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Chapitre III : conditions de travail

Article 28 : horaire de travail variable

Na geografia brasileira, um significativo fomento à pesquisa sob a perspectiva da qualidade do ambiente urbano se deve a Monteiro (1975). Em sua tese de livre- docência, intitulada “Teoria e Clima Urbano”, defendida na Universidade de São Paulo naquele ano, Monteiro apresenta uma proposta de teorização e uma nova abordagem metodológica para o estudo do clima urbano, adaptadas às necessidades da realidade brasileira da época. Considera o autor que “os

tratamentos natural e social integrados constituem a base de compreensão dos estudos geográficos” e busca na sua proposta ver na cidade “não um antagonismo entre o homem e a natureza, mas uma co-participação” (MONTEIRO, 1975;

GONÇALVES, 2003; BRANDÃO, 2003). Opta assim por uma abordagem sistêmica e define o Sistema Clima Urbano (S. C. U.) como um “sistema singular, aberto,

evolutivo e passível de auto-regulação”, abrangendo “o artefato físico criado pela urbanização, integrado ao suporte geoecológico em que se insere, dinamizado pelos fluxos urbanos, é que constitui o operando do S. C. U. cuja estrutura é penetrada e percorrida por fluxos energéticos do operador: a atmosfera” (MONTEIRO, 2003, p.

41).

Ao propor uma abordagem de análise sistêmica, Monteiro (1976, p. 102-103) adverte que pensa o sistema mais como interação do que na perspectiva de mensuração de fluxos ou armazenagens internas de matéria e energia. O que Monteiro valoriza na perspectiva sistêmica é a disposição das partes ou dos elementos no conjunto, relacionados e coordenados entre si, que funcionam como estrutura organizada que se adapta e produz novos padrões de comportamento e articulação entre as escalas. Esta visão centralizada na percepção humana valoriza, entre as componentes espaço-temporais do sistema climático, a influência das estruturas superficiais, portanto, o que se definiria posteriormente como climatologia geográfica. Monteiro (1976) propôs a análise espacial como fator de organização que teria um papel estruturador da investigação como um todo; esta análise espacial se fundamenta na representação cartográfica do conjunto de complexos territoriais que constituem a base física da área de estudo e daqueles que são o resultado do trabalho humano materializado na forma de casas, fábricas, canalizações, aterros.

Esta proposta, como destacou Mendonça (2004, p. 198) “leva em conta não

somente o diagnóstico da realidade urbana, mas toma-o na perspectiva da solução de problemas ambientais relacionados a três subsistemas do clima urbano, culminando com a elaboração de diretrizes para o planejamento da melhoria das condições de vida na cidade”.

Avançando na idéia de conceber a cidade dando relevância à interação estabelecida entre as dimensões sociedade e natureza, às dinâmicas e à gênese dos elementos que a compõem, e aos problemas ambientais que decorrem da pressão humana sobre os recursos nos exíguos espaços formados pelas áreas urbanizadas, Mendonça (2004, p. 201-203) propõe uma perspectiva que toma a

cidade como uma totalidade, o Sistema Ambiental Urbano (S. A. U.), que é constituído pelos seguintes subsistemas.

• Subsistema Natural – relevo, ar, água, vegetação e solos.

• Subsistema Construído – habitação, indústria, comércio e serviços, transporte e lazer.

Os atributos do sistema proposto são os seguintes:

• Dinâmica da sociedade – neste âmbito prevalecem as características pertencentes à superestrutura da sociedade (economia e política) e a cultura da população que a constitui, além da educação e da tecnologia. Mendonça (2004, p.203) propõe que muito auxilia na compreensão do dinamismo do fato urbano compreender a cidade na perspectiva de “sistemas de técnicas e sistemas de ações”, proposta por autores como Henry Lefebvre e Milton Santos.

• Dinâmica da natureza – dimensão supra-humana, a qual suplanta os controles exercidos pela sociedade quando se manifesta em episódios extremos e impactantes.

Os resultantes (output) do sistema seriam os problemas ambientais urbanos, que demandam atenção da população, da sociedade organizada e das instituições. As inundações seriam um output do S. A. U. Mendonça (2004, p. 203) ainda propõe que se pense este sistema na perspectiva do planejamento e gestão socioambiental urbana.

Ainda na perspectiva sistêmica, considera-se fundamental a contribuição de Pigeon (2005), que a propõe para o estudo de riscos em áreas urbanas. Este entende por análise sistêmica a possibilidade de se compreenderem e de se representarem sob forma de sistema as materializações espaciais atuais do risco que constituem as formas de propensão ao risco. Ele retoma a análise de sistemas, tal como foi definida por Walliser: “vontade, em reação às tendências ultra-analíticas de certas ciências, de restaurar uma abordagem mais sintética que reconheça as propriedades de interação dinâmica entre elementos de um conjunto, lhe conferindo um caráter de totalidade”. As definições correntes de sistema insistam sobre as interações. Um sistema é definido por Bertalanffy como um conjunto de elementos em interação mútua, ou por outros como um conjunto de elementos em interação

dinâmica, organizados em função de um objetivo. Pigeon(2005), porém, não aceita a redução da análise à interação equitativa entre todos os parâmetros, dado o problema posto pelos processos naturais em estudos de geografia dos riscos. Há uma natureza não necessariamente modificada pela ação humana, ou desnaturalizada. Há, portanto, limites demonstráveis nas interações, o que impõe a necessidade de não se reduzir um sistema a elas, razão pela qual Pigeon (2005, p. 33) recorre à idéia de entorno do sistema risco. O entorno poderia ser definido pelas causas que agem sobre o sistema sem serem, necessariamente, influenciadas por ele em retorno. As relações entre entorno e sistema só se estabelecem do primeiro para o segundo. Deduz-se a existência de uma fronteira (este termo tomado no sentido sistêmico) que separa o sistema risco, propriamente dito, de seu entorno. Esta interpretação é imposta pelo fato de que a distribuição dos riscos é parcialmente condicionada às heranças da evolução geomorfológica, ou ao fato de que a ciclogênese ou a tectônica de placas escapam à interferência humana. As influências naturais não desapareceram da problemática dos riscos. Seja porque as heranças do tempo longo geológico continuam a marcar, em parte e indiretamente, os assentamentos humanos, seja porque certos processos físicos atuais escapam a toda forma de intervenção humana, particularmente (especialmente) em suas origens. No cerne do sistema risco, segundo Pigeon (2005), ocorrem as interações dinâmicas entre processos físicos - que materializam espacialmente o risco - e fatores de povoamento – atualmente atrelados à urbanização de maneira indissociável -, que induzem à desigual vulnerabilidade. A vulnerabilidade, como produto da exposição física a um perigo natural e da capacidade humana de se preparar e de se recuperar dos impactos negativos em uma ocorrência efetiva, é uma noção complexa, porque apresenta conteúdos psicológicos, econômicos, patrimoniais, tecnológicos e organizacionais, que se diversificam no espaço e no tempo.

A preferência paradigmática de Monteiro (1976), Mendonça (2004) e Pigeon (2005) pela Teoria dos Sistemas como um sistema de referência está no fato de ela possibilitar uma visão complementar à noção mecanicista na análise; ou seja, uma visão que não se limite a uma simples avaliação em termos de causa-efeito (relação sociedade-natureza, situação-reação, estímulo-resposta), mas que propicie a compreensão da interdependência dos processos em termos de organização

funcional. A sistêmica é essencialmente uma abordagem, um método de compreensão ou de resolução de situações e de problemas complexos.

Esta perspectiva paradigmática serve como ancoradouro da investigação empreendida nesta tese, um esforço de ordenação. Guermond (apud Pigeon 2005) menciona que toda análise geográfica é essencialmente sistemista, já que ela insiste na importância das interações. De fato, a causalidade linear seria, para o geógrafo, um desvio (um erro). O raciocínio geográfico é fundamentado pelo reconhecimento da plurifatorialidade e pelas interações parciais que sugere esta plurifatorialidade identificada. Admite-se, contudo, o freio cultural ante a perspectiva sistêmica, quando nas práticas de pesquisa. Segundo Guigo et al (1995) “o mundo do pensamento sistêmico implica uma mudança de espírito que não é evidente ou ao menos habitual aos espíritos ocidentais. Os raciocínios habituais de tipo cartesiano são analíticos e lineares; o exercício que consiste em pensar globalmente e segundo um raciocínio circular não é imediato”.

Nos estudos de problemas ambientais urbanos, Coelho (2001, p. 36) considera que “o desafio consiste em conceber uma investigação que não renuncie

a crítica dos conceitos, métodos e técnicas e que ‘não cesse de ser investigadora’”.

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