O interesse de pesquisadores no telejornalismo brasileiro tem possibilitado valiosas contribuições para o melhor entendimento do assunto. Neste estudo, em particular, optou-se pela análise de algumas das características das matérias telejornalísticas que se mostraram relevantes para a análise da divulgação de CT&I. A partir desse pressuposto, o telejornal foi analisado em relação a três aspectos: 1) critérios de escolha dos assuntos (valores-notícia), 2) o caráter sens acionalista e espetacular das matérias apontados por estudiosos e 3) o papel educativo das matérias sobre CT&I dos telejornais.
Os valores-notícia em telejornalismo
Diversos pesquisadores (LAGE, 2001; KOVACK & ROSENSTIEL, 2003; WOLF, 2003; ERBOLATO, 1991; CHAPARRO, 1994; KUNCZIK, 2002) contribuíram para a identificação de valores-notícia em Jornalismo. Entre os principais critérios sistematizados, de modo geral, pelos autores, estão: novidade, proximidade geográfica do fato, oportunidade, raridade, interesse pessoal e econômico do assunto, conflito, humor, progresso, impacto social provocado pelo fato, importância do assunto e identificação humana.
Silva (2005, p. 96) define noticiabilidade (newsworthiness) como todo e qualquer fator potencialmente capaz de agir no processo da produção da notícia, desde características do fato, julgamentos pessoais do jornalista, cultura profissional da categoria, condições favorecedoras ou limitantes da empresa de mídia, qualidade do material, relação com as fontes e com o público, fatores éticos e também circunstâncias históricas, políticas, econômicas e sociais. Trata-se, segundo a autora, de um conjunto de elementos por meio dos quais a empresa jornalística controla e administra a quantidade e o tipo de acontecimentos e o conjunto de elementos intrínsecos que demonstram a aptidão ou o potencial de um evento para ser transformado em notícia. Para a autora, os critérios de noticiabilidade em Jornalismo baseiam-se em três instâncias:
1) critérios de noticiabilidade na origem do fato, considerando os atributos intrínsecos ao fato.
2) critérios de seleção no tratamento dos fatos, centrando-se na seleção hierárquica dos fatos e levando-se em conta fatores inseridos dentro da empresa jornalística, tais como prazo de fechamento, qualidade do material apurado e infra-estrutura disponível.
3) critérios na visão dos fatos, a partir de fundamentos éticos, filosóficos e epistemológicos do Jornalismo, como verdade, objetividade, interesse público, imparcialidade, que orientam as ações e intenções de jornalistas e da empresa de mídia.
A partir dessa conceituação, Silva (2005, p. 104) propõe um conjunto de valores-notícias para operacionalizar análises de acontecimentos noticiáveis/noticiados. São eles: impacto, proeminência (das pessoas envolvidas no fato), conflito, entretenimento/curiosidade, polêmica, conhecimento/cultura, raridade, proximidade, surpresa, governo (interesses e medidas governamentais), tragédia/drama, justiça (julgamentos, denúncias, apreensões). No caso do telejornalismo, os critérios de seleção dos fatos para serem noticiados nos telejornais também refletem diversos interesses, tendo em vista que os meios de comunicação são empresas que precisam vender seus produtos e, no caso do Jornalismo, as notícias são os produtos (MEDINA, 1988). Um dos critérios mais polêmicos de seleção das notícias refere-se aos interesses corporativos das empresas jornalísticas em detrimento do interesse público. “O
horizonte de decisões empresariais e as estratégias de cobertura jornalística têm de levar em conta os interesses corporativos em escala transnacional, particularmente os interesses da mídia americana” (ARBEX Jr, 2001, p. 99).
A seleção de fatos que se tornarão notícias nos telejornais, segundo Arbex Jr (idem), obedece aos critérios estipulados pela própria empresa jornalística nas relações que estabelece com as diversas esferas sociais de que faz parte.
´Fatos´ e ´notícias´ não existem por si só, como entidades “naturais”. Ao contrário, são assim designados por alguém (por exemplo, por um editor), por motivos (culturais, sociais, econômicos, políticos) que nem sempre são óbvios. Mas essa operação fica oculta sob o manto mistificador da suposta ´objetividade jornalística´
(ARBEX Jr, 2001, p. 103).
A empresa jornalística, para Baccega (2003, p. 26), desempenha uma “mediação organizativa”, que leva em consideração o público receptor – procurando selecionar o que há de mais conveniente tanto para os interesses da empresa quanto para o perfil médio do público.
Se é verdade que o receptor (enunciatário/enunciador) mobiliza seu universo cultural para interpretar o que aparece nos meios de comunicação, seja de que gênero for, também é verdade que temos de levar em conta em nossas reflexões a mediação, o filtro que antecede o que ele está vendo, ouvindo ou lendo: a mediação no campo da produção. Ele só interpretará aquilo que chegou ao seu conhecimento. E aquilo que chegou ao seu conhecimento foi escolhido, no âmbito da produção, levando em conta vários aspectos, sobretudo a orientação da empresa detentora daquela mídia
(BACCEGA, 2003, p. 26).
As escolhas dos jornalistas e as rotinas produtivas das equipes dos telejornais também incorporam os valores- notícias. “Não se pode entender os critérios de seleção só como uma escolha subjetiva do jornalista, mas como um componente complexo que se desenrola ao longo do processo produtivo. Critérios esses que estão relacionados com a própria noticiabilidade do fato” (VIZEU, 2006, p. 21).
A noticiabilidade de um fato é constantemente negociada entre a equipe de produção de produção do telejornal. “O editor-chefe negocia com a sub-chefia de reportagem e com os editores de texto os fatos que podem ser noticiáveis” (VIZEU, 2006, p. 21-22).
Algumas características atribuídas ao fato também fazem parte dos critérios utilizados para determinar se um fato é ou não notícia no telejornal. Temer (2003, p. 42) avalia que os critérios de noticiabilidade perpassam a seleção de fatos pelo interesse público que despertam, pela carga emocio nal ou pelo aspecto hilariante. Com isso, “a notícia passa a ser narrada com uma certa interpretação e até dramatização”.
Para Marcondes Filho (2002), tais critérios levam em conta o caráter sensacional que o fato pode proporcionar. “Há, naturalmente, um consenso no meio jornalístico que o fato tem de ter algo de espetacular ou sensacional, tem de trazer emoção e testemunho” (p. 107).
A escolha dos fatos atende, ainda, ao aspecto da espetacularidade. “Escolhem-se fatos que possam ser, eles próprios, verdadeiros espetáculos de imagens, de emoções construídas, de
resgate de sentimentos às vezes ocultados pelo público e que encontram espaço, desse modo, para se expandir” (BACCEGA, 2003, p. 25).
Para Marcondes Filho (1994), no telejornal a informação pura e simples já não é tão importante, mas é a encenação da informação que toma o lugar principal. “Valem mais os efeitos de choque, de impacto, de êxtase, de tensão desenvolvidos em estúdio do que os desdobramentos políticos ocorridos no local da ação” (idem, p. 49-50).
A carga emotiva atribuída ao fato também é um dos critérios para a seleção de notícias nos telejornais. Para Orozco Gómez (2005, p. 30), a apelação emotiva é um recurso televisivo resultante da combinação de suas possibilidades técnicas de imediatismo, de provisão de imagens e de ênfase discursiva que permitem à TV fazer associações audiovisuais que não obedecem a uma lógica tradicional de narração oral ou escrita, mas que conduzem a outros tipos de padrões, de acordo com o que alguns teóricos da comunicação denominariam de “racionalidade eletrônica”.
Em relação às matérias específicas sobre Ciência, Tecnologia e Inovação, Burkett (1990) avalia alguns critérios relevantes de seleção de fatos para a publicação nos meio de comunicação.
1. Senso de oportunidade: ocorre quando acontecimentos considerados “velhos” (num passado próximo ou distante) para serem noticiados, voltam a despertar interesse porque um fato do presente tem ligação com aquele do passado. Dessa forma, o fato atual proporciona um “gancho noticioso” para que a história perdure. Para o autor, o senso de oportunidade na reportagem científica significa mais do que simplesmente imediatismo. Pode acontecer hoje um evento que requeira uma olhada nas notícias de ontem.
2. “Timing”: este critério está intimamente relacionado com o senso de oportunidade e refere- se à ocorrência de algum evento estranho à Ciência. O autor cita o exemplo de publicar no Natal uma matéria baseada em uma nova pesquisa sobre melancolia natalina.
3. Impacto: ocorre quando a notícia afeta amplamente o público. De acordo com o autor, uma história científica trivial pode vir a ser publicada em todo o mundo quando os redatores e editores percebem que irá interessar um grande segmento de seus leitores. Para Burkett (idem, p. 51), uma doença mortal ou debilitante pode não merecer atenção especial tanto da Ciência quanto dos veículos de comunicação quando o número de pessoas afligidas por ela é pequeno demais para chamar a atenção dos jornalistas ou daqueles que distribuem as verbas de pesquisa.
4. Significado: o significado de alguma coisa para a Ciência precisa ser mostrado a partir do significado que este tem para o público, o que pode fazer com que uma matéria seja publicada. O autor exemplifica com a descoberta de um novo fenômeno, tal como um buraco negro, ou a confirmação de algum evento ou fenômeno predito por uma das grandes teorias, tal como ondas de gravidade. Tais acontecimentos estimulam a imaginação embora não afetem diretamente a vida das pessoas.
5. Pioneirismo: pioneiris mo e singularidade, segundo o autor, trazem em si a novidade, o furo noticioso. Ser o primeiro em uma descoberta ou teoria é o objetivo da pesquisa. Os primeiros são notícia.
6. Interesse humano: segundo o autor, este critério é encontrado em matérias que apelam às emoções. O interesse humano, de acordo com Burkett (1990), está presente em matérias sobre pessoas, mas também sobre animais. Relacionado à história de interesse humano está o perfil de personalidades e, inclusive, de histórias de cientistas.
7. Cientistas célebres: uma parte do perfil de personalidade é a entrevista de uma celebridade ou autoridade. Poucos cientistas, segundo o autor, são tão reconhecidos pelo nome ou pelo rosto quanto os atores ou outras pessoas consideradas celebridades. Por outro lado, há um grande número de cientistas cujos escritórios e/ou realizações projetam status e poder. Tais pessoas merecem atenção por seus pontos de vista e pela sua compreensão das representações do poder.
8. Proximidade: quanto mais perto o público está do local de um evento, mais provável que o público e os editores considerem o fato de interesse noticioso. Esse aspecto contribui para tornar as relações entre cientistas e jornalistas muito sensíveis. Primeiro porque a significação da proximidade pode superar a significação (a importância) para a Ciência. Segundo porque a ocorrência de um evento especial pode testar ou afiar as habilidades do jornalista. Quando uma organização científica ou médica local, estadual ou nacional se reúne numa cidade, os veículos locais irão relatar a reunião. Isso leva jornalistas das mais variadas origens, experiências e habilidades ao contato com cientistas especializados. Quanto maior um veículo, menos o valor noticioso se prende apenas à proximidade. Uma terceira conseqüência da localização é que os jornalistas procuram os cientistas locais para explicar o trabalho de outros cientistas e comentar assuntos envolvendo Ciência, Tecnologia e Inovação.
9. Variedade e equilíbrio: a variedade e o equilíbrio entre os assuntos, segundo o autor, são fatores fortes que determinam o conteúdo dos jornais, revistas e transmissões noticiosas, porque cada um deles está limitado seja pelo tempo, seja pelo espaço ou por ambos. De acordo com Burkett (1990), o material científico pode ser empurrado para fora pela política. Uma matéria sobre astronomia será equilibrada com uma matéria sobre Medicina mais provavelmente do que com outra história sobre uma das Ciências Físicas.
10. Conflito: para o autor, conflito é um componente de seleção de notícias. O conflito pode ser pessoal ou estar oculto nos interesses dos envolvidos e emergir a partir dos objetivos da pesquisa e dos testes. Pode envolver, também, aspectos mais amplos, como a ética e as normas públicas.
11. Necessidade de sobrevivência: são matérias ou temas que tratam de aspectos fundamentais de sobrevivência, como alimentação e moradia, transporte básico, saúde, e segurança pessoal, sexo, e algum nível de contato social.
12. Necessidades culturais: matérias que tratam do “estilo de vida” ou das necessidades culturais despertam interesse do público, depois que as necessidades de sobrevivência são satisfeitas. Os temas nessas áreas incluem, segundo o autor, as melhores escolhas nutricionais, melhorias nas condições de trabalho ou escolha de carreira. O sexo e a sexualidade podem, da mesma forma, ser examinados em termos de qualidade.
13. Necessidade de conhecimento: trata-se da satisfação da curiosidade em torno da própria sociedade. Para o autor, essa necessidade pode estar ligada, no que se refere à Ciência e à Tecnologia, a possibilidade de crescimento em áreas pessoais e econômicas ou a
desenvolvimento oferecendo novas possibilidades de carreira. Podem ser encaradas como entretenimento apenas de modo marginal, embora as pessoas aprecie m a variedade.
Para Weingart (1998) a reputação da pesquisa científica (e da Ciência) é um dos critérios de seleção das notícias de CT&I nos meios de comunicação: a reputação da Ciência algumas vezes compete com (e em outras orienta) sua proe minência na mídia.
Tomando como base os telejornais nacionais de horário nobre de canal aberto (Jornal da
Band, Jornal Nacional, Jornal da Record, Jornal da Cultura e SBT Brasil), a partir das
amostras estratificadas selecionadas para análise (maio de 2005 e maio de 2006), é possível identificar, nas matérias sobre CT&I, os critérios de seleção apontados por Burkett (1990), Weingart (1998) e Silva (2005).
É importante ressaltar que tais critérios não definem per se a escolha das matérias para veiculação nos telejornais, visto que outros critérios interpõem-se entre o fato e o público (já descritos acima), mas apontam características das matérias capazes de atrair a atenção das equipes dos telejornais, tendo em vista os interesses das empresas jornalísticas e dos públicos de tais programas.
Os critérios de seleção dos fatos não são excludentes entre si, ou seja, uma matéria pode despertar o interesse da equipe de Jornalismo de determinada emissora por diversos motivos simultaneamente. No entanto, para sistematizar as informações, optou-se por identificar o critério principal em cada matéria. É importante frisar, ainda, que tal classificação não esgota as possibilidades de interesse das matérias sobre CT&I nos telejornais.
Dessa forma, a partir das contribuições Burkett (1990) e de Weingart (1998), além da sistematização proposta por Silva (2005) para o Jornalismo em geral – que pode ser adaptada ao telejornalismo – e aplicadas às matérias veiculadas pelos telejornais brasileiros de horário nobre, referentes às amostras de maio de 2005 e 2006 desta tese (no total de 44 matérias), é possível aferir que:
• Das 12 matérias veiculadas pelo Jornal da Band, três delas tinham o interesse humano como critério principal de noticiabilidade, uma a proximidade , uma o conflito de interesses, uma a necessidade de sobrevivência, três as necessidades de conhecimento, duas o entretenimento /a curiosidade despertada pelo assunto e uma a raridade .
• No caso do Jornal Nacional, das 11 matérias levadas ao ar, uma delas tinha o senso de oportunidade como critério central de noticiabilidade, duas o interesse humano, uma o conflito, duas a necessidade de sobrevivência, quatro a necessidade de conhecimento e uma os investimentos do governo.
• Já no Jornal da Cultura, das 11 matérias veiculadas, uma delas tinha o pioneirismo como critério principal de noticiabilidade, quatro delas o interesse humano, uma a personagem, uma delas a proximidade , uma a variedade , uma o conflito, uma a necessidade de sobrevivência e uma a necessidade de conhecimento.
• No Jornal da Record, das sete matérias telejornalísticas sobre CT&I veiculadas, duas delas tinham o interesse humano como principal fator de noticiabilidade, uma delas a proximidade , uma o conflito de interesses, uma a necessidade de sobrevivência, uma a necessidade de conhecimento e uma os interesses/investimentos do governo.
• Das três matérias sobre CT&I exibidas pelo SBT Brasil, uma delas tinha o senso de oportunidade de divulgação como principal fator de noticiabilidade e duas delas a necessidade de conhecimento despertada pelo assunto.
Na tabela abaixo, estão classificadas as matérias veiculadas pelos telejornais (em quantidade) a partir dos respectivos critérios de noticiabilidade dos fatos, conforme classificações de Burkett (1990), Weingart (1998) e Silva (2005).