Se a ciência, o empreendimento epistemológico mais consolidado e estruturado, não prescinde da crítica intersubjetiva, tampouco isso ocorre com a filosofia da ciência. É o que se pode observar no progresso das teses acerca da relação entre ciência e valores – muitas vezes conflitantes, é verdade – desde suas primeiras proposições. O trabalho inaugural de Kuhn (1973; 2009), apesar das duras críticas, é um marco nessa discussão, seguido pelo trabalho igualmente criticado de McMullin (1983). Laudan (1984) e Longino (1990) buscaram segundas vias antirrealistas entre positivistas e holistas – embora Longino tenha se arriscado a ir mais longe e enfrentar a questão dos valores contextuais e seus papeis na ciência, das quais seus antecessores se esquivavam. Uma nova geração vem aprimorando ainda mais as insuficiências das filosofias de Laudan e Longino, a exemplo de Hugh Lacey e Isabelle Peschard. Cabe questionar, no entanto, até onde a história da ciência permitirá que se pague o alto preço da excessiva sofisticação epistemológica proposta por esses novos autores em nome de focos novos e úteis de análise.
De todo modo, esse progresso da filosofia da ciência parece ter surtido certo efeito em Larry Laudan, que vinte anos depois da elaboração de seu modelo reticulado, permite-se uma reflexão bastante simbólica, embora rápida, acerca dos valores contextuais na ciência.
O que eu penso que Reichenbach tinha em mente quando ele identificou o contexto da descoberta como o domínio apropriado do social é a ideia de que os processos sociais de fixação de crenças que não têm base lógica não são do interesse da filosofia (exceto talvez como sociopatologias) e seus estudos deveriam ser deixados inteiramente para os cientistas sociais. Por outro lado, pensava
Reichenbach, quando há uma justificação epistêmica para uma crença, o filósofo tem um interesse legítimo em explorar essa justificação e em argumentar a relevância dessa justificação para a própria crença. Se temos que traçar uma linha entre o social e o racional neste sentido, minha própria sugestão, certamente, seria que o filósofo deve reivindicar o interesse em todas as crenças para as quais há uma base cognitiva, e não apenas às crenças que têm base epistêmica (LAUDAN, 2004, p. 22).
Desse modo, Laudan demonstra que os valores cognitivos – aqueles importantes, na atividade científica, para escolhas de teorias que persigam os objetivos cognitivos da ciência – podem ser oriundos de sistemas de valores contextuais. Ele mesmo defende que essa é uma premissa perfeitamente aceitável, pois “todo artefato humano, incluindo as crenças e convenções humanas, se assenta sobre processos sociais de comunicação, negociação e formação de consenso” (LAUDAN, 2004, p. 22). Ou seja, mesmo que o próprio filósofo compreenda essa argumentação como ampla e vaga demais, ele se permite, ao menos de modo assumidamente tentativo, aproximar-se da ideia de ciência como prática, de Helen Longino. Ela, no entanto, não se furta de empreender essa análise e mostra como a dinâmica transformativa entre valores contextuais e constitutivos é fundamental para a objetividade científica.
Longino também empreende um outro avanço em relação às outras teses filosóficas anteriores a ela: enquanto Laudan, McMullin e Kuhn centram suas proposições em momentos de negociação de dissenso e escolha teórica, Longino ocupa-se da atividade de modo geral. Momentos de grandes controvérsias científicas ocorrem geralmente quando a comunidade se vê ante a necessidade de escolher entre duas ou mais hipóteses ou teorias; porém, como bem aponta Longino, esses momentos não são a regra na ciência e, em geral, os cientistas trabalham dentro de determinados quadros conceituais. Diferentemente dos paradigmas dogmáticos kuhnianos, no entanto, as diferenças, as subjetividades e a crítica intersubjetiva fazem esses intervalos na ciência muito mais complexos, sofisticados e, de fato, mostram que a ciência é uma prática social.
Por mais consistentes que sejam as filosofias de Laudan e Longino – ambos demonstram cautela impressionante quanto aos recursos lógicos e à adequação com suas posturas ontológicas – muitos de seus sucessores, como o próprio Lacey, ainda buscam uma teoria
normativa da ciência. De todo modo, vale evidenciar que uma demarcação atemporal, absoluta e normativa entre valores (epistêmicos/não epistêmicos, cognitivos-consitutivos/contextuais) é, sob uma análise ampla da história da constituição da ciência, tão elusiva quanto uma demarcação da própria ciência, algo bem observado por Longino (1990) e Laudan (2004).
As afirmações taxativas de Laudan quanto à natureza utópica de determinados valores, como verdade, infalibilidade, simplicidade e elegância, também podem soar, em primeira análise, como produtos de uma postura prescritiva por parte do filósofo. Entretanto, elas foram de fato constitutivas para alguns cientistas, sobretudo físicos como Einstein, quando mais velho (NORTON, 2000) e Paul Dirac, cuja simplicidade constitutiva foi inclusive criticada por Heisenberg e Euler (1935). Neste contexto em que filosofia e história da ciência se contradizem, em que o sujeito é forçado a escolher entre lógica e história, abre-se, novamente, espaço para a nuance irracional da ciência, algo que a concepção de prática científica, da filósofa Helen Longino, é capaz de assumir, englobar e caracterizar, novamente, como parte de um processo mais amplo – este sim, de admirável racionalidade.
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3 CIÊNCIA E VALORES NA “DESCOBERTA” DOS