Chapter 7 Typesetting Mathematics with eqn
7.23. Several Examples
Ainda seguindo Santos (2007a), adotou-se aqui, deliberadamente – como já deve ter ficado um tanto evidente a esta altura –, a postura de não tratar o objeto a partir da máxima da ‘neutralidade’, ainda que não se possa abrir mão por completo da sua ‘prima-irmã’, por assim dizer, a objetividade – ela mesma também inegavelmente subjetiva. Mas qual seria a diferença entre objetividade e neutralidade, neste caso? Segundo Santos (2007a), a primeira se refere às “metodologias próprias das ciências sociais” que ajudam a “ter um conhecimento que queremos que seja rigoroso e que nos defenda de dogmatismos”, ao passo que a segunda trata-se da posição específica que se adota em relação às grandes injustiças que acometem as sociedades, “em relação às quais não podemos ser neutros” (SANTOS, 2007a, p. 23). Ou seja, o que isso tudo quer dizer é que o fato de assumir a sua posição ideológica no que se refere ao conceito de justiça, por exemplo, essa transparência não tira do pesquisador, de nenhuma maneira, o crédito em relação à sua capacidade crítica diante do seu ‘objeto-sujeito’ de estudo, a sua habilidade de distanciar-se dele, quando necessário, por mais que se encontre tão próximo, tão envolvido com ele. Na verdade, mais precisamente, a ‘ideologia’ que ‘une’ este pesquisador de fato a esses movimentos é justamente o cansaço em relação às ideologias tradicionais, a escolha de tentar ‘negar’, ou ao menos relativizar, o seu papel na interpretação da realidade e a sua função de determiná-la de antemão: a afinidade, portanto, está na causa, no diagnóstico de que as sociedades atuais são por demais injustas, por demais controladas por pequenas elites que decidem basicamente tudo, por demais centradas no dinheiro, por demais distantes da própria humanidade dos humanos que as compõem, por demais cruéis com elas mesmas (SANTOS, 2007a). Neste caso, qual seria o papel dos cientistas sociais? Olhar para tudo isso e simplesmente dizer que “as coisas são assim mesmo”, que “não tem como ser diferente porque o ser humano é mau e egoísta por essência”, que “as gritantes desigualdades existentes são muito úteis para o funcionamento do ‘complexo’ sistema”, que “o papel do pesquisador não é mudar, mas explicar a realidade”? Não. É por isso que decidiu-se aqui estudar o Occupy antes para tentar compreender um pouco o que o movimento está fazendo neste momento em prol de um mundo melhor do que para explicar o que ele faz, antes para
aprender do que para ensinar, antes para questionar, junto com os seus participantes, do
que para dar-lhes as respostas prontas (MAFFESOLI, 1998; SANTOS, 2007a; GONSALVES, 2006).
Foi por isso que optou-se por uma observação participante, ou, a depender do ponto de vista, uma “participação pesquisante” (BRANDÃO e STRECK, 2006),
partindo do pressuposto de que “o processo de conhecer o mundo anda de mãos dadas com sua transformação” (Brandão e Streck, 2006, p. 9): em suma, de que saber é fazer. É mais do que sabido que esse tipo de abordagem possui um nível de rejeição bastante alto por parte do pensamento moderno tradicional, que ainda não conseguiu se desvincular da fé na razão iluminista que se basta por si só e da crença semirreligiosa de que é possível que uma pessoa consiga desvencilhar-se de si mesmo, do seu eu mais íntimo, do que se é apenas no âmago da sua subjetividade, diante de uma situação qualquer para assumir uma postura ‘neutra’, ‘objetiva’, ‘imparcial’. Não. Existem ‘evidências’ suficientes para mostrar que isso não é possível, de modo que a atitude mais justa que um pesquisador – ou um jornalista, cujos princípios gerais são basicamente os mesmos – pode tomar diante do seu público não é a de vestir uma aura de ‘pureza’ e ‘sobriedade’ jamais alcançáveis: o máximo de pureza e sobriedade que se pode alcançar está, ao contrário, justamente no ato de assumir que elas não existem senão parcialmente, de deixar bem claro a partir de que ângulo se está olhando para determinada coisa, com que limitações, incorporando quais pressupostos.
Essa atitude, na verdade, não necessariamente cega ninguém: de modo inverso, abre os olhos daqueles que estão olhando, através do seu olhar descritivo, o que o pesquisador olhou com seus próprios olhos. Afina de contas, como diz Fritjof Capra (1982) – apenas um dentre tantos outros –, ao criticar a ciência tradicional para defender a ideia de que não existe produção de conhecimento isento de valores, “os cientistas sociais não estão sendo mais científicos, mas, pelo contrário, menos científicos, porque negligenciam enunciar explicitamente os pressupostos subjacentes a suas teorias” (CAPRA, 1982, p. 182); ou ainda, com E. H. Hunt (2005a), para quem ciência e juízos de valor são muito mais complementares que antitéticos, os teóricos que se colocam como ‘isentos de valores’ ou estão tentando iludir os outros ou estão vivendo uma autoilusão, de modo que ele apresenta como atitude mais saudável para o cientista perante seus interlocutores, e a sua pesquisa perante o mundo, que este estabeleça uma fundamentação concreta da natureza desses valores. Para ficar ainda mais claro e tentar desestabilizar um possível mito: não ser neutro não significa adotar uma atitude de ‘má fé’, por exemplo, como aquele que, sendo completamente desprovido de ética, manipula os dados e tenta persuadir os seus interlocutores de maneira completamente irresponsável; significa apenas mostrar a partir de que lado se está ‘conhecendo’, ‘interpretando’ a realidade. Brandão e Streck (2006) colocam bem essa inversão a favor
dos que assumem essa postura, os que de fato se sentem comprometidos em de alguma forma ajudar a melhorar o mundo:
E aos que até hoje perguntam ainda: como pode ser possível e confiável uma pesquisa que se declara “participante”?, poderíamos devolver a pergunta com outra: e de que modo hoje pode, havendo nós chegado ao ponto que chegamos, uma pesquisa social ser útil, verdadeira e proveitosa, sem ser de um modo ou de outro “participante”? (BRANDÃO e STRECK, 2006, p. 9).
É precisamente aqui que a impossibilidade torna-se necessidade e que a aparente limitação mostra-se como algo extremamente importante. Ou seja, a grande base dessa abordagem está justamente na supressão desse lema semieclesiástico de que a ciência só é ciência de fato se o seu processo operar com base na distinção radical entre sujeito pesquisador e objeto de pesquisa, o que pensa e o que age, o que analisa e o que faz, o que conhece e o que é conhecido, o que diz e o que é dito, o que julga e o que é julgado. Ao contrário disso, a pesquisa participante apresenta-se de maneira muito mais ‘humilde’, ao se propor a andar em conjunto com o seu outro, e num mesmo patamar: ela parte do pressuposto de que “todo o saber que não se abre a ser uma vivência de partilha é um saber não-confiável”, pois, embora “suas descobertas sejam corretas e inovadoras, desde um ponto de vista científico”, as “suas motivações podem ser pouco verdadeiras em um sentido humano” (BRANDÃO e STRECK, 2006, p. 12). Dizendo o mesmo com outras palavras, as usadas por Maffesoli (1998), faz-se cada vez mais “necessário considerar que cada um participa de um pensamento global do qual é mais o recitante do que o criador”, aceitar o fato de que “mais somos pensados do que propriamente pensamos” (MAFFESOLI, 1998, p. 169). Ou ainda, voltando a Brandão (2006), é possível dizer que a confiabilidade de uma ciência não deve estar exatamente no rigor positivo do seu pensamento, “mas na contribuição de sua prática na procura coletiva de conhecimentos que tornem o ser humano não apenas mais instruído e mais sábio, mas igualmente mais justo, livre, crítico, criativo, participativo, corresponsável e solidário” (BRANDÃO, 2006, p. 24).
E a questão da confiança é fundamental aqui, pois ao mesmo tempo em que o pesquisador precisa aprender a confiar mais nos seus sujeitos-objetos (BRANDÃO, 2006) – em última instância, no sentido bakhtiniano, coautores de seu próprio trabalho – , na medida em que eles são fonte inesgotável de um saber não menos sábio do que o seu próprio, por mais que não ‘científico’, ele precisa aprender a confiar também em si mesmo, no sentido de não precisar colocar o tempo inteiro esquemas abstratos acima de sua ‘intuição’ (MAFFESOLI, 1998), abstrações que muitas vezes lhe tiram a própria
capacidade de pensar com mais precisão em prol de esquemas insuperáveis que só limitam a criatividade e o livre fluir da própria razão. Essa é uma das grandes vantagens da mudança de perspectiva da relação ‘eu-isso’ para a do ‘eu-tu’, na relação pesquisador-objeto de pesquisa, que Dostoievski aplicou com tanta originalidade na literatura no que diz respeito aos seus personagens (BAKHTIN, 2002). Afinal, se “a investigação social deve ser voltada para a melhoria da condição humana”, provavelmente “seja necessário também que a ciência assuma uma forma diferente”, caso essas condições venham a mudar, como já aconteceu (GOLSALVES, 2006, p. 246).
No caso específico da abordagem deste trabalho, ela foi participativa desde o início, embora essa participação naturalmente tenha crescido na medida em que ia aumentando o contato e o envolvimento com o objeto. A princípio, adotou-se uma postura um tanto tradicional, estabelecendo um quadro de perguntas razoavelmente fechado à medida que o autor deparava-se com os participantes, e partindo do pressuposto de manter uma certa distância em relação a eles, o que se mostrou não só bastante insuficiente mas quase impossível de se realizar: no caso das questões, percebeu-se que mais do que pedir que racionalizassem sobre o que sabiam, era muito melhor vê-los fazendo espontaneamente; no que diz respeito à posição do pesquisador em meio ao seu campo-estrada, este acabou se dando conta de que entenderia melhor o que eles estavam fazendo se de fato fizesse junto com eles. É claro que sempre existe um limite para essa participação numa pesquisa, pois se o autor apenas faz e não presta a devida atenção ao que o outro está fazendo, empregando, mesmo que de dentro, um olhar externo, capaz de exprimir as mais variadas análises críticas, ele chegará à mesma limitação a que chega o que só analisa de fora – e de cima –, sem entender de fato o que está acontecendo ali dentro. Enquanto este aplica ao campo uma análise um tanto abstrata, aquele se abstrai no campo a ponto de não analisá-lo direito. É preciso ter cuidado quanto a isso.
Quanto à apreensão dos dados mais especificamente, logo nos primeiros dias o questionário foi abandonado, no que se passou a explorar muito mais as conversas informais do que usar o formato clássico de entrevista. Além disso, como este autor sempre trazia um caderno em mãos nos mais diversos encontros com o OWS, tudo era devidamente descrito, e as intervenções mais interessantes de cada occupier, anotadas no papel, um registro bastante jornalístico em sua forma mais ampla. Só que, mais do que isso, em pouco tempo este pesquisador percebeu-se realizando uma grande
abordagem etnográfica, uma espécie de ‘etnografia participante’ que desembocava sempre no diário de campo bem intenso que começou a ser produzido já nas primeiras semanas, este que se tornou a grande base para a produção do trabalho. Seguindo as caracterizações feitas por Hess (2006), em termos gerais esse diário específico produzido em campo pode ser considerado uma grande mescla de diário íntimo – que retrata o vivido pessoal de um sujeito e é capaz de revelar a eterna construção do seu ‘eu’ a partir da “tentativa cotidiana de fazer emergir todas as facetas da [sua] personalidade” (HESS, 2006, p. 94) –, diário de viagem – aquele que extrapola os limites da jornada cotidiana do escritor e lhe permite traduzir a grande intensidade dessa jornada específica que terá um fim em breve (HESS, 2006) –, diário filosófico – na medida em que traz “uma redação [em torno de uma pesquisa, por exemplo] de temas que se pode retomar” (HESS, 2006, p. 95), de divagações que se pode aprimorar depois –, e, naturalmente, diário de pesquisa – onde “o pesquisador registra suas hipóteses e seus achados” diante de seu objeto no campo específico em que ele se encontra (HESS, 2006, p. 95): o que, inclusive, já pode ser considerado, como sugere Lourau (apud HESS, 2006), a própria pesquisa, por assim dizer. Foi desta maneira que utilizou-se aqui o diário como a grande base de toda a dissertação, a partir de um intenso entrelaçamento entre teoria e campo ao longo de todo o texto. Quanto ao tratamento mais específico dos dados, na maioria dos casos apenas aproveitou-se as falas diretas dos occupiers ou então utilizou-se os registros como base analítica do campo, reescrevendo-os para adequá-los à linguagem e à forma acadêmica. Em outros, porém, a fim de valorizar os aspectos contextuais e descritivos em questão, a fim de permitir ao campo ‘falar’ de modo um pouco mais direto – por mais que a partir do filtro específico do pesquisador –, preferiu- se manter o formato original do diário: neste caso, na forma de citação recuada e em itálico, para deixar bem clara a sua ‘separação’ no que concerne à escrita acadêmica.
Mas voltemos à relação direta com o campo em si. Não que tenha sido fácil envolver-se com o movimento desde o início; muito pelo contrário: como não este autor não possuía contato com ninguém, nenhum intermediário que pudesse levar aos participantes, a penetração no país do OWS foi muito mais difícil do que parecia ser possível prever: primeiro, pela distância natural que já se impõe quando não se tem uma ‘ponte’ para estabelecer um contato direto com um outro extremamente desconhecido; segundo, porque a essa altura, com o fim do acampamento e a falta de um espaço convergente, o movimento encontrava-se já muito disperso, quase limitado às reuniões
internas dos affinity groups51; terceiro, porque a verdade é que existem vários casos de infiltração policial no OWS, o que de certa forma deixa os participantes mais inseguros em relação a completos desconhecidos, já que qualquer um pode vir a ser um agente; quarto, porque, na realidade, o Occupy é menos inclusivo do que parece, menos 99% do que ele mesmo se propõe a (e gostaria de) ser – os grupos, em geral, são consideravelmente fechados52, e as relações, em alguns casos, não tão horizontais assim. Mas depois da viagem a Chicago, e mais ainda, à da Filadélfia – situações em que o contato era tão mais intenso que as barreiras do dia a dia eram naturalmente superadas, mais ou menos como acontecia na desmediação completa no Zuccotti, completada pelas próprias mídias –, o outro estrangeiro desta pesquisa passou a ser cada vez menos estrangeiro para o autor, ao mesmo tempo em que este passava a ser cada vez mais bem acolhido na casa daquele. Neste ponto, ambos já caminhavam juntos pela estrada do campo, de modo que a empatia mútua só crescia.
Sim, empatia: essa conexão inexplicável que aproxima qualquer um das coisas de um modo um tanto inexplicável. Se Bachelard já dizia, num tom um tanto romântico, que “só se pode estudar aquilo que se sonhou primeiro” (apud BRANDÃO e STRECK, 2006, p. 14) – e, como ficou bem claro na apresentação do caminho percorrido pelo autor até o objeto, esse foi bem o caso aqui –, é porque, como completa Maffesoli (1998), é esse sonho empático que faz com que o pesquisador se envolva com o seu ‘objeto’ a tal ponto, que ele acaba conseguindo superar mais facilmente as limitações da razão a priori em prol de uma compreensão a posteriori. É assim, portanto, que a empatia mostra-se extremamente importante, pois “nos faz entrar no coração de nosso próprio objeto de estudo, vibrar com suas emoções, participar de seus afetos, compreender o complexo arabesco dos sentimentos e das interações de que ele está impregnado” (MAFFESOLI, 1998, p. 47). É deixá-lo fluir espontaneamente com a maior naturalidade possível, para apreendê-lo na sua forma, sua aparência mais
51 O Primeiro de Maio tratou-se praticamente do encontro inaugural com o OWS, mas apesar de haver
milhares de pessoas nas ruas e de várias conversas terem sido derivadas daí, o encontro foi absolutamente confuso e um tanto frustrante, pois muitas dessas conversas se deram com marxistas ortodoxos, por exemplo, quase radicalmente críticos ao Occupy, ou então com gente que não estava tão envolvida assim e apenas passava ali para mostrar o seu apoio à causa. Foi aqui que o tal objeto já se mostrou muito mais difuso, líquido, caótico, inapreensível, do que se havia suposto – o que automaticamente provocou um despertar para uma possível mudança de atitude em relação ao campo, que aqui parecia mais estrada do que nunca; o primeiro passo, portanto, seria começar a deixá-lo falar livremente, mesmo que fosse para superar o que a metodologia já havia ‘programado’ para ser feito, a partir da teoria e do contato distante que havia sido estabelecido pela internet.
52 Ainda mais quando o tal estranho desconhecido por todos anda pelos cantos tirando fotos o tempo
reveladora de si mesmo. E é por isso que, como ainda sugere Maffesoli, aqui não se aspira a qualquer tipo de objetividade absoluta, impositiva, não se aceita o papel de “adjuvante de um poder qualquer que seja” (1998, p. 47). Ainda com o autor, neste caso, o pesquisador opta por colocar-se como parte integrante do objeto estudado, a fim de desenvolver “um saber puro, um conhecimento erótico” (MAFFESOLI, 1998, p. 47) que o leva a uma espécie de “sociologia acariciante”. É claro que o sentido de ‘puro’ aqui não tem nada com a pretensa pureza da razão. Ao contrário, o termo expressa, na verdade, a ideia de puro até onde ‘puro’ se pode ser, isto é, assumindo-se claramente ‘impuro’ do ponto de vista objetivo ao mesmo tempo em que se incorpora uma pureza, uma inocência, um “dar a ver” (MAFFESOLI, 1998) tão humilde como para deixar que as coisas se apresentem de forma espontânea a fim de que possam ser descritas a partir daquilo que elas parecem ser, sem jamais tentar enquadrar o que acredita-se que elas
sejam no que se julga que elas deveriam ser.
Amorim (2001) discorda deste ponto de vista em relação à empatia, já que, para ela, embora o objeto deva estar próximo e acessível ao pesquisador, tal proximidade, na ciência, só pode existir no próprio estranhamento. “Pela suspensão do olhar que reconhece e aceita, a relação de conhecimento desmistifica e desestabiliza o objeto” (AMORIM, 2001, p. 174). Mas quem disse que não se pode ter empatia pelo estranho, mantendo, assim, uma espécie de ‘estranhamento empático’ por aquilo que se estuda, reconhecendo e aceitando o objeto ao mesmo tempo em que se o desmistifica e se o desestabiliza? Foi isso que se tentou fazer o tempo inteiro com o Occupy neste estudo, na medida em que o pesquisador aproximava-se dele para percebê-lo um tanto distante do que se imaginava que ele fosse, ao mesmo tempo em que ele se mostrava igualmente próximo, em outros aspectos, da teoria que se havia suposto enquadrar-se nele, ainda que durante essas ‘carícias’ ele não se apresentasse de modo tão previsível, e, portanto, acabasse por indicar caminhos – teóricos, inclusive, como autores que não haviam sido incluídos – que não tinham sequer sido considerados antes. Enfim, será que o estudioso frio e distante teria a capacidade de, a partir do seu afastamento neutro, perceber essas nuances que normalmente só se revelam assim, na intimidade erótica do pesquisador com o seu outro, na ‘vivência comum’, na relativização de si que deixa espaço à invasão pelo outro (MAFFESOLI, 1998)?
Esta é, em última instância, a própria base que sustenta qualquer tipo de pesquisa participante, já que, como afirma Elias (apud GONSALVES, 2006), o seu objetivo é justamente extrapolar as teorias sociológicas que se concentram apenas em um nível da
personalidade humana (o das ações) a fim de ocupar-se do ser humano como um todo – suas ações, pensamentos, emoções e pulsões. Por isso, se por um lado Amorim (2001) parece estar certa – a partir da visão particular de um tipo de abordagem – ao defender que o tal distanciamento exercido por meio do controle do afeto tende a transmitir uma visão mais ‘realista’ da ‘realidade’, por outro, é bem verdade que em determinados momentos “o envolvimento constitua um olhar privilegiado” (GONSALVES, 2006, p. 248), como parece ter sido o caso aqui. Não que tal postura venha a aproximar seus resultados de qualquer pretensa verdade: ela apenas “indica uma pluralidade de possibilidades epistemológicas em contraposição a uma única alternativa válida, a da