Fútbol Callejero é um jogo. Aí você faz... Ai cê, no primeiro tempo, cê faz as regras... As regras... Aí depois no segundo tempo nóis joga. Aí no terceiro tempo têm os pilares. Os pilares é: Respeito, Solilariedade e Cooperação. E... o Fútbol Callejero é muito da hora! (Cauã69 – XIV-9).
Neste momento da investigação apresentaremos o desenvolvimento da chamada “reflexão de fundo” (JARA-HOLLIDAY, 2006), ocasião na qual realizamos um distanciamento metodológico para que, mesmo à distância, possamos saber ouvir, ad-mirar o processo vivido em campo a partir da leitura atenta da história que foi reconstruída,
69 Relembramos ao leitor ou leitora que todos os/as participantes foram registrados/as com nomes fictícios, de
organizada e classificada por meio da confecção dos diários para, enfim, saber-interpretar (DUSSEL, 1974; 1995; 2005).
O excerto trazido logo na abertura desta categoria, ao modo de uma epígrafe, compõe um dos registros contidos no Diário XIV, e reproduz um pequeno trecho da transcrição de Diálogo Individual desenvolvido junto ao participante Cauã, ocasião na qual buscamos compreender as percepções que este participante possuía acerca da prática do Fútbol Callejero (FC). Tal diálogo foi realizado às vésperas do desenvolvimento da Roda de Conversa. As palavras de Cauã surgiram em resposta a nossa provocação na qual procuramos saber como ele explicaria o que é FC para uma pessoa que não conhece tal prática.
Os dizeres deste participante lançaram luz ao nosso processo de compreender o fenômeno e (re)animaram nossa atenção ao objetivo desta pesquisa de tal modo que o fragmento “O Fútbol Callejero é muito da hora!” emergiu como a ideia-força estruturante das diferentes unidades de significado que convergiram para o presente agrupamento. A expressão “da hora” trata-se de uma gíria, ou um maneirismo que, situada no contexto de espaço e de tempo do VADL-MQF, não está condicionada às normatizações da língua portuguesa dita “formal”. Poderia ser escrita com diferentes formas, por exemplo: “da-hora” (separadas por hífen), ou “da ora” – para citar algumas –, cuja intencionalidade é de comunicar algo como sendo “a coisa que está em voga no momento”. Deste modo, partimos do pressuposto de que o participante Cauã se refere à significação de que a “coisa” posta em reflexão (no caso o Fútbol Callejero) é “do momento”, ou ainda “é muito legal”.
Corroborando com esta intencionalidade, temos o anúncio feito pelo participante Marreco, realizado durante o segundo encontro de nossa inserção, no qual sinalizou que se tratando de FC “[...] a ideia não é ser um craque, mas jogar legal!” (II-2). Este comentário foi feito após assistirmos dois vídeos70 contendo a comunicação das
experiências de jovens (meninos e meninas) moradores da região metropolitana de São Paulo – Brasil acerca de suas participações junto a prática do FC.
70 O primeiro vídeo estava intitulado “#BRnaCopaAmérica2015 #FuteboldeRua” e, para além de apresentar a
metodologia do FC, comunicou as experiências do “Mundial de Futebol de Rua” realizado no Brasil em 2014 junto com a expectativa de jovens integrantes da delegação brasileira com relação a participação destes/as na Copa América que ocorreria no ano de 2015. Já O segundo vídeo, “Copa América de Futebol de Rua: muito mais que uma vitória”, apresentou como sendo exitosa a experiência da participação da equipe brasileira na “Copa América de Fútbol Callejero – Nelsa Curbelo”, organizada no ano de 2015, em Buenos Aires,
Argentina. O primeiro vídeo citado encontra-se disponível em:
<https://www.youtube.com/watch?v=_Xll6dD3plY>. Acesso em: 24/08/2016. Já o segundo vídeo citado aqui, encontra-se disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=yHIO0vwrF_4>. Acesso em: 24/08/2016.
Figura 11 – Apresentação de vídeos sobre Fútbol Callejero
Fonte: Acervo de imagens dos pesquisadores (2016).
Esta fala do participante Marreco nos fez refletir sobre a crítica ao utilitarismo empregado por aqueles e aquelas que trabalham a perspectiva do jogo ou da brincadeira (motricidades lúdicas) “para” alguma coisa que não seja o momento mesmo da convivência, permeada durante o jogo. Nesse sentido, identificamos que a fala do participante Marreco sinaliza para a potência de gozar do “aqui e agora” da motricidade lúdica, rompendo com um interesse que transcenda o espaço tempo da convivência brincante. Compreendemos que essa percepção encontra morada junto às palavras de Maturana e Verden-Zöller (2004), que nos comunicam que:
[...] na vida diária não-profissionalizada, é uma atividade vivida sem objetivos – mesmo quando, por outro lado, tenha um propósito. E que com frequência a realizamos de modo espontâneo, tanto na infância quanto na vida adulta, quando fazemos o que fazemos atendendo – em nosso emocionar – ao fazer e não às suas consequências. A propositividade e a intencionalidade são formas humanas de viver, nas quais se justifica o que é feito mencionando os resultados esperados [...]. Dessa maneira geramos em nós mesmos uma dinâmica emocional que afasta continuamente nossa atenção daquilo que fazemos no momento em que o fazemos, e a dirige para sua suposta consequência. Por isso, não são os movimentos ou as operações realizadas que caracterizam um comportamento específico como brincadeira ou não, mas sim a atenção (orientação interna) sob a qual ele é vivido enquanto se realiza (p. 145).
Em nossa interpretação analética (DUSSEL 1974; 1995; 2005), ou seja, desde uma relação de alteridade para interpretar o mundo com outrem, as palavras reveladoras do participante Marreco nos impeliram fazer aqui uma ponderação: estamos compreendendo e corroborando as críticas de Maturana e Verden-Zöller (2004), ao sinalizarmos que existe uma tendência contemporânea de se esperar algo para “além da brincadeira”, que vamos chamar aqui de um emprego de “utilitarismo do jogo”.
Com efeito, quando o participante Marreco disse que sua intenção é “jogar legal” ele pactua o desejo de tal emocionar (“jogar legal”) que só é realizável no momento mesmo no qual este jogar é presentificado, de que o jogar seja “da hora”. Quando o “jogar” acaba, o “legal” que está a ele vinculado também acaba. Não há nada para esperar deste tempo acabado (passado), a não ser a memória da satisfação pela vivência do tempo que acabou. Pois, esperar é justamente não ter no momento presente a coisa que está no futuro.
Este utilitarismo do jogo acaba por intervir na qualidade e disponibilidade pelo jogar de crianças e adolescentes, uma vez que, de acordo com Santos (2002b), reflete os anseios da “razão proléptica da Modernidade”, que assentada na Modernidade encurtou o passado e estendeu infinitamente o futuro. Para a superação desta o autor propõe:
[...] a sociologia das ausências substitui a monocultura do tempo linear pela ecologia das temporalidades, a ideia de que as sociedades são constituídas por várias temporalidades e de que a desqualificação, supressão ou ininteligibilidade de muitas práticas resulta de se pautarem por temporalidades que extravasam do cânone temporal da modernidade ocidental capitalista. Uma vez recuperadas e conhecidas essas temporalidades, as práticas e as sociabilidades que se pautam por elas tornam-se inteligíveis e objetos credíveis de argumentação e de disputa política. A dilatação do presente ocorre, neste caso, pela relativização do tempo linear e pela valorização das outras temporalidades que com ele se articulam ou com ele conflitem (p. 251-252 – grifos nossos).
As ideias deste viver para o futuro, e que invoca a necessidade de estar produzindo e/ou consumindo bens e serviços, aparecem em frases que costumamos ouvir em nosso dia a dia e são expressas, por exemplo, em: “tempo é dinheiro”; “não desperdice seu tempo com brincadeiras”, “não pense em crise, trabalhe!”. São imperativos que turvam a realidade e mascaram o processo de objetificação de pessoas, que são postas a serviço dos interesses de algo/alguém. Nesse sentido, compreendemos que o FC, ao valorizar e possibilitar a temporalidade das crianças e do brinca, coloca-se como uma frente de luta contra a racionalidade moderna capitalista que abnega tudo o que, do seu ponto de vista, não é produtivo.
No processo de leituras dos diários, emergiram unidades de significado nas quais a comunidade co-laboradora interviu no momento de proposição das regras, explicitando suas intencionalidades em tornar o momento da prática do FC mais agradável, mais legal, mais divertida e “da hora” aos seus gostos e interesses, sendo a Ecologia das Temporalidades um processo educativo vivenciado no VADL-MQF, no qual o tempo do brincar, de tornar o jogo “da hora”, de vivenciar as relações de convivência com mundo-e- com-viveres se entreteceu com o tempo das vivências pedagógicas da Parceria.
Vejamos, por exemplo, a proposição da participante Fernanda (VI-7) que, ao representar sua equipe sugeriu a inclusão de uma regra já conhecida pela comunidade co- laboradora. A saber: “a regra da palavra-chave”. Com esta regra, de acordo com a citada participante, um gol ficava condicionado a ter validade se, exclusivamente, antes de efetuar o chute em direção ao gol/meta da equipe oposta o jogador ou jogadora que detinha a posse da bola pronunciasse, em voz alta, uma expressão previamente eleita. Na vivência que foi registrada em diário de nota as expressões foram eleitas durante o 1º Tempo, sendo elas: “pizza de doritos” e “bola”.
O trecho transcrito logo adiante registrou um momento de diálogo no qual tal regra fora proposta. Chamamos a atenção para a fala do participante David, que comunicou seu interesse em tornar o jogo “Divertido... Engraçado”:
Maurício: É a regra que vocês conversaram lá, né?
Fernanda: Toda vez que a gente... Alguém fizer um gol, ou do time deles ou nosso, tem que falar...
David: “Doritos”.
Fernanda: “Pizza de doritos”.
David: Ou outra palavra que “eles” tem que escolher. O nosso é pizza de doritos.... Ah... “pizza de doritos”, estou com fome, quero comer pizza de doritos. [...]
Maurício: E que que isso acontece. Isso torna o gol válido, isso não quer dizer nada, ou vocês ganham um ponto a mais.
Pontes: O gol válido.
Fernanda: Ah... Se... Torna o futebol mais... David : Divertido... Engraçado.
Pontes: É o gol válido! (VI-7).
A primeira vez que esta regra apareceu nos registros foi em ocasião proposta pelo participante Cauã, durante o 1º Tempo de uma partida conservada junto ao Diário IV. Nesta ocasião, após as comunicações de Cauã, os/as participantes realizaram alguns ajustes, por exemplo: mudança da palavra originalmente proposta (de “sabão” para “sapato”). Ainda assim sua aprovação não foi consensual.
Diante deste conflito, no momento da Mediação foi solicitado para os/as participantes dialogarem, de maneira a apresentar argumentos favoráveis e, do mesmo modo, argumentos contrários ao implemento da regra. O participante Quero-quero se pronunciou dizendo que com essa regra o “O jogo fica mais legal [...]” (IV-6). Não houve apresentação de argumentos contrários. Em votação a regra foi eleita conforme foi registrado no citado diário.
Acreditamos que as unidades de significado trazidas conotaram os interesses da comunidade co-laboradora em estabelecer o FC como uma motricidade lúdica, reafirmando sua dimensão brincante em detrimento de características competitivas contidas na dimensão esportiva do futebol. Nossa compreensão acerca da ludicidade manifestada no momento de (trans)formação do jogo a partir da (re)criação das regras, oportunizada pelas características metodológicas do FC, encontram eco com as significações que Prista, Tembe e Edmundo (1992) indicam para a prática dos jogos no contexto de Moçambique, no qual os autores tecem:
A própria competição, que no desporto moderno se traduz muito em pontuação, marca ou tempo, aparece nos jogos aqui descritos de uma forma muito distinta. Raramente os participantes se interessam por “ganhar pontos”, considerando até que poucos são os jogos que os preveem nas suas regras. Competir, aqui, é sobretudo realizar uma sequência de proezas, lutar por ocupar um determinado papel, manter-se em jogo o maior tempo possível, ou seja, não se eliminado. Estes três aspectos, atuando normalmente integrados, dominam o “espirito de jogar”, podendo, parece- nos, traduzir uma interiorização pelo Jogo das normas da vida em sociedade ou da realidade que a natureza nos impõe (p. 9-10).
Observamos, também que, devido às características relacionadas à orientação pedagógica do VADL-MQF71, os educadores e educadoras participaram das vivências de
FC juntos/as com crianças e adolescentes, sendo também outros/as brincantes. Identificamos, portanto, uma relação de autoridade, uma vez que ainda acumulavam suas co-responsabilidade/referencialidade pela organização pedagógica dos encontros. Esta característica possibilitou a identificação do processo educativo da horizontalidade das relações entre os pares educadores/as-participantes, educadores/as-educadores/as e entre as crianças e adolescentes, nos momentos de sugestões e apresentação de propostas para composição das regras de uma partida (1º Tempo). Deste modo, as sugestões dos/as colegas
71 Nos referimos a práxis dialógica, de orientação freireana, na qual é estabelecida uma relação de
horizontalidade entre educadores/as-educandos/as. Uma descrição mais detalhada acerca da parceria representada pelo projeto VADL-MQF já foi apresentada em capítulo anterior. Para saber mais sobre a relação de horizontalidade consultar Freire (2018a; 2018b).
da equipe pedagógica passaram pelo mesmo crivo que aquelas decorrentes das crianças/adolescentes participantes.
Compreendemos que este modo de estar sendo-uns-com-outrem, em um movimento de abertura para uma convivência brincante, cuja relação respeitosa se fez recíproca entre os pares educadores/as-crianças/adolescentes e possibilitou a identificação do VADL-MQF como aquilo que Brandão (2005a) denomina como “comunidade aprendente” que, nas palavras deste autor:
[...] todos têm algo a ensinar enquanto aprendem e todos têm algo a aprender enquanto ensinam. Quando situadas fora de uma concepção classificatória, utilitária e competitiva, as crianças que estudam não sabem mais-ou-menos do que as outras. Elas sabem e compreendem de maneiras diversas. Assim, tal como em outros planos da vida social, as pessoas não devem ser comparadas competitivamente através de suas desigualdades, mas devem ser avaliadas cooperativamente através de suas diferenças (p. 100).
Em um dos registros a educadora Biga também comunicou sua intencionalidade de tornar o jogo “mais divertido”, conforme segue transcrição abaixo:
Educadora Biga: Eu pensei em colocar uma regra de que a gente não pode chamar pelo nome as pessoas. Eu não posso, a Abayomi do meu time, eu não posso falar: ‘Abayomi, Abayomi, Abayomi, a bola”, sei lá. Pra que? Para que as pessoas estejam atentas em quem, com quem está com a bola, como que a gente pode se organizar. Se for pra chamar, chama de um jeito diferente. Alguma coisa desse fazendo barulho, alguma coisa diferente. Lucas: Olha a bola!
Educadora Biga: Não, sem falar. Educador Bia: Sem Falar?
Educadora Biga: É, fazer “fiu, fiu fiu” “Tisc… Tisc… Tisc” Sei lá!
Maurício: É a sugestão da Educadora Biga. Vocês têm… lembra que pra passar pra outra regra a gente tem que definir sim ou não para essa. Porque que você quer essa regra? Educadora Biga: Porque é… Porque até pensar em outras formas de comunicação durante o jogo e... Pode ser divertido. (III-7).
O participante David propôs, com intencionalidade semelhante à da Educadora Biga, duas regras que alteraram sutilmente a lógica da contagem de pontos. Nesta ocasião, o participante justificou que procurou tornar a prática “mais divertida” (III-2), ou ainda, “mais legal” com a proposição, conforme descrito abaixo:
Maurício: [...] O David e a Fernanda acho que pediram a fala. Fala bem alto tá? David: Uma canetinha72 in... Incompleta vale um, uma canetinha completa vale dois.
72 Trata-se a “canetinha” de um drible com alto prestígio no contexto dos/as participantes do VADL-MQF,
Klevis: Porque?
David : Porque é mais legal, ganha pontos também.
Maurício: Jogar entre as pernas… Vocês têm acordo com essa regra turma. Resposta em coro: Sim (III-9).
Figura 12 – 1º Tempo de uma partida: combinando as regras
Fonte: Acervo de imagens dos investigadores (2016).
Em nossa revisão de literatura, identificamos que Varotto, Gonçalves Junior e Lemos (2017) indicaram a vivência de processos semelhante ao descrito anteriormente, cuja atuação como mediadores oportunizou que se educassem em meio a convivência com os/as estudantes da escola.
Até este ponto da apresentação de nossa investigação, realizamos o exercício de saber-ouvir para saber-interpretar (DUSSEL, 1974; 1995; 2005), tivemos o cuidado de identificar os registros nos quais as pessoas que compuseram a equipe co-laboradora comunicaram que suas intervenções durante o jogo estavam voltadas para tornarem a prática do FC mais legal, engraçada ou divertida. Neste intento, a redução fenomenológica (MARTINS; BICUDO, 1989; BICUDO; 2011, GARNICA, 1997) foi fundamental e instauradora para o exercício analético da alteridade durante a análise dos dados.
Compreendemos que a dinâmica metodológica do FC estabelecida para o 1º Tempo, momento no qual ocorreu a Trans-formação do jogo por meio da (re)criação das regras, oportunizou aos/às participantes que vivenciassem/exercitassem o protagonismo
completa” o jogador ou jogadora que está com a posse da bola deverá fazê-la passar por entre as pernas de seu/sua oponente recuperando, imediatamente, a posse do lado oposto ao que foi inicialmente lançada. Para a execução da “canetinha incompleta”, no contexto do VADL-MQF, basta com que a bola passe entre as pernas do jogador ou jogadora oponente, não havendo a necessidade de deter a posse da bola na continuidade da jogada.
conforme nos descreveu o participante David (XIV-4), quando foi por nós pro-vocado a comentar sobre seus saberes acerca do FC, em situação de Diálogo Individual:
David: É não tem árbitro. Só tem uma pessoa que é o Mediador que vê os pontos das regras e fica de olho no jogo... Bom a gente cria as regras, inventamos e jogamos. E tem 3 tempos. 1º Tempo: a gente fica em roda, conversa e a gente escolhemos as regras. No segundo a gente joga. No 3º a gente fala sobre o jogo e as regras. E no final a gente contamo os pontos. E não é só o gol. Pra... Pra nós não importa o gol, importa é divertir. (XIV-4).
Para além do engajamento na reinvenção dos modos de jogar, possibilidade prevista pela dinâmica metodológica incutida no 1º Tempo, também se fizeram perceber registros nos quais os/as colaboradores e colaboradoras relataram a experiência da satisfação e, ainda mais, de maneira a comunicarem o mote gerador de tal emoção. Nesta esteira, para além da fala do participante David (XIV), que foi apontada anteriormente, temos um excerto do discurso feito pelo participante Marreco que, no momento de Roda Final do VADL-MQF, elencou o acontecimento do “equilíbrio” entre as equipes como o motivo gerador de sua satisfação:
Marreco: Eu gostei mais do Fútbol Callejero hoje. Maurício: E porque você gostou mais?
Marreco: Tava mais equilibrado. Maurício: As equipes?
Marreco: É. Maurício: Legal!
Marreco: Também a gente caiu bastante na areia.
Maurício: Então Pontes, o que o Marreco está dizendo, É muito importante. Às vezes a gente acha legal porque a gente ganhou, mas o fato de estar equilibrado é que tornou pra ele o jogo legal. Não adianta você ser uma super-equipe e a outra ser fraca. A gente não tem desafio se for assim. (VI-16).
Não foram identificados registros de ocasiões em que um/a participante declarou satisfação por ter vencido uma partida. Reiteramos que tal afirmação partiu de nossa análise dos Diários, o que não significa que tal emoção (a satisfação pela vitória) não tenha ocorrido. O que estamos ponderando é que não encontramos trechos dos diários em que fossem apontadas a comunicação (proferida, ou expressa por gestos) de tal emoção.
Em continuidade ao intento analético de escuta atenta a outrem que imprimimos nesta fase de análise dos dados, fazemos saber que a experiência de Mediação proporcionou satisfação, conforme afirmou a participante Carol em ocasião de Diálogo Individual, cujo trecho está destacado a seguir:
Maurício: [...] Pensa bem assim, que às vezes: “Já... A gente vai jogar Fútbol Callejero”, aí você fala assim: “Ah... Professor, deixa eu...”
Carol: Ah... É... Ser mediadora.
Maurício: Você ser a mediadora. E você já foi mediadora aqui no projeto já. Carol: Ahã.
Maurício: Quantas vezes mais ou menos? Carol: Umas 5 veiz.
Maurício: E o que você sentiu quando foi mediadora? Carol: Legal.
Maurício: Você sentiu que foi legal. Carol: É.
Maurício: E porque que foi legal?
Carol: Porque que eu nunca mediei, e só cinco vez que eu mediei. E quando eu joguei futebol eu nunca mediei.
Maurício: Fútbol Callejero. Carol: É. (XIV-19).
A participante Carol assinalou que o motivo de sua percepção de satisfação esteve alinhavado com o desenvolvimento do papel de Mediadora desempenhado por ela em algumas ocasiões. Embora ela tenha relatado sua satisfação decorrente de tal participação, as ocasiões em que ela desenvolveu a Mediação não ocorreram no período de nossa investigação, portanto, não temos os registros da participante em ação de Mediação.