A leva de imigrantes que chegou ao Rio Grande do Sul entre 1911 e 1920 perfaz 27% da amostragem total, ou 203 pessoas dos 753 nomes selecionados. Uma característica importante dessa nova onda migratória é que os imigrantes vieram no intervalo que corresponde ao antes e o depois da Primeira Grande Guerra. Entre 1914 e 1918 praticamente não houve ingresso de estrangeiros no país. O Rio Grande do Sul, no entanto, continuou recebendo imigrantes através da fronteira com a Argentina e o Uruguai. Verificamos junto aos prontuários do Arquivo Nacional da existência para essa época de casos de imigrantes e descendentes de sírio-libaneses que haviam nascido ou obtido cidadania do outro lado da fronteira, antes de entrar no Rio Grande do Sul.
Na década de 1910, a leva de sírios do sexo masculino que ingressou no estado gaúcho, segundo nosso levantamento, aumentou ligeiramente em relação à década anterior, totalizando uma média de 2,3 homens para cada mulher, ou 61 mulheres e 142 homens. A média de idade na chegada ao Brasil, entre homens e mulheres, foi de 19 anos, dois anos a mais do que no período precedente, o que evidencia a chegada de familiares mais velhos do que os que os antecederam. Verificamos a presença nessa leva de duas pessoas de origem muçulmana e três de origem judaica (judeus sírios e/ou libaneses).
Uma característica da década de 1910 foi o nascimento de um número crescente de descendentes de imigrantes sírios. Da mesma forma, durante este período, vimos a chegada à vida adulta dos imigrantes que vieram ainda crianças, juntamente com os pais, nas levas anteriores. Esse contingente, que não consta de nossa listagem, alimentou no Rio Grande do Sul o fenômeno das migrações internas conhecido como “enxamagem”. Esse processo ocorre quando “esgotados os espaços territoriais das imigrações europeias nas ‘colônias velhas’, seus
contos e peças de teatro. Fonte: Correio do Povo, 24 jun. 2005, p. 8. Disponível em: <http://www.correiodopovo.com.br/jornal/A110/N267/PDF/Fim08.pdf>. Acesso em: 22 jan. 2017.
descendentes são estimulados a buscar novas fronteiras agrícolas, iniciando assim o ciclo da migração para as novas colônias”. (ZAMBERLAM et al., 2009, p.18).
Foi também durante esta década que encontramos alguns nomes de nossa listagem entre os sobrenomes de alunos matriculados nas melhores escolas da cidade, juntamente com os filhos de luso-brasileiros e descendentes de imigrantes alemães, italianos, espanhóis, portugueses e poloneses. O período corresponde a uma época de intensa movimentação, pois foi antes de estourar a Primeira Grande Guerra que se observou a maior movimentação de migrantes saindo do Oriente Médio em direção às Américas. Por causa da guerra, muitos sírios não puderam voltar a suas casas no Oriente Médio, sendo compelidos a se fixar no país enquanto o conflito mundial se desenrolava. Durante este tempo, formou-se em Pelotas, por exemplo,
uma importante comunidade sírio-libanesa232.
Um intelectual libanês-gaúcho que chegou nesta década foi Jorge Bahlis. O dramaturgo, historiador, romancista e, posteriormente, escritor comunista engajado era, por formação, contabilista, mas também professor de uma escola técnica profissionalizante que ele mesmo fundou na década de 1920 em Porto Alegre (MARTINS, 2012). De acordo com Martins (2012), Bahlis foi alfabetizado em espanhol quando sua família tentou se estabelecer no México. Com o fracasso de se fixar no México a família veio tentar a vida no Brasil, primeiramente em Campinas, onde Bahlis estudou no Seminário Adventista (NEQUETE, 2008). Bahlis chegou a Porto Alegre no início da segunda década do século XX com diploma superior na área contábil, o que, segundo Martins (2012), teria sido providencial para o seu sustento, pois lhe permitiu abrir na cidade um curso técnico profissionalizante, o Curso Rápido Comercial, no qual dava aulas de contabilidade e de outras matérias similares. De acordo com Martins (2012, p.74), Bahlis “era um homem de fino trato, que dominava os códigos que regulavam as práticas nos meios intelectuais brasileiros da época.”
Em sua fase de militância política se notabilizou em Porto Alegre por escrever textos e tê-los publicados com seu ideário contra o imperialismo e a favor da luta de classes e em defesa de seus ideais comunistas (MARTINS, 2012). Sua aproximação com o PCB ocorreu de modo indireto, através da Liga Anti-imperialista Pró-México, uma entidade controlada pelo Partido com objetivos políticos e culturais. Foi através desta entidade e de sua amizade com o
embaixador do México no Rio de Janeiro, que Bahlis foi nomeado, em 1932, cônsul honorário
daquela República em Porto Alegre233.
Jorge Bahlis foi o primeiro literato a engajar-se na luta comunista passando a fazer parte de um universo pouco frequentado por intelectuais. Entre aqueles que dividiam com Bahlis a direção da entidade é possível destacar um dentista e um advogado, além de outros companheiros já com alguma história na agremiação partidária.
Conciliando habilmente a vida profissional e intelectual, e ainda se valendo das amizades que cultivou em Porto Alegre, conseguiu elevar-se a uma categoria de muito poder simbólico e prestígio, mas também de autonomia e imunidade para expressar seus pensamentos, uma vez que foi nomeado cônsul do México no Rio Grande do Sul, tendo permanecido como diplomata durante as décadas de 1930 e 1940. A morte prematura em 1952 não impediu que sua produção intelectual se destacasse na época, criando um perfil de imigrante médio-oriental difícil de ser comparado a outros sírios e libaneses no Rio Grande do Sul.