Depois do cantor-ator ter aprendido a desenvolver sua concentração, atenção e agilidade mental, sua próxima tarefa seria desprender-se do medo. Se a sua mente estivesse preocupada, perturbada e oprimida pelo medo, ele não seria capaz de executar, em primeiro lugar, os dois primeiros degraus da escada. Dessa forma, é possível notar como eles estão relacionados e que um precisa do outro para acontecer. O problema de ter medo, falta de confiança ou uma atitude negativa perante a vida de maneira geral, é que acarretaria numa grande dificuldade no desenvolvimento do ator como artista e na construção de uma personagem; sua mente estaria demasiado ocupada com preocupações que não deveria ter e atrapalhariam o seu processo criativo. Nesse ponto, Stanislavski (1999, p. 208) não apenas alertava para o perigo de uma mente cheia e negativa, mas também clamava o amor à arte:
[...] também a mente, se não pode se liberar das pequenas preocupações da vida cotidiana, e o coração, quando não tem um sentimento de boa vontade em relação aos demais artistas, impedirão, como o medo ou
a depressão, ou interromperão
completamente vosso trabalho criador84.
84 “[…] también la mente, si no puede liberarse de las pequeñas ocupaciones de la vida cotidiana, y el corazón, cuando no hay en él un sentimiento de buena voluntad hacia los demás artistas, impedirán,
Destas considerações, surgia o que Stanislavski chamou de ousadia. Tal ousadia em nada deveria ter a ver com pretensão ou ostentação de si ou de seu trabalho. Ousadia, neste contexto, é a capacidade de liberar sua mente das preocupações desnecessárias e dos assuntos de sua vida privada. Ousadia é também desprender-se do medo da crítica e da autocrítica, liberando o seu corpo e a sua mente para o trabalho criador. Como poderia o cantor-ator superar o medo e encontrar sempre ousadia em seu trabalho? Neckel muito satisfatoriamente responde a esta questão, afirmando que
O caminho para isso é ditado pela atenção, pelo domínio e capacidade do ator em direcioná-la ao que efetivamente se mostra necessário no trabalho. Ao contrário de fixar- se no medo, e debilitar não somente sua atenção por motivos que não estão diretamente ligados ao seu trabalho criador, o ator deveria incluir cada vez mais objetivos a serem alcançados naquilo que fazia, criando assim problemas criadores a serem resolvidos, obstáculos a serem superados (2011, p. 67).
Ao criar obstáculos, novos problemas reais a serem resolvidos sobre a sua personagem, o cantor-ator estaria sempre se fortalecendo e intensificando a sua atenção e agilidade mental, além de fortificar o seu círculo criador e sua solidão pública. Na solidão pública o cantor-ator estaria tão concentrado em si, no seu ritmo e no seu papel, bem como apto para agir em diferentes circunstâncias, que a audiência ao seu redor não seria um obstáculo à sua performance. Vale lembrar que Stanislavski sempre trabalhou com o uso da quarta parede, não interagindo de forma direta com o público.
O resulto direto da “superação do medo” seria o valor no trabalho criador.
como ele temor y la depresión, o interrumpirán del todo vuestro trabajo creador”.
Todo papel, mesmo aquele em que seja necessário que você represente em cena o amor humano mais elevado, o amor materno, deve ser construído sobre a base do valor. A característica mais repreensível do trabalho criativo de um ator é o exagero e a ponderação excessiva. Seja qualquer a forma exterior que assuma, a concepção e representação que você faz no palco deve ser caracterizada pelo valor (Stanislavski, 1999, p. 210)85.
O valor está no trabalho criador. O cantor-ator deveria encontrar a beleza no seu interior, encontrar o “lado bom” de cada personagem. De maneira mais profunda, o “bom” não se refere ao ser bom, ter atos bons, mas na beleza da vida em si, nas qualidades humanas, nas diferentes personalidades, na riqueza das formas e diferentes maneiras de ser e se expressar do homem. Assim, o ator conseguiria fugir das superficialidades, das interpretações rasas e histriônicas, que em nada revelam a natureza do homem. O que era necessário ao cantor-ator era encontrar na sua personagem qualidades opostas àquelas óbvias, que, quando reforçadas, apenas fariam com que a atuação ficasse exagerada. Stanislavski assim resume a busca do ator em encontrar profundidade em sua personagem:
Quanto mais intensamente quereis expressar a um público a profundidade da depravação de um vilão em sua busca do mal, com mais firmeza deveis tratar de acentuar os aspectos positivos de seu caráter e de destacar esses momentos fugazes da inocência da sua natureza. E quanto mais fortemente
85“Todo papel, aun aquel en el que sea necesario que representéis en escena el amor humano más elevado, el amor maternal, debe construirse sobre la base del valor. El rasgo más reprensible del trabajo creador de un actor es la exageración y la excesiva ponderación. Cualquiera la forma exterior que tome, vuestra concepción y la representación que hagáis de él en el escenario deben caracterizarse siempre por el valor”.
acentuais seu valor, mais vos recompensará o público – a personificação do papel que representeis – com sua atenção indivisa (1999, p. 211)86.
É importante salientar que os aspectos positivos da personagem, no caso do vilão, e até mesmo os seus aspectos negativos, serão determinados pelo ator ou cantor-ator específico que der vida a este papel. A verdade e o valor encontrados na personagem e na obra, juntamente com suas ações em cena, serão determinados na individualidade do artista. E o ponto de partida que o artista deverá tomar, segundo Stanislavski (1999, p. 213), é o das “[...] paixões humanas universais que permanecem escondidas em seu próprio coração [...]”87.