2.2 B ASIC SCENARIO
2.2.1 Inquiry phases and their sequence
Broca (1960) afirma que “na época romântica – diz André Billy (Figaro Littéraire, de 17 de janeiro de 1853) houve grandes oradores e grandes professores, mas não conferencistas” 268
. E referindo-se ainda ao escritor francês, diz que, segundo ele, a conferência teria sido inventada por Émile Deschanel que, refugiado na Bélgica, depois do golpe de Dois de Dezembro, inaugurou o gênero em Bruxelas. Segue descrevendo de que maneira a conferência como gênero literário e costume social se implantou, contestando a informação anterior:
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BOMFIM, Manoel. América Latina: males de origem. Rio de Janeiro: Topbooks, 2005, p. 199.
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LOPES NETO, J. S. Educação Cívica – Terra Gaúcha (Apresentação de um livro). História da Educação, Pelotas, vol. 13, n. 27, p. 325, junho/abril de 2009. (Versão de 1904).
pouco antes, em 1870, Ernest Lecouvé, Henri Brisson, já haviam feito em sala aberta, em Paris, palestras sobre temas filosóficos e sociais. Logo depois, marcaram época as matinées de Ballandes e as matinées do Odéon; enquanto na Bodinière, na Rua de Saint-Lazare, com Jules Bois, Victor Du Bled, George Vanor, a conferência tomava um caráter mundano. Mais tarde, a criação da “Université des Annales” pôs em moda de tal maneira o gênero, que as conferências se multiplicaram por toda parte, em Paris.269
No Brasil, a época de ouro das conferências foi a primeira década do século XX. Ainda segundo Broca, sempre fomos dados a imitar em tudo os franceses, portanto, nada mais natural do que adotarmos aqui a conferência, logo após a sua implantação em Paris.
Na Gazeta de Notícias de 29 de agosto de 1875 encontra-se um folhetim, sob a assinatura de Jorge d’Odemira, em que este reclama: “Não tivemos ainda conferências populares, o que tem havido são conferências literárias”. Isto cinco anos após a data a que André Billy faz remontar a inauguração do gênero. O que quer dizer “conferências populares”? Eram palestras de caráter filosófico e social, as primeiras pronunciadas em Paris, segundo nos informa Billy. Compreende-se perfeitamente o protesto, quando logo adiante se vê o folhetinista dizer que a ideia das conferências foi a de por o povo a caminho de resolver os problemas sociais. Seu assunto devia tratar, sem dúvida, do “aperfeiçoamento moral do povo e da sua felicidade”. E citava a França, por que assim é que lá se fazia.
Três anos depois, no mesmo jornal, encontramos outro folhetim, sob a assinatura de Ameno Effendi, evidentemente um pseudônimo, que num tom humorístico, simulando um egípcio em excursão pelo Brasil, descreve:
Uma das enfermidades que aqui encontrei, revelada muitas vezes por verdadeiros espasmos, é a Conferenciomania. De repente, há uma convulsão epileptiforme, os diários escrevem verdadeiras loas, entoam hinos, hosanas, os músicos forasteiros esperam ser chamados para robustecer o aplauso, pagando-lhes já se vê, e um conferencista aparece.270
Em 1878, portanto, havia quem considerasse a proliferação do gênero, entre nós, uma verdadeira “mania”. Talvez haja uma referência satírica às famosas
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Idem, ibidem.
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conferências da Escola da Glória, promovidas pelo Imperador, mais ou menos, nessa época, e que, naturalmente, tinham contribuído para criar a moda. A verdade é que só na primeira década do século XX, a moda ressurgiria com muito maior intensidade.
Figura 5 - José Joaquim de Campos Medeiros e Albuquerque (1867-1934)
Fonte: <http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=4678&sid=453> Acesso: 22-11-2011
No livro de memórias Minha vida (1934), Medeiros e Albuquerque diz ter sido ele quem, ao regressar de Paris em 1906, lançara no Rio de Janeiro as conferências remuneradas, fazendo com que por elas se interessassem Bilac e Coelho Neto. Parece haver equívoco nessa data ou então essa classe de espetáculo já estava aqui em voga, antes da iniciativa de Medeiros, pois no Memorial do Rio de Janeiro, Ferreira da Rosa, reportando-se a jornais da época, alude às “conferências literárias” do Instituto Nacional de Música, a dois mil-réis a entrada, em 1905: “Enchia-se o recinto de senhoras e de homens – escreve ele – para ouvir Coelho Neto sobre “as grandes figuras da Bíblia”; Bilac, sobre a “tristeza dos nossos poetas”, Bonfim sobre o cinema; Nepomuceno sobre “a música popular desta terra”; Medeiros e
Albuquerque sobre o “pé e a mão”. Simões Lopes Neto não dista muito desse espírito quando fala sobre as “pedras” 271 ou as “joias” 272
.
De qualquer forma, é certo que o sucesso extraordinário das conferências pagas, fez com que elas se tornassem – na própria expressão de Medeiros e Albuquerque – “uma epidemia insuportável”. A “mania” se foi alastrando de tal modo que chegou até a invadir setores extraliterários: anunciava-se tanto palestras sobre os assuntos mais extravagantes, quanto outras que enfeixavam temas da maior importância para a vida nacional.
Geralmente, porém, o que prevalecia eram as divagações de pura forma, floreios literários inconsequentes, realçados pelo jogo cromático das antíteses. O modelo cultural da época era a França. A despeito disso, na literatura francesa não se plasmaram páginas como as que vários conferencistas aqui reuniram em livro. Lendo-as atualmente se vê como soam falso, como eram feitas, de modo geral, para atender ao gosto de um auditório fútil, de cultura superficial, corrompido pela frase rebuscada que, afinal das contas, não passava de literatice. Não seria demais ver em muitas conferências nos moldes aludidos uma expressão inferior do parnasianismo. Tais peças oratórias eram feitas com pirotecnias de linguagem semelhante ao da poesia parnasiana, havendo até identidade de vocabulário. Atentemos para alguns temas: “A tentação”, ”A dança”, “A noite e o dia”, “A mulher”.
Medeiros e Albuquerque procura justificar a superficialidade em que incorria a maior parte dos conferencistas pelo público extremamente heterogêneo a que eles deviam satisfazer:
As salas se enchiam, sobretudo, de senhoras e mocinhas muito gentis, muito encantadoras, mas que não possuíam nem instrução regular, nem, por isso mesmo, preocupação literária de espécie alguma. Tinham vindo à cidade passear ou fazer compras e aproveitam a ocasião para ir ouvir a conferência do dia. Mas a essas senhoras se juntam médicos, advogados,
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Pedras, conferência proferida no clube Congresso Português, de Pelotas, em 13-01-1910. Publicada no Correio Mercantil, Pelotas, de 17 a 22 de janeiro de 1910.
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As jóias, conferência proferida no clube Congresso Português, de Pelotas, em 11 de novembro de 1911. Foi proferida na então vila de São Lourenço. Está inédita. O manuscrito existe, todavia encontra-se indisponível. Estava entre os papéis do célebre Baú de Dona Velha, agora em poder do bibliófilo Dr. Fausto Leitão Domingues, o qual paulatinamente vai disponibilizando seu conteúdo aos pesquisadores. Para mais detalhes vide: LIEGE, Cassio; MORAN, Paula. Os inéditos de João Simões Lopes Neto. Folha do Instituto João Simões Lopes Neto, Pelotas, ano 2, n. 2, pp. 4-5, fev./mar. 2013.
engenheiros ilustres, estudantes, homens de letras. Havia de tudo. Se, portanto, o conferencista elevasse o nível da sua palestra, a grande maioria da sala não o compreenderia. Daí a necessidade de satisfazer principalmente à parte fútil, sem, entretanto, deixar de dar alguma satisfação à outra. 273
O êxito do gênero resultou, principalmente, de seu caráter mundano. Tratava- se de uma reunião social, em que as mulheres, geralmente, iam com o espírito com que se vai ao chá-dançante, e os homens acorriam, em boa parte, para ver as mulheres. Além do que, uma circunstância importantíssima pesava no caso: em Paris se fazia assim.
Os escritores se inclinavam para o gênero, não somente pelo lucro financeiro, mas também porque nessa época, em que o sensacionalismo começava a se implantar em nossas letras, e ainda não se dispunha do sistema de propaganda literária como o atual, pronunciar uma conferência consistia em um dos melhores meios de obter visibilidade.
Figura 6 - Olavo Bilac (1865-1918)
Fonte:<http://www.etno.com.br/blog/2012/12/a-poesia-rica-de-olavo-bilac/>Acesso: 11-09-2011
Segundo Medeiros e Albuquerque, Bilac foi o mais popular dos intérpretes desse curioso espetáculo mundano: “Tinha uma voz muito bem timbrada. Lia e dizia de um modo perfeito”. A julgar pelo que as conferências rendiam, Medeiros e Albuquerque seria o segundo colocado, vindo depois Coelho Neto, aquele, “cuja
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forma se mostrava incontestavelmente a mais perfeita, mas cuja linguagem, por isso mesmo, não era acessível a muita gente”.
Os conferencistas excursionavam também pelo interior do país, onde a moda, por sua vez, passou a ter igualmente os seus cultores. Tornou-se famosa a viagem de Coelho Neto ao Rio Grande do Sul, em 1906, promovida por Alcides Maya e Gregório da Fonseca. O autor de A Capital Federal (1893) foi acolhido com entusiasmo nas diversas cidades que visitou, principalmente, Pelotas 274 e Porto Alegre.
Mas nem sempre encontravam uma atmosfera unânime de aplauso os conferencistas em excursão pelos estados. Osório Duque-Estrada, visitando o Nordeste, foi chamado de “estradeiro” em Fortaleza pelo Unitário, jornal de João Brígido. Sebastião Sampaio, que se apresentava como discípulo de João do Rio e autor de um livro - Tortura do Real - teve sorte bem pior na capital cearense, por onde andou em 1908, como redator da Gazeta de Notícias, encarregado de uma espécie de enquete sobre o Nordeste e realizando conferências. João Brígido apelidou-o de Ser-bestião. Numa palestra no Clube Iracema, quando aludiu aos “luares verdes da terra de Iracema” provocou apartes e vaias por alguns estudantes.275
Dessa maneira, havia aspectos pitorescos, quase anedóticos, que envolviam o universo cultural das primeiras décadas do século XX. A implantação de um jornalismo de múltiplas faces, em que atuavam intelectuais de nomeada, não pode excluir a análise das conferências públicas (pagas ou não) como verdadeiro fenômeno educacional.
As conferências eram um gênero que não apenas despertava expectativas diferentes nos diversos públicos que acorriam às palestras (divertimento, socialização do elemento feminino, informação científica e debate das causas patrióticas), mas também nos próprios conferencistas que tinham de enfrentar um
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Para mais detalhes vide DUVAL, Paulo. Coelho Neto em Pelotas. Diário Popular, Pelotas, 25-12- 1968.
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meio adverso, de um lado, devido a um público pouco letrado, e, de outro, pelo círculo restrito que levava essas atividades a sério, mesmo quando eram proferidos discursos sobre temas relevantes. Apesar disso, grandes campanhas educacionais, como o périplo do Velho Capitão pelo interior do Rio Grande do Sul, a cruzada de Olavo Bilac, ou a campanha de Coelho Neto em prol dos esportes e da eugenia foram feitas por meio de conferências, cujo apelo era o “patriótico-educacional”.
3.1.3 Questões gerais sobre os problemas educacionais do Brasil que eram tratados