desde logo com as viagens de peregrinação que conheceram bastante adesão durante a Idade Média. Porém, a prática da viagem em Portugal foi
grandemente marcada com o início da Época dos Descobrimentos, imprimindo para sempre uma forte presença do motivo da viagem na cultura e arte nacionais.
Na verdade, as já referidas viagens motivadas por questões religiosas anteciparam de algum modo o que viria a ser o grande início da mobilidade na Europa aquando da época dos Descobrimentos. Com esta primeira fase de expansão na prática da viagem também surgiu uma primeira fase de expansão na prática da escrita decorrente de viagens.
Deste modo, em Portugal, um dos países propulsores da era dos Descobrimentos, não se hesitou em começar a registar por escrito todas as novas experiências de encontro e contacto com outros espaços e culturas, descrevendo pormenorizadamente aquilo que lhes era estranho. Surge uma necessidade crescente em apontar e descrever os novos e diferentes espaços geográficos e humanos, de forma a partilhar o novo conhecimento adquirido com os demais. Sendo assim, a viagem é inicialmente motivada pela curiosidade em descobrir o diferente, o que ainda estava por descobrir pelos europeus e por isto mesmo “O êxtase e o deslumbramento dos navegadores perante o achamento das novas terras dominam esses primeiros documentos, que constituem, por assim dizer, os textos fundadores da Literatura de Viagens em Portugal” (idem, p. 140).
Durante os séculos XVI e XVII há uma vasta produção de literatura de viagens, e, posteriormente, com o impulso da imprensa periódica, surge o propósito de elaboração de coletâneas de viagens. Como afirma Cabete, “A produção de colectâneas de viagens por parte dos editores, que resultam de uma manipulação de relatos originais, possibilitou a passagem desses relatos do plano da historiografia e da antropologia para o campo da literatura (idem, p. 156). Este alargado interesse na elaboração de coletâneas influenciou fortemente o estilo da produção literária de textos de viagens da época, pois a sua escrita inicial era muitas vezes alterada de forma a adaptar “os materiais em função de uma vontade criadora bem precisa e que se sustenta num esquema mental e estético próprios” (ibidem).
No entanto, embora Portugal fosse na época um dos países com um raio de exploração maior, este não foi um dos maiores produtores destas mesmas coletâneas, não acompanhando o mesmo ritmo de produção a que se assistia à época nas grandes potências da Europa como a Inglaterra, a França ou a Holanda. Portugal funcionava antes
como um “«banco de dados» a que o exterior recorreu, para receber informações relativamente aos novos povos e locais contactados, não se coligindo colecções de viagens no século XVI” (idem, p. 157). Mais ainda, historicamente aquilo que nesta altura se apresentava ao resto da Europa como novidade era já para Portugal informação antiga, não despertando, deste modo, o mesmo nível de interesse no público português como acontecia com o restante público estrangeiro.
Em Portugal, a produção de literatura de viagens apenas começou a verificar-se com maior relevância enquanto tal a partir de meados do século XIX. Assim como no resto da Europa, também em Portugal a viagem começa a ser praticada como um ato cultural de lazer e grandemente a partir da segunda metade do século XIX, impulsionando em larga medida a produção de textos viáticos já vistos no quadro de um fazer literário. O aumento da prática de uma viagem turística, as várias reformas na educação que se dão no século XVIII e que continuam no século XIX, o crescente impacto do periodismo e os novos caminhos de ferro “que encurtavam distâncias e traziam as novidades de Londres e de Paris” (David, 2008, p. 101), constituem todo um conjunto de fatores que permitem o mencionado aumento da produção literária de textos de viagens.
Especialmente o periodismo no caso português constituiu um fator de singular importância e valor. As publicações periódicas no espaço nacional rapidamente adquiriram privilegiada posição para a publicação de vários géneros de textos e produções, e entre estes os textos de viagens adquirem merecido destaque. O espaço periodístico torna-se o local mais “disponível e sensibilizado para acolher os relatos de viagem” e ainda para “dar eco de obras e autores que à viagem se entregam” (Outeirinho, 2003, p. 68).
Mais ainda, os periódicos permitiram o acesso a estes mesmos textos por parte de um público mais alargado e diverso permitindo ao público leitor de Oitocentos “Ler sobre o que não podia ir ver, desejar a condição de viajante era, afinal, a situação e a alternativa do leitor oitocentista português que também por esse motivo buscava o folhetim” (Outeirinho, 2000, p. 103). O crescente número do público leitor influenciou o exponencial aumento do número de publicações relativas à viagem; em Portugal surgem publicações como a Revista Estrangeira, o Observador Viajante ou o Jornal de Viagens
e Aventuras de Terras e Mar, entre muitas outras, cujas temáticas versadas nas suas
publicações se inscrevem na viagem. Como o afirma Cabete, “Em oitocentos, o público justificava o número crescente de publicações e os prólogos destas narrativas denunciam, claramente, a pressão editorial que não deixa outra alternativa ao escritor, com pretensões literárias, senão relatar o que viu e ouviu” (2010, p. 211).
Há, de facto, um grande interesse pelas narrativas verídicas, interesse esse que influenciou a própria escrita de textos viáticos, como que exigindo descrições também elas verídicas dos espaços circundantes. Na verdade,
A escrita torna-se (...) a mimesis da própria viagem. Em última instância, mesmo quando uma obra não versa especificamente sobre a temática da viagem, ela está sempre implícita, e isto porque enquanto leitores somos transportados pelo escritor e convocados a «participar» da sua história, pelo que, nesse momento, estamos a empreender uma «viagem» ao universo romanesco e ideológico do autor. (idem, p. 118)
Os escritores românticos oitocentistas que se dedicavam à produção de textos de viagens consagravam grande parte da sua escrita a uma descrição minuciosa e pormenorizada do circundante, adotando ainda uma abordagem que permitia uma maior aproximação entre escritor e leitor, de facto “As narrativas do período romântico distinguem-se, igualmente, pelo tom coloquial e familiar com que o narrador convoca, frequentemente, o leitor a participar das suas emoções e decepções” (idem, p. 211).
A literatura de viagens em Portugal atribui também, como seria de esperar atendendo a que se inscreve também num quadro europeu, uma enorme importância à presença do Outro até pela sua situação cultural excêntrica. O contacto com a cultura estrangeira coloca qualquer cultura de partida em confronto e questionação, e torna-se um alvo de reflexão por parte do viajante. Este mesmo processo pode estar relacionado, como o expõe Outeirinho, com a preocupação romântica de revalorização e reimplantação das bases fundadoras de todas as culturas nacionais, e para o caso português tal significa empreender “com esse fim uma busca de pilares estruturantes de uma identidade nacional que não pode deixar de ser entendida face a uma memória colectiva a reavivar, face ainda a uma inscrição de Portugal na Europa” (2003, p. 67).
Talvez nesta tentativa de inserção de Portugal na cena cultural europeia a questão da bagagem cultural levada pelo viajante português se torne ainda mais necessária e evidente. A bagagem cultural que o viajante carrega guia o seu olhar “fazendo com que este não se movimente num vazio referencial, condicionando a sua visão do Outro e gerando, frequentemente, um processo de cristalização de imagens culturais estereotipadas, de tradição trans-secular” (Cabete, 2010, p. 225) e transnacional. No caso português, muitas vezes a bagagem literária com a qual o viajante parte é constituída por textos viáticos estrangeiros. No entanto, a sua posição é a de um olhar atento sobre estes relatos estrangeiros que consigo leva, tendo sempre em perspetiva também a sua bagagem cultural de partida, a portuguesa, “o viajante português na Europa não constrói propriamente imagens novas, mas lida com imagens do estrangeiro já em circulação que questiona, ratifica, materializa no contacto com o Outro” (Outeirinho, 2000, p. 115).
Independentemente dos contornos controversos que a literatura de viagens teve que enfrentar na sua evolução e desenvolvimento enquanto género literário em Portugal, o certo é que se podem encontrar vários escritores oitocentistas que dedicaram parte da sua obra à narrativa de viagem. Entre eles podemos encontrar António Pedro Lopes de Mendonça, Ramalho Ortigão, ou até mesmo Eça de Queirós, entre muitos outros. Resta encontrar entre estes os nomes de mulheres portuguesas oitocentistas que como eles viajaram e escreveram as suas impressões sobre os locais que visitaram.