Nesta secção, irão ser comentados os resultados obtidos no presente estudo, cujos objetivos foram atingidos, confirmando-se total ou parcialmente as hipóteses de investigação inicialmente formuladas, com exceção de H2 e H4. Em relação à segunda hipótese, que procurava perceber se os indivíduos que trabalham a tempo parcial se sentiam mais satisfeitos com o papel de estudante do que os que trabalham a tempo inteiro, não se verificaram diferenças significativas entre os dois grupos, resultado que contraria os autores Elling e Elling (2000). Segundo estes, trabalhar trinta ou mais horas por semana tem um efeito negativo no progresso académico, o que, por sua vez, pode influenciar a Satisfação Académica, já que esta se define por um estado emocional positivo que advém do desempenho da atividade de estudante (Bean & Bradley, 1986). Apesar do número reduzido de participantes, os resultados obtidos mostram também, que o papel Estudo assume uma maior importância do que o papel Trabalho, na subescala de Participação do ISA, justificando-se a não diferença, e acabando as atividades académicas por se sobrepor às atividades relacionadas com o trabalho. Por outro lado, há que ter em conta a percentagem de participantes que estudam e trabalham simultaneamente por necessidades económicas, i.e., trabalham para suportar os encargos financeiros do estudo, e os que o fazem por questões de progressão na carreira, i.e., voltaram a estudar de modo a conseguirem desempenhar novas funções e assumir novas responsabilidades. Estes motivos podem também ser explicativos dos resultados obtidos na subescala Participação – Estudo. Uma vez que estes indivíduos podem considerar o grau académico que desejam atingir como sendo uma meta importante para o seu desenvolvimento quer pessoal quer profissional, tal pode desencadear níveis de motivação suficientemente altos, de modo a atenuar eventuais diferenças ao nível da satisfação académica entre trabalhadores-estudantes que têm regimes de trabalho diferentes (e.g. a tempo parcial, e a tempo inteiro). No que diz respeito à quarta hipótese, não se verificou a relação inversa entre satisfação com os papéis de estudante e profissional, e a satisfação com atividades de tempos livres/lazer. Parece pertinente justificar a sua refutação considerando o facto de se estar perante uma amostra que, também por ser jovem, considera como indissociáveis os papéis trabalho, família e tempos livres, uma vez que tendo em conta as características da amostra é possível que haja uma fusão entre o que são as relações de amizade, de família e de trabalho (Hartup, 1999). Assim, a inexistência de uma diferenciação rígida entre os papéis, pode contribuir para que seja difícil
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estabelecer uma relação indireta entre a satisfação académica ou profissional e a satisfação com as atividades de lazer, já que vez que parecem estar todas interrelacionadas.
Relativamente às hipóteses confirmadas e, tal como esperado, os resultados obtidos com o ISA revelaram que os papéis mais salientes são o Estudo e o Trabalho, sendo que na subescala Participação o papel estudo assumiu-se enquanto papel principal, enquanto na subescala Adesão foi o papel trabalho. Estes resultados estão de acordo com o expetável, uma vez que se trata de uma amostra de adultos trabalhadores-estudantes onde a grande parte, não tem um núcleo familiar constituído, fazendo do trabalho e do estudo as atividades centrais da sua vida. Ou seja, confirma-se que a amostra em estudo atribui maior importância aos papéis de Estudante e de Trabalhador. Além disso, foi possível ainda confirmar que existe uma relação direta entre a saliência e a satisfação académica e profissional, ou seja, a satisfação dos papéis profissional e académico aumenta com a importância que lhes é atribuída. Esta conclusão vai ao encontro do que é expectável, uma vez que é natural que os indivíduos orientem os seus comportamentos para a satisfação dos papéis que consideram mais importantes e prioritários. No entanto, os indivíduos podem muitas vezes não ter recursos que permitam concretizar esta satisfação, pelo que seria interessante, numa investigação futura, estudar os fatores que poderão estar por detrás de uma possível relação inversa entre saliência e satisfação com os papéis de vida.
As H5 e H6, que consideravam relações diretas entre a Perceção do Apoio Organizacional e a Saliência dos papéis Estudo e Trabalho, e entre a Perceção do Apoio Organizacional e a Satisfação Académica e Profissional foram parcialmente confirmadas, uma vez que apenas foram estabelecidas relações diretas entre a perceção do apoio organizacional e a saliência e satisfação do papel profissional. Poder-se-á relacionar este resultado com o facto do Questionário sobre a Perceção do Apoio Organizacional, utilizado no presente estudo, ser composto por afirmações que dizem respeito a ações malévolas ou benévolas da Organização em que o indivíduo trabalha, e que retratam situações apenas associadas ao trabalho, não havendo nenhum item que retrate a realidade de trabalhar e estudar. Por outro lado, segundo Curtis e Nummer (1991), os indivíduos trabalhadores- estudantes reconhecem que trabalhar e estudar simultaneamente possibilita a aquisição de novas competências, entre elas a gestão do tempo e a autodisciplina. Neste sentido, mesmo os indivíduos que se sentem pouco apoiados pela Organização em que trabalham acabam por não fazer refletir esta falta de apoio nos estudos, uma vez que acabam por se adaptar e procurar conciliar os dois papéis independentemente da Perceção do Apoio Organizacional.
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Por último, relativamente à H7, os resultados mostram que apenas existe efeito mediador da Perceção do Apoio Organizacional na relação entre a saliência do papel trabalho e a sua satisfação, uma vez que existe uma redução da influência da saliência do papel trabalho na satisfação quando a perceção do apoio organizacional é considerada. Isto quer dizer que a perceção do apoio organizacional tem efeito na satisfação profissional, independentemente da saliência que o papel trabalho tem na vida dos indivíduos. Ou seja, parece que, o apoio dado pelas Organizações aos seus trabalhadores é um fator importante que contribui para que estes estejam satisfeitos profissionalmente, independentemente de atribuírem ou não, uma grande importância ao trabalho na sua vida. No entanto, este mesmo efeito, não se verificou quando foi considerada a saliência do papel estudo e a sua satisfação, talvez pelos motivos apresentados para H5 e H6, onde só foram estabelecidas relações diretas entre a perceção do apoio organizacional e a saliência e satisfação do papel profissional.
Apesar das hipóteses em estudo terem sido na sua maioria comprovadas, é importante salientar algumas limitações do presente estudo, tais como a dimensão da amostra, a utilização do Questionário de Satisfação Académica como instrumento de medida para avaliar a satisfação do papel estudo, a extensão do Formulário onde se encontravam todos os itens, referentes aos quatro instrumentos utilizados, podendo ter tornado a recolha de dados pouco apelativa para os participantes.
Espera-se, assim, que o presente estudo tenha contribuído para a investigação relativa à Saliência e Satisfação com os Papéis de Vida, e para a investigação relativa aos adultos trabalhadores estudantes, uma vez que revelou que, independentemente do regime de trabalho, os trabalhadores estudantes podem estar igualmente satisfeitos com o seu papel enquanto estudantes. No entanto, para compreender de que modo trabalhar e estudar pode afetar a satisfação académica, seria interessante fazer um estudo comparativo entre os níveis de satisfação académica de trabalhadores estudantes e estudantes não trabalhadores. Além disso, relativamente à influência do apoio organizacional, visto que esta parece influenciar apenas a relação entre a saliência do papel trabalho e a sua satisfação, seria também interessante perceber se o apoio prestado pelas instituições de ensino aos trabalhadores estudantes, pode ter alguma influência na relação entre a saliência do papel estudo e a satisfação académica. Ou seja, uma vez que é cada vez mais comum existirem indivíduos que dividem a sua vida entre o estudo e o trabalho, torna-se necessário perceber em que medida estes indivíduos podem ser apoiados, não só pelas Organizações que os empregam mas também pelas Instituições de Ensino que estes decidem frequentar.
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Em relação à análise fatorial da Escala de Satisfação com os Papéis de Vida, esta foi realizada com o intuito de contribuir para a sua validação e aperfeiçoamento (Janeiro & Lima, 2013), e a análise fatorial do Questionário de Satisfação Académica (Soares & Almeida, 2002) por se terem encontrado poucos estudos que tenham utilizado este instrumento de medida. Ao realizar as análises fatoriais, tem-se como objetivo encontrar a estrutura subjacente aos instrumentos utilizados, determinando o número e a natureza das variáveis latentes (fatores) (Brown, 2006). Uma vez que as estruturas obtidas com as análises fatoriais exploratórias realizadas no presente estudo não foram iguais às estruturas originais dos instrumentos em causa, torna-se pertinente comentar este mesmo resultado. Apesar das estruturas obtidas, em ambos os instrumentos, serem diferentes das originais, no QSA as diferenças são mais notórias. Enquanto na ESPV apenas um dos itens não se encontra de acordo com a estrutura original, no QSA existem 3 itens: os itens 6 (Satisfação
com os resultados académicos do curso) e 12 (Satisfação com o investimento pessoal no curso) que, na estrutura original, pertencem ao fator Satisfação Curricular e o item 8
(Satisfação com as oportunidades para participar em atividades extracurriculares) que, na estrutura original, pertence ao fator Satisfação Institucional, sendo que ambos saturam na estrutura obtida no presente estudo, no fator Satisfação Socio-Relacional. Na ESPV apenas o item 8 (Sinto-me satisfeito(a) com os amigos que tenho), que deveria saturar na Satisfação com as Atividades de Lazer, satura, no presente estudo, na dimensão Satisfação Familiar. Uma das razões para as diferenças encontradas é estarmos perante uma amostra de dimensão reduzida, sobretudo se se considerar que a precisão dos resultados da análise fatorial exploratória aumenta com o número de indivíduos (Gorsuch, 1983; Everitt; 1975). Outra explicação, para estas diferenças, é estarmos perante uma amostra onde a média de idades é de 31 anos, sendo que 40% dos participantes são solteiros, e 71,1% destes não têm filhos. Estes números mostram-nos, que estamos face a uma amostra de jovens adultos, sem núcleos familiares criados e onde, muito provavelmente, as relações sociais e de amizade ainda assumem muita centralidade na vida dos indivíduos, sendo possível, tal como já referido, que haja uma fusão entre o que são as relações de amizade, o trabalho e as relações com a família (Hartup, 1999). Tal pode, assim, ter contribuído para os resultados da análise fatorial exploratória, uma vez que a interpretação feita pelos indivíduos parece revelar alguma confusão em relação ao que é o trabalho, a família e os tempos livres.
No que se refere às práticas de recursos humanos em contexto Organizacional, e uma vez que se comprovou que a Perceção do Apoio Organizacional se relaciona diretamente com a Satisfação Profissional independentemente da importância que é atribuída pelos
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indivíduos ao trabalho, poder-se-á afirmar que é importante o papel que as Organizações podem ter na satisfação profissional e de vida dos seus colaboradores. Tem-se, ainda, como objetivo refletir sobre o contributo para o processo de sensibilização, junto das Empresas, Instituições de Ensino e dos indivíduos que as compõem, para as dificuldades sentidas pelos trabalhadores-estudantes, sendo relevante e de todo o interesse que haja um crescente desenvolvimento ao nível da investigação sobre a temática em estudo.
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