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Apesar de – ou por conta de – nossa investigação tratar da medicalização da educação, nos localizamos epistemologicamente na perspectiva crítica do fazer científico, na tentativa de fazer uma leitura crítica do fenômeno que tomamos como objeto de reflexão.

Em consonância com a natureza desse objeto e dos objetivos da investigação, destacamos a metodologia que utilizamos, prevendo-se essencialmente retirar da abordagem qualitativa as suas potencialidades para iluminar o nosso estudo, sem prejuízo da abertura a um caminho quantitativo que, porventura, complemente esse potencial, desde que contribua para extrair sentido dos dados recolhidos e das decisões ao nível do seu tratamento.

35 a) a pesquisa qualitativa acontece in locus, se vai ao local a ser investigado, o que nos aproxima mais dos sujeitos e nos permite envolvermo-nos nas experiências desses sujeitos;

b) na pesquisa qualitativa usam-se múltiplos métodos, que são interativos e humanistas, podendo inclusive diversas fontes de informações, como as entrevistas, fotos, vídeos, e-mails, entre outras;

c) a pesquisa qualitativa vai se construindo no processo. Varias coisas podem ir se alterando ao longo da pesquisa;

d) a pesquisa qualitativa é fundamentalmente interpretativa, descreve-se o terreno, analisam-se os dados e chega-se a uma interpretação;

e) a pesquisa qualitativa vê os fenômenos sociais de forma holística, ampla; f) há sempre elementos particulares do pesquisador em cena, assim como dos sujeitos investigados;

g) a pesquisa qualitativa tem um raciocínio complexo, que é multifacetado, interativo e simultâneo;

h) na pesquisa qualitativa usa-se uma ou mais estratégias de investigação para os procedimentos nos estudos qualitativos.

Como nos aponta João Amado (2014) “(...) a investigação qualitativa assenta numa visão holística da realidade (ou problema) a investigar, sem a isolar do contexto ‘natural’ (histórico, socioeconômico e cultural) em que se desenvolve (...).” (Amado, 2014: 41). E é desta forma que faz sentido privilegiarmos essa abordagem qualitativa, a fim de olharmos o fenômeno estudado de forma mais contextualizada.

Pretendemos defender neste trabalho que, por conta da crise (que é epistemológica e societal) da modernidade e a consideração das condições que a própria globalização que estamos a viver impõe, mais do que a sujeição a um paradigma, procura-se uma “constelação paradigmática” (Informação verbal)11. Neste sentido, lançar mão das

potencialidades de mais de um paradigma, dada a incompletude que se vem reconhecendo ao paradigma dominante para abarcar a complexidade, não somente da nossa questão em si, mas, de modo geral, da crescente complexidade com que a sociedade atual merece ser encarada, sem diminuí-la, ou tentar enquadrá-la de modo restritivo.

36 Boaventura de Sousa Santos (1988) nos estimula à compreensão desta crise epistemológica e aponta algumas condições, sociais e teóricas, para a sua ocorrência. Aponta o quanto passamos a ver melhor as fragilidades dos pilares em que o paradigma científico se funda a partir do aprofundamento do seu conhecimento. Uma condição é a compreensão da interferência estrutural do sujeito, investigador, no objeto investigado. Além disso, aponta para uma maior complexidade na distinção entre sujeito e objeto que sobreleva aquilo que pode parecer a priori. Por último, nos aponta uma quarta condição para essa crise, ligada aos avanços significativos em segmentos como microfísica, química e biologia nos últimos anos, que nos mostram a influência de elementos como a história, a imprevisibilidade, a interpretação mesmo nas ciências naturais. (Santos, 1988) Esses elemento nos trouxeram a um momento histórico de repensar, de rever, ou seja, de uma “profunda reflexão epistemológica sobre o conhecimento científico”. (Santos, 1988: 57) É neste cenário que nos encontramos atualmente, por isso a nossa necessidade de buscarmos em mais de um paradigma aquilo que cada um tem de contributo para a nossa questão.

Tomando em conta “a complexidade para que remete o estudo em causa, ela não pode ser captada por um paradigma que a reduza” (Nunes, 2002:18 e 2006:32).

Desta forma se sublinha, por exemplo, os contributos do paradigma fenomenológico-interpretativo e também do sócio crítico. Este primeiro pelo seu objetivo de compreensão das intenções e significações que as pessoas dão às suas ações – característica que faz parceria com uma das nossas técnicas de recolha de dados que é a entrevista, como veremos. Além disso, aborda os fenômenos na sua complexidade que, não podendo ser reduzidos a uma variável, procura a sua compreensão através de processos inferenciais e indutivos. (cf. Amado, 2014)

Já no paradigma sócio crítico encontramos uma investigação politicamente comprometida. E que se dedica a diferentes maneiras de interpretar o mundo, mas sempre com a intenção de transformá-lo. (Informação verbal)12

Temos estes dois paradigmas então não como opostos, mas que podem se complementar. A escolha do primeiro não é neutra, isto é, não é uma simples escolha técnica. Daí que se abra ao comprometimento com o valor de uma educação emancipatória, isto é, politicamente comprometida.

37 Boaventura (1988) nos fala ainda de um conhecimento prudente para uma vida decente, como um novo paradigma em trânsito. Apontando para uma revolução paradigmática acontecendo em uma sociedade também em profundas mudanças, o paradigma que surge e emerge dela não pode ser apenas um paradigma científico – prudente – mas também uma paradigma social – para uma vida decente.

“Só uma constelação metodológia pode captar o silêncio que persiste entre cada língua que pergunta. Numa fase de revolução científica como a que atravessamos, essa pluralidade de métodos só é possível mediante transgressão metodológica.” (Santos, 1988: 66)

3.3 Escolhas metodológicas: os métodos, técnicas e instrumentos de recolha e análise de