nous apparaît comme un cas presque inhumain » 67
2.2. Habitat textile : enveloppe architectonique
Outra noção utilizada para compreender e interpretar a aprendizagem da docência de nossos entrevistados se refere ao conceito de configuração social de Norbert Elias.
Faz-se necessário, portanto, elucidar um dos argumentos mais essenciais da sociologia eliaseana: a relação de interdependência entre indivíduos e sociedade, a qual transcende as antinomias produzidas pelo estudo fragmentado do indivíduo e da sociedade. Daí é que surge o conceito de figuração.
Norbert Elias (1897-1990), sociólogo de origem alemã, foi responsável pelo desenvolvimento de um arcabouço teórico inovador acerca da concepção do social como um todo relacional.
A teoria sociológica forjada por Elias tem sido considerada uma abordagem de viés crítico, em função sobretudo de sua posição contrária a perspectivas teóricas consideradas clássicas pelas ciências sociais, alinhadas ao funcionalismo (do sociólogo norte-americano Talcott Parsons) e a determinadas correntes oriundas do estruturalismo.
Aparentemente, temos escolha apenas entre abordagens teóricas que apresentam o indivíduo como o que realmente existe, além da sociedade, o (sendo vista a sociedade como uma abstração, como algo que não existe efetivamente) e outros enfoques teóricos que apresentam
sui generis de tipo peculiar, para além dos indivíduos (ELIAS, 1994 p. 473).
Norbert Elias, assim como o fez Bourdieu, transpõe o campo das dicotomias já determinadas ao estabelecer de antemão uma relação de interdependência entre indivíduo e sociedade.
O termo figuração foi cunhado por Elias em contraposição à noção de homo clausus, a qual, em seu entender, expressava o estágio das ciências sociais no final do século XIX e início do XX. A concepção do individuo isolado homo clausus
rno. A noção de homo clausus, tão combatida por Elias, pode ser entendida pela dualidade entre sujeito e objeto, entre indivíduo e sociedade, bem como pelo entendimento do indivíduo como um ser independente e autossuficiente:
Esta é uma experiência que leva os indivíduos a pensarem como se seu separados por um muro invisível de tudo que está fora, o chamado mundo exterior. Essa experiência de vivenciar a si mesmo como uma espécie de caixa fechada, como homo clausus, mostra-se como imediatamente evidente. Os indivíduos não conseguem imaginar que existem outras pessoas que não percebem a si mesmas, nem o mundo onde vivem da mesma maneira (ELIAS, 1994, p. 128).
De acordo com o autor tanto a ideia que temos de sociedade e de indivíduo nunca
faltam-nos conceitos, embasamentos para chegarmos a essa ideia.
Com base na teoria da Gestalt, segundo a qual o todo não é composto pela mera junção das partes, mas antes pela sua composição relacional, Elias explica como as várias partes formam um produto inteiro distinto.
Metaforicamente, para ilustrar que o todo é composto pela relação de suas partes, Elias (1994) cita o exemplo dado por Aristóteles da relação das pedras e das casas, cita também que uma melodia constitui-se pela relação harmoniosa das notas entre si. Ambos os exemplos tentam expressar que só podemos pensar o todo (a casa, a melodia) pela relação inextrincável de suas partes (as pedras entre si, as notas entres si). A pedra tomada isoladamente, bem como as notas individuais nada significam. Os tijolos de uma determinada casa tem uma figuração
inter-relações constitui um tipo peculiar de melodia, ou seja, uma figuração particular, distinta de qualquer outra.
Com essas metáforas o autor alemão busca dar sentido ao seu conceito de figuração, ao estabelecer que nem a sociedade nem o indivíduo existem sem o outro. Um não pode existir sem o outro, só fazem sentido em coexistência. Sem indivíduo não há que se falar em sociedade, sem esta não há que se pensar em indivíduo.
Elias, não raras vezes, utilizou de imagens a fim de tornar mais evidente o termo
as unidades de potencia menor dão origem a uma unidade de potencia maior, que não pode ser compreendida quando suas partes são consideradas em isolamento, independentemente de
independente do estilo tango, rock ou outro os indivíduos se orientam mutuamente uns aos outros, numa dinâmica relação de interdependência.
Ao utilizar as várias metáforas supracitadas Elias, com vistas a ilustrar a noção de figuração, tinha como foco principal eliminar as antíteses no uso dos conceitos de indivíduo e sociedade.
Tal como temos tentado elucidar, o conceito de figuração busca expressar a imagem do ser humano como personalidade aberta, o qual possui algum grau de autonomia face a outras pessoas, mas nunca uma autonomia absoluta. Fundamentalmente, na visão de Elias, as pessoas se orientam umas para as outras e o que as liga é exatamente uma espécie de rede de interdependências. Segundo o autor figuração termo que expressa o que é denominado de é, portanto, um conjunto de pessoas reciprocamente orientadas e dependentes (ELIAS, 1994).
A interdependência entre os indivíduos é, portanto, argumento central na definição de figuração, sobre a qual a sociologia deve se debruçar:
Essa é a razão pela qual a sociologia não se pode reduzir à psicologia, à biologia ou à física: o seu campo de estudo as configurações de seres humanos interdependentes não se pode explicar se estudarmos os seres humanos isoladamente. Em muitos casos é aconselhável um procedimento contrário só podemos compreender muitos aspectos do comportamento ou das ações das pessoas individuais se começarmos pelo estudo do tipo da sua interdependência, da estrutura das suas sociedades, em resumo, das configurações que formam uns com os outros (ELIAS, 1980, p. 78-79).
Com essa postura, Elias preconiza que as relações humanas são regidas por uma funcional e recíproca relação de interdependência entre os indivíduos. Considera as ações individuais como ações funcionais e interdependentes.
Na perspectiva do referido autor, a sociologia necessita de noções interpretativas que deem conta do caráter dinâmico das relações sociais. Conceitos que expressem o seu movimento. Uma visão processual e relacional acerca dos agrupamentos sociais. A categoria figuração propõe fazê-lo ao ressaltar o desenvolvimento contínuo das imbricadas relações sociais.
Dessa forma, Elias procurou romper com as correntes teóricas que concebem
de figuração serve como um simples instrumento conceitual, que auxiliará a abrandar a pressão social em se falar e em se pensar como se indivíduo e sociedade fossem figuras
O conceito de figuração enseja que as esferas sociais tais como a família a escola, o trabalho, entre outras são forjadas pelas relações de interdependência entre os indivíduos. Para Elias (1994, p. 249):
O conceito de figuração foi introduzido exatamente porque expressa mais clara e inequi
instrumentos conceituais da sociologia, não sendo nem uma abstração de erdependências por eles formada.
Há de se por em evidência, que as figurações são consideradas como estruturas flexíveis constituídas por pessoas reciprocamente orientadas e interdependentes. Contudo, a questão da autonomia de cada indivíduo, coloca-se sob o aspecto do estabelecimento dos limites próprios de cada figuração, as quais embora não sejam rígidas, apresentam formações previamente estabelecidas. Motivo pelo qual se tem uma autonomia limitada e parcial, pois ossuir uma liberdade de ação que lhe permita desligar- se de determinada figuração e introduzir-se em outra, mas se e em que medida isso é possível
O conceito de configuração social eliasiana expressa a concepção de que os indivíduos são interdependentes e só podem ser compreendidos nas configurações sociais que constituem
... a interpenetração de indivíduos interdependentes forma um nível de integração na qual as formas de organização, estruturas e processos não podem ser deduzidos das características biológicas e psicológicas que constituem os indivíduos (ELIAS, 1980, p. 50).
Nesse sentido, cada pessoa em particular traz marcas significativas dos contextos nos quais fora socializada. Assim, para compreendê-la é necessário apreender os aspectos mais pormenores de sua vida: as crenças, os valores, os conhecimentos que foram construídos ao longo de sua trajetória pessoal e profissional.
compreender um indivíduo, é necessário saber quais são os desejos dominantes, para quais realizações ele aspira. Se a sua vida corre para ele de forma significativa ou não, depende de se, e até que ponto, ele é capaz de realizá-
nossos entrevistados, nomeadamente no que tange à aprendizagem da docência, considerando as múltiplas experiências de socialização e formação que podem interferir nesse processo.