Definidas quais as fontes e qual o objeto da pesquisa se tratou de encaminhar o desenvolvimento da análise, Nesse processo, além de contar com os arquivos organizando toda a documentação e com as fichas de leitura, foram construídos dois quadros: um de comentadores e outro de termos-chave, aos quais se acrescentaram observações ou comentários sobre possíveis relações com as questões da pesquisa. Tornou-se premente contextualizar com maior adequação os conceitos
216 As “Diárias” funcionavam como uma espécie de editorial no Correio Mercantil. 217
Para uma visão sintética das atividades comerciais e industriais do Velho Capitão vide: CÉSAR, Guilhermino. Os bons negócios do Capitão João Simões. Correio do Povo, Caderno de Sábado, 15- 06-1974. Para mais detalhes vide REVERBEL, Carlos. Um capitão da Guarda Nacional. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1981, pp. 120-173. Para outras abordagens vide: BORGES, Luís. Além fronteiras: o
empreendedor João Simões Lopes Neto. Disponível
em<http://www.vivaocharque.com.br/interativo/artigo19.htm>Acesso:
16-01-2012, e MONQUELAT, A. F.; PINTO, G. A fábrica Diabo de João Simões & Cia. Diário da Manhã, Pelotas, 07-08-2012.
218
DINIZ, Carlos. João Simões Lopes Neto, uma biografia. Porto Alegre: AGE, 2003.
219
REVERBEL, Carlos. Um capitão da Guarda Nacional. Vida e obra de J. Simões Lopes Neto. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1981.
utilizados, considerando valiosa a identificação das referências teóricas em que me pautava para tratar de determinado assunto.
Do ponto de vista quantitativo foi averiguada a frequência com que os diversos tópicos ou assuntos, conceitos e autores apareciam no corpus pesquisado, cruzando-o como o quadro cronológico, a fim de observar abandonos e recorrências. Qualitativamente foi possível identificar as principais influências teóricas que subsidiaram sua produção educacional: basicamente Silvio Romero 220, Afonso
Celso e José Veríssimo e Manoel Bomfim221.
Na organização dos textos de Simões Lopes Neto, a ficha de cada um deles continha as seguintes informações: (1) título; (2) data; (3) número de páginas; (4) com ou sem ilustrações; (5) manuscrito ou não; (6) inédito ou não; (6) número de edições; (7) registro completo das edições; (8) qual a que eu recolhera ou utilizara; (9) breve descrição; (10) outras observações Em um anexo, com o objetivo particular de mapear de onde o autor tirara os elementos teóricos para construir suas posições pedagógico-político-educacionais, registrei outras informações, entre as quais: (1) autor citado; (2) localização no texto; (3) contexto da citação; (4) a própria citação; (5) número da página da citação; (6) se possível, identificar a referência; (7) idioma da citação; (8) em que idioma constava e (9) outras observações. Em alguns casos, foi incluída a citação do próprio João Simões Lopes Neto referindo-se a um autor, seja apresentando suas ideias, seja expressando opinião sobre ele, sem fazê-losob a forma de citação direta.222
Estruturaram-se de modo semelhante os fichamentos 223 de termos-chave,
tendo por propósito instrumentalizar a análise dos conceitos fundamentais apresentados nos documentos. Nessa etapa, buscou-se construir certos os núcleos conceituais, que atendiam à caracterização da pesquisa. Num estágio inicial, foram grifadas, nos textos, palavras e frases que sintetizavam um conceito, apontavam
220
Para mais detalhes vide BORGES, Luís. O projeto cívico-pedagógico de João Simões Lopes Neto. Pelotas: UFPEL, 2009, pp. 62-76.
221
LOPES NETO, J. S. Educação Cívica. Pelotas: União Gaúcha de Pelotas, Centro Gaúcho de Bagé e Grêmio Gaúcho de Porto Alegre, 1906, p. 4.
222
Para conferir a ficha, vide Apêndice D.
223 MEDEIROS, João Bosco. Redação científica: a prática de fichamento, resumos e resenhas. 4ª edição. São Paulo: Atlas, 2000.
uma proposta, definiam uma concepção ou simplesmente expressavam uma ideia que parecia ter relevância no bojo do assunto.
A leitura seguiu duas linhas: uma cronológica e outra, a partir das fichas, organizada por núcleos temáticos e conceituais. No decorrer do processo de releitura, alguns elementos foram destacados, representando um conceito-chave. Eventualmente, fiz anotações à margem das cópias dos documentos. Essas anotações nem sempre constavam nas fichas de leitura, quadros de autores e anexos, desta maneira, algumas vezes, cotejava ambos, de forma a poder reorientar o levantamento dos aspectos centrais da pesquisa e manter-me no foco. A seleção dos termos-chave foi definida em razão de dois fatores: (1) frequência de determinado segmento, em geral constituído por um conjunto de algumas palavras representando uma ideia e (2) associado ao primeiro, o segundo fator considerava os contextos em que tais segmentos se apresentavam.
A partir dessa operação passei aos processos de codificação. Na Grounded Theory chama-se codificação a todo procedimento operacional das ferramentas analíticas 224. Há dois tipos de codificação, a saber, a aberta e a axial. A aberta é
aquela em que há um processo analítico, por meio do qual os conceitos são identificados, bem como suas propriedades e suas dimensões.225 Assim, não é
exatamente um procedimento, uma técnica, mas um princípio. A codificação aberta é uma maneira de pensar dinamicamente o processo analítico, deixando espaço para modificações e adaptações, em função dos dados coletados e que, porventura, possam gerar novas inferências as quais, por sua vez, podem alterar o delineamento e até mesmo as conclusões da pesquisa.
A codificação axial é o processo de relacionar as categorias 226 e as
subcategorias. É chamada axial porque funciona em torno do eixo de uma categoria principal. Por exemplo, privilegiamos “progresso”, segundo a noção positivista, como categoria principal, no entanto, para que possamos compreender a filosofia da história que a fundamenta (subcategoria).
224
BLUMER, H. Symbolyc interacionism. Englewood Cliffs: Prentice Hall, 1969, p. 153.
225
Idem, ibidem, p. 154.
226
O objetivo da codificação axial é viabilizar o processo de reagrupamento dos dados classificados durante a codificação aberta, conforme declara Strauss:
Dentre as mais importantes opções a serem feitas durante os trabalhos iniciais está a de codificar de maneira intensiva e articulada em torno de categorias simples. Na medida em que fez isso, o analista constrói maior densidade de relações em torno do eixo da categoria principal. 227
Em termos de procedimento na Grounded Theory, codificação é o ato de articular categorias e subcategorias ao longo de suas propriedades228 e
dimensões229. Ela permite ao pesquisador examinar como as categorias se cruzam e
se associam. Uma subcategoria é ainda uma categoria, porém, seu papel não é o de representar o problema enfocado, mas o de estabelecer condições para que o pesquisador construa os nexos explicativos que operacionalizam a categoria. Feito isso, resta ao pesquisador integrar categorias e conceitos para refinar a sistematização teórica que fundamenta e enfoca a questão de pesquisa.
Na presente tese ao erigir como fulcro o pensamento social de João Simões Lopes Neto e suas relações com a educação, especialmente como se apresentava na conferência Educação Cívica, procurou-se realizar uma codificação em diversas categorias e subcategorias, tais como “nacionalismo”, “folclore”, "miscigenação", “progresso” (categorias) concepção de história, papel do folclore e urbanização, teorias raciais (subcategorias).
Seguindo o roteiro já descrito anteriormente, para refinar e integrar a base teórico-metodológica que sustenta a tese, se buscou construir um modelo lógico- conceitual coerente.230