Para tal identificação, precisamos tornar ao início do discurso lírico horaciano, em que o deus é mencionado, ou seja, ao primeiro livro das Odes. No carm. 1, 2, depois de narrar vários acontecimentos terríveis (vv. 1-24) que sucederam aos romanos depois do assassinato de Júlio César (44 a. C.), como a guerra civil (vv. 21-24), o poeta pergunta que deus o povo invocará no momento em que o império ruir (vv. 25-26: Quem uocet diuum populus ruentis / imperi 11 Tradução de Haroldo de Campos.
12 Aqui discordo um pouco da interpretação de Harrison (2007, p. 25), que entende Mercúrio como deus da poesia, sem especificar um gênero. Harrison (p. 24) associa ainda este fato com outro: a queda da árvore que quase matou o poeta, que, também aqui, foi salvo por um deus (cf.
carm. 2,13; 2, 17, vv. 27-30; 3, 4, v. 27).
13 Para recusatio no primeiro livro das Odes, ver Nisbet and Hubbard (1970, p. 81-83); para a recusa no quarto livro, ver Thomas (2011, p. 260-261). A mais calimaquiana é a que ocorre no carm. 4, 15; porém as duas incidem em inequívoca matéria bélica, enquanto no carm. 2, 7, a recusa é metafórica. Há recusatio também no carm. 1, 19, em que Vênus lhe proíbe matéria guerreira.
14 Sobre esta associação, ver Hasegawa 2012.
15 Horácio, por exemplo, se refere a ele como Neptunius dux (epod. 9, 7-8).
16 Ele, depois da vitória sobre os armênios, fez seu ingresso em Alexandria com as roupas de Baco (cf. Zanker 2006: 52).
rebus? ...). Depois de convocar Apolo, Vênus e Marte (vv. 30-40), nas três estrofes
finais volta a atenção a Mercúrio, que na terra, transfigurado em jovem, surge como vingador de César (vv. 41-52):
siue mutata iuuenem figura ales in terris imitaris almae filius Maiae patiens uocari
Caesaris ultor,
serus in caelum redeas diuque 45 laetus intersis populo Quirini,
neue te nostris uitiis iniquum ocior aura
tollat: hic magnos potius triumphos,
hic ames dici pater atque princeps, 50 neu sinas Medos equitare inultos
te duce, Caesar
Ou tu, da casta Maia filho alado, que mudada na terra a forma, moço te tornas, consentindo ser chamado o vingador de César;
tarde voltes ao céu e longo tempo 45 assistas ledo ao povo de Quirino;
nem aura mais veloz daqui te leve, iroso a nossos erros.
Antes aqui grandes triunfos prezes;
antes aqui chamar-te pai e príncipe, 50 nem sofras campear impunes Medos
em teu governo, ó César18.
A identificação de Mercúrio com Otaviano, que causa alguma surpresa19,
é explícita e explorada por todos os comentadores. Embora surpreendente, parece haver evidência material, proveniente do período augustano, em que o imperador se identificava com o deus20: há, por exemplo, imagem de Augusto portando o caduceu21;
encontra-se também na coleção Marlborough antiga gema, em que se mostra, junto com o caduceu, o rosto do princeps (Zanker 1989, p. 285, fig. 210); por fim, há ainda evidência numismática em que aparece Mercúrio sentado sobre um rochedo e a inscrição Caesar divi f 22. Assim, a identificação de Mercúrio com Otaviano não
18 Tradução de Elpino Duriense.
19 Nisbet and Hubbard (1970, p. 34): “Horace’s identification of Mercury and Octavian is a matter
for surprise, which needs a note of some length”.
20 Cf. Nisbet and Hubbard (1970, p. 34).
21 Esse objeto, porém, parece ser de data posterior ao carm. 1, 2, ver Fraenkel (1957, p. 248, nota 1).
parece ser apenas invenção de Horácio, mas talvez já circulasse entre os romanos, e tem raiz no culto helenístico do soberano (Alexandre, por exemplo, já se vestira como Hermes, e Ptolomeu III aparece em uma gema usando o pétaso do deus23).
Queremos destacar ainda, das últimas estrofes do carm. 2, 1, duas alusões a Otaviano Augusto: as locuções Caesaris ultor (v. 44) e pater
patriae (v. 50), que são aspectos importantes da política do princeps senatus.
Em Filipos, como lembra Elisa Romano (1991, p. 479), ele combateu
pro ultione paterna (“para vingar o pai”, Júlio César), e na oportunidade prometeu
a Marte Vingador um templo, que lhe foi consagrado em 2 a.C.; em 27 a.C., no discurso em que declarou ao Senado querer entregar seus poderes, teria dito desejar o imperium apenas para vingar o pai adotivo (cf. Cass. Dio 53, 4). Em sua autobiografia, a vingança do assassinato de César é o primeiro empreendimento recordado (Mon. Ancyr. 2): Qui parentem meum necauerunt, eos in exilium expuli
iudiciiis legitimiis ultus eorum facinus et postea bellum inferentis rei publicae uici bis acie (“Aqueles que assassinaram meu pai, mandei-os para o exílio,
com julgamentos legítimos vingando o crime deles e, posteriormente, quando fizeram guerra contra a República, venci-os duas vezes em linha de batalha”).
A ideia de vingança associada a um deus não aparece apenas no carm. 1, 2, mas se encontra também no carm. 4, 6, em que o poeta faz louvor a Apolo, deus da poesia e da vingança24. Vejamos a primeira estrofe (vv. 1-4):
Diue, quem proles Niobaea magnae uindicem linguae Tityosque raptor sensit et Troiae prope victor altae
Pthius Achilles,
Ó deus, a quem a Niobéia prole da audace língua vingador sentira, e o raptor Tício e o Ftio Aquiles, quase
vencedor de alta Troia25.
Depois de mostrar o deus como vingador da prole de Níobe, de Tício e de Aquiles, faz longa digressão sobre o maior dos aqueus. Embora seja filho de Tétis, não é maior do que Febo. O deus o matou com a flecha pela mão de Páris. Depois de ter narrado o que aconteceu (vv. 5-8), Horácio descreve o que teria ocorrido, se Aquiles não tivesse sido morto: o herói, por seu caráter, jamais atacaria os troianos de surpresa, no momento em que, alegres, dançavam (vv. 9-16); contudo, Aquiles não pouparia ninguém, nem crianças incapazes de falar, nem mesmo aquelas que ainda estivessem no ventre materno (vv. 17-20); ou seja, se Aquiles invadisse em Troia, nem mesmo Eneias teria sobrevivido. O troiano só conseguiu escapar, porque o maior dos aqueus não entrou na cidade e Vênus intercedeu junto a Júpiter que, vencido pelos rogos da filha, lhe promete a fundação 23 Cf. Nisbet and Hubbard (1970, p. 35).
24 Sobre Apolo no carm. 4, 6 e no quarto livro das Odes, ver Hasegawa 2012b. 25 Tradução de Elpino Duriense.
da nova Troia, Roma26 (vv. 21-24). Ou seja, tanto aqui, no carm. 4, 6, como no carm.
1, 2, a vingança é colocada como um aspecto importante para a construção de Roma. Embora o título de pater patriae seja concedido a Augusto somente em 2 a.C. (cf. Mon. Ancyr. 35, 1: Tertium decimum consulatum cum gerebam
senatus et equester ordo populusque Romanus universus appellauit me patrem patriae 27), parece ser atribuição fundamental da política do principado já antes
existente, como testemunha o carm. 1, 2, e talvez o título já fosse difundido desde os primeiros anos28. Recebia essa designação aquele que tivesse salvado
Roma de um perigo mortal. Receberam-na Rômulo (cf. Enn. Ann. 108 Sk., Liv. 1, 16, 6), Camilo (cf. Liv. 5, 49, 7), Fábio Cunctator (Plin. Nat., 22, 10), Mário (cf. Cic. Rab. perd. 27), Cícero (cf. Id. pis. 6) e Júlio César (cf. Suet. Iul. 76, 1, 85)29. Assim, por mais essa alusão, o poeta associa Mercúrio a Otaviano.
Até aqui Horácio, então, descreve o deus com alusões ao imperador. A identificação, contudo, torna-se clara apenas na última palavra, quando o poeta, ao se dirigir à divindade, nomeia César (v. 52: te duce, Caesar), transformado o deus psicopompo, condutor das almas, no comandante militar, condutor dos romanos, que, depois de lutar contra os próprios romanos na vingança do pai adotivo, se volta agora contra os inimigos externos, os Medos, que não devem permanecer sem vingança (v. 51: neu sinas Medos equitare inultos).
Portanto, depois da primeira ode (carm. 1, 1), que inaugura a carreira lírica e contém programa poético para o que se segue, temos poema dedicado a Otaviano Augusto (carm. 1, 2), que é justo aquele que retira Horácio já não da batalha, mas principalmente da facção política considerada inimiga da Vrbs, de modo que lhe permite ser o poeta do amor, do vinho, de Roma e do imperador. Desse modo, se temos no carm. 1, 2 elogio explícito de Otaviano, identificado com Mercúrio, como protetor dos inimigos internos e externos de Roma, encontramos também louvor a Augusto no carm. 2, 7, que, sob a figura de Mercúrio, preserva o poeta de Roma (cf. carm. 4, 6), retira-o do meio da batalha e do “equívoco” de alinhar-se a Bruto e Cássio. Parece-nos, assim, muito provável que os versos forjados não sejam ficção, mas encerrem doutrina política do governo augustano.