Segundo Massaud Moisés (2004), o vocábulo crônica foi mudando de sentido ao longo dos séculos. “Crônica” foi utilizada pela primeira vez ainda na era cristã e consistia numa lista de acontecimentos apresentados numa sequência cronológica do tempo. Essa acepção atingiu o seu auge na Alta Idade Média, depois do século XII. Com o passar do tempo, só eram consideradas crônicas aquelas obras que narravam acontecimentos com mais riqueza de detalhes e iam além de uma lista, como as obras de Fernão de Dias, no século XIV. Enquanto os textos mais simples dessa época, que traziam efemérides, começaram a ser chamados de “crônicões”. Desde o Renascimento, séc. XVI, “o termo ‘crônica’ começou a ser substituído por ‘História’ ” (MOISÉS, 2004, p. 112.) e a noção de crônica que conhecemos hoje começa a se delinear apenas no século XIX. Na noção atual de crônica, o escritor apresenta um tom maior de sua personalidade literária, ou seja, a partir dela o seu autor pode refletir sua visão subjetiva de um fato do cotidiano.
O gênero crônica é caracterizado pelo hibridismo, ou seja, pode incorporar características de outros gêneros, tais como carta, notícia, poema, diário, livro de memórias, conto, dentre outros. Transitando entre a literatura e jornalismo, a crônica tem um objetivo comum: refletir sobre o cotidiano de um espaço, em uma determinada época.
No romance Crônica da casa assassinada, temos uma reunião de diversos gêneros como o fim de remontar o que seria uma parte da crônica social da cidade de Vila Velha, em específico os textos que correspondem a uma de suas famílias mais importantes: os Meneses.
No primeiro capítulo do romance, “1. Diário de André (conclusão)”, e aliás, no romance inteiro, há apenas uma data, que inclusive não está completa, pois falta o mês e o ano: “18 de... de 19...” (CARDOSO, 2008, p. 19). É de suma importância afirmar que só conseguimos inferir que ela se refere à morte de Nina ao lermos o capítulo “48. Diário de André (X)” e em seguida o capítulo “1. Diário de André (conclusão)”, que cronologicamente estariam nessa
sequência, mas aparecem bem distantes na organização dos capítulos, como se pode perceber pelos seus respectivos números. Nota-se que a ordem de aparição dessas partes foi alterada pelo autor implícito, como veremos mais detalhadamente na seção a seguir. Não só no “1. Diário de André (conclusão)”, mas também nas outras partes do diário, da parte II a X, há apenas a indicação do dia em que o personagem faz o registro no diário, mas não há a informação do mês ou ano. Isso também ocorre nos capítulos que são compostos pelas partes do “Diário de Betty”, que é dividido em cinco partes.
O tempo datado e minucioso é uma característica realista, especificamente o tom documental, enquanto que em Crônica... temos a ruptura da linearidade cronológica tradicional, pois o leitor só fica sabendo da passagem do tempo através de acontecimentos do próprio enredo, como, por exemplo, a gravidez de Nina, o nascimento de André, a indicação da idade de André, e o avanço da doença de Nina. No romance em análise, pouco se utiliza números para precisar os fatos narrados, pois não sabemos após quanto tempo depois da chegada de Nina à chácara ela começou a se envolver com Alberto; também não sabemos ao certo se ela chegou à casa dos Meneses grávida ou se ela ficou grávida realmente depois que chegou Chácara e após quantos meses. Todos esses artifícios utilizados pelo autor implícito acabam gerando um clima de mistério sobre a narrativa, pois o leitor pouco tem certezas.
Em concordância com a perspectiva de Guy Besançon (1996): “[...] uma crônica é um relato de uma série de acontecimentos importantes, como uma campanha militar ou uma epidemia. No caso narra-se a queda da casa Meneses ou, mais exatamente, seu assassinato” (p. 690). Na perspectiva de Besançon, que utiliza a noção de crônica adaptada para o contexto específico do romance Crônica..., estamos diante de uma obra formada por narrativas que contam a história do declínio e “assassinato” dos Meneses, uma família tradicional mineira, da cidade ficcional de Vila Velha. O sentido de “assassinato” estaria mais adequado à noção de destruir, extinguir e aniquilar e não tirar a vida de um ser vivo, como é mais comumente utilizado. Se bem que muitas vezes, assim como o morro foi personificado em Salgueiro, a casa também foi personificada, como nesse trecho escrito pelo narrador Padre Justino:
Ainda tenho presente na memória a última vez em que a vi, quando ia meio a triste epidemia que liquidou nossa cidade. A Chácara Meneses foi das últimas a tombar [...]. Vejo-a ainda, com seus enormes alicerces de pedra, simples e majestosa como um monumento em meio à desordem do jardim. A caliça já tinha quase completamente tombado de suas paredes, as janelas, despencadas, batiam fora dos caixilhos, o mato invadia francamente as áreas outrora limpas e subia pelos degraus já carcomidos – e no entanto, para quem conhecia a
crônica de Vila Velha, que vida ainda ressumava ela, pelas fendas abertas,
esqueleto imóvel, tangido por tão recentes vibrações. (CARDOSO, 2008, p. 495)
Essa descrição da Chácara Meneses, nos faz lembrar de quando o cortiço de João Romão foi incendiado pela personagem Bruxa, mas o Cortiço foi reconstruído e voltou com ainda mais imponência, enquanto que a Chácara Meneses desapareceu de vez.
Voltando à discussão sobre o significado do título do romance, nas palavras do próprio Lúcio Cardoso, citadas por Walmir Ayala: “No título, CASA está no sentido de família, de brasão. ASSASSINADA quer dizer, atingida na sua pretensa dignidade, pelo pecado. Eis o ponto nevrálgico do drama: o pecado.” (1963, p. 5)
Desta forma, a explicação de Cardoso parte de duas metonímias presentes no próprio título do romance. A primeira seria “casa” representando algo mais amplo como símbolo de uma família, bem como um brasão a representa; enquanto que “assassinada” se refere ao ataque a moral da família, principalmente, numa perspectiva religiosa do pecado. Como exemplo, tem- se Nina e Ana são condenadas à morte pelos pecados que cometeram em vida, dentre adultérios e até um suposto incesto.
A família Meneses, por ser importante na cidade de Vila Velha, sempre fora bastante comentada pelos moradores da cidade, como relataram o farmacêutico e o médico em suas narrativas. Desde os tempos em que vivia a mãe dos irmãos Meneses, não faltavam comentários sobre os eventos ocorridos nas dependências da propriedade da família que faziam parte da “crônica social da Chácara”, como nomeou a personagem/narradora Betty (CARDOSO, 2008, p. 115). Por esse motivo, a imponência da família, desde os tempos mais antigos, fez parte da crônica da cidade de Vila Velha, como mencionou Padre Justino, no último capítulo do livro.
Desse modo, consideramos os Meneses uma metonímia da família mineira, daqueles seres calados, que pouco falavam ou expressavam seus sentimentos. Era essa tradicional família mineira que Cardoso queria assassinar em sua narrativa, caracterizada pelos ranços da tradição provinciana.
A família Meneses é mencionada pela primeira vez na obra de Lúcio Cardoso em seu primeiro romance Maleita e são descritos como “comerciantes em grosso da cidade de Curvelo” (CARDOSO, 2005, p. 10). Seriam os mesmos Meneses que agora estavam instalados em Vila Velha, mas em duas épocas diferentes? Em Maleita, eles estão no auge econômico, já em
Crônica... estão na decadência.
Lúcio Cardoso, em conhecido depoimento a Fausto Cunha, expressou o seu desejo em mostrar o que realmente caracteriza a família mineira. Seu desejo era desnudá-la, mostrar bem dentro de suas entranhas o que ela realmente é, expor uma verdade que se esconde por trás de
muitos muros e máscaras
Meu movimento de luta, aquilo que viso destruir e incendiar pela visão de uma paisagem apocalíptica e sem remissão é Minas Gerais.
Meu inimigo é Minas Gerais.
O punhal que levanto, com a aprovação ou não de quem quer que seja é contra Minas Gerais.
Que me entendam bem: contra a família mineira. Contra a literatura mineira. Contra o jesuitismo mineiro. Contra a religião mineira. Contra a concepção de vida mineira. Contra a fábula mineira. Contra o espírito judaico e bancário que assola Minas Gerais. Enfim, contra Minas, na sua carne e no seu espírito. (CARDOSO, 1996, p. 764)
Com essas palavras, Lúcio Cardoso quer dizer que ele é contra a tradição que Minas Gerais representa: “esse fundo poeirento de província mineira” (Timóteo no “4. Diário de Betty I”, p.55). Esses valores morais tradicionais acabaram anulando uma mulher guerreira como Maria Sinhá, que foi incompreendida por usar roupas masculinas e ter o comportamento de um gênero que não era o seu de nascimento. Ela, assim como Timóteo, foi vista como uma vergonha da família, por isso um quadro com a sua foto foi retirado de uma das paredes da Chácara e esquecido em um galpão da casa levando poeira.
Nina é a novidade que surge na família Meneses e representa a ameaça da destruição dessa tradição, quando ela diz “Eu não quero viver segundo o sistema do Sr. Demétrio” (“9. Diário de Betty II”, p. 112). Demétrio por ser o irmão mais velho, era o guardião das tradições da família. Até ele mesmo se sente ameaçado por Nina e mandá-la de volta para o Rio de Janeiro é uma forma de negar esse espírito moderno que a urbe trouxe para a chácara. A primeira desculpa de Demétrio em mandá-la de volta ao Rio, era que, segundo ele, nem em Vila Velha, e nem nas cidades das redondezas, ela teria a assistência médica que precisava para ter o bebê; e depois da cena que o primogênito dos Meneses flagrou entre Nina e Alberto, a volta dela ao Rio foi ainda mais apressada.
Nina traz consigo os ares metropolitanos do Rio de Janeiro, capital federal brasileira na época, com seus bailes, cinemas, teatros e outros eventos. Ela não era apenas uma mulher que encantava os outros pela beleza física, mas os hábitos novos que ela trouxe fizeram com que outros personagens começassem a se enxergar de uma forma diferente, como a própria Ana que após se comparar com Nina se percebeu uma mulher com a feminilidade anulada:
Sei apenas que sinto o quanto em torno de mim as coisas são inóspitas e o quanto eu mesma me converti num ser gelado e triste. Ah, como é difícil reunir essas duas palavras – gelado e triste – compreendendo que elas correspondem exatamente ao que existe dentro de nós, a essa coisa pesada, insensível, em que se converteu nosso coração. Muitas vezes sucede-me parar diante do
espelho, e olhar de um modo quase brusco a minha figura. Sou eu mesma, não há nenhuma dúvida, porque o vulto se movimenta assim e eu me movimento, e traja antigas roupas sem graça que eu conheço tão bem, e que são invariavelmente as minhas, com as minhas mãos, meus olhos, minha boca. Apesar de tudo, no primeiro instante não posso deixar de indagar com certa curiosidade: de quem é aquele rosto? E aos poucos, com uma lentidão onde há visível crueldade, vou recompondo a fisionomia que conheço tão bem, e que, é inútil dizer quanta repulsa me causa. Ah, como me detesto, como me desprezo, que tremenda hostilidade interna delineia minha figura exterior. Aquela saia cor de rapé, aquela blusa desbotada e sem nenhum enfeite, aquele modo relaxado de pentear os cabelos, são a prova do quanto considero a minha pessoa mesquinha e vil. (27. Terceira confissão de Ana, p. 270)
Assassinar a casa não é apenas derrubar a sua estrutura física, é matar as tradições que a família tradicional de Minas Gerais representa. Não deixar descendentes é outra metáfora da interrupção da tradição patriarcal, que por muitas vezes se mostrou tão danosa que anulou a feminilidade de Ana, e que aniquilou a personalidade de Maria Sinhá e Timóteo.