De acordo com Simone de Beauvoir (1990, p.17), “a lei da vida é mudar e a velhice não é um fato estático; é o resultado e o prolongamento de um processo”. A autora questiona o que é envelhecer e responde que a ideia está ligada ao conceito de mudança. Mas a vida do embrião, do recém-nascido, da criança, é uma mudança contínua. Caberia concluir daí, como fizeram alguns, que nossa existência é uma morte lenta? É evidente que não. Semelhante paradoxo
desconhece a verdade essencial da vida: ela é um sistema instável no qual se perde e se reconquista o equilíbrio a cada instante; a inércia é que é o sinônimo de morte.
Norbert Elias (2001, p.69) acentua que a natureza especial da morte e sua experiência nas sociedades industriais não podem ser devidamente compreendidas sem o grande impulso da individualização estabelecida desde o Renascimento, que, “mesmo após muitas variações, permanece ainda hoje”. O caminho percorrido por este surto à individualização apresentou várias etapas. Nas fases iniciais, o sentido estava posto na ideia de vida sociável e morte solitária, pois se podia viver em alegria com os outros, porém o momento da morte deveria ser solitário. Elias assinala que uma pessoa ao perceber a aproximação da morte e que sua presença vai perdendo o sentido para os outros, experiência a vivência de estar verdadeiramente sozinho. Este estar sozinho, de que fala o autor, constitui uma das muitas variantes do conceito de solidão, que também pode significar o amor ferido de uma pessoa no passado, cuja lembrança no presente faz evocar as dores e suas marcas. “Desta forma, indivíduos assim atingidos, involuntariamente, ocultam seus sentimentos em relação aos outros, vivendo uma forma de solidão”. (ELIAS, 2001, p.69).
Elias Jorge, imigrante libanês que vivia sozinho, faleceu em Porto Alegre aos 82 anos de idade, em junho de 1940 (APERS, 1940). Antes, porém, doente, solicitou a presença em sua casa de um tabelião e de pessoas de sua confiança. Na presença do Dr. Tibúrcio de Azevedo Neto, de representantes do Clube Sociedade Libanesa – Nentalla Chemale, Abílio Allen e Miguel André, todos libaneses – e de uma testemunha, Luiz Bueno, brasileiro – escreveu o tabelião:
Recolhido ao leito, mas no pleno uso de suas faculdades de inteligência e falando claramente, foi dito que desejava testar, e que, para isso, fazia as declarações constantes dos itens que seguem: que nasceu na cidade de Beirute, capital do Monte Líbano, a 25 de julho de 1858, sendo filho legítimo de Fadul Barket e Maria Fadul Barket, e que na sua terra usava o nome de Elias Fadul Barket, mas que, desde sua vinda para o Brasil, adotou o nome de Elias Jorge. (APERS, 1940).
Na ocasião, Elias também declarou que chegara ao Rio Grande do Sul em 1884, aos 25 anos de idade. Sem descendentes, tinha, no entanto, algum dinheiro e era proprietário de um único imóvel, cuja escritura juntou ao testamento (APERS, 1940).
No fim de agosto do mesmo ano, o testamento foi aberto e, na sala de audiências, perante
o juiz, estavam presentes o menor Armando Martins do Vale224, assistido por seu pai e
224 A escolha do menino com herdeiro talvez tivesse ligação com uma certa Sophia Martins, viúva de 51 anos, cujos dados encontramos nos prontuários do Arquivo Nacional referentes ao ano de 1941. Nascida no Líbano em 1890, Sophia chegou a Porto Alegre em 1907, aos 17 anos. Também com sobrenome Martins, um casal de libaneses chegou em 1904. Ele, João Benjamin Martins, aos 24 anos de idade; ela, Zulmira Mattar Martins, com 18 anos. Em 1940, residiam em São Francisco de Paula.
representante legal, Alberto Martins do Vale, e os demais patrícios que compareceram ao ato da assentada do testamento. Conforme se verificou no testamento, o primeiro legado foi para a Sociedade Libanesa no valor de oito contos de réis, pagos em moeda nacional. Seu único imóvel, um terreno sobre o qual se erguiam três casas, Elias deixou para o menor citado (APERS, 1940).
Diante do testamento e da partilha dos bens de Elias Jorge, cabe indagar: O que pensa um imigrante depois de passadas quase seis décadas desde sua chegada à terra de acolhimento? Quais são as suas reais motivações e interesses no fim da vida? Vemos, neste caso, que o patrimônio acumulado em 57 anos de trabalho em Porto Alegre se resumiu em desejo e legado.
A este propósito, Norbert Elias (2001, p.76) aponta que “todos os grupos sociais e sociedades construíram ideias específicas e rituais correspondentes sobre a morte, que se tornam um dos aspectos do processo de socialização (...). A morte, seus significados e o tratamento dado aos moribundos seriam assim, segundo o autor, “parte de uma problemática relacionada à estrutura dos grupos e do tipo específico de coerção a que os indivíduos estão expostos”.
Ainda segundo Elias (2001, p.77),
há várias formas de os indivíduos lidarem com a ideia da finitude da vida: pode-se evitar a ideia da morte através da mitologização do final da vida, do encobrimento da ideia indesejada, pela crença na própria imortalidade ou encará-la como um fato da existência e ajustar a vida diante dessa realidade.
Foi assim, portanto, ajustando seus valores, que o árabe Elias deixou a vida. Para ele, o conceito de Nação passava pela rua Barbedo, na Tristeza, arrabalde da capital, mas também pela Sociedade Libanesa, no 4º Distrito de Porto Alegre. No fim da vida, o último desejo de um moribundo pode espelhar seus mais genuínos sentimentos de pertencimento e de justiça, que foram atendidos. Legando um bem imóvel a um menor, talvez um parente seu, quem sabe tenha promovido alguma espécie de justiça? Mas deixar dinheiro como herança para um clube étnico, ainda que na década de 1940 houvesse um forte sentimento nacionalista, nos parece que foi uma tentativa de reforçar a crença em seus valores, o sentimento de fazer parte de uma cultura, de um modo de vida. Com seu ato final, Elias apostou na perpetuação dessas ideias.
7 A IMIGRAÇÃO ÁRABE NO TEMPO, OS CLUBES ÉTNICOS E A SOCIABILIDADE DE SÍRIOS E LIBANESES
7.1 A PRIMEIRA LEVA DE IMIGRANTES
Como vimos ao longo deste trabalho, imigrantes sírios esparsos estavam presentes em caráter definitivo no Rio Grande do Sul desde as últimas décadas do século XIX. Nesse contexto, se levarmos em conta que, entre os 753 nomes que selecionamos no Arquivo Nacional, estão incluídos em grande parte os imigrantes árabes vivos na década de 1940, quando o cadastramento foi realizado, verificaremos que, na verdade, a seleção indica com precisão que os mais velhos – os mesmos que chegaram ao Brasil nas últimas décadas do século XIX, com idades entre 16 e 22 anos, como supõe a média etária de sua chegada ao Brasil, estariam com idades entre 66 e 72 anos na época do cadastramento.
Certamente essas pessoas, se não pioneiras, foram parte de uma leva mais consistente
de imigrantes médio orientais que chegaram ao estado gaúcho entre os anos de 1880225 e 1900.
Ainda há os casos de sírios que aqui chegaram nas últimas décadas do século XIX, permaneceram no Brasil parte de suas vidas e retornaram ao Oriente Médio no início do século XX. Foi este, por exemplo, o caso da família do entrevistado Antônio Karini, cujos avós, imigrantes libaneses com filhos nascidos em Pelotas no fim do XIX, voltaram ao Líbano por volta de 1930 com os filhos brasileiros já casados com descendentes. Karini nasceu no Líbano, mas é considerado brasileiro porque seus pais nasceram no Brasil. Ele veio pela primeira vez ao seu país de nacionalidade no fim da década de 1940, a tempo de prestar o serviço militar obrigatório. Aqui, ficou conhecido como Karini, o “soldado turco”.
Aqueles que chegaram antes, entre 1880 e 1890, imigrantes que foram parte da escassa leva de pioneiros, estariam com idades entre 72 e 78 anos na década de 1940. Contudo, a maior
parte daqueles que chegaram um pouco mais velhos, entre os 25226 e 30 anos de idade, nas
mesmas duas últimas décadas do século XIX, provavelmente já estavam mortos quando do
cadastramento227. Outra hipótese para o baixo índice de comparecimento ao cadastramento
daqueles que chegaram antes da Proclamação da República, em 1889, é que esses imigrantes,
segundo a Constituição de 1891, passaram a ser considerados naturalizados brasileiros
225 Embora nosso recorte temporal se inicie em 1890, a presença de imigrantes sírios e libaneses é registrada a partir de 1860.
226 Este foi precisamente o caso do libanês Elias Jorge, visto no capítulo anterior, que em 1940, aos 82 anos de idade, alegou ter chegado a Porto Alegre em 1884.
227 Lembrando que, como sabemos, a expectativa de vida no Brasil na década de 1940 não passava dos 50 anos de idade.
automaticamente caso decidissem ficar no país e não manifestassem desejo em contrário, estando por esse dispensados do comparecimento obrigatório à Polícia Federal.
Assim, revendo nossa listagem, encontramos nela apenas 26 indivíduos que chegaram ao estado nas últimas décadas do século XIX. A metade deles fixou residência na capital, enquanto a outra metade se espalhou pelas diversas regiões gaúchas. O Arquivo Público do Rio Grande do Sul guarda alguns processos de imigrantes sírios do século XIX que tiveram origem em algumas comarcas rio-grandenses da época, o que nos permitiu verificar para onde ao menos alguns daqueles imigrantes se dirigiram. Além da capital Porto Alegre, aparecem citados os municípios de Lagoa Vermelha, Cachoeira do Sul, Santa Maria, Cruz Alta, Santo Ângelo, Bagé, Rio Grande e Pelotas.