Dire l’ineffable ou la mise à l’épreuve des limites du possible du dire
2- Habit et tabouisation
Parece que tudo se passa como se devêssemos inverter a causalidade histórica. O cinema é um fenômeno idealista. A ideia que os homens fizeram dele já estava armada em seu cérebro, como no céu platônico, e o que nos admira é mais a resistência tenaz da matéria à ideia, do que as sugestões da técnica à imaginação do pesquisador. Aliás, o cinema não deve quase nada ao espírito científico Gilles Deleuze
Pág
in
a
184
Pelo menos desde Marc Bloch os historiadores efetivamente creem em que a historiografia diz tanto do presente quanto do passado, já que este último (e certamente também o primeiro) não passa de um constructo. Assim, diz Bloch, "para penetrar nessa brumosa gênese, para formular corretamente os problemas, para até mesmo fazer uma ideia deles, uma primeira condição teve que ser cumprida: observar, analisar a paisagem de hoje"444. Desse modo, o processo de pesquisa/escrita histórica ocorre como se o historiador pretendesse reconstituir um filme do qual somente a última película está intacta. Sob tal inspiração, neste momento da narrativa buscamos explicitamente nos aproximar do tempo "mais-que-presente"445. Na relação passado-presente estabelecida pela historiografia, é preciso pensar esse hoje.
No dia 9 de abril de 2013, o historiador e crítico de cinema Jean-Claude Bernardet escreveu um comentário em seu blog a propósito do filme De pernas pro ar 2 (2012, direção de Roberto Santucci):
Após acalorada discussão em torno de De pernas pro ar 2, venho a público manifestar minha esperança de que as gentes bem pensantes, os intelectuais, os artistas, o autores, os poetas e outros de gosto requintado, não caiam na mesma burrice dos anos 50. Foi preciso esperar a morte da chanchada para que a elite percebesse que Oscarito e Grande Otelo eram grandes atores, e que Carnaval Atlântida era um filme político. De pernas pro ar 2 é um filme atual que trata de problemas que angustiam boa parte da classe média como: o trabalho da mulher, a relação da mulher que trabalha com o marido, os filhos e a casa, o stress da mulher executiva que estressa os homens, o péssimo estado da telefonia celular no Brasil e também o celular como adição, a exportação de produtor manufaturados brasileiros, etc. Se o filme não abordasse comicamente questões do seu interesse, o público não teria sido tão numeroso446.
Em razão disso, a 16 de julho daquele ano, no site Cinética - cinema e crítica, Raul Arthuso buscou problematizar o comentário de Bernardet e apontar às suas inconsistências, em um breve ensaio intitulado De pernas pro ar 2, Carnaval Atlântida
e a profissionalização dos conceitos. Dessa feita, ao considerar os escritos de Jean-
444 BLOCH, Marc. Apologia da história, ou, O ofício de historiador. Tradução André Telles. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001, p. 67.
445 Devo essa ideia de aproximação explícita com o tempo "mais-que-presente" às prosas e à leitura da
dissertação de mestrado de meu amigo Munís Pedro Alves: Cf. ALVES, Munís Pedro. Liberdade e individualidade: diálogos contemporâneos com (e a partir de) Max Stirner. 2015. 165 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Mestrado em História, Programa de Pós-graduação em História, Universidade Federal da Uberlândia, Uberlândia, 2015.
446 BERNARDET, Jean-Claude. De pernas pro ar 2. Blog Jean-Claude Bernardet - UOL, 9/4/2013.
Disponível em: http://jcbernardet.blog.uol.com.br/arch2013-04-07_2013-04-13.html Acedido pela última vez em 2/2/2015.
Pág
in
a
185
Claude, Arthuso julgou que "há um erro de comparação gritante", pois, em seu entendimento:
Diferentemente do que transparece no comentário, ao buscar no exemplo da chanchada o modelo de tratamento dado às comédias atuais, não se trata de achincalhá-las por sua má realização, precariedade, mau gosto, como se toda a rejeição a De Pernas Pro Ar
2 fosse fruto da síndrome de vira-latas reinante no pensamento dos anos 1950. De Pernas Pro Ar 2 é um belo exemplo do cinema popular do século XXI, de artesanato de alta qualidade e bom gosto, feito para uma classe média que, além de bens duráveis, quer consumir artigos de luxo, como cultura. Existe uma crítica – praticada por poucos, concordo – interessada não nos aspectos evidentes da primeira camada temática dos filmes, mas nas formulações das comédias populares partindo do que lhe é cinematográfico, para apontar entre outras coisas sua visão de mundo e política. Que cheguem a conclusões divergentes de Bernardet é questão de ir aos filmes. Da parte de seu comentário, há um desconhecimento ou má-fé de Jean-Claude em relação a esse trabalho, além de um ponto de partida para análise, a meu ver, equivocado447.
Entretanto, o que Raul Arthuso parece ter desconsiderado ao tecer suas reflexões é a própria trajetória crítica de Jean-Claude Bernardet. Parece correto afirmar que o comentário de Bernardet ao filme De pernas pro ar 2 deve ser compreendido em relação com sua proposta contida na obra Historiografia Clássica do Cinema
Brasileiro, escrita ainda em meados dos anos de 1990. Nesta obra, o crítico questionou
a "clássica" escrita da história do cinema ao problematizar suas origens, ao propor uma nova periodização à temporalidade identificada como História do Cinema Brasileiro, bem como ao delinear uma (re)elaboração crítica de novos recortes e de contextos448. O que Jean-Claude propunha desde aquela época era uma mudança paradigmática.
Dentre outros motivos, Bernardet mobilizou tal empreendimento intelectual em razão de sua aguda percepção sobre quem escrevia a história do cinema no Brasil. Ao refletir sobre isso, não titubeou em afirmar que "não seria errôneo responder o seguinte: estudiosos do cinema e amantes do cinema brasileiro que não têm formação profissional de historiador, elaboraram um corpus de textos que constituem o que hoje chamamos de história do cinema brasileiro"449. Esse movimento interpretativo sugeria, como pano de
447 ARTHUSO, Raul. De pernas pro ar 2, Carnaval Atlântida e a profissionalização dos conceitos.
Cinética - cinema e crítica, 16/7/2013. Disponível em: http://revistacinetica.com.br/home/jean-claude-
bernadet-e-as-comedias/ Acedido pela última vez em 2/2/2015.
448 Ver os primeiros capítulos da obra: BERNARDET, Jean-Claude. Historiografia clássica do cinema
brasileiro: metodologia e pedagogia. 2ª edição. São Paulo: Annablume, 2008.
Pág
in
a
186
fundo, a indistinção entre críticos e historiadores do cinema que, geralmente, eram uma só e a mesma pessoa.
A grande questão que subjaz àquele comentário parece ser então ainda mais profunda: críticos/historiadores, à época das chanchadas de Oscarito e Grande Otelo, compartilhavam de certa "teia interpretativa"450 na qual películas que narravam comicamente as mais diversas histórias não tinham um "lugar" garantido na chamada História do Cinema Brasileiro. Atento a essas questões (desde 1990), Bernardet apontou em seu blog àquilo que lhe parecia, mesmo hoje em dia (em 2013), coerente afirmar. Com efeito, parece que vivemos um momento em que efetivamente pode aflorar a real possibilidade de uma mudança de paradigmas em relação ao cinema. É nesse sentido que Jean-Claude manifestou sua esperança de que a intelligentsia não incorra hoje no mesmo erro cometido quando das análises às chanchadas dos anos de 1950.
Indiretamente, todo esse cenário aqui desenhado tem a ver com o cinema de Mazzaropi. Como vimos no decorrer dos capítulos (I, II, III) desta dissertação, foram poucos os críticos e as obras acadêmicas/editoriais que se debruçaram sobre a trajetória artística cinematográfica de Mazzaropi. Ficou claro que a crítica de 1973 de Paulo Emílio Salles Gomes objetivou conferir legitimidade a Mazzaropi e suas obras no sentido da sua escolha como objeto de estudos mais aprofundados. Isto, porém, não se verificou tão fortemente quanto esperado, seja nas críticas a ele contemporâneas, seja na confecção dos trabalhos acadêmicos/editoriais ao longo dos tempos.
Ao que parece, a quebra das hierarquias, dos paradigmas, não se deu desde os anos de 1990 para o cinema de Mazzaropi da mesma forma como ocorreu com relação à chanchada carioca. Exemplo disso é que hoje artistas como Oscarito451 e Grande Otelo são vistos como grande atores; isso não ocorreu com Mazzaropi. Trata-se aí, portanto, de uma avaliação qualitativa de duas formas possíveis de valorização de filmes do gênero comédia, pois, não em última análise, partimos do pressuposto segundo o qual
450 Cf. SOUZA, Julierme Sebastião Morais. Eficácia política de uma crítica: Paulo Emílio Salles Gomes
e a constituição de uma teia interpretativa da história do cinema brasileiro. 2010, 285p. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Instituto de História, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2010.
451 Vale a pena conferir, nesse sentido, o seguinte trabalho: SOLANO, Alexandre Franscico. Nos passos
do urubu malandro – Do picadeiro à tela: Oscarito e a Atlândida Cinematográfica. 2012. 235 f. Dissertação (Mestrado em História Social) – Programa de Pós-Graduação em História do Instituto de História, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2012.
Pág
in
a
187
existe um processo de hierarquização de expressões artísticas relativamente à escrita da história do cinema no Brasil.
Diante disso, há também a possibilidade de observar ainda outra questão relevante por intermédio dessa ponte entre passado e presente. Mesmo não havendo tal
quebra hierárquica quando o objeto de estudos é o cinema de Mazzaropi, inegavelmente
a produção acadêmica/editorial dos últimos anos tem se preocupado de modo efetivo com a análise da cinematografia mazzaropiana. Contudo, ao que parece, isto vem ocorrendo em razão de diversos outros motivos. Por exemplo, o aumento do número de Programas de Pós-Graduação (e com esses dos trabalhos acadêmicos inclusive sobre o cinema de Mazzaropi); em decorrência disso, por outro lado, parece ficar evidente nas últimas décadas o processo de descentralização da produção de conhecimento, outrora mais frequentemente situada no eixo Rio/São Paulo, também quanto à escolha temática que diga respeito ao cinema de Mazzaropi nas mais variadas áreas de pesquisa acadêmica, em diversas regiões do país.
Deve-se ponderar, assim, que a mudança paradigmática em relação à chanchada, efetivamente levada a cabo em obras como as de Rosangela Dias (O mundo como
chanchada)452 e Sérgio Augusto (Este mundo é um pandeiro)453, na realidade, não
parece ter ocorrido da mesma forma quando o objeto de pesquisa é o cinema de Mazzaropi. Nesse sentido, nem mesmo a "eficácia discursiva" de um Paulo Emílio Salles Gomes conseguiu agir politicamente à uma inversão desse quadro de questões. Sobre o caipira paulista, ainda hoje, recai inegavelmente um enorme preconceito. Permanece evidente a necessidade de pensar com a história uma relação possível de certo tempo passado com o presente do intérprete historiador.
452 DIAS, Rosângela de Oliveira. O mundo como chanchada. Cinema e imaginário das classes populares
da década de 50. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1993.
453 AUGUSTO, Sérgio. Este mundo é um pandeiro - A chanchada de Getúlio a JK. São Paulo: Cia. das
Pág
in
a