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Fancy Features

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Chapter 4 Formatting Documents with the -me Macros

4.5. Fancy Features

A abordagem teórica utilizada aqui, como já exposto, tenta seguir ao máximo as pistas que o campo-estrada foi deixando o tempo inteiro pelo caminho, direta ou indiretamente. Neste caso, aproveitando ainda o gancho referente à polifonia, parece oportuno falar brevemente sobre a questão da relatividade – uma escolha filosófica para a problematização teórica –, pois o próprio objeto-sujeito em questão de várias maneiras parece pedi-lo de forma bastante evidente, inclusive para levar a cabo o projeto polifônico-carnavalesco ainda com mais liberdade. Só que aqui também se mostra oportuno ‘relativizar’ a própria dimensão dessa relativização, o que Bakhtin mesmo faz para evitar que se confunda o dinamismo relativizante da polifonia com o solipsismo vazio do relativismo. Isso porque, segundo o autor, tanto o relativismo quanto o dogmatismo “excluem igualmente qualquer discussão, todo diálogo autêntico, tornando- o desnecessário (o relativismo) ou impossível (o dogmatismo)” (BAKHTIN, 2002, p. 69). Para Bakhtin, portanto, a polifonia, enquanto método artístico, situa-se, na realidade, inteiramente em outro plano: afinal, ao não reconhecer o outro e excluir qualquer possibilidade de relação – onde tudo de fato acontece –, o relativismo

(necessariamente solipsista) torna-se igualmente dogmático, pela via do extremo subjetivismo.

É bem verdade que um diálogo embasado em dogmas é normalmente impossível, pois quando se tratam de dois dogmáticos pela mesma causa, o que há é, praticamente, ao menos no nível da aparência, um mesmo monólogo expresso por duas fontes distintas; ao mesmo tempo, parece igualmente verdadeiro que a discussão relativista na maioria dos casos vem a mostrar-se completamente desnecessária, já que, se tudo pode ser (para cada um), ao mesmo tempo em que nada é de fato (para todos), se não há um ponto para onde as ideias mirem a fim de se encontrarem de modo a intervir na realidade, então tudo continuará podendo ser embora nunca chegando a ser de fato. Mas é aqui que entra a tal relatividade (polifônica), uma espécie de ‘relativismo intersubjetivo’, um ‘niilismo regenerador’ que crê nas possibilidades do universo tanto quanto duvida de qualquer coisa que se imponha para negar todas as outras: a própria relatividade alegre típica do carnaval, expressa pelo seu riso ambivalente, na qual tudo se conecta com tudo a fim de regenerar todas as coisas a partir da inversão do que é possível com a realização do impossível – em suma, é quando o mundo inteiro mostra- se risível justamente por sua eterna capacidade de metamorfose e renovação (BAKHTIN, 2000; AMORIM, 2001). É exatamente neste sentido, enfim, que decidiu-se usar o pensamento relativista aqui ao longo deste trabalho, mais ou menos nos termos colocados por MAFFESOLI (1998, p. 11, grifo no original):

Quando já não se tem quaisquer garantias, ideológicas, religiosas, institucionais, políticas, talvez seja preciso saber apostar na sabedoria relativista. Esta “sabe”, por um saber incorporado, que nada é absoluto, que não há verdade geral, mas que todas as verdades parciais podem entrar em

relação umas com as outras.

Como já dito, a questão da relação aqui é fundamental. Por isso, parece propício analisar um pouco mais a fundo como o puro relativismo se apresenta em relação aos dogmas que ele se dispõe a desconstruir. O fato é que, enquanto o dogmático só aceita a si mesmo – ou os outros que são o espelho de si –, o relativista quer que tudo seja aceito ao mesmo tempo, só que num isolamento vazio que impede a própria realização dessa mesma ‘aceitação’, que está ancorada necessariamente numa intransigência mútua; é assim, portanto, que, a partir dessa (in)disposição geral, o relativista acaba negando qualquer tipo de dogmatismo para tornar-se ao mesmo tempo igualmente dogmático: o próprio dogma do relativismo, que traz consigo, inevitavelmente, o perigo de tornar-se

impasse é, portanto, insuperável do ponto de vista filosófico, até porque, teoricamente, não se pode ser dogmático (no sentido ‘original’) e relativista na mesma medida. Neste sentido, pode-se arriscar dizer que o dogma é insuperável, é a premissa, o ponto de partida daquele que interpreta e julga o mundo: em suma, daquele que vive. Para o dogmático assumido, a verdade existe e ele a possui; para o relativista, ela não existe e ele sabe disso (uma nova verdade), e por isso cria a sua própria de modo ‘independente’; para o que se coloca no meio (o próprio Dostoievski, com toda a sua polifonia), ela existe mas é inapreensível, o que, na prática, parece servir quase que como uma brecha para aceitar que não há verdade: afinal, se algo existe mas ninguém é capaz de conceber a sua existência de fato, não é mais ou menos como se ele não existisse de modo transcendental? Aparentemente, sim, mas muitos defendem esta concepção garantem que não. Até porque, para estes, apenas não é possível concebê-la aqui, neste momento, embora existam algumas pistas do que ela deva ser realmente.

Analisemos, de modo um tanto esquemático, o caso da crença em Deus, por exemplo: o religioso (dogmático) conhece Deus tão bem, que é capaz de defini-lo em todos os seus aspectos; o ateu (igualmente dogmático) sabe tanto que Deus não existe, que o nega de todas as formas; o ‘dogmático relativista’, por assim dizer, reconhece a existência de uma força superior, mas não consegue defini-la exatamente; o agnóstico (o que se pretende colocar entre o dogmático e o relativista) não tem certeza se acredita na existência de Deus, mas está disposto a acreditar, caso ele exista de fato, ou ‘desacreditar’ de vez caso ele não exista mesmo – aqui permanece a consciência de que um dia se terá a resposta definitiva; por fim, o ‘relativista dogmático’ se coloca mais ou menos na posição de acreditar que nunca conseguirá responder concretamente a essa questão; ou seja, neste caso, não é Deus necessariamente que não existe: é a revelação decisiva da resposta sobre a sua existência que vem a ser inalcançável. Em suma, neste sentido, tudo é crença, tudo é dogma, tudo se refere a ideias que são criadas sobre as coisas. É por isso, portanto, que, sendo o dogma insuperável, a partir deste ponto de vista, enquanto o ‘dogmático original’ é mais dogmático em relação ao conteúdo específico da sua crença (Deus existe ou Deus não existe), o ‘relativista dogmático’ o é, ao contrário, em relação à forma da sua crença, à sua própria crença geral no ‘relativismo absoluto’ (a ideia de que não existe nenhuma resposta possível para o tal dilema). Neste caso, o conteúdo pouco importa (Deus pode existir ou não), justamente porque ele é inalcançável, necessariamente variável, dinâmico: é aqui que o relativista

não aceita nenhum tipo de estabilização e se diz disposto a aceitar e negar tudo ao mesmo tempo.

Mas em meio a toda essa confusão de dogmas e relativismos, como se situaria o pressuposto básico desta pesquisa em relação a essa questão? Pode-se dizer que tal saída encontra-se em alguma medida entre os próprios ‘relativista dogmático’ e ‘dogmático relativista’ – embora não exatamente como o agnóstico –, na medida em que não aceita a existência de nenhuma verdade pronta, ao mesmo tempo em que reconhece que é preciso estabelecer uma espécie de referência básica para todos, por assim dizer, o lugar onde tudo no universo possa se encontrar, na fusão carnavalesca e na difusão polifônica: em suma, não uma ‘verdade’ advinda de um mundo transcendental, mas algo construído aqui mesmo, em conjunto, e seguindo as ‘pistas’ deixadas pelo próprio cosmos. É assim, enfim, que essa tendência permite juntar os dois conceitos aparentemente divergentes em alguns pontos.

Segundo Amorim (2001), “o carnaval [diferente do dialogismo] suprime a distância e fusiona as diferenças. Fusão ou efusão, a relação de alteridade, nesse caso, não consiste em reconhecer o outro, mas em tornar-se o outro”, de modo que, justamente pelo fato de nada se fixar ou se definir, “as diferenças tornam-se reversíveis e sua alternância produz-se por metamorfose” (AMORIM, 2001, p. 167) – isto é, o próprio relativista que é capaz de aceitar qualquer coisa para negá-la logo em seguida. Ou seja, trata-se da relativização extrema da vida que relativiza até mesmo aquilo que faz a própria vida existir para todos como materialidade – inclusive si mesmos, a personalidade que define cada um –, no que a vida mesma se transforma numa eterna temporalidade do instante em que cada um se torna o próprio “tempo enquanto devir” (AMORIM, 2001, p. 168). Já na polifonia, por outro lado, o que acontece é que diferentes vozes, exprimindo distintos pontos de vista sobre o mundo, são ouvidas ao mesmo tempo, quase que uma espécie de voz cósmica que se materializa nos corpos humanos (AMORIM, 2001) de uma maneira tal que ainda permite que cada coisa permaneça sendo ela mesma no seu devido lugar, por mais que esse lugar seja, em última instância, o mesmo para todas essas coisas – como no Zuccotti.

Neste sentido, enquanto no carnaval emerge o ‘relativista dogmático’, aquele que duvida até de si mesmo, por assim dizer, embora permaneça tão conectado com tudo ao mesmo tempo que chega ao ponto de conseguir tornar-se todas essas coisas, no caso da polifonia, por outro lado, cabe a analogia do ‘dogmático relativista’, aquele que acredita ser apenas parte integrante de uma verdade última, embora não a conheça

exatamente – quem sabe ela não seja a própria pluralidade plena não sintetizável do mundo? –, o que faz com que ela não exista temporariamente, ou exista apenas de modo parcial, na relação horizontal de todos com todos, nessa infinidade não dialética. Em suma, se o universo carnavalesco é o universo relativizado – onde não existem delimitações claras entre as coisas, onde tudo pode ser tudo ao mesmo tempo –, o universo polifônico é o universo relativizável –, na medida em que seus elementos estão claramente delimitados, e em pé de igualdade, no que torna impossível a realização de uma síntese final do que ele possa ser de fato – pelo menos não aqui neste mundo. É neste ponto então que os dois pensamentos se encontram e se completam, cada um com sua parcela de dogma e de relativismo para dar espaço à relatividade na sua face mais positiva. Foi a partir deste pressuposto que se trabalhou com ambas as concepções neste estudo, cada uma no seu devido lugar, por mais que intensamente correlacionadas, gerando uma coerência que mais promovia uma aproximação do que qualquer tipo de exclusão mútua.

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