Les Teko et les Wayãpi de Guyane face aux musiques contemporaines : attraits et limites de la mondialisation
I. Des mondes qui s’attirent
4. Le groupe No tongues
A Canção de Coimbra no Porto passou por diversas fases. Como vimos em capítulos anteriores a aparição do género musical no Porto não é de hoje. Remonta ao Porto Oitocentista as primeiras manifestações da Canção no Porto. Nesse primeiro momento, a Canção de Coimbra no Porto era impercetível. Contudo, várias manifestações da Canção de Coimbra ocorreram na cidade do Porto como músicos de Coimbra virem para o Porto atraídos pelo desenvolvimento económico da cidade que prosperava com a
industrialização. Aqui, a Canção de Coimbra não se cingia à Academia pois não existia. A Canção aparecia no quotidiano, nas bocas dos cantores e dos músicos que as entoavam por vontade. Foi uma década muito importante pois iria marcar profundamente o Porto e com isso alteraria a dinâmica escassa da Canção de Coimbra no Porto.
Após esse desenvolvimento, chegados ao ano de 1900 e com a Fundação da Universidade fixam-se estudantes e professores do Ensino Superior vindos de Coimbra. Com eles traziam as noções incorporadas das práticas tradicionais Académicas e, por conseguinte, da Canção de Coimbra. Em jeito de mimetismo, procurou-se fazer cá o que se fazia lá, ou seja, criou-se um Orfeão Universitário e essa instituição congregava em si órgãos representativos da tradição popular portuguesa com danças e grupos musicais. Nesse contexto surge um grupo de fado constituídos por estudantes de Coimbra e do Porto Teve uma curta duração, mas ainda assim deixaram pegadas identitárias para mais tarde serem resgatadas. Foi a partir dessa mimica de Coimbra que o género floresceu o que faz sentido. Contudo, essa dinâmica muda profundamente devido ao Estado Novo e mais tarde à Revolução de Abril. O Pós 25 de abril abriu as portas à modernidade. As pessoas foram engolidas pela emoção de uma nova dinâmica global. Como isso o Orfeão reabilitou o grupo de fados e começou, em semelhança a Coimbra, a introduzir as serenatas aos finalistas.
Mais tarde, a tradição Académica passou a ser, também, dos portuenses e com ela veio uma nova interpretação ajustada à realidade da cidade. Na década de 80 acontece algo que rompe com o paradigma da Canção de Coimbra vigente na altura. Forma-se um grupo de fados de uma faculdade da Universidade do Porto. Esse grupo era constituído por estudantes do Ensino Superior e antigos estudantes.
Ao contrário de Coimbra, no Porto não existe uma secção de fado que atua como um meio mediador, regulador e difusor dos valores e das normas da Canção de Coimbra. Quer isto dizer que, por um lado os grupos conseguiram consagrar o género musical em Coimbra (em muito se deve à década de 60 com as canções de intervenção) e por outro, tornou-se institucionalizado. No Porto não se verificou isso.
Durante a década de 80 nascem mais dois grupos juntamente com o primeiro. Vem a década de 90 e nascem mais alguns grupos. Durante os anos 2000 deu-se um boom de grupos de fado na cidade do Porto acompanhando, por um lado a fragmentação territorial da Academia que por necessidade viram-se “forçados” a colmatar a falha de grupos nas
suas zonas geográficas, por outro acompanhou a massificação do Ensino Superior com a proliferação de instituições de ensino.
Apesar da aparente visibilidade conferida à abundância de grupos criados no Porto, a verdade é que não chegaram ao nível da institucionalização Académica das práticas musicais. Quem forma agora os grupos são estudantes do Ensino Superior do Porto por vontade do espirito e não pela oferta “extracurricular”.
O Porto vive uma fase de afirmação face a Coimbra. Uma fase de procura pela visibilidade com o incremento de práticas culturais no sentido de promoção do género. São várias as manifestações que compreendem alcançar o público de diversas maneiras. As principais manifestações são os espetáculos em Casas consagradas como o Ateneu Comercial do Porto ou então a Alfandega do Porto. Os músicos procuram criar à moda portuense uma dinâmica de afirmação da Canção de Coimbra no Porto. Uma das maneiras de romper com a conceção passa pela não adoção da terminologia Canção de Coimbra e, sim, noite de fado académico. Inconscientemente, ou não, vão abalando as estruturas consolidadas. É uma tentativa de inverter o polo aglutinador e, como dizia um Cultor entrevistado, através da superação técnica ou através da manifestação de contextos de visibilidade.
O momento é diferente do que era antigamente. A modernidade tardia trouxe outro alento ao fenómeno. As práticas portuenses são rapidamente difundidas além-fronteiras. É certo que o mesmo acontece com Coimbra, no entanto, devido à intensa evolução do (sub)campo da Canção de Coimbra no Porto assente na proliferação de grupos, as manifestações vão ser apreendidas num outro volume.
Importa referir que muitos dos agentes que constituem o (sub)campo assim como os públicos não têm enraizados o senso comum que, em Coimbra se verifica numa Monumental Serenata. As pessoas têm uma relação diferente com a obra e o artista. Em Coimbra o público permanece em silencio durante a atuação porque assim está incorporado não só nas pessoas como nos sítios. No Porto os modos de fruição tornam- se diferentes. Os Cultores entrevistados para a tese revelaram que num evento como a Monumental Serenata do Porto o público é capaz de não estar a olhar para o palco, ou porque está a falar com alguém ou porque nem reparou que tinha começado a atuação. Para percebermos a dimensão relevante deste ponto, apoiado na realização de uma observação durante a Monumental Serenata, no Porto existe um sistema de som que apoia
as atuações dos grupos de fado. O sistema de som é de espetáculo de festival. Ainda com auxilio de meios de reprodução da obra a mensagem não é passada. A mensagem do momento será outra que não a da receção da obra de arte.
Com base nas entrevistas conseguimos perceber muitas das relações enunciadas anteriormente. Assim, as mais evidentes são as relações entre os públicos e os criadores que se revestem de diferentes formas, desde registos mais sóbrios a registos mais informais:
[Cultor 2]“Nós procuramos sempre, em todas as atuações mais informais, ou seja,
naquelas em que apresentamos as nossas musicas, em que não temos de estar de capa traçada, aquelas atuações que não são serenatas, nós procuramos sempre fazer uma apresentação, contextualizar a musica, interagir com o público e dar um bocado essas nuances, dar um bocado... contar um bocado da história do fado de... da Canção de Coimbra e também, às vezes, dar também a destacar os nossos originais como sendo nossos e como sendo uma sonoridade algo diferente e é a partir daí, creio que interagindo com o público e educando-o que comece a surgir essa visibilidade e a distinção por parte do grupo, a distinção das várias vertentes.”
Para além dessa relação evidenciamos com outra que comporta a relação anterior. A relação entre os agentes anteriores e as práticas de tradição académica que tendem a sobrepor-se às dinâmicas musicais:
[Cultor 2] “Numa serenata académica, num momento praxístico solene, não há
introdução às músicas, não há palmas. O Dux ou alguém ligado à praxe abre o momento. “
Outra relação estruturante é a da dos agentes inseridos no (sub)campo da Canção de Coimbra no Porto com Coimbra. Esta relação será das mais relevantes durante a dissertação pois é ela que, em última estância, impõe as forças dominantes do campo. É Coimbra que detém o monopólio do capital e, como tal, só pode haver uma força hegemónica que é suportada por questões de identidade, território, institucionalização e reconhecimento.
[Cultor 2] “…um caso especifico do meu tio que estudou em Coimbra e que quando
me ouve a falar que, aqui, temos um grupo de fados e que tocamos fado ele torce o nariz porque isso é em Coimbra, não é em mais lado nenhum. É aquela coisa da tradição que não pode ser exportada para outros sítios nem ser utilizada, porque se é interpretada noutros sítios tenta-se pegar nessa génese e evoluir a partir dela acho que também poderia ser motivo de orgulho em vez de ser motivo de tanta polémica, de tanto torcer o nariz em relação a essa situação.”
A relação entre o género Coimbrão no Porto e a cidade do Porto e respetivos agentes também é determinante para este estudo. Como temos vindo a ver as manifestações da
Canção de Coimbra na cidade do Porto são cada vez mais frequentadas e regulares. A esse propósito, em 2006, por exemplo, os grandes momentos da Canção de Coimbra no Porto eram as Grandes Noites de Fado Académico do ISEP, as Monumentais Serenatas e as serenatas das casas. Hoje já se registam bem mais eventos e bem mais grupos a atuar no Porto. Contudo, as memórias de grandes eventos perduram ao longo do tempo nos seus cultores.
[Cultor 4] “Noite de Fados do ISEP, nesse ano foi no Convento de São Bento da
Vitória… foi uma coisa incrível, com convidados de Coimbra de topo, aliás o Paulo Soares, o Jójó, fez lá a apresentação do seu livro que tinha acabado de ser lançado. Na altura o grande evento da Canção de Coimbra seria a Grande Noite de Fados do ISEP até porque as casas não organizavam grandes coisas a não ser as serenatas internas…e depois eram as serenatas da Academia…eram os três grandes momentos da altura”
Uma última relação que evidenciamos é que liga a Canção de Coimbra à Universidade. Esta é uma das relações que garante legitimidade aos praticantes da Canção de Coimbra. Para a praticar é necessário ser estudante. Até se pode aceder a esse mundo por outra via, contudo, no Porto, será difícil encontrar essa porta. Como tal, só a partir do momento em que entramos para a faculdade é que também passamos a ter acesso legitimo a este género. Como nos diz o cultor 4:
“o meu primeiro contacto a sério foi no primeiro ano da faculdade quando entrei no grupo de fados, mas já tinha ouvido temas mais banais como a "Coimbra tem mais encanto" a "Trova do vento que passa" já tinha ouvido antes, mas nunca liguei muito.”
Retiramos também que o cultor tinha um background relativo ao género com a audição de temas ícones como os enunciados.
Como vemos, os modos de relação com arte podem ser variados de lugar para lugar, como tal será automaticamente uma produção única desde que assente em critérios de não reprodução.
Desta forma conseguimos traçar um panorama geral de agentes que configuram o (sub)campo da Canção de Coimbra no Porto.