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Histoire de la vieille

Dans le document Candide ou l'optimisme (Page 33-37)

Reafirmando o compromisso da didática com os resultados do ensino, para uma educação inclusiva e emancipatória e entendendo-a como campo de conhecimento essencial para a atividade docente, parece-nos ser possível, no atual contexto – sociedade globalizada, novos paradigmas, novas formas de organização e funcionamento dos sistemas de ensino e de escolas e o pró- prio campo de estudos e pesquisas emergentes na área –, as autoras partem da seguinte problemática: como essas questões atravessam o fazer docente? Que novos saberes e fazeres são necessários aos professores? Que respostas a didática pode apresentar?. (FRANCO; PIMENTA, 2014, p. 37) E propõem o que denominam de didática multidimensional.

Assumindo esses e tantos outros desafios da didática, escrevemos um texto ao qual intitulamos Didática Multidimensional: por uma sistema- tização conceitual. Após discussão em diversos âmbitos, foi publicado com

esse mesmo título. (FRANCO; PIMENTA, 2016) Fruto de pesquisa de na- tureza teórica, parte do pressuposto de que os saberes ensinados são re- construídos pelos sujeitos educadores e educandos, o que lhes possibilita se tornarem autônomos, emancipados, questionadores. A partir da ques- tão central – a didática e as didáticas específicas têm oferecido fundamen- tos a essa prática? –, analisa os limites da transposição didática nas didá- ticas específicas, e da perspectiva normativa na didática, que minimizam a complexidade do ensinar, o que pode ser superado configurandose uma didática multidimensional. Partimos da consideração de que o “[...] proces- so ensino-aprendizagem se concretiza intencionalmente nas instituições formais – escolas e universidades, devendo ser orientado por “princípios de uma Didática Geral que articule e fundamente os processos de media- ção entre a teoria pedagógica e a ação de ensinar”. (FRANCO; PIMENTA, 2016, p. 543) Nesse pressuposto reside grande parte dos desafios da didá- tica: ensejar condições para o encadeamento entre os postulados teóricos e a concretude das práticas pedagógicas.

Celestino Alves da Silva Junior, em parecer sobre Relatório de Pesqui- sa (PIMENTA et al., 2017b), se vale dessa perspectiva para afirmar:

Associando os atos de ensino propriamente ditos aos processos e circunstâncias, que intervêm nas situações de aprendizagem, a Didática supera seu viés normativista tradicional, aproximan- do-se do conceito emergente de Didática Multidimensional. Pensada em termos mais abrangentes, a Didática se credencia à posição de núcleo organizador de possíveis ações integradas entre as diferentes áreas curriculares do curso. (SILVA JUNIOR, 2017, p. 4)

Em síntese elaborada por Melo e Pimenta (2018), as autoras infor- mam que, no sentido de aprofundar a construção teórico-epistemológica do conceito de didática multidimensional, Franco e Pimenta, 2016, indi- cam a interlocução entre a pedagogia de Freire (1996), principalmente, no que se refere à curiosidade epistemológica, as pesquisas de Ardoíno (1992) sobre o conceito de multirreferencialidade pedagógica e os pressupostos de Charlot (2000, 2013) referentes à relação com o saber. Nesse sentido,

o escopo contemporâneo da Didática pode assim ser entendido como di- dática multidimensional “articulada a contextos nos quais os processos de ensinar e aprender ocorrem. Que se paute numa pedagogia do sujeito, do diálogo, cuja aprendizagem seja mediação entre educadores e educandos.” (FRANCO; PIMENTA, 2016, p. 3). Essas autoras apontam, ainda, a neces- sidade de instituir práticas vigorosas de formação de professores, capazes de contribuir para a construção dos saberes profissionais e da identidade docente. Diante desses desafios, Franco e Pimenta (2016, p. 8) reafirmam que “a essa Didática, que tem seu suporte na teoria pedagógica que parte da práxis educativa e a ela retorna, seria apropriado denominá-la de Mul- tidimensional”.

Com base nos autores referidos e em suas próprias produções, Fran- co e Pimenta (2016) explicitam alguns princípios que consideram essen- ciais à prática pedagógica docente.

1. As atividades que compõem o ensino resultam melhor quando

envolvidas em processos investigativos. Alunos e professores, ao se articularem como pesquisadores em ação, passam a problematizar a realidade e a buscar alternativas de pensamento e reflexão. Ao invés de transmitir conceitos e conteúdos, a perspectiva será a de pesqui- sar a realidade envolvida com aquele conceito, tendo os saberes das áreas de ensino como “ferramentas” que ampliam o olhar dos sujeitos sobre a realidade. É sabido que uma das melhores formas de envol- ver o aluno nas atividades é mobilizá-lo com perguntas, pesquisas, buscas e sínteses. (CHARLOT, 2013; FRANCO, 2013; FREIRE, 1979; PIMENTA, 2012) A sala de aula transformada em oficina de busca e indagação produz aprendizagens mais consistentes do que aquelas produzidas em ambientes de transmissão de conteúdos. (GALLEÃO, 2014) A ação de ensinar como prática social é permeada por múl- tiplas articulações entre professores, alunos, instituição e comuni- dade, impregnada pelos contextos socioculturais a que pertencem, formando um jogo de múltiplas confluências que se multidetermi- nam num determinado tempo e espaço social, impregnando e con- figurando a realidade existencial do docente. Assim, o fazer docente

estará sempre impregnado com as concepções de mundo, de vida e de existência dos sujeitos da prática. Desta forma, só a pesquisa contínua e criteriosa pode colocar o professor em processo de con- textualização do ensinar/aprender, conforme (FRANCO, 2013), e de ressignificar seus saberes disciplinares. Lembrando, no entanto o que nos ensina Freire (2007): Antes de qualquer tentativa de discussão de técnicas, de materiais, de métodos para uma aula dinâmica assim, é preciso, indispensável mesmo, que o professor se ache“repousado” no saber de que a pedra fundamental é a curiosidade do ser humano. É ela que me faz perguntar, conhecer, atuar, mais perguntar, re-conhecer. É bom realçar que a didática não recomenda técnicas como se fossem neu- tras, pois sabe que elas só são funcionais se denotarem uma forma de expressão significativa do professor para o processo de ensinar. E cada professor trabalha, opera técnicas conforme sua postura, seus valores, suas expectativas em relação a que alunos pretende e projeta com seu trabalho.

2. Paulo Freire, em toda sua obra, sempre se referiu à necessidade

de se estabelecer entre alunos e professores um universo comum de conhecimento, a partir do qual se poderia estabelecer as bases de um diálogo na perspectiva do logos que vai então se estruturando e se construindo. Nesse processo, os sentidos vão sendo criados e trans- formados, conforme Charlot (2000, 2013). Assim, consideramos que esse segundo princípio seria a necessidade de processos dialo- gais na sala de aula. Historicamente, esse sentido de diálogo foi sen- do muitas vezes apropriado como senso comum. Há que se recordar que o diálogo precisa estar voltado à construção do conhecimento. Lembra-nos Freire que para aprender é preciso existir, e existir ultra- passa viver porque é mais do que estar no mundo. É estar nele e com ele. E é essa capacidade ou possibilidade de ligação comunicativa do existente com o mundo objetivo, contida na própria etimologia da pa- lavra, que incorpora ao existir o sentido de criticidade que não há no simples viver. Transcender, discernir, dialogar (comunicar e participar)

são exclusividades do existir. O existir é individual, contudo só se realiza em relação com outros existires. Em comunicação com eles. (FREIRE, 1979, p. 57) Essa exigente proposta de diálogo como criticidade é fun- damental para superar o sentido banal de diálogo como conversa. Em sala de aula, o diálogo adquire a perspectiva de problematização da realidade e de crítica; e com respaldo no projeto político pedagógi- co coletivo esse trabalho em aula amplia o sentido do ensino para os estudantes. Essa é a dimensão que precisa ser buscada, a superação do empírico pelo concreto, o que se faz pelo diálogo e pela teoria. Esse processo cria sentido e mobiliza para a ação. Afirma Freire em 1979, que uma educação dialogal e crítica pode conduzir a uma “transiti- vidade crítica voltada para a responsabilidade social e política e esta transitividade se caracteriza pela profundidade na interpretação dos problemas. Pela substituição de explicações mágicas por princípios causais. […] Pela prática do diálogo”. (FREIRE, 1979, p. 85)

3. Outro princípio que a didática multidimensional recomenda é a

construção de processos de práxis. Na perspectiva freireana, a práxis significa a “[...] reflexão e ação dos homens sobre o mundo para trans- formá-lo. Sem ela, é impossível a superacão da contradição opres- sor-oprimido.” (FREIRE, 1997, p. 38) Temos falado da importância da reflexão, no entanto, mais uma vez, há que se considerar que a apreensão apressada do conceito, por parte de muitos professores e pesquisadores, tem banalizado sua interpretação (PIMENTA, 2011) e impedido de ser uma proposta contra-hegemônica frente ao pragma- tismo e ao tecnicismo que tem impregnado as práticas educativas e sociais. É preciso refletir a partir de um saber comum, de um saber contextualizado sobre o papel social e político da educação e do traba- lho docente. Esse movimento da epistemologia reflexiva da prática, dentro da racionalidade crítica, tal qual proposta por Carr e Kemmis (1995) e desenvolvida por Pimenta (2002), inova e organiza possibi- lidades de ruptura com algumas circunstâncias da cultura profissio- nal institucionalizada que limitam o exercício e o desenvolvimento

da autonomia intelectual dos docentes. Por isso, é estratégico para a superação de condições inadequadas do trabalho do professor. Vale a pena refletir com Imbert (2003, p. 15, grifo nosso) a distinção que faz entre prática e práxis, e atentando para a questão da autonomia e da perspectiva emancipatória, inerente ao sentido de práxis:

Distinguir práxis e prática permite uma demarcação das carac- terísticas do empreendimento pedagógico. Há, ou não, lugar na escola para uma práxis? Ou será que, na maioria das vezes, são simples práticas que nela se desenvolvem, ou seja, um fazer que ocupa o tempo e o espaço, visa a um efeito, produz um objeto (aprendizagem, saberes) e um sujeito-objeto (um escolar que recebe esse saber e sofre essas aprendizagens), mas que em ne- nhum momento é portador de autonomia.

O exercício da práxis requer processos de conscientização do profes- sor sobre o papel que desempenha na sala de aula, no mundo, na vida dos alunos. Somente um professor consciente dessas circunstâncias pode produzir mudanças e novas perspectivas na vida dos alunos.

4. Construção de processos de mediação. Como a didática pode tor-

nar possível o ensino? Um ensino que proceda à mediação reflexiva entre os valores e a cultura que a sociedade dissemina e os estudantes em formação? Pode a didática sozinha dar conta desta tarefa? É claro que não, no entanto ela, como campo específico de conhecimento, tem uma responsabilidade social em acompanhar e refletir as mu- danças que ocorrem no mundo e dar respostas para a ressignificação dos processos de ensino na perspectiva da aprendizagem do aluno. E contribuir com os sujeitos desse processo, e com a construção de situações de aprendizagem significativas, dentre elas as aulas, para que sejam interessantes, conforme Charlot (2000, p. 73) “[...] uma aula ‘interessante’ é uma aula na qual se estabeleça, em uma forma específica, uma relação com o mundo, uma relação consigo mesmo e uma relação com o outro”. A mediação didática aí penetra ao dispor aos docentes perspectivas de análise que os ajudem a compreender

os contextos históricos, sociais, organizacionais, culturais, nos quais os sujeitos estão, em relação com o saber a ser “reaprendido”. Assim, a didática se estrutura nas possibilidades de mediação entre o ensino, prioritariamente na responsabilidade de professores e a apren- dizagem dos alunos. Enfatizamos que didática é, acima de tudo, a cons- trução de conhecimentos que possibilitam a mediação entre o que é preciso ensinar e o que é necessário aprender; entre o saber estruturado nas disciplinas e o saber ensinável nas circunstâncias e momentos; en- tre as atuais formas de relação com o saber e as novas formas possíveis de reconstruí-las.

5. Considerando a complexidade do ato pedagógico de ensinar e apren-

der em contextos, parece-nos relevante considerar que os saberes de várias áreas sejam mobilizados nesses contextos, pois como nos diz o poeta João Cabral de Mello Neto “um galo sozinho não tece a manhã”. À didática multidimensional compete considerar os processos de redes de saberes, dispondo os saberes da ciência pedagógica aos ensinantes e aprendentes na criação de suas atividades. E, como nos diz Suchodolski (1960 p. 477),

[...] não porque [a ciência pedagógica] contenha diretrizes con- cretas válidas para ‘hoje e amanhã’, mas porque permite realizar uma autêntica análise crítica da cultura pedagógica, o que facili- ta ao professor (e à escola, acrescentamos) debruçar-se sobre as dificuldades concretas que encontra em seu trabalho, bem como superá-las de maneira criadora.

Na análise de pesquisas apresentadas em eventos nacionais e inter- nacionais, percebe-se a existência de vasto leque temático – epistemologia didática; docência e pesquisa; relação professor-aluno-conhecimentos; au- toridade e autoritarismo; avaliação; projeto pedagógico; metodologias es- pecíficas; relação comunicacional mediada por tecnologias, formação de professores crítico-reflexivos, e tantos outras que poderiam sugerir uma dispersão temática e perda de foco da didática.

No entanto, se considerarmos a complexidade do objeto da didática – o ensino enquanto fenômeno complexo e prática social –, percebemos que as pesquisas estão apontando para uma abordagem que poderíamos denominar de multidimensional, para além da multirreferencialidade de um fenômeno, que não se esgota com a análise de uma única perspectiva, assumindo “plenamente a complexidade da realidade sobre a qual se inter- roga.” (ARDOÍNO, 1992, p. 103)

Em consequência, por meio da didática multidimensional temos a intenção de valorizar o trabalho docente na perspectiva de, em diálogo com seus saberes de especialistas, de experiências, de cidadãos, disponibilizar os aportes da ciência pedagógica que contribuam para ampliar suas aná- lises e crítica, que os ajude a compreender os contextos histórico, sociais, culturais, organizacionais nos quais se dá sua complexa atividade docente.

E O MOVIMENTO DA CRÍTICA À DIDÁTICA

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