As concepções de Thomas Kuhn sobre ciência normal e revoluções científicas provocaram a crítica de diversos filósofos da ciência, na década de lançamento de seu primeiro livro, que miraram especialmente no que alegavam ser aspectos de irracionalidade e subjetividade na ciência. Com o objetivo de contra-argumentar seus críticos especificamente em relação às alegações, Kuhn (2009) expõe o que entende serem valores da atividade científica, e cujos juízos têm papel importante, mas não definitivo, na escolha teórica.
Em A Estrutura das Revoluções Científicas (KUHN, 2006), Kuhn propõe que cientistas aderem a um ou outro paradigma concorrente não apenas em função de provas objetivas, como gostariam os
2 Debate travado entre o positivista Rudolf Carnap e o crítico dessa filosofia,
Willard van Orman Quine. Carnap defendia uma dicotomização entre questões ontológicas na ciência e epistemológicas. Para ele, questões de ordem prática, tais como “existem entidades abstratas?” eram questões externas, que determinavam o sistema linguístico para as questões internas, tais quais “como se comportam elétrons?”. Quine, por sua vez, refutava a dicotomia do positivista, enfatizando a ciência como um corpo coeso; a experiência, segundo ele, mostrava as imperfeições não apenas de determinadas afirmações científicas, mas do corpo teórico como um todo. Apesar de ambos os filósofos não mencionarem explicitamente, seu debate abre espaço para o papel dos valores na ciência – pois as questões defendidas por Carnap como extra-científicas, e contra-argumentadas por Quine, envolvem necessariamente juízos de valor.
positivistas. Para explicar como isso ocorre e, ainda assim, esquivar-se das acusações de irracionalidade, Kuhn (2009) relembra certos critérios que, antes dele, eram compreendidos como regras típicas da atividade científica – e aspectos do conhecimento por ela produzido.
Ele escolhe cinco dessas características: exatidão, consistência, alcance, simplicidade e fecundidade. Uma teoria é exata3 quando há um
amplo acordo entre teoria e observações. É considerada consistente quando mostra consonância com ela própria (consistência interna) e com outros conhecimentos (consistência externa). Uma teoria de longo alcance consegue ser aplicada além da teoria ou subteoria para a qual foi desenvolvida. A simplicidade de uma teoria, para Kuhn, reside em sua capacidade de organizar conhecimentos isolados ou confusos. Uma teoria é considerada fecunda quando abre possibilidades para desvendar novos fenômenos, ou propiciar a compreensão da relação entre fenômenos antes desconhecida. Kuhn (2009, p. 365) reconhece a importância dessas cinco características para o conhecimento científico: “juntamente com outras do mesmo gênero, elas fornecem a base partilhada para a escolha teórica”.
Contudo, Kuhn lembra que esses critérios, por si só, não são capazes de propiciar uma escolha teórica inequívoca. Individualmente, não são precisos, pois dois ou mais cientistas podem discordar do grau de suas aplicações em situações concretas; quando utilizados de forma articulada, podem provocar problemas de prioridade, gerar conflitos entre eles. Assim, Kuhn defende que os critérios, apesar de supostamente objetivos, dependem grandemente do cientista que os adota, tendo significados diferentes para diferentes estudiosos. A maneira como certo cientista compreende cada um desses critérios também depende de seu contexto, não apenas cognitivo e científico, mas também social, cultural, além de suas subjetividades. Enfim, Kuhn (p. 369) conclui que seu “ponto é, portanto, que toda escolha individual entre teorias rivais depende de uma mistura de fatores objetivos e subjetivos, ou de critérios partilhados e individuais”. Esses critérios, que
influenciam decisões, sem especificar o que devem ser essas decisões, são familiares em muitos aspectos da vida humana. Em geral, contudo, não se chamam critérios ou regras, mas máximas, normas ou valores. [...] Naturalmente, estou a sugerir que os critérios de escolha com que comecei funcionam não como regras, que
determinam a escolha, mas como valores, que a influenciam (KUHN, 2009, p. 374 – 375). Dessa maneira, é possível caracterizar melhor as dificuldades que os filósofos encontravam em extrair, da articulação e da combinação desses critérios, um algoritmo partilhado de escolha – eles são valores, ambíguos tanto individual quanto coletivamente. “Mas eles especificam muita coisa: o que cada cientista deve considerar ao atingir uma decisão, o que pode e não pode considerar importante, e o que se lhe pode legitimamente exigir como base para a escolha que fez” (KUHN, 2009, p. 375).
Para ele, essa mudança de perspectiva proporciona a compreensão, por exemplo, do tempo que leva a consolidação de uma nova teoria, ou da adesão da maior parte da comunidade científica a um paradigma. Caso fossem critérios rígidos e perfeitamente objetivos, não conseguiriam explicar o ínterim antes de a nova teria apresentar precisão e alcance suficientes.
Kuhn então se volta à questão do sucesso da ciência, e como ele pode se justificar se os critérios para a escolha teórica são, na realidade, valores. Para isso, ele lembra que, quanto maior for a comunidade, mais as possíveis diferenças individuais se distribuirão. Dentro de um certo limite, portanto, haverá uma aproximação de seu argumento ao dos positivistas, pois ele busca mostrar que existem preferências que são compartilhadas amplamente entre os cientistas. Assim, ele espera evidenciar que seu ponto de vista em verdade não evoca a tal inadequada subjetividade que seus críticos atribuíram a sua teoria.
Para finalizar, Kuhn esclarece os pontos críticos de três noções usadas por ele em suas obras, e que acredita serem seus pontos de vista diferenciados: a invariância do valor, subjetividade e comunicação parcial.
No que se refere à invariância do valor, ele sustenta que os valores não são critérios fixos – além da carga subjetiva, também têm sua concepção alterada com o curso da história, sobretudo com as mudanças teóricas. Precisão, por exemplo, tem se tornado cada vez menos qualitativa; a concordância numérica, quantitativa, tem cada vez mais peso na ciência contemporânea. Antes de Lavoisier, Kuhn defende que a concordância dos experimentos químicos com aspectos qualitativos como cor e textura era extremamente importante; após Lavoisier, outros aspectos, de natureza quantitativa, tornaram-se essenciais.
Quanto à subjetividade que a ele atribuíram, Kuhn observa que há duas concepções diferentes: a que se opõe a objetivo e a relacionada a
juízo. Para ele, as escolhas de teorias não dependem de gostos individuais – que, portanto, não podem ser discutidos – mas de juízos eminentemente discutíveis. Para Kuhn (2009, p. 382-3), apesar de esses juízos introduzirem
fatores dependentes da biografia ou da personalidade individuais a fim de tornar os valores aplicáveis, não se põe de lado quaisquer padrões de factualidade ou de realidade. [Sua] discussão da escolha teórica indicia decerto algumas limitações de objetividade, mas não pelo isolamento de elementos adequadamente ditos subjetivos. [...] A objetividade devia ser analisável em termos de critérios como precisão e consistência. Se estes critérios não fornecem todas as orientações que habitualmente esperamos deles, então o que [seu] argumento mostra pode ser o significado, e não os limites, da objetividade.
Por fim, Kuhn destaca a importância dos valores e da discussão dos juízos de valor, sobretudo daqueles tais como fecundidade e a precisão, na comunicação entre proponentes de duas teorias rivais, durante a escolha teórica. Para ele, essa discussão pode ajudar a transpor a barreira das linguagens incomensuráveis inerentes a teorias distintas.
Por mais incompreensível que a nova teoria possa ser para os partidários da tradição, a exibição de resultados concretos e tangíveis [por meio da defesa de valores como precisão e fecundidade] persuadirá pelo menos alguns deles de que devem descobrir como é que esses resultados se alcançam (KUHN, 2009, p. 384).
Nessa negociação, alguns cientistas aprenderão a traduzir entre as linguagens de um corpo teórico e outro, e outros, mais convencidos dos méritos da nova teoria, passarão por um processo de conversão para a nova teoria. Defendendo que valores desempenham papel de norteadores e até mediadores de escolha teórica entre teorias incomensuráveis, Kuhn reitera sua concepção de objetividade da ciência, na tentativa de se esquivar das alegações de seus críticos.