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What Are We Trying to Compress? 3

4.8 Home Movie Formats

Tabela 9 – Percepção da violência sofrida

Categorias apresentadas pelos sujeitos Sujeitos da pesquisa Incidência

Institucional 2 6%

Estrutural 6 19%

Intrafamiliar 16 50%

Nega a violência 8 25%

Fonte: Pesquisa de campo Organização: A autora (2017)

Os homens entrevistados responderam também à indagação se, em algum momento da vida, sofreram violência. Neste quesito, 50% contaram que sim, em algum momento vivenciaram-na; deste percentual, 6% sofreram violência institucional; 19% a estrutural e 50% a intrafamiliar, e na maioria das situações foi na infância. Por exemplo, o sujeito 7 relatou que não sofreu diretamente, mas via a mãe ser agredida constantemente pelo pai. A fala a seguir é uma evidência deste dado:

[...] eu não sofri violência, só quando – tipo assim – eu presenciei muitas brigas dos meus pais. Eu acredito que ter presenciado violência as brigas dos meus pais é um tipo de violência, porque você desde cedo vendo confusão acontecendo dentro de casa, aí você cresce com aquilo na cabeça: quando eu crescer vai ser diferente. (S.7)

Já a narrativa do sujeito 14 foi no sentido de reconhecer a violência sofrida, mas a justifica sob o argumento de que era uma criança que precisava de palmadas e que isso se

constitui em educação. Interessante que ele narra que, aos olhos dos estranhos, o comportamento adotado pelo pai poderia ser visto como ato violento. O sujeito 23 disse que apanhava muito do padrasto, principalmente quando ele estava embriagado. Nestes relatos, evidencia-se que a violência está arraigada na formação do sujeito, que o modo de vivenciar a família está permeado de relações doentias, agressivas e desrespeitosas, e que estes modelos de relacionamentos são constantemente ensinados e copiados no decorrer da vida.

Por sua vez, os sujeitos 17 e 18 expressaram que a vivência familiar de violência acarretou danos de ordem psicológica, deixando marcas em suas identidades.

[...] Eu já vivi violência na minha vida, fui criado sem pai e sem mãe, na verdade, então eu nunca fui nenhum santo, criança eu fui daqueles bem terrível mesmo, apanhava mesmo. Eu não acho que era violência, era aquilo que eu acabei de falar, eu corrigi o meu filho, ela corrigia a gente, mas apanhava, para quem via de fora falava que era violência, para nós era normal, porque a gente procurava, apanhando mesmo. (S.14)

[...] eu sofri violência sim, por estar nesse meio sofri violência do lado psicológico. Porque quando a gente é criança, a gente já está ali com o seus 10-11 anos já entende um pouco da situação. (S.17) [...] eu acredito que nas famílias existe violência e varia muito o tipo da violência que há na família; às vezes tem muita questão das pessoas que bebem na família, no meu caso mesmo foi bebida. [...] eu venho de uma família de cinco irmãos, eu sou o caçula, então eu fui muito coagido pelos meus irmãos emocionalmente, principalmente quando a gente é mais ingênuo. A minha mãe não faz ideia do que ela causou, assim, e eu acho que é um tipo de violência eu não sei o que significa no dicionário violência, mas sei que causa algumas cicatrizes na gente. (S.18)

[...] eu nunca sofri violência, acho que violência é você apanhar demais do pai, tem pai que abusa dos filhos, eu vi muito meu pai discutir com a minha mãe. (S.19)

[...] com certeza existe violência na família, o meu pai discutia com a minha mãe por um simples arroz queimado e eu sempre falei para os meus irmãos: nós somos em quatro. (S.23)

As respostas dos sujeitos trazem a reflexão sobre o papel da família na construção de valores do ser humano. A contingência de fatos vividos no âmbito familiar, principalmente na infância, estabelece na vida psíquica do homem códigos e significados que podem deflagrar reações diferentes, dependendo do ambiente.

Para Bourdieu (2012), a família é categoria que está inscrita no indivíduo como entidade integrada e formada por laços de amor, mas também instituída coletivamente como modelo de corpos sociais, responsável pela manutenção da ordem social, por isso sua força na subjetividade do indivíduo.

Assim, a categoria família como categoria social objetiva (estrutura estruturante) é o fundamento da família como categoria social subjetiva (estrutura estruturada), categoria mental que é a base de milhares de representações e de ações (casamento, por exemplo) que contribuem para reproduzir a categoria social objetiva. Esse é o círculo de reprodução social. O acordo quase perfeito que se estabelece entre as

categorias subjetivas e as categorias objetivas funda uma experiência do mundo como evidente, taken for granted. Nada parece mais natural do que a família: essa construção social arbitrária parece situar-se no polo do natural e do universal (BOURDIEU, 2012, p. 128).

Assim, é na família que se produz e reproduz o capital simbólico, marcando de forma positiva quando vivido em ambiente de amor, solidariedade, ajuda e respeito, mas do mesmo modo será marcado por experiências negativas de agressividade, violência, privações emocionais e rejeição, que produzirão nas crianças – futuros adultos – marcas no corpo e na mente sobre valores e comportamentos. E toda essa gama de experiências marcarão, ainda que inconscientemente, e poderão aparecer nos momentos em que se depararem com situações parecidas com a que vivenciaram na infância. Afinal, as identidades são formadas pelas vivências que são eleitas como verdades, num primeiro momento pela família e posteriormente reforçadas ou não pelo convívio social.

A realidade vivida pela criança fornece um estoque social construído sobre valores, experiências que passam a ser interpretadas como “naturais”, pois são incorporadas no seu cotidiano e interiorizadas. Berger e Luckmann (1998) afirmam que a criança, por meio da absorção destes significados, em especial na socialização primária, não apreende outros significativos além do mundo tal como é definido pelos pais como única realidade. Posteriormente ao processo de interação com outros mundos institucionais (como escola, trabalho, etc.), a força do mundo já interiorizado prepondera, pois foi a sua realidade doméstica apreendida.

Além do que, todos os dias se noticiam pelos meios de comunicação casos de lesões e mortes causadas pelos motivos mais banais, como acidentes de trânsito, discussões por conta do descontentamento com atendimento no comércio, ou seja, desproporção e desequilíbrio nas relações sociais, reflexos da violência. Todo esse aparato vai construindo e reforçando identidades violentas, pois, como se sabe, a identidade não é estática, vai se moldando de acordo com a estrutura social.

O que se evidenciou no diálogo com os entrevistados foi um cenário também reconhecido nas pesquisas, de que a influência da violência sofrida ou presenciada pelas crianças gera impactos profundos nas identidades, aumentando a probabilidade de que o comportamento violento seja reproduzido na vida adulta. De acordo com os resultados da pesquisa sobre Violência Doméstica, Violência na Gravidez e Transmissão entre Gerações, apresentados no Relatório Executivo III, primeira onda 2016, Fundação Instituto Maria da

Penha e Instituto Avon, a Transmissão Intergeracional da Violência Doméstica (TIVD) funciona como mecanismo de perpetuação da violência entre gerações.

E por fim, apareceu na pesquisa um universo expressivo de 25% dos entrevistados que afirmaram não terem sofrido ou presenciado qualquer tipo de violência na família; entretanto, da análise das entrevistas constataram-se situações de violências experimentadas, mas que passaram despercebidas pelos próprios sujeitos, como exemplificado abaixo:

[...] Na minha infância eu não sofri violência, porque na minha infância só tive a minha mãe; quando eu era criança, era mãe a pai também, por isso eu nunca esqueci isso. Eu acho que ela não quis que eu convivesse com isso e já deu um basta nisso, meu pai nos abandonou quando eu tinha 2 anos de idade, eles não se davam muito bem, e se separaram. (S.10)

[...] eu nunca sofri violência, acho que violência é você apanhar demais do pai, tem pai que abusa dos filhos, eu vi muito meu pai discutir com a minha mãe. (S.13)

[...] Na minha família nunca existiu violência e não existe e não vai existir. Mas tem família que existe sim.( S.19)

[...] Creio que na família possa existir violência, não posso provar, mas na minha família não existe e não existiu violência. Eu também nunca sofri violência, bom, violência assim, não, que eu lembre não. (S. 20)

No relato do sujeito 10, ele afirma que não sofreu violência, mesmo narrando que foi abandonado pelo pai aos dois anos de idade, situação que se configura como abandono moral, haja vista que é dever dos pais cuidar dos filhos. Na mesma esteira foi a narrativa do sujeito 13, que apenas imputa a agressão física como violência, mas reconhece que presenciou discussão do pai contra a mãe.

Os discursos contraditórios acenam no sentido de racionalizar as experiências vivenciadas, ainda que dolorosas e decorrentes de abandono afetivo, material. A hipótese que se aventa para essas narrativas de negação é a de que a criação e socialização destes sujeitos se deu em espaços de violência, compondo suas identidades, o que justificaria a naturalização de comportamentos desajustados. Outra possiblidade, ainda, de que o modelo familiar que vivenciam tem nos pais a autoridade para criar e educar os filhos, mesmo que para isso se utilize de violência.

De outro lado, os relatos de sofrimento estrutural também foram vivenciados pelos sujeitos, dos quais 19% o relacionaram com os reflexos da modernidade, situações ligadas ao trabalho, à criminalidade e falta de segurança.

Destacou-se a resposta do sujeito 22 quando relatou já ter vivido violência e que já brigou na rua, mas isso não se trata de violência, porque, segundo ele, “se dois homens estiverem brigando na rua, é uma briga de iguais”. Ele reforçou a ideia de que ficar transtornado,

para o homem, é natural e não constitui um ato de violência, pois na construção social do masculino, a inscrição de valores como força e coragem está associada à virilidade e tais valores lhes são ensinados desde a infância e reforçados na vida adulta.

[...] Eu penso que violência é o que a gente veio tratar hoje, que é o quer mais acontece do homem bater na mulher, o resto eu não vejo violência, se um homem briga na rua, ele brigou, depende da situação, uma briga de trânsito é mais fácil conversar do que agredir, dois homens brigando na rua não é violência, porque não é uma covardia, agora dois homens batendo em uma mulher, é covardia, porque se eu pegar a mulher para eu bater nela, eu vou machucar ela. Quando tem uma briga de duas pessoas iguais não é violência, eu não creio que seja, só que não é certo, não se pode. (S.22)

Isso mostra como a construção da identidade fundada no gênero afeta o sujeito envolvido, ao afirmar que se homens brigarem não constitui violência, mas se essa conduta se voltar em uma mulher, constitui “covardia”. Há evidências nessa fala do sujeito, cuja vivência é calcada sobre os papéis de gênero, nos quais há comportamentos permitidos aos homens em relação aos outros homens (como resistências físicas, insultos), mas não à mulher, que é tida como frágil.

Isto remete a pensar na cultura dominante, que naturaliza as diferenças entre os sexos e serve como justificativa para o uso da força pelos homens. Esta carga simbólica tem na sociedade todos os ingredientes necessários para seu pleno exercício. É o poder exercido pela cultura que produz identidades generificadas, conforme aponta Butler (2016).

Longe de ver estas estruturas se enfraquecerem no imaginário masculino, o sujeito 22 chega num momento da entrevista que reflete sobre a incorporação e repetição de comportamentos violentos, quando afirma:

[...] chega num ponto que você olha e percebe que está igual: eu não sei se conviver com a violência, desperta a violência na gente, mas acho que sim, porque parece que é uma coisa que acaba acompanhando você. (S.22)

A ponderação do sujeito traz a dimensão da problemática da violência na constituição da identidade, porque é realidade do mundo da cultura, que se expressa de modo complexo em diferentes situações, mas sempre de forma inconsciente e difusa, com carga simbólica de condicionar comportamentos sem ele mesmo perceber. Isto representa o processo de socialização do sujeito, naturalizando-se e engendrando na sua subjetividade o habitus tão bem elaborado por Bourdieu (1990), como se viu neste trabalho de pesquisa.

Dada a força simbólica da violência, conforme aponta Bourdieu (1990), que é complexa e pluridimensional, consegue com sucesso se reproduzir na ordem social como cultura dominante, que define comportamentos ainda que de modo inconsciente, como exposto

pelo sujeito entrevistado. E, em especial, na violência de gênero, que também está incorporada nos corpos e nos habitus dos agentes, funcionando como sistemas de esquemas de percepção, de pensamento e de ação (BOURDIEU, 2014, p.21).

Por estes motivos, a cultura da violência de gênero contra a mulher encontra terreno fértil para se expandir, porque a naturalização histórica destes comportamentos normatizam corpos e funcionam como tecnologias de poder, com prejuízos ao homem e à sociedade, que se vê envolvida em sofrimentos, discriminações, doenças e criminalidade (LAURETIS, 1987).

Quanto às consequências sofridas pelos homens que praticaram violência, a justiça, por meio do Processo Penal, atua como instrumento legítimo para a imposição da pena, em face das violações contra os bens jurídicos fundamentais. E é sobre o impacto da atuação jurisdicional sobre o indivíduo que será tratado no próximo tópico.