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Discussion

Dans le document Society and Culture in post 2008 Spain (Page 142-156)

Adequação empírica, precisão preditiva, coerência, consistência, fertilidade são alguns dos aspectos que se espera que bons conhecimentos científicos apresentem. Ao contrário do que era compreendido pelos positivistas, no entanto, eles não podem ser regras para determinar as escolhas teóricas. Thomas Kuhn (2009a) bem apontou, com o suporte da história da ciência, que esses aspectos, quando buscados individualmente ou mesmo quando invocados em associação não são capazes de levar a uma escolha teórica inequívoca. Esse ponto é fundamental e simbólico da filosofia da ciência pós-positivista: juízos de valor fazem parte da atividade científica.

Ser ponto pacífico entre filósofos mais contemporâneos não significa, no entanto, que sejam consensuais os demais aspectos das filosofias da ciência em que valores são protagonistas. Outras perguntas

precisam ser agregadas à concordância de que juízos de valor são parte fundamental da ciência. Com que objetivos são feitos esses juízos de valor? Quais são seus parâmetros? Eles acarretam em uma atividade irracional? O conhecimento produzido com juízos de valor deixa de ser objetivo? Quais são os valores que se pode buscar na escolha teórica? Juízos de valor podem ocorrer em outros momentos da atividade científica?

Kuhn (2009a), o primeiro a trazer à discussão os juízos de valores na escolha teórica, defendia que os valores invocados pelos cientistas para fazer suas escolhas eram aspectos historicamente importantes para a ciência e que, diferentemente de gostos, eram intrinsecamente abertos a discussões e ponderações na comunidade científica. Essa abertura à discussão dos valores típicos da ciência, para o filósofo, poderia significar um tipo novo de objetividade e, para ele, salvaguardava a racionalidade da ciência.

Foi um trabalho que, apesar de estar na sombra de sua tese mais ampla, foi seminal para uma série de análises axiológicas dos mais variados tipos. Na década de 1980, o surgimento de uma corrente realista fez com que Ernan McMullin (1983; 1984) erigisse, sobre a relação entre ciência e valores kuhniana, uma perspectiva realista da ciência. Ele retomou o trabalho de Kuhn e, revisitando sua perspectiva, defendeu que certos valores são testemunhos históricos da aproximação do conhecimento científico da verdade, seu objetivo final. Por isso, chamou esses valores de valores epistêmicos.

Também no começo daquela década, Larry Laudan (1984), complementando sua visão da ciência como uma atividade de resolução de problemas, escreveu um livro sobre a relação entre ciência, valores, resolução de problemas, racionalidade e progresso na ciência, dentro de uma perspectiva antirrealista. Para ele, o que caracteriza a ciência como empreendimento racional é justamente o fato de os cientistas, quando defrontados com o dissenso e outros problemas, serem capazes de ajustar teorias, métodos e valores. Esses valores não têm, para Laudan, a capacidade de levar à um conhecimento verdadeiro, mas a relação reticulada entre eles, teorias e métodos é o único caminho para o progresso da ciência, que ele entende ser a proposição de conhecimentos que alcançam nossos objetivos cognitivos. Por este motivo, ele os chamou de valores cognitivos.

Helen Longino (1990) vai mais longe que seus antecessores e não se restringe a analisar somente a influência dos valores típicos da ciência (epistêmicos para McMullin (1983) ou cognitivos para Laudan (1984)). Ela alega que os valores contextuais, de natureza social, econômica, ética

e tecnológica, por exemplo, também fazem parte da atividade científica, mas não apenas em um padrão de externalidade, ditando que pesquisas são ou não continuadas ou financiadas. Em todas as instâncias da atividade, Longino (1990) defende a impossibilidade de cientistas sozinhos impedirem que valores contextuais, oriundos das subjetividades dos praticantes da ciência, façam parte de suas atividades – justamente em virtude das subdeterminações que enfrentam ante evidências e métodos. Muitas vezes, esses valores contextuais vão ter caráter constitutivo na ciência; o que pode impedir sua má influência, no entanto, é a intersubjetividade da ciência, ou seja, a circulação do conhecimento entre pares.

É justamente esse caráter social da ciência que, para a filosófa, pode fazer com que os métodos da ciência sejam objetivos e que mostram que a ciência é racional. Ela compreende, logicamente, que a limitação desta autorregulação da ciência reside justamente na sua composição. Quanto mais diversificada for essa composição, maiores são as chances de que membros da comunidade consigam notar possíveis preferências subjetivas perniciosas ao conhecimento científico. São necessários, além disso, meios de divulgação e circulação do conhecimento científico e igualdade intelectual entre os membros. A objetividade pode ser prejudicada à medida em que a comunidade for mais fechada à crítica intersubjetiva.

A história da “primeira descoberta” dos elementos transurânicos – assim como outros episódios da história da ciência – é naturalmente repleta de juízos de valores, e sua análise permite notar que esses valores não são rígidos, absolutos e ahistóricos. São, pelo contrário, aspectos que dependem fortemente de outros sistemas de referência, seja teórico, seja social. Pode-se notar, igualmente bem, que tiveram importâncias e articulações diferentes para os vários atores envolvidos com irradiação de urânio com nêutrons naquele momento. Neste sentido, a contribuição de Kuhn (2009) é especialmente relevante.

Contudo, o que torna este episódio particularmente interessante é o fato de que a interpretação de valores como adequação empírica, consistência externa e simplicidade guiaram a maior parte da comunidade científica – e sobretudo os especialistas em física nuclear e radioquímica, a área específica daquelas investigações – à conclusão mais tarde compreendida como equivocada. Entre os fatores que levaram a isso estão, além da própria concepção de valor, o fato de que certos valores contextuais podem ter feito parte da escolha teórica feita pela comunidade e impediram a salutar intersubjetividade, essencial, segundo Longino (1990), à objetividade da ciência.

3.3 A DISSONÂNCIA INTERDISCIPLINAR NA FISSÃO

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