Ao abordarmos as forças da motivação torna-se necessária uma referência a Maslow (1968) e à sua teoria da hierarquia das necessidades, sobre a qual este próprio autor lhe atribuiu uma visão holística, susceptível de aplicação universal nas diferentes esferas da vida.
Figura 2.7. – Hierarquia de necessidades de Maslow
Inferiores
Superiores
1. Fisiológicas – fome, sede, descanso, descanso, actividade
2. Segurança – protecção, libertação do medo e da ansiedade
3. Pertencer e amor – afeição, dar e receber amor
4. Estima – auto-estima e estima por outros
5. Auto-realização – realização pessoal
O modelo das necessidades de Maslow (Figura 2.7.) induz à consideração que só após a satisfação das necessidades de nível inferior, o ser humano é conduzido para os patamares de nível superior, pelo que à medida que as pessoas vão progredindo na escala das necessidades, as motivações transferem-se, em cadeia, para os patamares ascendentes localizados nos planos imediatos. Neste contexto, as necessidades fisiológicas serão as primeiras a influenciar os comportamentos individuais, enquanto que a auto-realização surge valorizada como o estádio máximo que um indivíduo pode perseguir. Tal como admite Cunha (2006), os contributos mais importantes desta teoria residem no facto de “
(…) chamar a atenção para os motivos de natureza social e de realização e, por outro, em concluir que a diversidade do grau hierárquico de uma necessidade varia consoante as situações das pessoas (…)”.
Algumas das proposições das teorias de Maslow foram objecto de contestação. Cooper et
al (2001), por exemplo, reconhecem que muitas teorias formuladas sobre a procura
turística foram construídas com base na abordagem de Maslow, já que a sua organização em torno de uma estrutura hierárquica compreensível trouxe “benefícios óbvios para os
teóricos do turismo”. Contudo, Cooper et al (2001) formulam as suas críticas sobre o
modelo utilizado por Maslow, evidenciando questões que ficaram por esclarecer por parte deste autor e relevando o sentido behaviorista da psicologia subjacente às suas ideias (a actividade humana aparece apenas ligada a aspectos pré determinados, compreensíveis e previsíveis de acção), em detrimento da consideração também da abordagem cognitiva, a qual “ (…) enfatiza os conceitos de irracionalidade e imprevisibilidade de comportamento
(…)”.
A influência que as transformações económicas, sociais, demográficas, culturais e políticas produziram no comportamento humano, nas várias épocas da história, também incidiram, por arrastamento, na evolução das motivações subjacentes às viagens turísticas, as quais revestem um carácter efémero e nunca definitivo.
No passado, até meados do século XX, os constrangimentos associados sobretudo à mobilidade das pessoas e ao rendimento disponível, impediu que uma das motivações humanas mais evidente se concretizasse, ou seja, a procura da diversidade e da variedade. Na actualidade, o panorama é completamente diferente, tendo-se alargado o leque de motivações que levam o homem a agir e também a viajar. Os progressos tecnológicos nos transportes, a melhoria das condições médias ao nível económico e social, as alterações demográficas, as conquistas no domínio dos tempos consagrados ao lazer, as mudanças de paradigmas nas sociedades e a penetração das tecnologias de informação e de comunicação, conduziram a que as práticas turísticas se generalizassem, transformando o turismo num fenómeno universal e não apenas exclusivo dos países industrializados. Concomitantemente, as transformações operadas numa parte significativa da sociedade induziram ao entendimento de que o ponto central das preocupações existentes evoluiu das questões económicas para a valorização dos aspectos humanos, sociais, culturais e ambientais, o que não poderia deixar de influenciar o comportamento e as motivações dos consumidores turísticos. Estas modificações geraram rotações nas preferências, nos hábitos e nas atitudes dos consumidores, pelo que as motivações turísticas, embora na sua génese se mantenham inalteráveis, passaram a revelar uma oscilação de predomínio e de hierarquia.
O conhecimento destes aspectos revela-se fulcral para a organização dos destinos na actualidade, já que face às características dos consumidores actuais, há que contrapor uma oferta baseada em produtos turísticos mais diversificados e personalizados, o que pressupõe a mobilização dos factores produtivos adequados, mas também o estabelecimento do planeamento e das parcerias público-privadas indispensáveis.
Ao nível da investigação sobre as motivações no turismo importa mencionar os contributos fornecidos por vários autores – Plog (1974), Dann (1977), Crompton (1979), Iso – Ahola (1982), Ryan (1988), Jamrozy e Uysal (1994), Fodness (1994), McIntosh, Goeldner e Ritchie (1995), Pearce (1995), Middleton (1996), Crompton e McKay (1997), Crompton (2003) e Pearce e Lee (2005) – cuja síntese consta do Quadro 2.15., reproduzido na página actual e seguinte.
Quadro 2.15. – A motivação no turismo
Plog (1974) Desenvolvimento de um modelo de classificação dos visitantes em função dos perfis psicográficos: psicocêntricos, semi-psicocêntricos, mesocêntricos, semi-alocêntricos
e alocêntricos. Nas duas categorias extremas consideram-se os psicocêntricos
(posteriormente designados pelo mesmo Plog como confiáveis, e que incluem os visitantes que concentram o seu comportamento nas preocupações pessoais e que têm um interesse reduzido pelo mundo exterior) e os alocêntricos (turistas que se interessam por um grande número de actividades e que gostam de contactos com outras culturas e países, bem como de lugares inéditos e desconhecidos; os
aventureiros para Plog), revestindo as outras tipologias características intermédias.
Dann (1977) Contributo para a abordagem das motivações turísticas de acordo com os conceitos
pull (atracção) e push (empurrão).
Crompton (1979) A procura da diversidade e da variedade foi sempre uma das características dominantes do comportamento humano, a que, hoje, o turismo permite dar uma satisfação em condições inexistentes no passado. Fornece um importante contributo
para examinar as motivações através do modelo “Push-pull”. Isso – Ahola
(1982)
Concebeu um modelo sócio psicológico das motivações básicas do lazer e do turismo, o qual assenta nas dimensões constituídas em torno da dicotomia evasão/descoberta; uma actividade de lazer proporciona recompensas psicológicas intrínsecas e o afastamento da rotina e dos seus problemas associados.
Ryan (1988) As suas teorias contestam a validade do modelo de Pearce (1995) sobretudo ao nível dos factores usados nos níveis da escala estabelecida.
Jamrozy e Uysal (1994)
A compreensão do consumidor está, assim, no âmago de uma prática de sucesso nas actividades turísticas e é importante compreender os visitantes e o seu comportamento para a competitividade turística global.
Fodness (1994) O conhecimento das motivações é essencial para o desenvolvimento dos produtos, para a avaliação da qualidade dos serviços e para o aperfeiçoamento da imagem e das actividades promocionais.
McIntosh, Goeldner e Ritchie (1995)
A partir do modelo de perfis psicográficos dos visitantes (Plog, 1974), estabelecem a ligação entre as tipologias de turistas e as características dos destinos, enfatizando a particularidade de uma pessoa poder viajar por motivos diferentes em cada deslocação; por outro lado, relevam a possibilidade da existência de destinos que possuam a capacidade de proporcionar uma variedade de experiências susceptíveis de agradarem a vários perfis de turistas.
Pearce (1995) O seu modelo assenta na premissa de que as pessoas têm um ciclo de vida comportamental nas viagens que reflecte a hierarquia dos seus motivos; no fundo, particulariza para o turismo a escala hierárquica das necessidades de Maslow. Middleton (1996) A determinação das motivações é necessária para saber em que se baseiam as
escolhas do consumidor na aquisição de viagens em vez de outras alternativas de compra.
(Continua) Fonte: Produção própria
Quadro 2.15. – A motivação no turismo (Continuação)
Crompton e McKay (1997)
O conhecimento das motivações é a chave para delinear a oferta; por outro lado, não faz sentido estudar a satisfação de uma forma autónoma em relação à motivação; a identificação das motivações é um elemento-chave para compreender o processo de decisão dos visitantes, pelo que facilita a eficácia das actividades de marketing. Consideram os seguintes domínios motivacionais: novidade, socialização,
prestígio, repouso, enriquecimento educacional, reforço das relações familiares e regressão.
Crompton (2003) Tentativa de adaptar as teorias de Herzberg, Mausner e Snyderman10 (1959) sobre os factores motivadores e higiénicos do trabalho à aferição da satisfação dos visitantes que procuram determinados eventos de impacto turístico.
Pearce e Lee (2005)
Em resposta ás críticas sobre o modelo de Pearce (1995), sugerem a sua reformulação passando a considerar um padrão de motivações múltiplas.
Fonte: Produção própria
Face ao leque de posições sobre a motivação associada ao turismo, Cooper et al (2001) reconhecem que não é fácil sistematizar as dimensões do conceito; contudo, adiantam três notas que consideramos não desprezíveis, ou seja, “ (…) a ideia de que as viagens estão
inicialmente relacionadas a necessidades (…)”; o reconhecimento de que “ (…) a motivação é baseada em aspectos sociológicos ou psicológicos de normas, atitudes, cultura e percepção adquiridas, levando a formas de motivações específicas de cada pessoa (…)” e, a constatação de que “ (…) a imagem do destino (…) irá influenciar a motivação e, posteriormente, afectar o tipo de viagem escolhida “.
Do cruzamento das perspectivas já focadas ganha consistência o entendimento de que o turismo é provavelmente dentro dos lazeres o mais sedutor e significativo, pois contendo um tempo livre contínuo, apresenta-se como um espaço propício para o desempenho das actividades não impostas. Há tempos atrás, o comportamento turístico era considerado pela maioria dos estudiosos como uma acção compensatória face à monotonia, ao stress e ao ritmo automatizado das tarefas profissionais. Era um ponto de vista que baseava a acção turística na compensação em relação à fadiga física e mental. Segundo o nosso entendimento, tratava-se de uma abordagem redutora, já que o comportamento turístico não se baseia exclusivamente nesta razão, podendo também ser motivado por desejos e aspirações.
No caso das necessidades, o objectivo preponderante do comportamento será o de restabelecer física e psicologicamente o indivíduo. Por outro lado, os desejos comportam sentimentos de ambição, impulso e vontade, sendo dirigidos para determinados objectivos, em circunstâncias que a pessoa julga serem portadores de prazer, satisfação e alegria. Segundo Bacal (2003), as necessidades são geradoras dos denominados “motivos de
deficiência” os quais visam o afastamento de condições indesejáveis ou desfavoráveis, pelo
que o seu objectivo preponderante é orientado para o restabelecimento físico e psicológico do indivíduo. Por outro lado, os desejos já configuram sentimentos de ambição, de atracção e mesmo de impulso, sendo dirigidos para centros de interesse que as pessoas entendem como susceptíveis de gerar prazer, bem-estar, auto-realização e satisfação. Bacal classifica- os como os “motivos de excesso”.
10
Na denominada “teoria de Herzberg” os factores higiénicos estão relacionados com o contexto do trabalho e conduzem às condições da insatisfação; os factores motivadores estão ligados ao conteúdo do trabalho e são condição de satisfação.
A conjunção destas motivações conduz a que o turismo se apresente como um mecanismo de defesa do ego. De facto, se o estímulo surge associado a desejos, tais como o conhecimento de outros lugares, culturas e pessoas, o turismo viabiliza a concretização plena deste desiderato. Se a causa residir em “motivos de deficiência” como, por exemplo, a busca do reequilíbrio físico e psicológico, o turismo também aparece como um mecanismo adequado, ao viabilizar o “corte” por um período limitado com a rotina e, consequentemente, a criação das condições favoráveis para o restabelecimento interno da pessoa. Podemos então concluir (Figura 2.8.), em sintonia com as teorias de Bacal, que as práticas turísticas, que constituem a opção mais frequente para o uso do tempo livre, sobretudo nos períodos de férias, pressupõem invariavelmente comportamentos baseados em motivações de “deficiência” (necessidades) ou de ”excesso” (desejos), ou então, de justaposição de ambas.
Figura 2.8. – Motivações turísticas NECESSIDADES
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Fonte: Produção própria, CESTUR (2007)
Nesta linha de pensamento situa-se igualmente Dumazedier (1974) ao referir, como já se salientou anteriormente, que “o turismo realiza três funções fundamentais: função de
descanso, função de divertimento, recreação ou entretenimento e função de desenvolvimento”.
2.3.6.3. Os estímulos de viagem, os determinantes sociais e