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GRADED APPROACH FOR MANAGEMENT SYSTEMS FOR THE SAFE TRANSPORT OF RADIOACTIVE MATERIAL

A caracterização do coletivo no Salgueiro se inicia desde o espaço da narrativa que ocorre em um morro homônimo localizado na cidade do Rio de Janeiro. Dentro do morro do Salgueiro ficcional, os espaços em que se passam a narrativa são: o barracão da família de Geraldo e de outros moradores do morro (Valério, Chico Padre, Vicente, Teresa-Homem, Dona

Zica e Timóteo), as vielas da comunidade, o armazém de Tomás de Aquino e o hospital em que Seu Manuel fica internado. Além desses, outros espaços de importância secundária são mencionados, como o Terreiro Grande, local onde se concentravam prostitutas que se envolviam com marinheiros; bem como, há menção da visão panorâmica dos arredores do morro, como a Penha, bairro da Zona Norte do Rio; o Jardim Zoológico de Vila Isabel, além outras partes da cidade.

Como a organização do morro ocorre através de barracões por família, nota-se que há espaços físicos individualizados, pois há tanto um distanciamento físico entre os moradores do morro, como um distanciamento emocional entre os membros da mesma família, apesar de morarem num mesmo barracão. Observa-se também esses aspectos individuais quando o narrador projeta o estado anímico de algumas personagens no ambiente, aspecto esse que aproxima o romance da perspectiva intimista, ou seja, voltada para as particularidades do indivíduo, como suas emoções e sentimentos, que são concretizadas pelo ambiente externo.

Além desse aspecto individual, como a maioria dos moradores do morro do Salgueiro parecem subjugados ao ambiente em que vivem, eles acabam sofrendo coletivamente. É como se o espaço determinasse o destino dos personagens, bem aos moldes em que os estilos oitocentistas realista e naturalista concebiam a influência do espaço na vida dos personagens. Como vimos no capítulo anterior, essa característica foi retomada pelo romance social de 1930.

Salgueiro seria um romance de transição por trazer esse aspecto coletivo com personagens

subjugados e quase que como vítimas do ambiente, bem como por trazer a faceta intimista que caracterizará posteriormente o estilo de Cardoso.

Devido a essa influência das estéticas realista e naturalista do século XIX nos romances da década de 1930, é possível estabelecer uma comparação entre a obra naturalista O cortiço, de Aluísio Azevedo, e Salgueiro, especificamente nesse aspecto coletivo.

Mesmo havendo vários núcleos de personagens dentro da história de O cortiço, boa parte da crítica concorda que ele seria um romance de espaço, pois é o espaço ou meio, utilizando a terminologia do determinismo, que acaba manipulando o comportamento dos personagens. Paulo Franchetti (2012, p. 56), na apresentação da edição de O cortiço, da Ateliê Editorial, defende que a ideia de conjunto é bem maior que a particularização dos tipos individuais: “[...] o cortiço, como um todo, surge como a grande personagem, uma vez que as personagens, em si mesmas, constituem antes tipos, casos, exemplos”. Dentre esses tipos, pode- se citar o português avarento e ganancioso, representado por João Romão; Bertoleza, a negra escrava, explorada por João Romão considerado de raça superior à dela, conforme as palavras do narrador do romance; a representação da prostituta por meio da personagem

Léonie e depois Pombinha, dentre outros. Desse modo, percebe-se que tanto no romance de Cardoso, como no de Azevedo há a ideia da coletividade. Em Salgueiro, a coletividade, em seu aspecto físico, é expressa através dos vários barracões, enquanto no romance de Aluísio Azevedo é na estalagem de João Romão que a coletividade se materializa. A aproximação dos dois romances também se apresenta através das semelhanças entre alguns personagens, como Tomás de Aquino e Chico Padre, personagens de Salgueiro, que apresentam aspectos parecidos com João Romão de O cortiço. O primeiro se aproxima de João Romão pelo fato de também possuir uma venda e moradias para aluguel. Inicialmente não era ganancioso como Chico Padre, que também possuía barracões para alugar, mas que cobrava um valor bem superior do que aquele cobrado por Tomás de Aquino. Chico acaba incitando Tomás a cobrar mais pelos barracões, inclusive pelo barracão em que a família de Geraldo morava. Desse modo, Chico Padre acaba por despertar em Tomás de Aquino a ganância que ele até então não demonstrava possuir. Esse sentimento de ganância é mais um aspecto que aproxima os dois personagens de Salgueiro a João Romão.

O irônico é que o nome “Tomás de Aquino” remete à figura do teólogo e filósofo que via na justiça a possibilidade da equidade das relações humanas, por isso seu pensamento seria combativo à ganância (SILVA; TEIXEIRA, 2011, p. 38). Desse modo, quando o leitor vê o nome Tomás de Aquino cria certas expectativas com relação ao personagem de Salgueiro, mas no decorrer da narrativa percebe-se que ele é o avesso do filósofo, e que certo nome não passou de uma ironia do autor. O mesmo acontece com o personagem Chico Padre que não possui nenhuma ligação religiosa, apesar do “Padre” em seu nome. Esse personagem de santo nada tem, pois é dono do Terreiro Grande, uma espécie de prostíbulo; além de ser bastante ganancioso, chegando a cobrar altos preços pelos barracões que aluga no morro.

Nota-se também a presença da personificação dos espaços do morro e do cortiço nas obras aqui confrontadas. A ideia de coletividade é expressa através da metáfora da colmeia em ambos os romances, o que acaba representando de forma animalizada a ideia do grupo de moradores tanto do morro, como do cortiço. Quando Geraldo vai em busca da casa de Valério para tentar conseguir um emprego, percebe-se que o narrador, ao descrever a vizinhança, faz uma analogia entre o zum-zum dos moradores e uma colmeia: “[...] Geraldo se aproxima, atordoado com o rumor da colmeia, os gritos, o choro das crianças e o canto áspero dos galos” (CARDOSO, 2007, p. 312); Após entrar na casa de Valério, o burburinho da “colmeia” continua sendo ouvido: “Vinham de fora o som das vozes e os gritos da colmeia em plena ebulição” (CARDOSO, 2007, p. 33).

Nas citações acima, nota-se um apelo sinestésico à audição representada através dos “gritos”, do “choro das crianças”, do “canto áspero dos galos” e das vozes, sons esses que juntos caracterizam a colmeia, metáfora zoomórfica que denota conglomerado de pessoas juntas ou até mesmo de animais. Dessa forma, o narrador acaba considerando o Salgueiro como uma conglomeração de pessoas que mesmo morando em barracos independentes, acabam juntas formando uma coletividade que representa o cotidiano do morro carioca.

Essa ideia da animalização coletivizada pode ser comparada às “larvas do esterco” de O

cortiço:

E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco. (AZEVEDO, 2005, Capítulo 1, p. 22)

O ruído emitido em Salgueiro é semelhante àquele que ressoa em O cortiço, num dos momentos em que o narrador descreve o início de um dia na hospedaria. Abaixo é possível perceber que, além dos zum-zuns, onomatopeia das abelhas da colmeia, o verbo verminar e o substantivo formigueiro constroem a zoomorfização presente na coletividade do cortiço:

Daí a pouco, em volta das bicas era um zum-zum crescente; uma aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas. [...]

O rumor crescia, condensando-se; o zum-zum de todos os dias acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruído compacto que enchia todo o cortiço.

[...]

O zum-zum chegava ao seu apogeu. A fábrica de massas italianas, ali mesmo da vizinhança, começou a trabalhar, engrossando o barulho com o seu arfar monótono de máquina a vapor. As corridas até à venda reproduziam-se, transformando-se num verminar constante de formigueiro assanhado. Agora, no lugar das bicas apinhavam-se latas de todos os feitios, sobressaindo as de querosene com um braço de madeira em cima; sentia-se o trapejar da água caindo na folha. Algumas lavadeiras enchiam já as suas tinas; outras estendiam nos coradouros a roupa que ficara de molho. Principiava o trabalho. Rompiam das gargantas os fados portugueses e as modinhas brasileiras. Um carroção de lixo entrou com grande barulho de rodas na pedra, seguido de uma algazarra medonha algaraviada pelo carroceiro contra o burro.” (AZEVEDO, 2005, p. 13)

Outra nomenclatura animalizante presente no trecho citado acima ocorre ao chamar os homens e mulheres do cortiço de “aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas” que remetem às definições biológicas tão afeiçoadas pelo naturalismo.

Mais um aspecto que aproxima Salgueiro de O cortiço é a personificação dos espaços. No primeiro, o morro é personificado, no segundo, o próprio cortiço. Ao se comparar o ambiente do morro do Salgueiro ao do cortiço, nota-se que ambos são considerados uma espécie de corpo vivo, que em alguns momentos possuem ações que geralmente são atribuídas aos seres com vida. O morro se move, possui forças de origens desconhecidas, sente sono, dorme e acorda:

Todo o Salgueiro se move como um corpo de gigante, na noite larga que vai crescendo. Uma força desconhecida brota daqueles casebres acocorados no escuro, daqueles barrancos agressivos da estrada. Mas é uma força de doença e de morte, de coisa estragada.

(p. 49)

O silêncio voltou a tombar. Tudo estava calmo, a noite corria serenamente, todo o Salgueiro parecia, afinal, entregue ao sono.

(p. 102)

Mas o morro estava quieto, dormindo ao sol frio. (p. 147)

Ao longe gritavam chamando alguém. O morro acordava. (p. 243)

As forças do morro agiam de forma a sufocar seus moradores, dominando o destino da maioria deles. Havia uma lenda no morro segundo a qual só se conseguiria sair dele ou muito doente ou morto, como foi o caso, respectivamente, de Seu Manuel e Zé Gabriel, avô e pai de Geraldo:

Sim, homens que descem para o hospital e não regressam mais, homens que se perdem no próprio destino como dentro de uma senda escura... Que miséria era a vida destes desgraçados, criaturas ignorantes e rudes! (p. 227)

O narrador afirma isso logo após a morte de Zé Gabriel, o que reafirma a ação das forças ocultas do morro em seus moradores e o mantra do morro.

A estrutura do morro estava consolidada, enquanto o cortiço ainda estava em construção, por isso em alguns momentos o narrador diz que a estalagem estava em crescimento:

E, durante dois anos o cortiço prosperou de dia para dia, ganhando forças, socando-se de gente. E ao lado o Miranda assustava-se, inquieto com aquela exuberância brutal de vida, aterrado defronte daquela floresta implacável que lhe crescia junto da casa, por debaixo das janelas, e cujas raízes, piores e mais grossas do que serpentes, minavam por toda a parte, ameaçando rebentar o chão em torno dela, rachando o solo e abalando tudo. (AZEVEDO, 2005, p. 23)

Ao chamar o cortiço de “floresta implacável” que crescia com suas raízes “mais grossas do que serpentes”, o narrador confere um ritmo de crescimento quase que biológico à hospedaria. Segundo Antonio Candido (2010, p. 117), no ensaio “De cortiço a cortiço”, o cortiço apesar de ser uma construção humana parece relacionado à natureza, pois “[...] ele cresce, se estende, aumenta de volume e é consequentemente tratado pelo romancista como realidade orgânica, por meio de imagens orgânicas que o animam e fazem dele uma espécie de continuação do mundo natural”. Ainda segundo Candido, isso acontece no princípio do romance de Azevedo, pois inicialmente nota-se que o cortiço é estabelecido por leis biológicas, reforçando a presença do naturalismo. Esse ritmo de crescimento natural e espontâneo vai sendo substituído pelo planejamento direcionado de João Romão.

Assim como o morro do Salgueiro, o cortiço também dormia e acordava junto com seus moradores:

Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas. (AZEVEDO, 2005, p. 3)

O cortiço dormia já e só se ouviam, no silêncio da noite, cães que ladravam lá fora na rua, tristemente. (AZEVEDO, 2005, p. 105)

Devido a essa presença marcante do espaço nas duas narrativas, pode-se considerá-los como personagens, como sugeriu Franchetti (2011) com relação ao cortiço, e podemos estender essa analogia ao próprio morro, em Salgueiro. Pode-se considerá-los dessa forma, pois ambos além de serem personificados, atuam no destino dos personagens. Sendo assim, tanto o morro, como o cortiço representam o meio interferindo na vida de seus moradores, determinando os caminhos de seus respectivos destinos.

O diferencial de Salgueiro, quando comparado a um romance naturalista, é que um dos personagens consegue ultrapassar as limitações impostas pelo determinismo do ambiente, que foi o caso de Geraldo. Esse aspecto individual se sobrepõe quando Geraldo, após conhecer a figura divina através dos personagens Valério e Vicente, consegue se desprender da animalidade e desenvolve a sua espiritualidade. Depois de vários momentos de reflexão, ele se desprende das forças do morro e encontra a sua saída.

Apesar da individualização física tão presente no morro do Salgueiro, pois praticamente cada grupo vive em barracos distintos, quando Seu Manuel vai para o hospital parece haver uma comoção coletiva dentre os moradores do morro. Muitos querem ajudar na sua descida e esse é um dos poucos momentos em que os moradores do Salgueiro agem coletivamente:

Dentro em pouco, correu a notícia de que o velho descia para o hospital. No morro do Salgueiro, como em todos os lugares onde o homem sofre

coletivamente, a fraternidade se denuncia mais impressiva quando aparece algum caso de doença. Então, toda a gente se movimenta. Todos querem ajudar e os braços se agitam incansáveis em torno daquele que vai descer. Tomás de Aquino, o vendeiro, possuía uma cadeira, velha cadeira de braços, que já fora de um salão de barbeiro e que agora servia para a descida dos feridos e doentes. [...] (CARDOSO, 2007, p. 63-64)

O sentimento de fraternidade e de preocupação com o próximo surgiu nesse momento. O curioso é que já existia até uma cadeira de prontidão para a descida dos moradores doentes e feridos. Até mesmo aquelas pessoas que tinham inimizade umas com as outras deixavam as indiferenças e se propunham a ajudar: “Nem mesmo Teresa-Homem, inimiga conhecida de Rosa, deixou de se apresentar. Nem Chico Padre, cujo olhar durante todo o tempo seguiu o vulto hostil de Marta, nem o próprio Tomás de Aquino, solícito e espantado” (p. 64).

Apesar da compaixão com o próximo, a falta de respeito com a situação acabou se sobrepondo, pois o momento que era de tristeza apresenta-se mais como uma festa: “Todos se comprimiam em redor do casebre. Parecia uma festa. As conversas ecoavam alto e os negros entravam e saíam, trazendo notícias” (p. 64).

Rosa, a amante de José Gabriel, é a mais animalizada dos personagens, nem no momento de sofrimento ela deixa de dar as suas risadas, que ecoam constantemente na narrativa: “Rosa, satisfeita com a novidade, ria, contava histórias do ‘pobre’, parecia conhecer detalhes da moléstia muito bem. E falava em briga, na desforra que ainda tiraria da Zefa” (p. 64).

As reações de Geraldo e de Arlete também são estranhas para a situação, pois não estavam tristes e nem comovidos pela ida, talvez sem volta, do avô de Geraldo para o hospital. Não se estranha muito a reação de Arlete, porque ela nem conhecia o Seu Manuel, se bem que ela até poderia se comover com a situação e ser solidária com seu amante: “Geraldo e Arlete esperavam ouvir a campainha da ambulância para avisarem em casa. Sentiam prazer, em todo aquele movimento que vinha lhes alterar a vida. E riam, olhando o céu imenso e azul” (p. 65). Tenta-se até compreender essa reação, pois a vida de ambos era bastante monótona. Ele nem estudava nem trabalhava, ela também não, pois não é mencionado nada a esse respeito durante a narrativa, ou eles eram tão ingênuos que não tinham ideia do que realmente se passava. Parece que a vida de Geraldo se resumia apenas em ser repudiado pelos membros de sua família, fazer pequenos serviços por valores ínfimos e talvez por isso se justifica o seu desejo de sair daquele morro opressor.

outros fora de seu barracão, algumas pessoas chegavam para perguntar como ele estava e “ele se encolhia, esmagado pela força de um mundo desabando. Mudo, amedrontado como um cão batido” (p. 65). Percebe-se que mesmo em meio a uma multidão, Seu Manuel se sente só, provavelmente certo de que não voltaria com saúde para o seu lar.

Desse modo, nota-se que mesmo num ambiente onde há uma certa indiferença entre seus moradores, em certos momentos, a coletividade se faz presente através da compaixão, mas também pensando que quem ajuda hoje, poderá precisar amanhã.