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A falta de definições claras no setor dos Museus Universitários reflete a presença de ambiguidades relativas à questão. Além da própria área acadêmica, outros setores estão

preocupados em refinar suas definições (Kozak, 2007, p. 57; Lourenço 2005, p. 3). Várias entidades e associações de museus também se debruçaram sobre essas problemáticas e passaram a elaborar, elas mesmas, definições com o intuito de contribuir para enriquecer o debate a respeito de tais problemas e de conferir maior rigor conceitual aos assuntos em foco. Cabe destacar que existem razões históricas para que se chegue a um conceito flexível de Museu Universitário, pois sua origem está mesclada à da própria universidade, às transformações pelas quais essa instituição passou e aos modos pelos quais o conhecimento foi sendo construído em ambos, tanto universidades quanto museus.

No entanto, no nível do senso comum, muitos pensam que um museu é a coleta de materiais ou coleções, a conservação desses componentes e a eventual ou permanente exposição destes em um prédio destinado a isso. Contudo, nos meios especializados a definição de Museu Universitário pode variar tanto, que é possível reunir um conjunto bastante variado de definições, tantas quantas forem suas origens e autorias.

Portanto, para o tomarmos como referência inicial e relevante, faz-se necessário especificarmos o que é um museu de acordo o seu órgão normativo máximo. Em 1946, o International Council of Museums (ICOM) definiu, pela primeira vez, o que é um museu. Hoje o ICOM o define como:

Instituição sem fins lucrativos, de carater permanente, a serviço da sociedade e seu desenvolvimento, aberta ao público, que adiquire, conserva e pesquisa, comunica e exibe, com propósito de estudo, educação e lazer, evidências tangíveis e intangíveis dos povos e seus ambientes 6 (ICOM, 2007).

Essa é a definição de museu que vem sendo aperfeiçoada desde 1946 até a versão presente, acima reproduzida. Tal definição, porém, é ampla para abraçar a grande variedade de museus. Embora seja bastante compreensiva, ela não é suficiente para dar conta da grande variedade do patrimônio museológico universitário, como veremos a seguir. Portanto, começaremos por apresentar as definições mais frequentemente encontradas em trabalhos acadêmicos sobre o tema dos Museus Universitários.

Gil (2002, p.1) definiu Museu Universitário (MU) como “aquele que tem um elo de dependência com uma universidade”. Apenas isso, todavia, em nosso entender, não é suficiente para definir um Museu Universitário.

6 Notam-se, na atual definição do ICOM, os sinais dos anos de amadurecimento, estudo e experiência histórica

do setor dos museus. Essa noção é a que está em vigor e engloba os espaços museológicos em sua diversidade. Pode ou não ser aplicada aos Museus Universitários, desde que atendam às características mencionadas no conceito.

Almeida (2001) descreve Museus Universitários como parcial ou “totalmente, submetidos a uma universidade, em termos de sua tutela”(p.10). Reixach (2008) também define MU segundo tal critério: “entende-se por Museu Universitário um museu cuja titularidade pertence a uma universidade (p.04).”

No entanto, consideramos que a tutela, apenas, seja insuficiente para definir um “Museu Universitário”. Outras definições tentam alargar a compreensão da expressão como, por exemplo, a de Lourenço (2005, p.21), para quem um Museu Universitário seria composto por “Coleções organizadas para ensino, pesquisa e exibição por instituições de ensino superior.” Kinsey (1966) já o definira desta forma:

Um Museu Universitário seria um museu maior ou principal, em uma universidade, com todas as suas implicações ou incumbências, ou seja, exposições, conferências, atividades de pesquisa, coleções extensas e abrangentes, uma política especial e pessoas implicadas no esclarecimento e na educação (Kinsey, 1966, p.106).

Essa última definição nos parece bem mais abrangente que as anteriores, mas não é aplicavel ao universo concreto das instituições que se assumem como Museus Universitários. Nem todos os MUs estão sediados em um único prédio, construído para essa finalidade. Há vários fatores que fazem o dia a dia dessas insituições muito mais complexo e impedem-nas de estar tão bem estruturados em termos de gestão e espaço físico.

Outra noção definidora, mais complexa, porém não muito elucidativa, foi dada pela Comissão Permanente sobre Museus e Galerias, em 1968, na Grã-Bretanha. Ela estabeleceu “o foco da definição centrado no propósito da universidade como o oposto ao que é do Museu Universitário, o que seria uma definição por contraste, oferecendo apenas as funções de um Museu Universitário como um meio de mensuração.”(Kozak, 2007, p.55)

Housonme (1986, citado por Kozak, 2007, p.56), na tentativa de elaborar um conceito mais flexível e aplicável a um universo maior de instituições museológicas universitárias, faz a seguinte afirmação: “Conservar coleções seria condição e critério para um conceito de museu.”

A marca das coleções e Museus Universitários é a diversidade. Por essa razão, autores como Kozak (2007) preferem utilizar os termos “patrimônio universitário”, pois são flexíveis e abrangentes o bastante para dar conta de um universo tão variado. Se tomarmos em conta a característica de “elo” ou “tutela” em relação a uma instituição de ensino superior, definir “Museu Universitário” torna-se, de fato, uma tarefa inglória, pois esse critério é tão variável quantas são variadas as universidades, institutos de ensino superior e faculdades, assim como

suas funções e propósitos. De acordo com Lourenço (2005), os tipos de “Museu Universitário” podem variar muito: desde uma coleção sob a guarda de um departamento ou setor, sem pessoal específico designado para seu estudo e conservação, a um objeto apenas (que possua valor intrínseco para a instituição de tutela). Em contrapartida, Lourenço (2005), Kozak (2007) e Black (1984) concordam que é igualmente possível encontrar coleções departamentais com um número apropriado de pessoal responsável pela sua conservação e estudo. Merriman (2002), em atenção às particularidades dos MUs, faz a seguinte avaliação:

75% do setor de Museus Universitários são de coleções que não se enquadram no senso de compreensão pública do que seria um museu. O percentual indicado descreve uma grande variação do que poderia ser considerado. Os Museus Universitários poderiam variar de grandes estruturas museológicas com staff empregado a tempo integral, financiamento vultoso, sede própria e adequada às suas atividades, serviços e serviços desenvolvidos para atendimento ao grande público até pequenas, mas significativas, coleções encerradas em departamentos com acesso restrito. (Merriman, 2002, p. 74)

As coleções e Museus Universitários estão sendo designados, mais recentemente, por “patrimônio universitário”. Essa expressão abarca um conjunto que pode variar de um único espécime a uma coleção recolhida para finalidade de pesquisa, durante uma fração de tempo determinada ou que, após o término da pesquisa a ela relativa, apenas tenha ficado abrigada em um lugar qualquer de um departamento, sem mais cuidados.

Outras coleções originam-se de doações da comunidade externa à Instituição de Ensino Superior (IES). Podem ser organizadas por colecionadores e reconhecidas pelos investigadores como possuidoras de valor histórico, cultural, artístico ou científico. Diante de sua reconhecida relevância, essas coleções passam a fazer parte do espólio da instituição, muitas vezes porque o colecionador morre e nem mesmo os familiares deste desejam dedicar tempo à conservação e investigação de tais acervos. Em outras ocasiões, os próprios investigadores e docentes constroem equipamentos ou modelos para servirem tanto ao ensino quanto à pesquisa.7 Ocorre que a diversidade se apresenta, também, no aspecto quantitativo; Podem-se citar como exemplo os ossos do extinto pássaro denominado Dodô, conservados no Museu da Universidade de Oxford. (MacGregor, 2001a; Kozak, 2007; Lourenço, 2005; Boylan, 2003; Abt, 2006, p. 115).

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Por exemplo, a coleção do Museu do Instituto Superior de Engenharia do Porto e do Museu da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, na cidade do Porto, ou o Museu de Ciência e Tecnologia da Universidade Estadual de Londrina, que já possui uma coleção de instrumentos construídos por técnicos do Laboratório de Física para o ensino das disciplinas universitárias. No entanto, esta coleção ainda está em uso, sob a guarda departamental, não foi estudada do ponto de vista da história da Física ou da Museologia. Informação colhida pela própria autora, em conversas informais com o diretor do Museu de Ciência e Tecnologia (MCT-UEL.)

No entanto, apenas a indicação de tutela por parte de uma universidade não parece suficiente para caracterizar uma coleção e/ou Museu Universitário; até porque o tipo de tutela pode, muitas vezes, variar de um mero empréstimo por tempo indeterminado à última esperança de que as coleções não vão parar no lixo, ou mesmo nas mãos de comerciantes desonestos. Em razão desses riscos concretos, as universidades foram consideradas, ao longo dos séculos, instituições com espaço, instrumental, conhecimento e pessoal minimamente preparado para guardar e preservar as coleções. Muitos Museus Universitários, no Brasil, surgiram do esforço de investigadores universitários que conservaram importantes acervos da comunidade externa, próxima à IES. E, em Portugal, há casos similares, como o ocorrido no Museu da Universidade de Aveiro, onde, após negociações com os colecionadores e seus herdeiros, as coleções foram transferidas para a guarda da universidade, dando origem a um núcleo museológico, o qual mais tarde constituiu o museu homônimo (Martins e Justino, 2014, p. 21). Outras vezes, as coleções foram tanto resultado de doações, como originárias de atividades ligadas ao ensino, à pesquisa e ao atendimento à comunidade externa. Nesse caso, a universidade agiu como guardiã daquele patrimônio local. São diversos os museus e coleções, e seria limitante ou bastante restritivo estabelecer uma noção rígida que os englobe satisfatoriamente. Recorre-se, então, ao conceito de “patrimônio universitário” (Kozak, 2007).

Mesmo assim, ainda restam dúvidas e questionamentos quanto ao uso rigoroso da expressão acima. Será que um museu situado em uma cidade, região, estado, distrito ou outro local e, ao mesmo tempo, administrado e financiado pela universidade, poderia ser unicamente considerado “patrimônio universitário”? Pelo fato de os objetos terem sido colecionados pela comunidade externa, e/mas a ela se referirem, assim como a sua história, tradições e culturas, e tendo as coleções sido colocadas sob a salvaguarda ou à disposição dos investigadores, docentes e discentes por interesse mútuo − com o objetivo de conservá-las, para fins de estudo e ensino, para servir de legado às próximas gerações, em uma amálgama de representações, tão importantes para a consolidação de identidades locais e a manutenção de tradições −, será possível circunscrever todo esse universo no interior da expressão “patrimônio universitário”? Essa é uma pergunta importante e requer reflexão, já que o próprio conceito de patrimônio é polifônico e multifacetado e retrata as complexidades históricas e culturais das comunidades (Paula, Mendonça e Romanello, 2012). Em que medida tal patrimônio é somente universitário ou é, igualmente, patrimônio da comunidade e mesmo da Humanidade, especialmente se pensarmos em espólios de grandes pesquisadores e inventores? A fina e tênue divisão entre público e privado, dentro da própria discussão quanto ao conceito de patrimônio pode provocar mais confusão do que esclarecer ou estabelecer

definições precisas e rigorosas, como se espera de um trabalho de doutoramento. Portanto, para a presente tese, preferimos adotar outro caminho, a ser explicitado no seguimento deste capítulo.

1.2.3 Museus e coleções universitárias: universo infinito e diverso e, ao mesmo