A escolha fílmica de Bodanzky e Senna para representar os problemas da Transamazônica foi a paródia. Segundo Monegal (2009), a paródia é uma figura de linguagem que faz releitura de outra obra, de forma cômica, trágica ou crítica. O filme Iracema, portanto, seria uma leitura crítica de outro discurso: o governamental. No
cinema, as chanchadas já haviam se utilizado de paródias, conforme cita Simonard (2009). No caso dos cineastas, o filme seria uma releitura da Transamazônica que o regime militar evidenciava. O discurso de progresso era vislumbrado pelo espectador por meio da contradição entre a mídia pró-governo e o que se mostrava no filme.
Para o autor, muitos intelectuais do Cinema Novo brasileiro viam as chanchadas como “paródias mal feitas do cinema norte-americano” (SIMONARD, 2009, p.122). Essa crítica era uma forma de insulto às chanchadas, cujas narrativas eram simples, com baixo orçamento, pouca qualidade de imagem e som e atores até então desconhecidos. É evidente que o uso da paródia vem de outros campos do saber, como a literatura e o teatro grego59, mas percebe-se que a intenção era criticar uma forma de cinema nacional, mais próxima da memória dos cineastas cinemanovistas.
Para Hohlfeldt e Manzano (2011), a pornochanchada também fazia releituras de obras clássicas, adaptando-as a uma estética fílmica voltada para o humor e para o apelo à sexualidade. Assim, a paródia deixa de ser vista como um insulto para se tornar uma opção de roteiro, visto que a produção fílmica de pornochanchada era tão intensa e rentável que os diretores se utilizavam deste recurso.
Desse modo, a paródia no cinema nacional não é inaugurada por Bodanzky e Senna. Estes só a deslocam para o campo da crítica política, trazendo personagens, situações e espaços que podem ser problematizados perante o espectador. O foco dos autores é a Transamazônica, o objetivo da paródia é denunciar e o filme é o suporte para que a denúncia chegasse às massas. Dessa maneira, Iracema era uma estratégia de parodiar o discurso governamental, desconstruindo o milagre econômico brasileiro e revelando contradições e problemas sociais da região que eram camuflados no discurso do regime militar.
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2.1.1.1. A rodovia Transamazônica no filme: a realidade distante do discurso
Para compreender essa dimensão simbólica da rodovia na obra, cabe analisar o contexto econômico-político que permeava o governo. Macarini (2000) argumenta que o milagre econômico brasileiro é resultado de uma economia descontínua, dispersa. A
59 Para saber mais: BAKHTIN, Mikhail. Questões de Literatura e de Estética: a teoria do romance. 5. ed.
descentralização econômica e a aquisição de empréstimos estrangeiros levaram, no ano de 1967, a um déficit orçamentário que diminuiu o consumo, elevou a inflação e reduziu o número de empregos, fazendo surgir uma massa de trabalhadores desempregados em diferentes setores.
Segundo o autor, o ministro Delfim Neto ampliou prazos para que industriais e latifundiários pagassem impostos, o que não aconteceu com o restante da população. De 1967 para 1968, o déficit orçamentário nacional declinou para 1,2% do PIB. Para reduzir o impacto negativo, o governo incentiva a exportação, o setor industrial e a agricultura, que passam a obter melhores resultados. “O setor industrial, segundo apontavam as primeiras estimativas da época, desfrutara de uma excelente performance: sua taxa de crescimento teria se aproximado dos 14%”. (MACARINI, 2000, p.11).
Em 1969, Delfim Neto aprofundou os investimentos nestes mesmos setores, defendendo um projeto nacional de política econômica pautado no objetivo de erguer o Brasil ao patamar dos países desenvolvidos. Houve busca por estabilidade monetária, redução da inflação e retomada de investimentos nos setores primário, secundário e terciário da economia. Nas palavras do autor, "Essas medidas receberam aplauso generalizado do empresariado, especialmente da indústria e do segmento identificado com o nascente mercado de capitais" (MACARINI, 2000, p.21).
Inicialmente, o ministro busca redução do déficit orçamentário e fortalecimento da estrutura de capital da empresa nacional. Em seguida, a ideia é tabelar as taxas de juros. Com maior controle governamental sobre a economia e a contração de empréstimos advindos do capital estrangeiro, o "milagre econômico" brasileiro se estruturou. O aumento do crédito bancário para empresas e o adiamento do imposto de renda foi outra medida do governo Médici para estimular o consumo e melhorar o panorama econômico. Dessa forma, o inicio do milagre econômico apresenta certa estabilidade, cenário que se modifica na década seguinte.
Para Giannasi (2011), a liderança de Delfim Neto é efêmera na política brasileira, porque bastou um choque político internacional para frear seu projeto. A crise do Petróleo, ocasionada pelo embargo da OPEP aos Estados Unidos e o aumento do preço do produto, reduziu os investimentos feitos no Brasil e recolocou o país em recessão. Mas o período que precede os anos 1970-73 também foi de euforia. Para o autor, "enquanto durou, esse momento foi de plena expansão dos investimentos nos
mais diversos setores, entre eles, o industrial e o agrícola, o de financiamento, captação de poupança e serviços". (GIANNASI, 2011, p.8). Foram construídas usinas hidrelétricas, estádios de futebol, pontes e rodovias.
As construções empreendidas pelo milagre econômico brasileiro, segundo Giannasi (2011), traziam sensação de progresso e serviam para maquiar a hiperinflação e a corrupção, além dos desvios de recursos através de superfaturamento de obras, emissão de notas frias, etc. A imagem de um país que avança, conforme descrevia a canção-tema da seleção brasileira da década de 197060, não se configurava na prática, mas mantinha-se através da censura e do risco corrido por quem ousasse promover investigações.
Dentre os investimentos da década de 1970, destaca-se a política governamental em torno da construção da rodovia Transamazônica. No local, havia um projeto de concentração fundiária, no qual governo assentava famílias em agrovilas, colônias de lavradores. Quando o projeto de construção da estrada se tornou inviável, as agrovilas foram abandonadas.
No entanto, a propaganda feita pelo governo tinha a intenção de mostrar progresso e segurança. A publicidade utilizava emissoras de televisão para mostrar os avanços da economia, ocultando que tal crescimento não gerava uma política salarial mais justa e aumentava a concentração de renda, além de mascarar o aumento da dívida externa. Como a maior parte das discussões aconteciam em ambiente universitário, não chegando até a população mais pobre, o governo aproveitava-se dos meios de comunicação de massa para promover sua imagem.
Um exemplo dessa publicidade provém dos comerciais televisivos, como o da Wolkswagen61. Na propaganda, mostra-se uma imagem aérea da Amazônia, repleta de árvores e rios. Na sequência, o narrador mostra uma área devastada e exalta o local como sendo a Transamazônica, “obra definitiva de uma das regiões mais ricas do mundo”. Em meio às palavras do narrador, árvores são derrubadas por máquinas pesadas. Em seguida, a propaganda mostra o Fusca, carro da marca que transitava pelas
60Noventa milhões em ação/ Pra frente Brasil, no meu coração/ Todos juntos/ vamos pra frente Brasil/
Salve a seleção!!! De repente é aquela corrente pra frente/ parece que todo o Brasil deu a mão!/ Todos ligados na mesma emoção/ tudo é um só coração! Todos juntos vamos pra frente Brasil!/ Salve a seleção!/ Todos juntos vamos pra frente Brasil!/ Salve a seleção!/ Gol!/
https://www.vagalume.com.br/os-incriveis/pra-frente-brasil.html Acesso em 23/05/2016.
vias recém-abertas. A imagem da Transamazônica é ressignificada no filme, de modo que algumas filmagens aéreas tratam de mostrar a floresta queimando, as pessoas tendo de abrir estradas com equipamento manual rudimentar (facões, machados, etc.) e a dificuldade de trânsito.
Aliás, manifestações artísticas e políticas que contrariassem a imagem de progresso e mostrassem os reflexos da concentração de renda e do descaso governamental em promover maiores investimentos para melhoria de vida, principalmente em regiões de ocupação recente (caso dos moradores que receberam terras no entorno da Transamazônica), eram reprimidas via censura. Assim, ao mesmo tempo que o governo manifestava publicidade favorável à rodovia e exaltava seu ideal de progresso, mascarava a desigualdade, a pobreza, a exploração e a realidade social do local e da população que ali vivia.