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III – Résultats et discussions

Dans le document OPTIONS méditerranéennes (Page 146-149)

Jogando recuado na meia cancha, sempre aspirava a ter uma visão ampla do campo de jogo, por isso seu treinador frequentemente lhe pedia para que “abrisse a cancha”, o que na linguagem do futebol significa lançar a bola para o espaço vazio, expandir o espaço para incorporar outros jogadores ao ataque, passar a bola aos que se encontram em melhor posição para avançar (ARTAVIA-LORÍA, 2008, p. 13).

Na busca pelas origens do FC, nos deparamos com uma estória de luta na qual 12 adolescentes moradores de um bairro empobrecido e periférico de Buenos Aires (Argentina), se engajaram na busca pela transformação de suas realidades. Portanto, para compreendermos satisfatoriamente a gênese do FC, nos cumpre apresentar a dialeticidade que a sua origem possui com o surgimento do “Complejo Defensores” (em tradução para o português, “Complexo Defensores”), cuja construção transcendeu o uso e a função de um espaço de treino da equipe de futebol Club Atlético Defensores Del Chaco (doravante, CADDC).

No ano de 1994, o argentino e ex-jogador de futebol Fábian Ferraro, junto de seu amigo Julio Jiménez, acompanhava pelo televisor os jogos da Copa do Mundo organizada pela FIFA. Naquele ano, o evento teve como país sede os Estados Unidos da América. Nesta ocasião, Fábian Ferraro decidiu montar uma equipe de futebol em Moreno, bairro onde viveu em sua infância, aproveitando seus saberes e experiências como ex- jogador de futebol (ROSSINI et al., 2012).

O citado bairro está situado, aproximadamente, a 35 quilômetros da capital, Buenos Aires – Argentina, e junto a outros bairros forma o território chamado de Passo del Rey, no qual Artavia-Loría (2008) descreveu do seguinte modo:

[...] 45% da população vivem abaixo da linha da pobreza; 17% vivem na indigência e 30% sofrem com o desemprego e subemprego. A zona é conhecida como Paso del Rey. Entre os bairros da zona se encontra o bairro Chaco Chico, assim chamado em função da alta incidência de imigrantes paraguaios que ali moram. Paso del Rey, com mais de 250.000 habitantes, dispõe de apenas três escolas e nenhuma creche ou pré-escola. A zona conta com sete centros de saúde, mas não há um hospital para servi-la. Boa parte das ruas não está pavimentada e as casas de muitos de seus bairros não têm água corrente – é captada em poços de baixa profundidade, com risco de alta contaminação (p.16).

Foi neste cenário que Fábian Ferraro começou a treinar uma equipe de adolescentes que viviam pelas esquinas do bairro, uma vez que o território não possuía

equipamentos e serviços públicos para prática do Jogo/Ócio/Lazer. Os próprios adolescentes escolheram o nome do time, “CADDC” (ROSSINI et al., 2012).

Vale lembrar que algumas pessoas se reportavam àquela região como sendo o “Chaco Chico”, (que em português significa “pequeno Chaco”), devido à grande incidência de imigrantes paraguaios/as, originalmente oriundos/as da região chamada de “Chaco Paraguayo”. Portanto, o nome da equipe procurou homenagear não somente esta raiz étnica, mas também fazer alusão ao maior estádio de futebol paraguaio: o “Defensores del Chaco” (CONN; DURBIN, 2013). Destacamos que no conurbado de Paso del Rey também convivem imigrantes de outros países latino-americanos, como aqueles/as advindos/as do Peru da Bolívia, para além de pessoas que migram do interior da própria Argentina.

Rossini et al. (2012) contam que com muito esforço Fábian Ferraro começou a organizar os treinos, tirando os adolescentes das “esquinas”. Não demorou muito para que ele e Julio Jiménez fossem vistos como lideranças locais. Após um início sem grandes êxitos, a equipe começou a almejar possuir um espaço adequado para o treinamento. A grande virada, que impulsionou tal sonho, ocorreu no ano de 1996, no qual Rossini et al. (2012) sinalizaram:

Cincuenta partidos ganados de manera consecutiva y el título regional en los Torneos Bonaerenses logrado ante el poderoso Deportivo Morón son poco con relación al acompañamiento y apoyo que recibieron de sus familias y vecinos. La vuelta al barrio como ídolos fue tan gloriosa como la reconciliación y recuperación de la mirada de los padres a sus hijos Los jóvenes de la esquina en poco tiempo se habían convertido en un ejemplo para su comunidad18 (p. 21).

Coon e Durbin (2013) realizaram uma entrevista com Max Pelayes, que em sua adolescência compôs a equipe do CADDC vencedora do citado torneio, que nessa entrevista Pelayes comenta: “Pasamos de ser un peligro a ser los referentes del barrio [...] De un momento a otro, fuimos conocidos por esto, no por lo que antes había sucedido. Y de ahí empezó el cuento de soñar con cambiar este lugar”19 (COON; DURBIN, 2013, p. 12-

18 “Cinquenta partidas vencidas de maneira consecutivas e o título regional nos Torneios Bonarenses

conquistado diante o poderoso Deportivo Morón, ainda é pouco quando relacionado ao acompanhamento e apoio que receberam de suas famílias e vizinhos. A volta ao bairro como ídolos foi tão gloriosa como a reconciliação e recuperação da perspectiva dos pais aos seus filhos. Os jovens da esquina em pouco tempo se haviam convertido em um exemplo para sua comunidade” (ROSSINI et al., 2012, p. 21, grifos nossos – tradução livre nossa).

19 “Deixamos de ser um perigo para sermos as referências do bairro [...] Em um instante ficamos conhecidos

por isto, e não pelo que fazíamos antes. Desde então começou a história de mudar este lugar” (COON; DURBIN, 2013, p. 13 – tradução livre nossa).

13). Para além deste novo olhar, Rossini et al., (2012) também destacaram a importância de os adolescentes terem saído do bairro para disputar os jogos e assim conhecerem outras realidades.

Conforme relatado por Max Pelayes (COON; DURBIN, 2013), esta conquista impulsionou uma guinada no olhar que a população local possuía acerca daqueles adolescentes, passando de perigosos à referências. Este novo modo de se relacionar com os garotos foi capaz de potencializar uma catarse na qual 12 participantes que compunham a equipe do CADDC, acompanhados pelo seu treinador e pelo educador popular Júlio Jiménez, iniciassem uma luta pela construção de um campo de treinamento dentro do bairro, uma vez que, conforme dito, treinavam nas calçadas (COON; DURBIN, 2013).

Para tal feita, elencaram um terreno que vinha sendo utilizado como depósito irregular de lixo pela própria população (ARTAVIA-LORÍA, 2008; COON; DURBIN; 2013; ROSSINI et al., 2012;). Junto a este espaço, fixaram uma placa com os seguintes dizeres: “En breve Polideportivo del Club Defensores Del Chaco”, conforme figura logo abaixo.

Figura 6 –Placa instalada em terreno utilizado indevidamente como depósito de lixo

Fonte: Ferraro (2013, s/p)20.

O episódio da aquisição do terreno foi narrado por Max Pelayes, em entrevista cedida para Coon e Durbin (2013):

Los vecinos se burlaron, recordó Pelayes, pero los jóvenes continuaron. “Empezamos a limpiar y a ubicar al propietario” dijo. “Él había heredado

20Placa com os dizeres “En Breve Polideportivo del Club Defensores del Chaco”. Imagem extraída do

documentário: “Fabián Ferraro, Historia del fútbol callejero y el club Chaco Chico en Paso del Rey Moreno”... Vídeo disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=vS4-myTDGsc&t=4s>. Acesso em: 07/07/2017.

el terreno y supuso que había sido tomado. Se mostró agradecido de que quisiéramos comprárselo. No teníamos necesidad de hacerlo. Pero si íbamos a generar un cambio, necesitábamos dar el ejemplo”. Así, los muchachos golpearon puertas hasta que recolectaron fondos suficientes como para pagar por el lote. “En 1999, se compró, empezamos a poner el alambre, a armar la cancha, a poner las luces y comenzamos a construir nuestro complejo”, relató Pelayes21 (p. 13).

Identificamos, com isso, um processo de resiliência dos adolescentes que, diante de todas as mazelas vivenciadas em um contexto de empobrecimento, superaram a falta de credulidade de alguns/algumas adultos/as que, inicialmente, zombaram dos interesses comunicados pelos meninos. Ademais, também nos pareceu ser a manifestação de muita sabedoria dos adolescentes, ao dizerem que “tinham que dar o exemplo” (COON; DURBIN, 2008), firmando a coerência entre o horizonte pretendido e o caminho trilhado.

O novo desafio a ser superado pelos meninos foi transformar o depósito de lixo irregular em um campo de futebol. Mais uma vez a sagacidade dos adolescentes foi fundamental para a concretização do projeto. Eles perceberam a movimentação de caminhões que retiravam terra de um local próximo dali, de Moreno, e solicitaram aos respectivos motoristas para que depositassem todo aquele material no terreno recém- adquirido por eles (COON; DURBIN, 2013; ROSSINI et al., 2012). O pedido foi acolhido de imediato. A nova jornada consistiu em transformar as montanhas de terra e uma superfície plana, fazendo emergir um campo de terra-batida.

Mesmo com um espaço rudimentar, a população percebeu melhoras nas condições de atenção aos adolescentes, uma vez que, em lugar das esquinas e calçadas, passaram a possuir no território um espaço que ensejava uma relação identitária com a população local. No bairro de Moreno se viam pessoas utilizando a camisa do CADDC, em lugar de camisetas de equipes profissionais, comentou Fábian Ferraro em diálogo com Coon e Durbin (2013). O novo espaço (observar “Figura 7 – Complexo Defensores” logo adiante) também proporcionou um aumento da adesão de participantes, o que do ponto de vista do citado treinador também demandou o aumento da responsabilidade. Deste modo, de acordo com Coon e Durbin (2013):

21 “Os vizinhos zombaram, lembrou Pelayes, mas os jovens não desistiram. ‘Começamos a limpar e a procurar

pelo proprietário. Ele havia herdado o terreno e supôs que já havia sido invadido. Se mostrou agradecido diante nossa proposta de compra. Não tínhamos a necessidade de fazê-la. Mas, se íamos promover mudanças, precisávamos dar o exemplo’. Assim, os adolescentes bateram de porta em porta, até que angariarem os fundos suficientes para pagar pelo terreno. ‘Em 1999, o compramos, começamos a colocar o alambrado, a preparar o campo, a pôr as luzes e começamos a construir nosso complexo’, relatou Pelayes” (COON; DURBIN, 2013, p.13 – tradução livre nossa).

Ferraro también había comenzado a cambiar de enfoque. “Primero tuvimos 12 jóvenes, luego 50, luego 300, luego 400 y la responsabilidad se volvió enorme”, recordó. “Eso significó comprender lo que estaba ocurriendo alrededor nuestro”. Él, Jiménez y los demás adultos que se incorporaron como directores fundadores comenzaron cuestionar la falta de infraestructura, servicios básicos y espacios públicos en un vecindario de 20.000 personas, y el vínculo entre la desesperanza y la delincuencia resultó obvio. […] “Por ahí empezamos a pensar en un plan de acción más allá del fútbol” relató Ferraro. “Empezamos a entender que teníamos que modificar la realidad de la comunidad. Teníamos que tener una organización con puertas abiertas a la comunidad, donde la gente podía venir con su problemática y encontrar la solución”22 (p. 13).

Figura 7 – Complexo Defensores

Fonte: Coon e Durbin (2013, p. 12).

No ano de 1998 o CADDC se torna uma “pessoa jurídica”, fazendo surgir a “Fundación Defensores del Chaco”. Esta feita possibilitou novas parcerias, angariando investimentos governamentais e de outras instituições/entidades privadas que possibilitaram a construção do espaço que ficou conhecido como “Complejo Defensores”. Tal espaço dispôs de dois campos de futebol, quadra poliesportiva, teatro comunitário, centro de

22 “Ferraro também havia começado a mudar de enfoque. ‘Primeiro tivemos 12 jovens, logo 50, depois 300,

depois 400 e a responsabilidade ficou enorme”, lembrou. “Isto significou compreender o que estava ocorrendo ao nosso arredor”. Ele, Jiménez e outros adultos que se incorporaram como diretores-fundadores começaram a questionar a falta de infraestrutura, de serviços básicos e de espaços públicos onde se avizinhavam cerca de 20.000 pessoas com efeito o vínculo entre a desesperança e delinquência se resultou obvio. […] ‘Neste contexto começamos a pensar em um plano de ação mais além do futebol’ relatou Ferraro. ‘Começamos a entender que tínhamos que modificar a realidade da comunidade. Tínhamos que ter uma organização com portas abertas para a comunidade, onde toda gente poderia vir com suas problemáticas e encontrar solução’” (COON; DURBIN, 2013, p. 13 – tradução livre nossa).

computação e uma escola de educação infantil, tornando viável uma efetiva “abertura da cancha” (ARTAVIA-LORÍA, 2008 – grifos nossos).

Neste contexto, datando o início dos anos de 2000, Argentina atravessava uma profunda crise econômica que gerou a desindustrialização e o desemprego no país. Rossini et al. (2012) comentam que, de maneira ainda mais grave, essa crise catalisou processos de rompimento de “[...] lazos de solidaridad, la debilidad de las organizaciones sociales y un individualismo y consumismo exacerbado, siendo los jóvenes que no estudiaban ni trabajaban (sarcásticamente llamados “nini”) los principales perjudicados”23

(p. 20). Fábian Ferraro e outras lideranças, como Julio Jiménez e Fernando Leguiza, perceberam que mesmo com a ampliação e diversificação das práticas, oportunizada pela construção do complexo, uma parte da juventude, principalmente as mulheres, não frequentava o espaço recém-construído (COON; DURBIN, 2013).

As experiências e emoções que culminaram com a efetiva proposição do FC finalmente encontraram sua origem e, de maneira coerente, a inspiração partiu das ruas. Rossini et al. (2012) contam que no ano de 2001 Fábian Ferraro caminhava pelas ruas do bairro de Bongiovanni, vizinho à Moreno e ficou estarrecido com o desenvolvimento de um jogo que estava sendo disputado por equipes formadas por gangues que costumeiramente se rivalizavam. A surpresa do educador foi devido a (pré)concepção de que, por se tratar de gangues rivais, o conflito seria inevitável. Na esteira do espanto, veio também a epifania, pois de acordo com Rossini et al. (2012):

Ferraro estaba anonadado por la situación y comenzó a pensar en la recuperación del potrero y de los espacios públicos en los barrios, retomando lo que los propios pibes denominaban fútbol de la calle. A diferencia de la organización en torno al Club, el Fútbol Callejero prescindía de algunas formalidades como el carnet, el árbitro y la edad, y en un futuro también del género24 (p. 24-25).

Admirado com o poder de organização daqueles jovens, Fábian Ferraro convidou as lideranças juvenis dos bairros intentando ampliar a frequência destes jogos, que eram autogestionários, ou seja, já ocorriam sem árbitro e os jogadores organizavam o

23 “ […] laços de solidariedade, a fragilidade das organizações sociais e um individualismo e consumismo

exacerbado, sendo os jovens que não estudavam nem trabalhavam (sarcasticamente chamados de “nem-nem”) os principais prejudicados” (ROSSINI et al., 2012, p. 20 – tradução livre nossa).

24 “Ferraro ficou impressionado com a situação e começou a pensar na recuperação dos demais campos e dos

espaços públicos dos bairros, retomando o que as próprias crianças chamavam de futebol de rua. Ao contrário da organização que ocorria no torno do clube, Fútbol Callejero dispensou algumas formalidades, como o cartão, o árbitro e a idade, e no futuro também do gênero (ROSSINI et al., 2012, p. 24-25, tradução livre nossa).

conjunto de regras antes de cada início de partida. Estes encontros tiveram ampla divulgação na internet, o que contribuiu para sua rápida difusão (ROSSINI et al. 2012).

Em atenção ao implemento destas primeiras partidas Fábian Ferraro, em diálogo estabelecido Coon e Durbin (2013), ainda ponderou:

[...] el fútbol callejero, combinando el juego con los valores del Defensores. “Las prioridades son primero el jugar, compartir, respetar – no ganar a cualquier precio”, explicó Ferraro. “Ello devuelve la alegría al fútbol”. Fútbol callejero plantea equipos mixtos que desarrollan sus propias reglas, lo hacen sin un árbitro, eligiendo en lugar de éste a un mediador, y basan el triunfo en cómo el partido fue jugado – nociones desconocidas y a las cuales los jugadores del Defensores y la comunidad inicialmente resistieron, especialmente la inclusión de chicas25 (p. 14).

Conforme apresentado pelo autor e pela autora, houve inicial resistência dos jovens-homens à incorporação da participação de meninnas (jovens-mulheres). Este fenômeno, a resistência à participação, também é sinalizado no estudo feito por Artavia- Loría (2008). Ambas produções compreendem que tanto a organização da estrutura social, quanto a inerente atitude competitiva (exacerbada) e agressiva que circunscreve a prática do futebol de alta-performance, condicionam o fenômeno da resistência à presença da mulher em diferentes contextos, de maneira a não oportunizar um devido acolhimento e/ou atitudes que suscitem segurança para que participem.

Corroborando com os autores e autora está Apelanz (2016) que, em diálogo realizado no ano de 2016 com Mariel Rivera – líder do “Movimiento de Fútbol Callejero” – , identificou que a violência que foi observada no contexto das ruas de Moreno também se manifestava dentro dos campos de futebol do bairro. Assim, do mesmo modo que os meninos se agrediam nas ruas, também agrediam uns-aos-outros em campo.

Do ponto de vista de Mariel Rivera, tal fenômeno inibiu a participação das mulheres e, assim como ocorria nos campos de futebol, nos quais as meninas/mulheres eram apenas expectadoras, no mundo-vida esse fenômeno da violência estrutural catalisada pelo patriarcado também as colocavam como expectadoras da vida. Portanto, alijando-as de seu protagonismo dentro e fora do campo, ou seja: nos diferentes espaços-tempos de convivência (APELANZ, 2016). Com efeito, desde o ponto de vista do referido líder do Movimiento de

25 “[...] apresentou o fútbol callejero, combinando o jogo com os valores do Defensores ‘ As prioridades são,

em primeiro lugar, compartir, respeitar – não ganhar a qualquer preço’, explicou Ferraro. ‘Ele devolve a alegria ao futebol’. Fútbol callejero estabelece equipes mistas que desenvolvem suas próprias regras, jogam sem a presença de um árbitro, elegendo em seu lugar um mediador, e baseiam o triunfo da vitória em como a partida foi jogada – noções desconhecidas às quais os jogadores dos Defensores e a comunidade inicialmente resistiram, especialmente à inclusão das meninas no jogo (COON; DURBIN, 2013, p. 14 – tradução livre nossa).

Fútbol Callejero, Mariel Rivera, a inclusão das mulheres junto ao FC suscitou entre os meninos uma postura de cuidado em lugar de serem “bruscos”, pois, para ele, os meninos procuravam não machucar suas amigas e/ou companheiras que passaram a ser incluídas nas partidas (APELANZ, 2016).

Inicialmente, as mulheres não tiveram uma participação ativa, posto que os meninos não passavam a bola, inviabilizando uma autêntica inserção junto ao jogo (APENLANZ, 2016). Para superação deste cenário, foi necessária a efetiva experiência do desconforto, na qual as soluções não partiram de uma teoria, mas da experimentação mesma da situação de desigualdade, conforme sinaliza Apelanz (2016):

La concepción de que por ser mujer, la mujer queda aislada del deporte no concuerda con la realidad de la práctica de muchas mujeres. Por lo tanto era necesario romper con esos estereotipos desde la experiencia. Desde esa realidad, que nace de lo que sucede y no de la teoría, aparece la necesidad de generar ciertas reglas para jugar al fútbol incorporando, aceptado y legitimando el papel de la mujer en fútbol callejero26 (p. 3).

Conforme vimos até aqui, ao buscarmos a origem do FC identificamos seu ethos junto ao contexto da América Latina, mais especificamente, no bairro de Moreno, Buenos Aires (Argentina). Neste processo, nos chamou atenção a resiliência e o engajamento dos adolescentes do CADDC, cuja mobilização acabou por atingir positivamente sua comunidade, proporcionando a aquisição de um terreno que veio a se tornar um equipamento que beneficiou diretamente centenas de adolescentes e, indiretamente, milhares de pessoas. Identificamos que estes elementos proporcionou uma mudança no olhar da população para com aqueles adolescentes que, a partir de então, passaram a ser reconhecidos como (boas) referências no bairro.

Com igual importância, identificamos a sensibilidade e perspicácia dos educadores Fábian Ferraro, Fernando Leguiza, Julio Jiménez, que encamparam a luta iniciada pelos adolescentes, culminando com a “abertura da cancha”, significando o processo de ampliação da oferta de atividades. Ademais, diante da identificação da ausência de jovens (homens e mulheres) junto ao programa de atividades desenvolvidas no citado complexo, o arguto Fábian Ferraro se pôs em movimento na busca de estratégias para atenção e acolhimento desta população.

26 “A concepção de que por ser mulher, a mulher ficaria isolada do esporte não coincide com a realidade da

prática de muitas mulheres. Para tanto, era necessário romper com os estereótipos desde a experiência. Desde esta realidade, que nasce de o que lhe sucede, não de uma teoria, aparece a necessidade de criar certas regras para jogar o futebol incorporando, aceitando e legitimando o papel da mulher no Fútbol Callejero” (APELANZ, 2016, p. 1 – tradução livre nossa).

Nesta empreita, em um movimento de abertura e dialogicidade, o citado educador (re)aprendeu, com os próprios jovens, possíveis alternativas para superação da violência, enxergando no FC um caminho possível. É neste ponto da história que nosso objeto de estudo emerge como uma estratégia de ação, pautado nos horizontes da Educação Popular, para o enfrentamento das mazelas que afetavam a(s) juventude(s) empobrecida(s), de modo que Rossini et al. (2012) anunciam:

El fútbol callejero fue concebido como una respuesta a las tantas crisis que afectan y atraviesan el “ser joven” en América Latina. Fútbol, para atraer la atención y vincular a los participantes desde una experiencia que recogiera sus intereses y gustos. Callejero, porque proponía volver a las raíces del fútbol de “potrero”, donde los participantes coinciden en llevar

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