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2006 2007 2008

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Matriosca

A este período de imersão no TPM, seguiu-se uma fase de presença mais esporádica no seio da Empresa.

Ao nível da produção, meses de Julho, Agosto e Setembro são relativamente atípicos, sendo marcados por uma paragem da produção, para limpeza industrial (aproximadamente 10 dias em Agosto) e por muitas ausências devido a férias. Assim, a principal preocupação da Empresa é a manutenção dos

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Por “desdobras” designa-se o período das refeições em que, normalmente, os trabalhadores se revezam para irem tomar a refeição.

níveis de produção, não havendo grande abertura à discussão de projectos que possam vir complicar ainda mais a já de si difícil gestão deste processo. As decisões são normalmente adiadas para o final deste período, quando tudo volta progressivamente à normalidade. No entanto, tratou-se de um período onde tivemos oportunidade de nos aperceber da instabilidade e de outras contingências do significativo recurso a trabalhadores temporários para assegurar a substituição dos operadores em férias e a manutenção dos níveis de produção.

Tivemos ainda oportunidade de compilar e analisar mais dados estatísticos relativos aos acidentes de trabalho na Empresa. E foi numa releitura destes dados que acabamos por ancorar a negociação das etapas seguintes do projecto. Mas fizemo-lo apenas no mês de Novembro, já que sucessivos e intensos processos de auditoria, em que a DSIA era parte importante, foram adiando a disponibilidade dos nossos interlocutores e as possibilidades reais de negociação do nosso projecto.

4.6.1. – Acidentes de trabalho: da análise à categorização

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Avançámos então para um novo estágio de imersão, desta vez na actividade na DSIA. Realizámos entrevistas aos seus membros, acompanhámo-los no seu quotidiano de trabalho, consultámos documentos diversos. Neste período, analisámos com particular cuidado as fichas de participação de acidentes de trabalho de 2006, bem como os resultados do seu tratamento estatístico a cargo da DSIA. Acompanhámos também, com particular atenção, a actividade dos técnicos da DSIA na abordagem a acidentes que iam ocorrendo.37

Sempre que ocorre um acidente de trabalho na Empresa, o trabalhador deve dirigir-se à sua chefia directa para o comunicar, dirigindo-se em seguida aos

Serviços Clínicos, para ser observado pelo médico e/ou receber tratamento dos enfermeiros ou encaminhado para o hospital. À sua chegada ao posto médico, é preenchido um relatório de participação de acidentes de trabalho com alguns dados sobre o acidente. Trata-se de um relatório em triplicado, preenchido inicialmente pela pessoa que recebe o trabalhador acidentado nos Serviços Clínicos, que fica com uma das cópias. Seguidamente as restantes cópias do relatório são remetidas para a chefia directa e para a DSIA, que assinalam a tomada de conhecimento e completam o seu preenchimento. Todos os dias, a DSIA contacta os Serviços Clínicos para saber se houve alguma ocorrência durante a noite ou o fim-de-semana, para poder intervir com a maior brevidade possível. Para além deste acompanhamento, na maioria dos casos, a DSIA faz uma análise do acidente de trabalho, que implica uma entrevista ao trabalhador acidentado, deslocando-se, sempre que possível, ao local do acidente, onde são tiradas fotografias e se procura, junto dos colegas do acidentado, perceber melhor o que se terá passado.

Os dados constantes neste relatório de participação de acidente de trabalho são introduzidos numa base de dados, a partir da qual será feito o seu tratamento estatístico.

Este tratamento estatístico dos acidentes de trabalho é importante instrumento de trabalho para os responsáveis pela prevenção na Empresa, sendo aliás a sua importância realçada no Decreto-Lei n.º 362/93, de 15 de Outubro. Este levantamento estatístico permite ter uma perspectiva geral sobre os acidentes de trabalho, conhecer os sectores mais problemáticos da empresa, perceber alguns factores que podem estar na origem dos acidentes, desenvolver medidas para os evitar. É necessário ressalvar, no entanto, que a sua importância e o seu potencial dependem muito, primeiro, da qualidade e “realidade” dos dados que estiveram na sua origem e, depois, da forma e dos princípios que norteiam a sua análise e categorização.

De facto, o modo como na Empresa são preenchidos os primeiros relatórios de participação do acidente acabam por condicionar a maneira como estes

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acabam por ser encarados nas fases subsequentes. O facto de a maioria dos acidentes ser catalogada como resultante de um acto inseguro38; de um dos tópicos ser uma avaliação de desempenho do trabalhador; bem como o facto de se exigir um preenchimento das causas do acidente num momento anterior a qualquer tipo de investigação, acaba por conduzir a um processo muito centrado no erro humano como principal factor explicativo dos acidentes. A maneira como são catalogadas as várias causas dos acidentes39 (pressa, falta de atenção, excesso de confiança, violação das regras de segurança, etc.) é também um exemplo disso. Por muito cuidado que haja em completar essa primeira investigação impressionista através de metodologias que tenham mais em conta o trabalho real, estas acabam por estar sempre condicionadas pelo primeiro relatório de participação do acidente que, para além de não permitir ter acesso a dados que seriam muito importantes para uma análise estatística dos acidentes de trabalho (como o turno do trabalhador, o trabalho que estava a desempenhar, a hora do acidente), acaba por encaminhar a posterior investigação para um resultado em que a causa do acidente é, na maior parte das vezes, um “acto inseguro” do trabalhador.

Duas ideias centrais se nos impuseram, enquanto vias possíveis para a continuidade da nossa intervenção, após a análise deste processo:

- A necessidade de trabalhar as questões da prevenção de acidentes junto de actores com importância decisiva no seu sucesso potencial, desde os operadores de máquinas, aos médicos e aos enfermeiros do trabalho, às chefias da produção ou aos próprios elementos da DSIA. - A importância de reformular os instrumentos que medeiam o processo

formal de análise aos acidentes, como sejam a ficha de participação de

sempre acompanhado por nós, durante o período em que permanecemos na Empresa.

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Das 107 fichas de participação de acidentes que analisámos e que correspondem à maioria dos acidentes recolhidos nesse ano, 59 acidentes foram catalogados como tendo sido causados por actos inseguros, 13 foram catalogados como tendo sido causados por condições inseguras, 5 foram catalogados como tendo sido causados por ambas as alternativas e em 31 não foram assinaladas nenhumas das alternativas.

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Referir-nos-emos a esta questão mais à frente pela importância que acabou por assumir no rumo da na nossa intervenção.

acidente de trabalho ou as categorias utilizadas no tratamento estatístico dos acidentes.

Mas, antes de avançar com qualquer proposta, fomos ainda analisar alguns indicadores estatísticos gerais para melhor nos situarmos face à situação que se vivia à altura na Empresa em matéria de frequência e gravidade e tipologia de acidentes de trabalho.

4.6.2. – A urgência de uma intervenção

Não era fácil a situação que se vivia na Empresa em matéria de índices de sinistralidade. Após alguns anos de progressiva melhoria, os índices de frequência e gravidade de acidentes na Empresa haviam disparado, ficando muito acima dos objectivos definidos no início do ano (5,5 para a frequência e 0,35 para a gravidade), como pode ser verificado nos gráficos abaixo.

9,6 7,22 10,79 8,77 10,53 5,70 5,59 4,6 6,0 15,3 11,9 8,1 0,0 2,0 4,0 6,0 8,0 10,0 12,0 14,0 16,0 18,0 20,0 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 YTD- Dez/06

0,40 0,34 0,43 0,55 0,41 0,35 0,54 0,66 0,37 0,48 0,65 0,53 0,00 0,10 0,20 0,30 0,40 0,50 0,60 0,70 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 YTD- Dez/06

Gráfico 4 – Índice de gravidade 1995 - 2006

Esta subida não seria decerto alheia à intensificação da pressão produtiva que marca de forma vincada a atmosfera geral que se vive na Empresa. À pressão concorrencial, interna e externa ao Grupo a que a Empresa pertence, e a consequente necessidade de produzir cada vez mais, melhor e a mais baixo custo, a Empresa respondia com resultados que superavam as expectativas, à custa de constantes reorganizações do processo de produção e ampliações da área e fabril, da introdução de novas máquinas e maximização da capacidade das existentes, de uma política “agressiva” de prémios à produção e a projectos de melhoria. Respirava-se na Empresa crescimento (quase poderíamos dizer obsessão pelo crescimento e pela superação dos objectivos, tal a unanimidade com que esta missão era encarada e verbalizada por todos os actores, em todos os sectores e a todos os níveis da Empresa). Praticamente todas as semanas se batiam recordes de produção, nas diferentes áreas da fábrica e os turnos competiam entre si para a titularidade do recorde da sua máquina ou processo. Esta era uma missão de todos, de que todos se investiam. A superação era considerada uma necessidade incontornável para a manutenção da rentabilidade da Empresa e, consequentemente, para a estabilidade no emprego; e a maximização e estabilidade nos prémios auferidos era, cada vez mais, uma necessidade igualmente incontornável para a manutenção de um nível de vida a que cada vez mais os trabalhadores se habituavam e com o qual se comprometiam não

só na Empresa como noutras dimensões da sua vida. O quadro 2 ilustra bem esta intensificação da produção vivida na Empresa nos últimos anos.

ANO Nº Trab Nº. Horas Trabalhadas Pneus Produzidos Pneus/

Trabalhador Peso Pneus Peso Total

Peso/ Trabalhador 2003 1.474 2.394.684 12.457.652 8.452 6,6 82.220.503 55.780,53 2004 1.455 2.326.775 13.122.895 9.019 7,2 94.484.844 64.938,04 2005 1.450 2.276.310 13.755.234 9.486 7,6 104.539.778 72.096,40 2006 1.435 2.278.549 14.557.410 10.145 7,8 113.547.798 79.127,39

Quadro 2 – Produção e carga física por trabalhador entre 2003 e 2006.

De uma forma simplista poderíamos dizer, com base neste quadro, que menos gente, em menos tempo, passara a produzir mais pneus e pneus mais pesados40. Esta realidade era não só aceite como considerada natural e incontornável face à conjuntura nacional e internacional e o sentimento generalizado era de orgulho pela realização e de ambição de fazer mais ainda. Os actores mais directamente ligados ao processo produtivo (operadores de máquinas, chefias da produção e da engenharia) falavam de dificuldades que esta realidade lhes colocava, mas encaravam-nas como elementos naturais e como desafios ao seu engenho e à sua capacidade de superação, que a Empresa, por seu turno, premiava em sinal de reconhecimento.

No entanto, em 2006 a situação alterou-se. Os níveis de sinistralidade haviam aumentado significativamente. Este era um problema para a DSIA mas também para a Administração da Empresa. A natureza do problema em si já suscitava preocupação e necessidade de perceber e inverter a situação, necessidade esta que era agravada pelo facto de o desempenho da Empresa ao nível do Grupo a que pertence ser também avaliado em função de critérios de Segurança, Saúde e Ambiente. Além disso, esta era uma situação que comportava custos directos, indirectos, morais e de imagem para a Empresa. Na perspectiva da Administração era urgente encontrar uma solução para esta

situação, como o era naturalmente para a DSIA, para quem, pela sua responsabilidade directa sobre a matéria, era igualmente importante demonstrar esclarecimento e domínio do fenómeno e um plano credível de acção rápida e concreta para a sua superação.

4.6.3. – Uma questão de ponto de vista

Para agir sobre o problema, a DSIA precisava antes de mais de o compreender. Mas, como já referimos atrás, a forma como os dados referentes aos acidentes de trabalho eram recolhidos e categorizados na Empresa não facilitava, na nossa perspectiva, esse esclarecimento. Mesmo a análise que a DSIA efectuava aos acidentes, ponderando o dia, a hora, a área em que ocorreu, o tipo de lesão ou a área lesada, apenas permitia identificar áreas de maior prioridade de intervenção, mas dizia-nos pouco acerca da especificidade local dos problemas ou do caminho para a sua superação. Numa tentativa de sistematizar as principais causas dos acidentes, a DSIA propusera um conjunto de categorias, sobre as quais nos parece pertinente tecermos algumas considerações.

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