Chapter 3 The -man Macro Package
3.4. How to Format a Manual Page
Foi mais ou menos assim que o Occupy Wall Street começou, e foi mais ou menos assim que ele permaneceu durante os dois meses em que resistiu no Zuccotti
Park, um lugar que, alinhado à ideia dos manifestantes de não apenas reavivar nas
pessoas uma voz política que andava meio rouca mas também de literalmente ocupar a língua (Sitrin e Azzelini, 2012) para expressar-se melhor com essa voz, foi rebatizado com o seu nome antigo: Liberty Plaza – ‘Praça da Liberdade’. É claro que nas últimas semanas, como será discutido, os problemas no parque já quase superavam as suas virtudes, de modo que alguns occupiers veem o despejo de forma inclusive positiva, pois as autoridades acabaram impondo um fim ao acampamento antes que ele definhasse ao ponto mesmo de morrer a partir de dentro. Mas isso é mais complexo do que pode parecer, como será tratado adiante. O fato é que nas primeiras semanas a
34 A conga é uma espécie de marchinha de carnaval cubana, cuja origem remete às festas feitas pelos
escravos. Ela funciona como uma grande fila por meio da qual as pessoas se movem dançando alegremente, balançando o corpo de um lado para outro, num molejo tipicamente caribenho.
35 Relato do diário de campo do dia 9 de julho de 2012. 36 Em conversa com o autor em 9 de julho de 2012.
ocupação só crescia, com um número cada vez maior de curiosos – gente que nunca tinha se importado com política antes na vida – e de céticos – gente que, justamente por estar envolvida com movimentos sociais havia tanto tempo, guardava um preconceito quase que automático com essa coisa sem nome iniciada por um bando de ‘meninos’ de classe média –, e uma organização e auto sustentabilidade também cada vez mais aperfeiçoadas: não só o acampamento estava de fato dividido entre vários grupos que cuidavam de questões específicas – mídia, cozinha, ação direta, ‘pessoas de cor’ etc. – a fim de possibilitar de alguma forma o funcionamento daquele aparente caos, como também a grande quantidade de dinheiro recebida pelo movimento através de doações do mundo inteiro tornou possível a manutenção deles ali sem muita dificuldade (WRITERS FOR THE 99%, 2011). Além disso, ainda em termos de ‘sobrevivência’, os
occupiers conseguiram também de algum modo permanecer ali em situações às vezes
um tanto adversas, algumas das quais acabaram ajudando os manifestantes, inclusive, a praticar os próprios princípios de sustentabilidade que eles pregam para a sua sociedade ideal: quando a empresa responsável pelo parque decidiu cortar o fornecimento de energia, por exemplo, os ocupantes automaticamente passaram a produzi-la, eles mesmos, através de uma bicicleta (WRITERS FOR THE 99%, 2011).
Em termos gerais, à exceção dos constantes momentos de estresse que havia com a polícia, por exemplo, tudo fluía muito bem no parque, com os seus moradores e visitantes praticando tudo aquilo que eles gostariam de ver na sociedade que eles tinham apenas começado a construir ali: uma democracia real, direta, constituída a partir dos princípios de igualdade, liberdade e solidariedade prometidos pela própria democracia liberal, mas materializados da forma mais radical possível ali mesmo, diante dos olhos de todos, e bem longe das páginas dos livros de teoria ou dos manuais ideológicos de qualquer espécie. E foi assim que todas as instâncias controladoras da sociedade que de nenhum modo tinham deixado de existir do lado de fora do Zuccotti se encontraram num dilema dos mais difíceis de resolver. Quanto ao Estado: se deixasse os manifestantes permanecerem ali, havia o grande risco de aquela ‘maluquice’ ficar cada vez mais séria e se espalhar por toda a cidade; se reprimissem com muita brutalidade e os expulsassem dali, deixariam escancarado que as suas práticas não são nada democráticas, já que infringiriam escandalosamente a Primeira Emenda da Constituição que afirma que
o congresso não deve fazer nenhuma lei que se refira [...] à diminuição da liberdade de expressão, ou da imprensa; ou ao direito das pessoas de se reunirem pacificamente, e de fazerem pedidos ao governo para que suas
queixas sejam reconsideradas (US HOUSE OF REPRESENTATIVES, 2003, p. 21).
Quanto à mídia: se cobrissem o desenrolar dos eventos e lhes dessem muita atenção, existia o ‘perigo’ de cada vez mais gente ficar sabendo daquele ‘disparate’, no que, por algum motivo, podiam acabar identificando-se com ele; se não falassem nada, ficaria mais do que óbvio que a sua cobertura era enviesada e nada justa – ainda mais a essa altura, quando o movimento já tinha virado um grande fenômeno na internet e já começava a se espalhar por outras cidades do país. Como colocam Boyd e Russel (2012), é esse tipo de situação, de colocar seus alvos num dilema existencial numa ação política qualquer, que faz com que estes já saiam perdendo desde o ponto de partida: se tomarem uma decisão, estarão no prejuízo; se tomarem outra, o estarão da mesma forma. No caso do Estado, portanto, ele preferiu esperar um pouco e tentar ir minando o movimento de outras formas; quanto à mídia, chegou um ponto em que ela basicamente ficou ‘refém’ de alguns tropeços cometidos pelo próprio Estado, e, por tabela, do seu próprio impulso incontrolável de fazer sensacionalismo. Pode-se dizer que este momento simbólico começou, ou, pelo menos, se consolidou, no aniversário de uma semana do OWS: 24 de setembro.
Não que a mídia tradicional, o aparelho ideológico e ferramenta de justificação do status quo do 1%, na opinião dos occupiers, estivesse ignorando completamente o movimento até aqui – até porque talvez fosse quase impossível fazê-lo –, mas no geral ela estava lutando com todas as suas forças para evitar falar do que estava acontecendo no Zuccotti Park, de modo que, quando o fazia era normalmente representando a ocupação de maneira negativa, numa escala que variava da ridicularização à deturpação dos fatos (WRITERS FOR THE 99%, 2011). Mas no dia 24 eles tiveram que cobrir amplamente o que havia acontecido durante a tarde próximo à Union Square; e mais, de forma positiva para o OWS – quer dizer, negativa para a polícia, o que, na verdade, não faz muita diferença, afinal, quem se posiciona como ‘inimigo’ do inimigo de um outro acaba colocando-se como amigo indireto deste, ou ao menos partilha de algum tipo de solidariedade em relação a ele, vítima, de alguma forma, do agora inimigo comum de ambos: a marcha que culminou na prisão de 80 pessoas e na agressão de algumas moças (brancas e de classe média) com spray de pimenta por parte do policial Anthony Bologna. O vídeo rapidamente se espalhou pelas redes sociais, e as estações de TV não tiveram outra escolha senão reproduzi-los também, o que, automaticamente, colocou os manifestantes na verdadeira posição em que sempre se encontraram, a de oprimidos.
E finalmente o ponto de partida estava dado para que a mídia tradicional assumisse a existência do Occupy, uma mudança de atitude que possibilitou o agendamento de temas antes quase proibidos no vocabulário dos grandes veículos, como ‘desigualdade econômica’ e ‘ambição’ (dos banqueiros de Wall Street), e, mais ainda, a partir da incorporação dos próprios termos do movimento, como a ideia dos 99% e do 1% – talvez o mais próximo que já se conseguiu chegar nos Estados Unidos de uma ideia massificada de luta de classes. De repente, o interesse dos grandes jornais e portais de internet e das estações de rádio e de TV só crescia pelo OWS, e neste ponto não apenas para ridicularizá-lo, mas numa tentativa quase sincera de tentar entendê-lo de fato, o que, apesar da aparente boa intenção em muitos casos, não deixava de levar a alguns constrangimentos, seja por parte de um occupier que falava alguma ‘besteira’ numa entrevista tomando a sua visão pessoal do movimento como se ela fosse geral, seja por parte dos próprios jornalistas, que se esforçavam a dar algum sentido àquele caos e acabavam caindo, eles mesmos, numa inocência quase infantil, como descreveu um dos ‘relações públicas’ do OWS, Bill Dobbs37
– isso será abordado com mais detalhes no quarto capítulo.
A essa altura, os GA’s já haviam se consolidado como o grande corpo de decisão política e de produção de consenso dentro do movimento; em suma, o laboratório de democracia direta que a maioria buscava poder trazer para a sociedade como um todo um dia, num futuro breve. De acordo com os relatos, no início as coisas fluíam muito bem – talvez pela empolgação com a novidade –, com reuniões diárias de duas ou três horas que tinham o intuito tanto de chegar a decisões em relação aos dilemas específicos que iam surgindo quanto de servir como uma espécie de fórum para saber o que cada um estava pensando/sentindo, a fim de se certificarem de que as expectativas de todos estavam sendo atendidas. Só que, com o tempo, o processo começou a se desgastar um pouco, no que a sua eficiência foi caindo na mesma medida em que ia diminuindo o interesse das pessoas por ele. Os anarquistas mais radicais, por exemplo, que veem a própria ideia de democracia – direta ou indireta, já que, para eles, a diferença é apenas de grau – como mais uma forma de controle da agência individual, encaravam os GA’s quase como um órgão institucional centralizador que tomava para si a ‘legitimidade’ suprema de toda e qualquer decisão referente ao movimento e, consequentemente, podava de maneira considerável a espontaneidade dos membros e de eventuais grupos
de interesse menores ali dentro, mais ou menos como o fazem as instituições contra as quais o próprio OWS estava lutando (ARAGORN, 2011).
Aos poucos, portanto, esse modelo de tomada de decisão foi se desgastando a ponto de dar espaço ao surgimento de um outro: os Spokes Council – algo como ‘Conselho de Porta-vozes’ –, um formato com raízes anarquistas claras, inspirado primeiramente na Revolução Espanhola, e, mais recentemente, na luta dos Zapatistas e nos protestos de Seattle em 1999. Em termos gerais, ele consiste na reunião dos representantes de cada grupo de trabalho – ou affinity group (‘grupo de afinidade’)38 – para a tomada de decisões específicas, de modo que cada porta-voz permanece totalmente accountable e transparente para o resto dos membros, embora, no geral, este não chegue a tomar decisões de fato como no sistema representativo comum: ele apenas repassa para o conselho geral o que já ficou decidido previamente no seu grupo, ou, em caso de surgir uma nova questão ou de um dilema qualquer ter sido levantado na reunião do conselho, ele retorna ao seu grupo para que esses temas pendentes sejam solucionados por todos em conjunto. Atualmente39, essa é a forma mais comum de tomada de decisões no movimento, aplicadas especialmente – e de modo um tanto eficiente, embora com alguns problemas, como é natural –, nas grandes manifestações de Primeiro de Maio e de 17 de Setembro de 2012, o aniversário de um ano do OWS.
Mas voltemos à cronologia dos fatos mais importantes na época em que o acampamento ainda se encontrava de pé. Para protestar contra os ataques da polícia da semana anterior, os manifestantes decidiram, no dia 1º de outubro, tomar a Brooklyn
Bridge – a ‘Ponte do Brooklyn’, uma das que liga o Brooklyn e Manhattan –, que figura
entre os símbolos mais charmosos da cidade de Nova Iorque. Após cerca de mil pessoas se reunirem no Zuccotti Park, o grupo saiu em direção à ponte para ocupá-la por completo, uma ação um tanto provocadora, provavelmente impulsionada pela grande energia que emanava daquele grupo determinado a demandar, quer dizer, a fazer democracia, a mostrar o que ela realmente significa, como fazem ouvir no conhecido grito de protesto berrado em coro cada vez que desafiam as autoridades: “Show me what
38 Tratam-se de pequenos grupos de pessoas (normalmente não mais do que 25) que tenham confiança
umas nas outras e possuam interesses comuns para a realização de ações específicas, desde o bloqueio de um prédio governamental, por exemplo, ao oferecimento de apoio médico numa marcha ou protesto. Apesar de em cada momento um ou outro membro atuar como representante dessa pequena associação – o sistema normalmente é rotatório –, a relação entre todos é necessariamente horizontal.
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Dado o seu caráter extremamente dinâmico, fluído, é sempre muito complicado fazer qualquer tipo de afirmação em relação ao Occupy. Neste caso, o termo ‘atualmente’ se refere mais precisamente à tendência percebida pelo pesquisador no período em que participou diretamente do movimento – 1º de maio a 17 de setembro de 2012.
democracy looks like! This is what democracy looks like!”40. Ou ainda neste, amplificado cada vez que ocupam uma via pública, assim, sem pedir licença: “Whose
streets? Our streets!”41
. Para muitos occupiers, a tomada da Brooklyn Bridge foi talvez um dos ápices do movimento, um dos momentos mais emocionantes, mais fortes, mais significativos, quando a disposição de mudar o mundo só fazia crescer a cada minuto. Se eles tinham receio do que poderia acontecer? Por um lado, talvez, pois nunca se sabe do que as autoridades serão capazes de fazer para reprimir as manifestações. Mas, por outro, sobrava confiança; afinal, pensavam, em conjunto, “a polícia jamais vai ter condições e se dispor a prender todo mundo, né?”. Parecia que não, mas, no fim das contas, o fizeram, sim. E, deste modo, cerca de 700 pessoas foram presas ali mesmo (WRITERS FOR THE 99%, 2011).
É claro que um e outro ainda acabaram escapando: primeiro, porque alguns fingiram estar apenas passando por ali, como bons cidadãos comuns que jamais fariam aquilo; e, segundo, porque a arbitrariedade e o preconceito normalmente são marcas bastante fortes que operam no inconsciente das autoridades de modo geral. Quer dizer, não necessariamente arbitrariedade, porque seus padrões estereotípicos tendem a ser muito claros, como no caso de um policial que, em meio a essa mesma prisão em massa, olhou para Nicole Rose42, uma occupier ‘branquinha’, ‘bonitinha’ e lhe disse: “me prometa que você nunca mais vai fazer isso, OK?”. Aí ficou fácil: “está bem, eu prometo”, respondeu Nicole, para seguir caminhando e sair dali. No fim das contas, apesar deste ocorrido aparentemente trágico, o que podia parecer uma grande derrota dos manifestantes acabou representando uma boa vitória em vários sentidos: primeiro, porque se o objetivo era ocupar a ponte e empatar o trânsito, eles conseguiram fazê-lo por muito mais tempo do que poderiam imaginar, já que o procedimento para colocar a todos, de um a um, nos camburões, levou várias horas; segundo, porque o acontecimento gerou vários vídeos interessantes que logo ganharam as redes para disseminar mais indignação entre as pessoas e estimulá-las a juntar-se ao movimento, no caso das que ainda não o haviam feito, ou então para fazer aumentar o comprometimento das que já haviam se juntado; terceiro, porque, por mais que talvez as
40 Literalmente, “Mostrem-me o que é democracia! É isso que é democracia!”. Embora todas as falas dos occupiers e passagens de livro estejam sendo traduzidas diretamente para o português para facilitar a
leitura e ao mesmo tempo evitar tantas notas de rodapé, a fim de respeitar a riqueza linguística de determinadas expressões, optou-se por manter esses gritos coletivos e algumas mensagens de cartazes no original – mas sempre traduzindo no rodapé –, especialmente porque a maioria deles trazem rimas ou trocadilhos impossíveis de respeitar numa tradução.
41 Literalmente, “As ruas de quem? As nossas ruas!”.
‘autoridades’ não o saibam, normalmente, em vez de isolá-los e fazê-los temer a luta, é precisamente quando são presos que os manifestantes estreitam ainda mais seus laços com os outros participantes – ao possibilitá-los conhecer novas pessoas com ideias afins nas celas – e com o movimento em geral, já que a indignação de passar por tudo aquilo acaba lhes dando uma grande ‘injeção’ de energia e tende a aumentar ainda mais o comprometimento com a causa43; quarto, de modo semelhante ao ponto anterior, em muitos casos os occupiers – logo eles, que querem mudar o mundo suspendendo a seriedade chata e autoritária pelo riso alegre e democrático, como no próprio carnaval (Bakhtin, 2000) – aproveitam aquela situação mesma muito mais como apenas uma nova oportunidade de distrair-se, um momento de recreação, a fim de aproveitar a vida de forma leve, numa boa, do que como uma ‘punição’ de fato44
.
Seguindo adiante, no dia 5 de outubro houve uma grande manifestação que mobilizou também vários estudantes e sindicatos numa grande marcha que ajudou a dar ainda mais visibilidade ao movimento, aumentando o seu apelo público – entre as intervenções do dia houve uma infiltração num leilão da Sotheby, uma das maiores empresas leiloeiras do mundo, em solidariedade aos trabalhadores de lá (WRITERS FOR
THE 99%, 2011). Só que, a essa altura, por mais que isso ainda não estivesse tão óbvio
ali, a utopia realizada estava sendo, pouco a pouco, mais e mais constrangida pelo fato de a realidade ter sido por demais utopizada pelos manifestantes, já que estes chegaram em certa medida a ignorar as contradições reais que existem na sociedade real – uma crítica muito comum dos marxistas mais ortodoxos, por exemplo, em relação ao OWS. Ou seja, o cerne da questão aqui é a ideia de que, ao tentar implementar a ‘sociedade dos sonhos’ antes de acabar com o ‘pesadelo’ da que ainda existia ali, os grandes ‘idealistas’ acabaram negligenciando problemas históricos quase impossíveis de serem superados no curto prazo, questões que estão completamente arraigadas no sistema e no inconsciente geral: temas ligados a etnia, gênero, classe social, procedência geográfica etc. É claro que o movimento tomou várias medidas a esse respeito para evitar a reprodução dos mesmos preconceitos impostos pela sociedade real, como será debatido
43 Um bom exemplo disso é que justamente no dia da Brooklyn Bridge os occupiers John Dennehy e
Danny Valdés se conheceram, na cela, e daí decidiram tocar juntos o projeto que John estava apenas começando: o Occupied Stories, uma plataforma virtual pensada para publicar histórias pessoais, narrativas em primeira pessoa de occupiers do país – e do mundo – inteiro que se interessem em relatar suas experiências com o Occupy de maneira geral. O projeto será abordado oportunamente, no quarto capítulo.
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O mesmo John, que foi preso novamente nas celebrações de um ano do OWS em 17 de setembro de 2012, resumiu assim o dia na cela para os que estavam do lado de fora preocupados com ele: “Foi bem divertido. A única coisa chata foi que eu acabei perdendo as manifestações aqui fora”.
adiante, mas os dilemas são de fato muito grandes, e os problemas demasiado complexos, de modo que em pouco tempo o Zuccotti Park já tinha se transformado quase numa ‘grande miniatura’ da própria cidade de Nova Iorque, com duas alas físicas bem distintas, quase antagônicas entre si: a leste – mais classe média e reformista, por assim dizer – e a oeste – mais ligada à classe trabalhadora e com uma visão política mais ‘radical’, para usar um termo comumente utilizado (WRITERS FOR THE 99%, 2011). E o problema aqui identificado não é exatamente que as diferenças deixem-se emanar; é mais profundo, pois, muito mais do que meras diferenças individuais, essa divisão é fruto de desigualdades sociais quase irreversíveis de modo imediato – era assim que esse choque de realidades acabava dando espaço a embates quase irresolvíveis em alguns momentos. Não que o clima geral fosse de puro desentendimento; porém, a manifestação desses problemas estruturais talvez já pudesse ser vista como uma boa evidência de que as dificuldades desse mundo não podem ser superadas de modo tão simples assim, apenas jogando um ‘pozinho de fada’ na cabeça das pessoas.
Até aqui, as autoridades, estranhamente, ainda permitiam que os manifestantes continuassem no parque, mas quando o prefeito Bloomberg chegou ao Zuccotti no dia 12 de outubro (de 2011) dizendo que respeitaria o direito constitucional dos occupiers de livre associação (respaldado pela Primeira Emenda), desde que eles não infringissem nenhuma lei, tudo parecia muito suspeito (WRITERS FOR THE 99%, 2011). E foi assim que, logo no dia seguinte, vários policiais armados cercaram o parque e entregaram um documento anunciando várias regras novas para a permanência ali no espaço: agora, por