1.5 | III-N materials based applications and devices
1.5. III-N MATERIALS BASED APPLICATIONS AND DEVICES 23
O processo de reconhecimento das causalidades presentes na natureza e a sua transformação em causalidades postas têm sua gênese no desenvolvimento espontâneo do trabalho no ser social. A consciência deste processo se desenvolve através da experiência acumulada (dos resultados positivos e negativos do pôr teleológico) e a transformação da natureza passa paulatinamente a ser conscientemente orientada para os fins humanamente definidos, dentro das potencialidades e dos limites historicamente determinados. Este processo social de orientação da consciência dos indivíduos sobre as causalidades presentes na realidade se divide em dois aspectos internos ao pensamento teleológico: a intentio recta e a intentio obliqua.
Como analisado no primeiro capítulo, a intentio recta tem com objetivo refletir a realidade como algo em si, o ser-precisamente- assim44. A gênese deste reflexo da realidade está na capacidade humana de tornar conscientes as legalidades causais presentes no objeto, desenvolvendo a cognição adequada deste. Porém, por mais objetiva que possa ser este conhecimento, ele jamais deixará de ser um reflexo da realidade. Quanto maior for a precisão dos conhecimentos das legalidades presentes no objeto, mais desenvolvida será a intentio recta. Por outro lado, a intentio obliqua será expressão de uma consciência que fundamenta o ser na própria consciência, ou seja, um processo em que o reconhecimento da “coisa em si” é a representação subjetiva do indivíduo sobre o objeto. O desenvolvimento da intentio obliqua é também uma forma de reflexo da realidade, contudo, a sua compreensão prescinde do entendimento do ser-precisamente-assim, é expressão da subjetividade do sujeito deste conhecimento.
Como indicado anteriormente, a ideologia tem a função de integrar as posições teleológicas singulares em uma determinada visão de mundo, justificando a práxis individual como um elemento integrado à totalidade social. O reflexo objetivo ou subjetivo desta visão de mundo pode cumprir a função ideológica.
A distinção fundamental entre a intentio recta e a intentio obliqua é o caráter desantropomorfizante da primeira e antropomorfizante da segunda. O entendimento da natureza e de suas causalidades não é objeto exclusivo da intentio recta, bem como o entendimento do ser social não é algo exclusivo da intentio obliqua. As explicações sobre a realidade social ou natural podem ser expressão de ambas. Porém, a distinção entre o reflexo objetivo e subjetivo da realidade tem consequências determinantes no âmbito da prévia ideação, da escolha dos meios e fins a serem concretizados no trabalho, ou seja, o reflexo, desantropomorfizado ou antropomorfizado, constitui no momento importante da prévia ideação e tem consequências no processo de objetivação.
Dentro da análise até aqui desenvolvida, a intentio obliqua como a intentio recta podem cumprir a função ideológica, ou seja, podem se constituir no elemento de integração das posições teleológicas singulares com as concepções de sociedade e natureza. Assim, a ideologia não é expressão apenas de uma falsa consciência ou de uma distorção manipuladora do mundo, forjada pela subjetividade humana.
44 Ser-precisamente-assim é a síntese da realidade objetiva e dinâmica tanto na esfera da
Este entendimento restrito tem como consequência estabelecer a oposição entre ciência e ideologia, definindo-os como campos inconciliáveis em que o ideológico é sinônimo de falso.
A função da ideologia é específica das posições teleológicas secundárias, ou seja, do trabalho que tem como objetivo, a indução de outros indivíduos a realizarem uma práxis determinada. Nicolas Tertulian destaca que Lukács fundamenta a gênese da atividade ideológica nesta teleologia secundária, onde “influenciar e modelar a consciência dos outros supõe um trabalho sobre o imaginário, a fim de dissipar prejulgamentos e substituí-los por representações julgadas mais adequadas.” (Tertulian, 2008, p. 70)
Tertulian explicita o caráter da teleologia secundária dado pelo seu objeto que é algo radicalmente distinto da natureza. Contudo, o entendimento deste objeto poder ser explicado tanto pela intentio obliqua como pela intentio recta. Da mesma forma a natureza foi compreendida durante séculos de forma antropomorfizada45.
A função ideológica da intentio recta ou da intentio obliqua se concretiza na medida em que se constituem, uma e outra, a base sobre a qual os indivíduos respondem aos conflitos presentes no ser social. Neste sentido, a ciência pode adquirir um papel ideológico fundamental na orientação da práxis dos indivíduos ou grupos. O trabalho que tem por objetivo induzir os demais a adotar determinadas posições teleológicas, ou seja, tem como objeto a consciência de outro indivíduo ou grupo, pode ser orientado tanto pela intentio recta como pela intentio obliqua.
A ideologia desempenha uma função social relevante na integração da visão de mundo dos homens e das suas relações sociais. Para Lukács a ideologia desempenha um papel de articulação das diferentes esferas do ser social. Trata-se de uma teleologia secundária – distinta da teleologia posta na mediação do homem com a natureza (teleologia primária) –, voltada para que os indivíduos se comportem de determinada maneira, diante das contradições dadas em determinado período histórico-social. Como Caracteriza Lessa, o “desenvolvimento da sociabilidade é a crescente necessidade de respostas genéricas que permitam ao indivíduo não apenas compreender o mundo em que vive, mas também justificar a sua práxis cotidiana, torná-la aceitável, natural, desejável. Essa função de fornecer tais respostas genéricas, (...)
45 Destaque para o papel desempenhado pela teoria heliocêntrica no combate ao geocentrismo e
as conseqüências (sic) no plano político e social decorrente do desenvolvimento das ciências naturais e os desdobramentos nas forças produtivas da sociedade.
cabe a ideologia.” (Lessa, 1997, 53). O caráter ideológico do pôr teleológico secundário caracteriza-se por constituir a práxis singular em portadora de uma determinada concepção de mundo. Para Lukács esta função tem como objeto a consciência dos indivíduos:
A ideologia, sendo precisamente uma forma da consciência, não é absolutamente, em tudo e por tudo, idêntica à consciência da realidade; ela, enquanto meio para dirimir os conflitos sociais, é algo de eminentemente dirigido à práxis e, portanto – naturalmente no quadro da especificidade – participa também do caráter peculiar de toda práxis, ou seja, o de ser orientada acerca de uma realidade a transformar (donde, como já vimos, a defesa da realidade dada contra as tentativas de mudança tem a mesma estrutura prática). A sua especificidade no interior da práxis global é a generalização, em definitivo, sempre socialmente orientada; vale dizer, a síntese abstrata de grupos de fenômenos que tem em comum, acima de tudo, a característica de poder ser mantidos vivos, transformados ou repelidos ao mesmo tempo... (LUKÁCS, 1981. L. 2. Vol. 02, p. 500)
As respostas genéricas podem ser fundamentadas tanto na intentio obliqua quanto na intentio recta, daí a importância de não encarcerarmos a ideologia como uma espécie de “falsa consciência”, pois a ciência também pode cumprir um papel ideológico, portanto uma compreensão científica da sociedade (um entendimento mais adequado da realidade e do desenvolvimento do ser social) não é incompatível com a função ideológica.
A ciência, a filosofia ou a religião podem em determinadas circunstâncias cumprirem uma função ideológica interditando ou impulsionando o desenvolvimento do ser social. A função ideológica se objetiva na concretização pelos indivíduos e grupos sociais das orientações constantes no processo de prévia ideação. Contudo o caráter de objetivação de uma determinada ideologia não implica obrigatoriamente na consciência dos indivíduos que concretizam o pôr teleológico deste seu conteúdo específico. Lukács indica que a própria base sobre a qual as ciências sociais se organizam e se estruturam, já contém em si um caráter ideológico:
Quanto às ciências sociais a questão é objetivamente mais simples, mas também é mais controversa no plano subjetivo. Mais simples, porque a base ontológica de qualquer ciência da sociedade é constituída por posições teleológicas que intentam provocar mudanças na consciência dos homens, nas suas posições teleológicas futuras. Já isto significa a presença, seja na gênese, seja no seu operar de um elemento ideológico ineliminável. A realização é naturalmente muito mais complicada. De um lado, porque a função exercida por todas estas ciências, na divisão social do trabalho, põe ao mesmo tempo também o problema de refletir, ordenar, expor, etc., os fatos e as relações por elas estudados no modo pelo qual efetivamente ocorreram e estão presentes na totalidade do ser social. É esta tendência e sua tendencial realização que tornam ciência estas ciências, assegurando ao mesmo tempo para elas um posto na divisão social do trabalho. Este ser social imediato pode, todavia, produzir a fetichização do momento tendencial em um fato absoluto. Especialmente na batalha contra a teoria marxiana da ideologia tem havido essa fetichização, expressa sobre tudo como rígida contraposição metafísica entre ideologia (subjetividade) e pura objetividade enquanto o princípio exclusivo da ciência. (LUKÁCS, 1981. L. 2. Vol. 02, pp. 542-543) Na relação entre as posições teleológicas singulares e a ideologia, a polaridade entre indivíduo e totalidade social se explicita de uma forma muito peculiar, pois a função ideológica é fruto deste processo de integração do pôr teleológico individual com as representações de mundo, possíveis em face da totalidade social. Portanto, mais uma vez, a totalidade social ingressa como um momento determinante na constituição da visão de mundo dos indivíduos. A função ideológica tem a capacidade de articular explicitamente o campo das posições teleológicas individuais e a totalidade social, constituindo- se num relevante elemento de integração do indivíduo com a generidade. Para Lukács a função ideológica se amplia na medida em que o ser social se desenvolve:
Para o nosso problema, o mais importante é que tal desenvolvimento leva àquelas posições- teleológicas que intentam provocar um novo comportamento dos outros homens, e as torna sempre mais importantes, no sentido extensivo e intensivo, quantitativo e qualitativo, para o processo de produção e para a sociedade inteira. Basta recordar como o costume, o uso, a tradição, a educação etc., que se fundam totalmente sobre posições teleológicas deste gênero, com o desenvolvimento das forças produtivas vão continuamente aumentando o seu raio de ação e a sua importância, terminando por se formar esferas ideológicas específicas (sobretudo o direito) para satisfazer estas necessidades da totalidade social. (LUKÁCS, 1981. L. 2. Vol. 02p. 464)
A esfera jurídica, em sua função ideológica específica, contém estes elementos integrantes da ideologia, constitui-se num poderoso complexo de integração das posições teleológicas individuais à totalidade social, em especial através da subsunção das posições singulares ao imperativo geral. Por outro lado, como reflexo da realidade econômica e da necessária equação desta com os compromissos de classe constitui-se num tipo específico de intentio obliqua, que tem como finalidade um papel essencialmente prático. A função ideológica específica da esfera jurídica deve ser aprofundada de forma sintética, para que possamos estabelecer o campo de atuação concreto das posições teleológicas singulares neste complexo em face do quadro legal de interação social.