Bodanzky também trabalhou como fotógrafo free lance na Revista Realidade, entre fins da década de 1960 e inicio da década de 1970, experiência que o levou a conhecer alguns problemas da região amazônica e o auxiliou a perceber as aproximações do filme com o televisivo. Portanto, é importante lançar um olhar sobre seu trabalho na revista, já que a obra Iracema surge a partir do conhecimento destes problemas.
A revista era produzida e distribuída pela Editora Abril e teve circulação nacional do ano de 1966 até 1976. No entanto, a produção da revista se divide: entre 1966 e 1968, os conteúdos publicados eram libertários, com postura política de esquerda e com matérias baseadas em pesquisas acadêmicas de diversas áreas. Quando o AI-5 é instituído, a Revista passa a se adequar às formas consideradas pelo regime militar como “aceitáveis” de publicação.
Barzotto (1998) destaca que a revista Realidade era um dos mecanismos midiáticos de divulgação do projeto de modernização nacional que passava a região norte do país. A revista exaltava as ações politicas do governo Médici e destacava as vantagens que o país teria com a construção da Transamazônica. Tratava do desmatamento como uma forma de geração de empregos e, quando fazia reportagens a respeito da população local, era para enfatizar a melhoria de condições de vida que a rodovia proporcionava às pessoas. Nas imagens abaixo, esse discurso de progresso é apresentado. Ambas foram publicadas no ano de 1972:
Figura 1: Revista Realidade. Edição especial sobre a Amazônia, n. 77, pp.32-38. Fonte: http://realidade-revista.blogspot.com.br/
Na primeira imagem, o discurso é de promoção do desenvolvimento econômico da região, visto que a madeira é considerada “o melhor negócio do momento”. A segunda imagem possui uma frase central que poderia gerar interpretação contrária à primeira, visto que a expressão “O Banco do Brasil nunca acreditou em inferno” poderia representar a degradação da floresta ou o perigo que fauna e flora da região poderia trazer às pessoas. Porém, a revista frisa o segundo aspecto, tratando a ocupação humana e o desmatamento como fatores positivos para o desenvolvimento da região.
No que se refere à população, Barzotto (1998) destaca que a revista possuía diversas reportagens, matérias informativas e jornalísticas com comunidades ribeirinhas ou grupos indígenas no norte do país. Entretanto, por mais que os editoriais na revista buscassem discursar sobre o caráter integrador do projeto de modernização da região, na prática, ocorria a exclusão destes sujeitos e grupos. “O projeto de modernização é excludente, não comporta toda a população do país, ele é reservado principalmente a investidores, empresários, pessoas bem posicionadas em suas instituições”. (BARZOTTO, 1998, p.208).
Como fotógrafo free lance, trabalhei nessa época para as revistas Íris e Realidade. Esta última vivia sua época de ouro e era um privilégio participar disso. Durante mais de um ano, viajei com frequência e fiz reportagens muito interessantes sobre, por exemplo, o beato Frei Damião ou certa desova de dinheiro falso na estrada Belém-Brasília,
tema que indiretamente iria desaguar no Iracema. Cabiam a mim pautas geralmente ligadas a comportamento, viagens e aventura. (MATTOS, 2006, p.111).
A reportagem mencionada trata de um jornalismo investigativo que avaliava as atitudes de um beato acusado de utilizar dinheiro falso na região. Dessa maneira, as experiências vividas por Bodanzky na revista Realidade solidificam a ideia de filmar os problemas da região, denunciando-os ao espectador.
Por mais que Bodanzky possuísse ideias e práticas voltadas para a defesa dos interesses da esquerda, a Revista lhe garantia trabalho, visibilidade e possibilidade de conhecer novas realidades sociais. Por mais que a Revista Realidade não criticasse as atitudes tomadas pelo presidente Emílio Garrastazu Médici e os projetos desenvolvidos na região norte, o trabalho como fotógrafo auxiliou Jorge Bodanzky a conhecer as margens da rodovia Transamazônica e os grupos populacionais que por ela transitavam, como as prostitutas e os caminhoneiros.
Eu viajei várias vezes para a Amazônia. Foi observando a movimentação na beira da estrada que surgiu a idéia de mostrar o que acontecia em torno da Transamazônica por meio de dois personagens: uma prostituta e um motorista de caminhão. Eu trabalhava muito como câmera para correspondentes da TV alemã na América Latina e apresentei o argumento do filme para uma emissora de lá. Eles gostaram do projeto e resolveram financiá-lo37.
Desse modo, percebe-se que Bodanzky trabalhou para uma revista que fazia propaganda do regime militar. A partir do trabalho, o cineasta teve oportunidade de se deparar com os problemas que seriam mais tarde vislumbrados no filme Iracema. Além disso, o conhecimento acerca da geografia e da população da região amazônica é aprofundado nesse momento, o que permite traçar roteiros, possibilidades e enredos de maneira mais facilitada.
Na revista, Bodanzky adquire contato com a floresta amazônica e, através da parceria com Stop Filmes, consegue efetuar a ligação necessária para construir a ideia de filmar na floresta e nas cidades em seu entorno. Dois anos antes da filmagem de
37 Entrevista concedida a Ana Paula Conde para a Revista Trópico. Disponível em: http://www.revistatropico.com.br/tropico/html/textos/1688,2.shl
Iracema, Bodanzky acompanha Werner Herzog pela região38, quando este chega ao Brasil para filmar Aguirre, a Cólera dos Deuses (1972). Araújo (2010) reitera que filmar neste espaço não era muito comum até o período. A região ficava distante dos centros urbanos, com pouco contingente populacional e uma floresta cercada pelo desconhecido, tanto no que se refere à fauna e flora quanto aos grupos humanos que ali viviam39. Ao acompanhar Herzog, Bodanzky pode ter firmado o interesse em filmar na região.
O filme Aguirre, a Cólera dos Deuses (1972) trata de uma expedição espanhola à Amazônia em busca do Eldorado. Em linhas gerais, Herzog problematiza as ambições humanas em tono do lucro. Assim, faz uma crítica ao capitalismo comercial e à obsessão pela riqueza. Por mais que as temáticas de Bodanzky e Herzog sejam diferentes, há implícito em ambos os filmes a busca pela riqueza e a sobreposição dos valores financeiros aos humanos.
Enquanto o filme de Herzog é produzido a partir de relatos de viajantes e colonizadores espanhóis dos séculos XVI e XVII, o filme Iracema surgiu da observação de Bodanzky a um posto de gasolina às margens da Transamazônica, enquanto esperava um repórter da revista Realidade. Ali, ele viu um trânsito intenso de prostitutas adolescentes (12 e 13 anos) e caminhoneiros40. O problema que Bodanzky viu não era
novidade na região. “A estrada ainda era de terra e as “Iracemas” e “Tiões” estavam todos ali: meninas caboclas de 12 ou 13 anos divertindo homenzarrões de todo o Brasil por alguns trocados. Saí do lugar com a decisão de levar aquela história inédita para o cinema”. (MATTOS, 2006, p.159)
Souza (2014) argumenta que a prostituição aumentava e com ela, a propagação de doenças sexualmente transmissíveis. A pobreza e falta de oportunidade de emprego também fazia com que muitas meninas ingressassem na profissão. Portanto, o que Bodanzky vê na rodovia é uma oportunidade de lançar olhar cinematográfico para a história dessas meninas, seus sofrimentos, sonhos, sensibilidades.
38 Para saber mais acerca das vinda de Herzog ao Brasil: SORANZ, 2007.
39 Antes do docudrama Iracema: uma transa amazônica, Gláuber Rocha produziu Amazonas, em 1966.
Entretanto, o documentário trata das desigualdades geográficas da floresta.
40Informações presentes em: http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e- arte/2014/10/05/interna_diversao_arte,450450/cineasta-jorge-bodanzky-destaca-a-contemporaneidade-do- longa-i-iracema-i.shtml Acesso em: 03/04/2015.
1.2. JEAN ROUCH E JOHN NICHOLAS CASSAVETES: OUTRAS INFLUÊNCIAS