O conceito de ba (NONAKA; KONNO, 1998), deriva do conceito de basho, que foi originalmente proposto pelo filósofo japonês Kitaro Nishida (1921, 1970) e posteriormente desenvolvido por Shimizu antes de ser adaptado por Nonaka e Konno (1998). O ba pode ser grosseiramente entendido como um espaço compartilhado para surgimento de relacionamentos (ibidem). Esse espaço pode ser físico, virtual ou mental e proporciona uma plataforma para evolução do conhecimento individual e coletivo (ibidem). O que diferencia o ba de outros espaços orientados para interações humanas é a sua intencionalidade, que é a criação de conhecimento (NONAKA; KONNO, 1998, p. 40). A criação de conhecimento emerge de interações que ocorrem dentro do ba compartilhado, as quais não são restritas ao ba físico (NONAKA; KONNO, 1998).
A interação entre as pessoas é um conceito-chave na compreensão do ba de conhecimento, à medida que a criação do conhecimento é um processo humano e dinâmico que transcende as fronteiras existentes intencionais (NONAKA; TOYAMA; KONNO, 2000). O conhecimento é criado a partir das interações entre os indivíduos ou entre indivíduos e seus ambientes, mas não por um indivíduo atuando sozinho (ibidem). O ba é então o contexto compartilhado por aquelas pessoas que interagem umas com as outras, e a partir dessas interações, evoluem por meio da auto- transcendência para criar conhecimento (NONAKA; TOYAMA; KONNO, 2000). Sendo assim, os participantes do ba não podem ser meros espectadores, mas devem estar empenhados por meio de ação e de interação intencionais (ibidem).
Na teoria da criação de conhecimento organizacional, algumas características devem estar presentes no ba para que este seja um local eficiente na criação de conhecimento (NONAKA; TOYAMA; HIRATA, 2011, p. 63):
i. um ba deve ser auto-organizado e possuir seus próprios objetivos, intenções, direção e missão;
ii. os participantes devem compartilhar conhecimento e valores, formando contextos compartilhados nos quais os participantes se reposicionam em relação aos demais, criando um significado comum e a intersubjetividade;
iii. multidisciplinaridade, ou seja, participantes com diferentes tipos de conhecimento, permitindo a interação de diversas histórias, experiências, dimensões subjetivas e perspectivas;
iv. os limites de conexões do ba devem ser permeáveis e dinâmicos, à medida que o contexto compartilhado está em constante mudança e
v. um ba requer que os participantes estejam comprometidos e motivados.
Murasse, Moreira e Strauhs (2014) mapearam as condições habilitadoras das características do ba supra-mencionadas, com alguma resignificação decorrente do processo de análise de conteúdo (Quadro 2), a saber: (i) intencionalidade; (ii) compartilhamento; (iii) diversidade; (iv) flexibilidade de contexto e (v) comprometimento.
Quadro 2: Condições habilitadoras do Ba
Fonte: Murasse, Moreira e Strauhs (2014, p. 2).
A intencionalidade refere-se à definição de intenção e de missão próprios que auto-organizam e direcionam a energia do ba. O compartilhamento abrange objetivos, conhecimentos e valores e a criação de um significado compartilhado que transcende a subjetividade individual. A diversidade parte do princípio que os participantes do ba possuem diferentes tipos de conhecimento, e que o conhecimento novo surge na interseção de experiências heterogêneas, enriquecido pela diversidade de contextos e perspectivas. A flexibilidade de contexto refere-se à capacidade de propiciar um contexto compartilhado dinâmico, seja em função da alternância dos participantes ou do estabelecimento de conexões com diferentes ba. O comprometimento significa que os participantes do ba devem conhecer e estar comprometidos (alinhados) com os objetivos e engajados nas atividades. Cabe salientar que a importância de cada condição habilitadora pode ser influenciada pelo contexto e, por outro lado, uma
condição pode competir com outra. Por exemplo, a diversidade pode ser neutralizada pelo compartilhamento (MURASSE; MOREIRA; STRAUHS, 2014).
Existem quatro tipos de ba, que correspondem a cada um dos quatro modos de conversão do modelo SECI já apresentado anteriormente (Figura 4): (i) ba de criação (originating ba); (ii) ba de interação (dialoguing ba); (iii) ba de sistematização (sistemizing ba) e (iv) ba de aplicação (exercising ba), que são definidos por duas dimensões (NONAKA; KONNO, 1998; NONAKA; TOYAMA; KONNO, 2000). Uma dimensão é o nível de interação, ou seja, se a interação ocorre individualmente ou coletivamente (NONAKA; KONNO, 1998). Outra dimensão é a mídia usada em tais interações, isto é, se a interação é por meio do contato face a face ou meios virtuais, tais como livros, manuais, memorandos, e-mails ou teleconferências (NONAKA; KONNO, 1998).
Figura 4: Tipos de ba e respectivos modos do processo SECI
Fonte: Adaptado de Nonaka e Konno (1998, p. 46).
O ba de criação é definido por interações face a face entre os indivíduos, à medida que é um lugar onde as pessoas compartilham experiências, sentimentos, emoções e modelos mentais (NONAKA; KONNO, 1998; NONAKA; TOYAMA; KONNO, 2000). O ba de criação oferece um contexto de socialização, uma vez que uma interação individual face a face seria a única maneira de capturar toda a gama de sentidos físicos e reações psico-emocionais, como a facilidade ou o desconforto, que são elementos importantes no compartilhamento de conhecimento tácito (ibidem). É também um lugar existencial, no sentido de que é um mundo em que um indivíduo
transcende o limite entre si mesmo e os demais, simpatizando ou criando empatia com os outros (ibidem).
O ba de interação é caracterizado por interações coletivas e face a face, pois é o lugar onde os modelos mentais e as habilidades dos indivíduos são compartilhados com o grupo, convertidos em termos comuns e articulados como conceitos (NONAKA; KONNO, 1998; NONAKA; TOYAMA; KONNO, 2000). Oferece principalmente um contexto de externalização de conhecimento, no qual o conhecimento tácito dos indivíduos é compartilhado e articulado mediante diálogos entre os participantes (ibidem). O conhecimento articulado também é trazido de volta para cada indivíduo e, com maior articulação, ocorre pela auto-reflexão (ibidem).
O ba de sistematização é caracterizado por interações coletivas e virtuais, e oferece principalmente um contexto para a combinação de conhecimento explícito existente, uma vez que o conhecimento explícito pode ser facilmente compartilhado para um grande número de pessoas em forma material escrita, por exemplo (NONAKA; KONNO, 1998; NONAKA; TOYAMA; KONNO, 2000). As tecnologias da informação oferecem um ambiente colaborativo virtual para a criação de ba de sistematização, logo muitas organizações usam tecnologias com o uso das quais os participantes podem trocar informações necessárias ou responder a perguntas uns dos outros para obter e difundir informação e conhecimento de forma eficaz e eficiente (ibidem).
O ba de aplicação é caracterizado por interações individuais e virtuais, e oferece um contexto para a internalização intermediada de conhecimento, que sintetiza a transcendência e a reflexão pela ação (NONAKA; KONNO, 1998; NONAKA; TOYAMA; KONNO, 2000). As pessoas incorporam o conhecimento explícito, que pode ser compartilhado por meios virtuais como manuais escritos ou programas de simulação (ibidem). Por outro lado, quando ocorre internalização durante treinamentos no trabalho (on the job trainning), incluindo uso de simulações e experimentos, a participação periférica é enfatizada (NONAKA; REINMOELLER; SENOO, 1998).
Para von Krogh (1998) a criação efetiva de conhecimento depende das pessoas dentro de uma organização se relacionarem melhor umas com as outras. Enquanto relacionamentos construtivos e disposição de ajudar aceleram o processo de comunicação e capacitam os membros da organização a compartilhar o seu conhecimento individual e a discutir as suas ideias e preocupações livremente, o
comportamento desconfiado, a competição constante, o desequilíbrio entre fornecer e receber informação e atitudes segregadoras ameaçam o compartilhamento de conhecimento (VON KROGH, 1998).
A partir da constatação de que o conhecimento, diferente de dados ou de informações, não pode ser gerenciado como um ativo, porém, pode ser capacitado (VON KROGH; ICHIJIO; NONAKA, 2000, p. 4) por comunidades de conhecimento dependentes de contexto (VON KROGH; ICHIJIO; NONAKA, 2000, p. 13), surge um entendimento de que a criação efetiva de conhecimento depende de um contexto capacitante (enabling context), ou seja, um espaço compartilhado que incentive o surgimento de relacionamentos, que pode ser físico, virtual ou mental, à medida que o conhecimento, ao contrário dos dados e da informação, depende de seu contexto para ser criado (VON KROGH; ICHIJIO; NONAKA, 2000, p. 7).
Há quatro grandes conjuntos de condições habilitadoras (enabling conditions) para contexto capacitantes (enabling contexts): sociais / comportamentais; cognitivas / epistêmicas; sistemas de informação / gestão e estratégia / estruturais que devem ser gerenciados para suportar diferentes tipos de processos de conhecimento (criação de conhecimento, compartilhamento, uso) em diferentes níveis de interação (grupo, organização, inter-organizacional) (CHOO; ALVARENGA NETO, 2010).
A experiência contínua em espaços compartilhados entre os colaboradores é uma questão chave para o compartilhamento de conhecimento organizacional, e para proporcioná-la é preciso uma combinação de configuração ambiental (ba), de condições habilitadoras para conversões de conhecimento, bem como fornecimento dos incentivos e da motivação necessários para que as pessoas se envolvam repetidamente e se comprometam com a conversão do conhecimento (NONAKA; REINMOELLER; SENOO, 1998).
Um contexto de desenvolvimento de software de código aberto pode abrigar um modelo de compartilhamento interorganizacional aberto, em que o conhecimento é voluntariamente trazido de fora para dentro da empresa, por indivíduos e organizações que passam a compartilhar conhecimento por meio de contribuições (por exemplo: relatos de erro, correções de erros e melhorias no código) para o projeto aberto de uma empresa (SPAETH; STUERMER; VON KROGH, 2010). O exame dos dados do projeto Eclipse revela que os colaboradores externos (outsiders) contribuíram tanto para o projeto quanto a própria empresa fundadora, e sugere a existência de quatro condições habilitadores de contexto capacitante, significativas
para o compartilhamento de conhecimento (SPAETH; STUERMER; VON KROGH, 2010): (i) generosidade prévia; (ii) compromisso contínuo; (iii) estrutura de governança adaptativa e (iv) barreira de entrada (ibidem).
Os conceitos de ba e de contexto capacitante discutidos nesta seção enfatizam a interação humana e caracterizam a formação de grupos sociais orientados para compartilhamento de conhecimento, que se aproximam em vários aspectos do conceito de comunidades de prática. Segundo Wenger, McDermott e Snyder (2002, p. 4), comunidades de prática, tema da próxima seção, são grupos de pessoas que compartilham os mesmos interesses, problemas ou paixão por um tema, e que aprofundam o seu conhecimento e perícia interagindo continuamente.