Les mesures pouvant contribuer à pallier la pénurie de greffons
3.2. Les mesures recommandées par la C.N.E
3.2.1. Une information, sensibilisation et formation systématiques de la population (mesure 1)
As afasias, de modo geral, são compreendidas como uma alteração de linguagem oral e/ou escrita, tanto em sua produção quanto interpretação, ocasionada por uma lesão estrutural adquirida no Sistema Nervoso Central em decorrência de tumores, traumatismos crânio-encefálicos ou acidentes vasculares cerebrais (COUDRY, 1988; MORATO, 2002; MORATO, 2012b). Tanto um modelo, quanto o outro acolhem essa definição, ainda que o biomédico volta-se para o caráter neuropsicobiológico das alterações linguísticas e o social para a relação constitutiva que se estabelece entre aspectos psicossociais e neurológicos.
Tradicionalmente, segundo afirma Morato (2001a, p. 153), em uma perspectiva estruturalista, as afasias são divididas em dois grandes grupos: “não-fluentes e fluentes, anteriores e posteriores, motoras e sensoriais.” O primeiro tipo é caracterizado por problemas de expressão (estereotipias, alterações fonético-fonológicas, perseverações, parafasias – principalmente fonológicas –, disprosódias, agramatismo, fala telegráfica, falta de iniciativa verbal, alteração de linguagem escrita, apraxia bucolabiolingual) e são atribuídas a lesões adquiridas na porção anterior do córtex cerebral.
As afasias pertencentes ao segundo grupo, ocasionadas por lesões adquiridas na porção posterior do córtex cerebral, geram problemas de compreensão e alteração nos aspectos semânticos da linguagem (dificuldades para evocar ou selecionar palavras, anomias, dificuldades mais elevadas com a linguagem escrita, parafasias –
especialmente semânticas – confabulações e circunlóquios), não havendo déficits articulatórios. Os déficits perceptivos e gestuais têm mais frequência e prevalência nesse tipo de afasia (MORATO, 2001a). Observa-se, nesse quadro geral, a presença de alterações de diversas ordens a afetarem processos linguísticos os mais variados, em grau de complexidade também oscilantes.
As afasias do tipo não-fluente – anteriores/motoras – estão relacionadas a lesões nas áreas anteriores do hemisfério cerebral esquerdo. Reunem-se sob esse rótulo a afasia de Broca, a afasia transcortical motora e a afasia semântica, havendo entre elas o comprometimento comum de aspectos relativos à expressão da linguagem, estando fatores referentes à compreensão relativamente preservados (MORATO, 2001a).
No campo da Neurolinguística, a afasia tem sido definida como um problema atinente à metalinguagem, ou, mais especificamente, como a alteração na capacidade de “realizar operações metalinguísticas” (JAKOBSON, 1981; LEBRUN, 1983), cujo foco está no manejo dos conteúdos linguísticos internos de caráter cognitivo e no controle referencial, isto é, lógico-semântico, da linguagem (MORATO, 2003).
Os distúrbios afásicos, segundo Jakobson (1981), consistem na deterioração da faculdade de seleção e substituição ou da faculdade de combinação e contexto. No primeiro caso, haveria uma alteração da capacidade de realizar operações metalinguísticas propriamente ditas, enquanto no segundo haveria uma dificuldade maior quanto à hierarquia das unidades linguísticas (como nos casos de agramatismo,
por exemplo).Segundo Jakobson (1981), os afásicos exibem dificuldades que tendem a
interferir ou na sua capacidade de selecionar unidades linguísticas ou na sua capacidade de combiná-las, as quais refletem no funcionamento dos eixos sintagmático e paradigmático. No eixo paradigmático, os problemas afásicos ocorrem na seleção e substituição de elementos linguísticos, enquanto a sua combinação e o contexto verbal estão relativamente preservados. Nesse eixo, a compreensão limita-se a situações concretas, diminuindo a possibilidade de recombinações semânticas ou abstratas, metafóricas. Por outro lado, no eixo sintagmático, os déficits afásicos são desencadeados na combinação dos elementos e no contexto verbal, de modo que a seleção e a substituição de elementos linguísticos se mantêm relativamente estáveis. Em tal eixo, há dificuldades na capacidade de combinar as unidades linguísticas.
Para ele [Jakobson], a metalinguagem é deficiente nos afásicos que apresentam uma desordem de similaridade; nesse caso, apesar das instruções, os sujeitos não podem responder à palavra estímulo do examinador com uma palavra ou uma expressão equivalente e carecem da capacidade de construir proposições equacionais. Então o contexto mostra-se decisivo neste tipo de distúrbio, pois o sujeito apoia-se na contiguidade para contornar seus problemas relativos ao processo de decodificação. A função metalinguística, aquela em que se usa a linguagem para falar sobre a linguagem (isto é, o código), seria da ordem da fala, e é concebida apenas como expressão externa de conteúdos internos ou do pensamento (MORATO, 2005, p. 260).
Assim, em termos jakobsonianos, podemos relacionar dificuldades no processamento metafórico (ou processo de metaforização) ao distúrbio da similaridade, e dificuldades no processamento metonímico ao distúrbio de contiguidade. Os quadros de afasia apresentados pelos participantes, como veremos, ainda que associados prioritariamente a um tipo e outro (participantes MN e LM, respectivamente), exibem, no entanto, elementos comuns aos “dois tipos de afasia” descritos na literatura neurolinguistica tradicional, a partir dos trabalhos pioneiros de Jakobson (MORATO, 2010).
De acordo com outro pioneiro dos estudos afasiológicos, Goldstein (1961), a afasia consiste em uma deterioração de natureza abstrata – concebida em termos de metalinguagem – que ocorre no caso de pessoas que sofrem determinadas lesões cerebrais. Segundo o autor, no contexto afásico, são comuns dificuldades para evocar palavras, bem como associar uma palavra a mais de um sentido e a mais de um objetivo; logo, o que está perdida é a capacidade de criar abstração. Nessa perspectiva, a conduta abstrata relativa à linguagem está diretamente associada a sua função representativa, portanto, de categorização mental.
Segundo tais concepções, o que estaria na base dos déficits linguísticos observados nos diferentes níveis da linguagem afásica seria a capacidade reflexiva concernente à língua, portanto, uma questão de competência (meta)linguística circunscrita a um domínio cognitivo. No entanto, a partir de uma perspectiva mais funcionalista, integrativa e sociodiscursiva, a afasia é concebida como uma questão de linguagem, ou seja, um problema de ordem essencialmente discursiva que não se reduz a níveis linguísticos, uma vez que abrange tanto a estrutura da linguagem quanto o uso que fazemos dela (MORATO, 2002).
Assim, segundo Morato (2005), nas afasias, tradicionalmente, e ainda hoje de forma predominante no campo dos estudos neurolinguísticos (ALSHÉN, 2006), os déficits de metalinguagem ou são atribuídos a problemas relativos ao pensamento abstrato, sob a perspectiva de Goldstein (1949), ou a alterações na capacidade de efetuar operações metalinguísticas, nos termos de Jakobson (1981).
Como observa Hebling (2009), o tratamento teórico focado na metalinguagem, não raras vezes circunscrita à função metalinguística (nos termos de Jakobson), reduz essa competência ao manejo meramente mental, o que estabelece uma forte distinção entre linguagem e metalinguagem.
Para entender o funcionamento da interpretação, especialmente a metafórica, no contexto das afasias, não podemos reduzi-la à habilidade metalinguística stricto sensu; o trabalho interpretativo diz respeito a uma competência pragmático-discursiva de atuar com e sobre a linguagem, a qual não estaria suprimida ou perdida no contexto afásico (MORATO, 2003; 2005).
A questão da metalinguagem é, de fato, fundamental para investigarmos a interpretação da metaforicidade, pois os fatores envolvidos na compreensão do fenômeno metafórico estão associados de forma direta à conceptualização e à referenciação. Quando interpretamos uma expressão metafórica, estamos relacionando conceitos distintos, mesclando diferentes categorias linguístico-cognitivas para construir uma outra, trabalhando com a linguagem em conjunto a outras cognições, indissociáveis a ela, processos contextuais, bem como bagagens de conhecimentos semânticos, pragmáticos, históricos e sociais de que dispomos. Para estabelecer as relações de significação necessárias entre referência e categoria, é fundamental a metalinguagem.
Como já salientamos, não atribuímos à metalinguagem apenas a sua dimensão metalinguística; de modo a expandí-la, tal qual Morato (2005), admitimos uma perspectiva discursiva do fenômeno, que o associa a uma “capacidade ‘mais ou menos’ consciente que os falantes têm sobre o uso que fazem da língua (e da linguagem)” (p. 248).
No que se refere às afasias, a forma como compreendemos a metalinguagem reflete o modo como entendemos e abordamos a competência relativamente à
linguagem nessa condição. O tipo de concepção de metalinguagem adotado deriva da dupla noção de meta, que, de acordo com Morato (2005, p. 246):
vinculada primeiro a uma competência de natureza inata e cognitiva, em Linguística, a ideia de “meta,” em geral, diz respeito tanto à atividade reflexiva da linguagem, isto é, a ação de tomar a si mesma como objeto, quanto ao caráter (psicotécnico, instrumental ou construtivo) de sua ação sobre outros domínios cognitivos, como a percepção, a memória ou os processos de julgamento.
A nossa concepção é de que o componente meta – que alude à metalinguagem, metacomunicação, metaformulação, metadiscurso, metaenunciação etc. – existe de modo integrado ao linguístico e à linguagem. Portanto, estando a reflexividade enunciativa vinculada aos processos de uso da linguagem, a metalinguagem desloca-se teoricamene “da esfera do mental para a esfera de diferentes e solidários processos de significação implicados nas numerosas práticas humanas” (MORATO, p. 252).
Nesse prisma, a metalinguagem, concebida em seu sentido forte (como estando integrada à linguagem e às suas circunstâncias discursivas e enunciativo-pragmática), atua de forma decisiva na constituição da metaforicidade. No que concerne ao presente estudo, essa atuação diz respeito tanto ao papel da metalinguagem na categorização e na construção referencial das expressões metafóricas, quanto na identificação e explicação dessas construções, haja vista a estruturação e o funcionamento do Protocolo por meio do qual coletamos os dados.
Ao considerarmos as formulações de Jakobson (1981), nas afasias, sobretudo as do tipo não-fluente ou anteriores/motoras, temos que as dificuldades para operar e selecionar unidades linguísticas comprometeriam as recombinações semânticas, abstratas, necessárias à referenciação metafórica, já que limitariam a compreensão a situações concretas.
No entanto, as expressões metafóricas variam com relação a sua configuração – algumas são mais convencionais, outras têm maior fixidez, há as que envolvem ambiguidade etc. – e, consequentemente, quanto a demandas de operações interpretativas. Se a hipótese de Jakobson estiver correta, pelo menos em termos sintáticos, a relativa preservação do eixo sintagmático deve influenciar o processamento metafórico.
Dessa maneira, se levarmos em conta que, do ponto de vista morfossintático, os provérbios são construções figurativas mais fixas, os idiomáticos intermediárias e as metáforas mais livres, poderíamos supor um continnum de desempenho interpretativo. Seguindo essa lógica, os afásicos teriam dificuldades maiores com os provérbios, medianas com os idiomáticos e menores com as metáforas. Já, em termos semântico- pragmáticos, podemos assumir que há uma estabilidade decrescente de sentidos entre idiomáticos, provérbios e metáforas, em que o primeiro tipo de expressão é mais estável, o segundo intermediário e o terceiro tem maior instabilidade. No entanto, a variabilidade sociocognitiva e pragmática dos tipos de expressões metafóricas associada ao caráter enunciativo da metalinguagem devem complexificar essas suposições.
Um outro aspecto da metalinguagem que estaria fortemente relacionado com a interpretação da metaforicidade é o tipo de manipulação dos elementos linguístico- semânticos constituintes de uma expressão metafórica, o qual seria importante para o funcionamento dos mecanismos de supressão15. Diante de uma construção figurativa,
interpretações literal e figurativa poderiam ser ativadas paralelamente, sendo necessária a atuação do mecanismo de supressão para enfraquecer a ativação da interpretação irrelevante (PAPAGNO et. al., 2003; PAPAGNO et. al., 2004). O mecanismo de supressão seria mediado por um sistema cognitivo executivo central (PAPAGNO et. al., 2003; PAPAGNO et. al., 2004), um subsistema responsável pelo recrutamento, bem como gerenciamento da manipulação de informações e operações – inclusive linguísticas – com representações que ocorrem na memória de trabalho (BADDELEY, 1986).
Explicações vinculadas às condições neurocognitivas implicadas nas afasias sugerem que déficits no mecanismo de supressão levariam a prejuízos executivos para inibir a interpretação literal, de modo a dificultar ou inviabilizar a compreensão metafórica (PAPAGNO et. al., 2003; PAPAGNO et. al., 2004; CACCIARI et. al., 2006). Isso ocorreria porque, nas afasias, recursos de processamento linguístico estariam alterados, o que demandaria maior envolvimento do sistema cognitivo executivo na realização de tarefas linguísticas, comprometendo mecanismos
15A supressão é um mecanismo cognitivo geral cuja finalidade é atenuar a interferência advinda da ativação de informações desnecessárias ou inapropriadas durante diversas operações cognitivas, inclusive a compreensão linguística.
atencionais e, frequentemente, impedindo a supressão adequada do significado literal (PAPAGNO et. al., 2004; CACCIARI et. al., 2006).
A transparência, a ambiguidade (PAPAGNO et. al., 2004; PAPAGNO; CAPORALI, 2007; CIÉSLICKA et. al., 2011) e a composicionalidade (PAPAGNO et. al.. 2004; MORAWSKI, 2009) incidiriam sobre a compreensão de expressões
idiomáticas. A familiaridade influenciaria a interpretação de provérbios
(ULATOWSKA et. al., 2000). A convencionalidade e a familiaridade repercutiriam na compreensão de metáforas (ULATOWSKA et. al., 2000).