Em Salgueiro, alguns personagens são comparados a animais pelo narrador e algumas vezes essas comparações são feitas entre os próprios personagens. Como se verá na análise a seguir, a maioria das associações de nomenclatura animalizante é atribuída a Rosa e algumas a Geraldo. Essas comparações zoomórficas são um traço da estética naturalista, que foi retomado pela vertente regionalista/social do romance de 1930, que é considerado também como Neonaturalista. É constante também a comparação de alguns personagens com dois animais específicos: o gato e o cachorro, mas nem sempre com a mesma conotação.
A primeira associação feita pelo narrador a um animal ocorre logo no início da narrativa, quando Rosa adentra ao barracão da família, onde estavam Seu Manuel, seu sogro, e Marta, sua cunhada, na sala pouco iluminada por uma vela: “E Rosa, abrindo violentamente a porta, apareceu rindo, sufocada, as mãos sobre o peito, com o corpo inclinado para a frente, desamparada. Era um riso vivo, histérico, de animal forte na consciência da sua força” (p. 10). No trecho citado, pode-se notar que o narrador caracteriza o riso “vivo, histérico” de Rosa equiparando-o ao “de animal forte”. Nesse primeiro momento, Rosa chega contando sobre uma briga entre duas moradoras do morro, Zefa e Chica, mas é ignorada por Marta: “Também ela sentia há muito tempo aquele gelo que ia cristalizando lentamente entre ambas. Também ela não sabia escapar à repulsa que a separava de modo tão violento da irmã do seu amante” (p. 11). Em seguida, o narrador compara os olhos de Rosa aos de uma “gata brava”: “Seus olhos agudos de gata brava pousaram com desafio sobre o rosto de Marta” (p. 11).
Quando Rosa foi encontrada por José Gabriel era uma “simples rapariga de rua, sem destino certo senão o destino de todas as mulheres que vagueiam pelas ruas...” (p. 132). Ela só pensava em festas, em dançar, entrar em discussões e observar os outros em conflito, como se viu anteriormente, quando ela chega contando a briga entre Zefa e Chica.
As ações da amante de Zé Gabriel, na maioria das vezes, são justificadas pelo narrador por uma “vontade inconsciente” semelhante àquelas observadas nos animais irracionais. Ao ouvir música ela sentia: “Um calor estranho correu-lhe dos pés à cabeça. [...] Uma vontade inconsciente de fazer nem ela sabia o quê, de rir e dançar talvez, talvez de não fazer coisa nenhuma [...]” (p. 12).
Rosa também gostava de provocar conflitos dentro do barracão da família ao insultar com frequência Marta e Veva, mas também com as vizinhas: “O pai saíra para o trabalho e Rosa gritava no caminho. Prestou atenção e ouviu que a negra ameaçava alguém: — Sua safada, um dia a gente acaba tirando a diferença!” (p. 28).
Como a música despertava em Rosa sensações estranhas e inconscientes, José Gabriel, com ciúmes, tentava impedi-la de participar desses festejos, não a deixando nem sequer ir à janela:
O seu doentio ciúme estendia-se até aí, não gostando que a negra se perdesse no meio dos tocadores de samba do Salgueiro. Quando a dança, nalgum ponto do morro, atraía gente de todos os cantos, Rosa não tinha o direito de chegar à janela do barracão. Esses eram os momentos em que ela se revoltava, incapaz de conter a índole impetuosa que despertava. Transformava-se no que realmente era, uma fúria capaz de morder os que se aproximassem, sem querer ouvir ninguém, apenas com o rancor cegando-a e tornando-a alucinada, capaz de cometer todos os desatinos. (p. 12)
Observa-se que Rosa foi descrita pelo narrador mais uma vez como animalesca: “Transformava-se no que realmente era, uma fúria capaz de morder os que se aproximassem”. A mordida é mais uma forma de aproximá-la a mais um aspecto animalesco, como também a fúria. Nota-se que quando contrariada, os traços animalescos dela ficam ainda mais evidentes.
Rosa também se utiliza de termos que remetem a animais quando vai se referir aos outros entes da família: Marta, Geraldo, e Genoveva, respectivamente irmã, filho e mãe de Zé Gabriel. Com relação a Marta, pode-se observar, no trecho a seguir, que o narrador dá voz a amante de Zé Gabriel em discurso direto “— Essa diaba... Parece que vive pra morrer... nem parece fêmea!” (p.13). Ao chamar Marta de fêmea, Rosa utiliza uma terminologia da biologia “macho e fêmea” típica da estética literária Naturalista, empregada para caracterizar os animais. Na verdade, quando quer se referir a seres mais humanizados, deveria ser utilizada terminologia “homem e mulher”.
A própria Marta também nutria um forte ódio por Rosa. Marta culpava Zé Gabriel, seu irmão, por trazer Rosa, aquela espécie de “doença trazida da rua”, que contaminou a família com a discórdia e acabou desagregando-a: “Culpava-o da existência da negra naquela casa, como de uma doença trazida da rua, em ameaça à vida de todos” (p. 13).
Com relação à Genoveva, sua sogra, não é diferente o uso dos termos animalizados, que acabam por caracterizar a linguagem de Rosa, que é marcada pelos palavrões e adjetivações pejorativas, os quais denegriam a quem ela odiava. Aliás, ela odiava a todos os membros da família de Zé Gabriel e eles a ela:
Genoveva, a mãe, procurava consertar as coisas. Rosa repelia com furor, desmanchando-se em palavrões:
− Sai, besta velha... Quem é que te chamou aqui, estupor?
E se ela, por acaso, não ouvisse os vitupérios, Rosa se erguia com uma fúria, empurrando-a violentamente:
− Vai, diaba... O teu velho tá chamando, vai morrer! (p. 13)
Rosa chama a sua sogra de “besta velha”, “estupor” e “diaba”, e mais uma vez expressa- se através da sua fúria que se apresenta com frequência na narrativa. Esse tratamento se repete constantemente, como, por exemplo, quando houve uma briga entre Rosa e Zé Gabriel. Mesmo Veva chamando a atenção de seu filho para não bater na sua amante, ou seja, a sogra tenta defender a nora, mesmo assim Rosa pronunciava palavras de afronta a Veva:
− Zé — gritou a velha, da sombra. Rosa ouvi-a e pôs-se a insultá-la. − Sua velha! Diabo do inferno! Traste, cala a boca, peste! (p. 117)
Desta vez, o substantivo “velha” é reiterado, inclusive é utilizado pelo próprio narrador, conjuntamente com “diabo do inferno”, “traste” e “peste”. Mas pouco importa para Zé Gabriel o insulto que sua amante profere em desfavor de Veva. A ira dele era tão grande que ele continuou a agredir Rosa. Essa postura de Zé Gabriel denota que ele não tinha apreço por sua própria mãe, pois não tem a mínima atitude de defendê-la dos insultos de sua amante.
Ao se referir a Geraldo, Rosa chamava-o constantemente de idiota. Numa das vezes que o filho de Zé Gabriel chegou em casa e disse que estava ajudando a Dona Zica, uma senhora paralítica que vivia em um dos barracos do morro, quando Geraldo disse que ela não pode pagá- lo pelo serviço, ele foi revidado por Rosa em tom de afronta:
− Quando é que este traste deixará de ser idiota? Será que pensa ser escravo dessa gente?
− Aquele “idiota” fez Geraldo estremecer ligeiramente. [...] (p. 19)
Ser chamado de idiota era algo que incomodava bastante a Geraldo como se pode perceber na reação dele ao “estremecer ligeiramente” (p.19) quando ouviu as palavras de Rosa, bem como em outros momentos na narrativa, que serão contemplados mais à frente nesta análise.
Rosa também tinha um desejo imenso de se ver livre de Geraldo, pois o via como um estorvo: “Tudo se confundia, para a negra inconsciente, num enorme desejo de se ver livre do rapaz, de afastá-lo o mais distante possível do seu olhar” (p. 15). Nesse
trecho, o narrador refere-se a Rosa ressaltando mais uma vez a inconsciência dela ao agir, assim como um animal irracional.
Numa noite em que Rosa foi até a casa de Chico Padre, a convite dele, ao voltar para casa, Geraldo e Zé Gabriel já esperam por ela. Ao chegar, seu amante trata-a por “porca”: “— Sua porca! Sua porca! — gritou” (p. 116). Quando Zé Gabriel pergunta se ela bebeu, Rosa também o trata por “porco”: “ — Porco! Porco! Você é que é porco, tá ouvindo? [...] — Bebi sim, porco! Bebi! Bebi! Olha, bebi!” (p. 117). Nessas passagens, reforça-se a ideia de que não é só o narrador que animaliza os personagens, mas que eles fazem isso entre si.
Não suportando o atrevimento de sua amante, ao dizer que foi à casa de outro homem, Zé Gabriel não se conteve e passa a agredir Rosa. O narrador caracteriza essa briga como uma luta entre animais: “Continuaram a luta no escuro, arfando, como dois animais” (p. 118).
Após a briga com José Gabriel, Rosa se abrigou na venda de Tomás de Aquino. Lá na venda, ela
esbravejou como uma fera furiosa. Todos os palavrões que sabia brotaram dos seus lábios. [...] Chegou mesmo a assustar o vendeiro, dando gritos agudos e, com os cantos da boca cheios de espuma, deitou-se, retorcendo-se no chão. Exausta, pensou em armar uma cilada ao amante; fechou os olhos calculando vinganças tremendas, jurou que tinha sede daquele sangue. [...] E como desaparecera da casa do amante, desapareceu também do armazém de Tomás de Aquino. O vendeiro sorriu, não a encontrando. Disse:
− Ora, cão que ladra muito... (p. 124)
No trecho citado, as expressões “fera furiosa” e “cantos da boca cheios de espuma” são mais uma forma de equipará-la a aspectos animalescos. Nesse mesmo trecho, tem-se a fala do personagem Tomás de Aquino: “— Ora, cão que ladra muito...” (p. 124) referindo-se à Rosa. Sendo assim, enfatiza-se a ideia de que os traços animalizados de Rosa não são de percepção apenas do narrador, mas também dos outros personagens.
O narrador até ao falar sobre os odores que Rosa exala, apela para o traço animalizante. Na segunda parte, numa cena em que Zé Gabriel mostra um dinheiro que ele obteve de forma ilícita a sua amante, Geraldo percebe a movimentação dentro do barracão e seu pai, sem saber se ele estava acordado, pergunta a Rosa:
− O rapaz está acordado? — ouviu o pai perguntar, enquanto a cama rangia mais forte.
Enrodilhou-se no canto e cerrou os olhos, respirando o mais pausadamente possível. [...] Um bafo quente envolveu-o. Apenas o coração batia-lhe tanto
por um momento. Após, uma onda de ar mais puro. (p. 101)
Com as expressões “cheiro da negra” e “suor animal”, o narrador acaba estabelecendo uma aproximação entre odor exalado por Rosa ao dos animais, instaurando mais uma vez um traço animalesco da personagem, só que desta vez atrelou a animalização à característica racial. Após esse panorama, percebe-se o poder desagregador de Rosa na história da família de José Gabriel. Esse poder também foi ressaltado por Lúcia Miguel Pereira, na coluna “Livros”, publicada na edição de 2 de junho de 1935, do jornal Gazeta de Notícias, pouco tempo depois do lançamento de Salgueiro: “Trata-se da história de uma família desmantelada pela influência de uma NEGRA, Rosa, criatura inteiramente animalizada. Se é possível comparar-se uma pessoa a um elemento Rosa dá a impressão de uma ventania.” (PEREIRA, 1935, p. 6, col. 1, grifo do autor)
Ainda na citação de Pereira, chama a atenção o fato dela grafar a palavra negra com letra maiúscula, pondo assim em relevância a cor da pele e uma possível relação com o seu comportamento animalizado. A cor da pele de Rosa vai ser lembrada várias vezes pelo narrador para diferenciá-la dos membros da família, pois boa parte de seus membros são mulatos.
Rosa é a segunda amante de José Gabriel, a primeira foi Eulália, mãe de Geraldo. Neste trecho, o narrador estabelece uma comparação entre elas:
Rosa, muito mais moça do que ele [José Gabriel], negra de gênio pior do que a primitiva, e que, além de leviana, era hostil e impetuosa. Eulália tinha o gênio calmo e gostava de lidar com todo mundo. Rosa agitava a vizinhança, fazia intrigas de barracão em barracão, brigava com as amigas, espancava Geraldo. (p. 21-22)
O traço racial de Rosa também é bastante evidenciado pelo narrador, como se pode perceber no trecho acima “negra de gênio pior do que a primitiva” (p. 21). Por várias vezes ele usa “negra” como elemento de substituição do nome Rosa. Chamá-la de negra significa criar uma diferenciação entre ela e os membros da família, pois Marta, Seu Manuel e Veva são descritos como mulatos, e apenas Zé Gabriel e Geraldo são caracterizados como negros.
O tom “amulatado” da pele de Marta chegava a causar inveja na amante de Zé Gabriel: “Rosa sabendo-se negra e invejando o amulatado vago de Marta, murmurava, devorando-a com os olhos [...]” (p.13). Com relação a Seu Manuel, no início da narrativa sua pele é descrita como: “não era um negro; mesmo, pela extrema magreza, o rosto amulatado se tornara cor de cinza, quase branco” (p. 9). O tom amulatado de Seu Manuel
também causava inveja dos seus antigos colegas de trabalho: “Os companheiros de trabalho, todos negros, chalaceavam que ele tinha luxos de branco só porque nascera mulato” (p. 20). Manuel era “filho de um branco e de uma negra [...]” (p. 21), por isso a cor mulata da pele. Genoveva também é descrita como mulata: “Casara- se com mulata uma pequena e humilde mulata de Deodoro [...]” (p. 20-21). É possível que essa apresentação do mulato como uma cor superior ao negro, tenha sido influência da valorização da mestiçagem no final do século XX até por volta da década de 1930, tema tratado pelos intelectuais da “Escola de Direito de Recife”: Tobias Barreto, Sílvio Homero e Gilberto Freyre, em momentos distintos.4
A menção à cor da pele de Zé Gabriel praticamente só ocorre em seu leito de morte, quando Geraldo, após socorrer o pai, observa-o em seus últimos segundos de vida:
Mais alongado, os traços mais acentuados, os lábios grossos como os de um negro legítimo. Sentiu um arrepio longo e perguntou a si mesmo, sentindo o horror nascer na sua alma: ‘Será este o meu pai?’ (p. 225)
A cor de Geraldo fica subentendida, pois não há menção direta a ela. Supõe-se que ele seja negro, porque a cor negra de sua mãe, Eulália, é sugestionada quando comparada a de Rosa: “Rosa, muito mais moça do que ele [José Gabriel], negra de gênio pior do que a [amante] primitiva” (p. 21); e do seu pai, Zé Gabriel, descrito na citação acima pelo narrador como “negro legítimo” (p. 225).
Há outros moradores do morro que não eram membros da família, mas que também são descritos como negros: Arlete, Chica Prudência, Timóteo e Damião. Há também outros personagens cuja cor da pele o narrador não chega a descrever, são eles: Valério, Chico Padre, Tomás de Aquino e Vicente. Teresa-Homem é caracterizada como mulata e não há menção explícita a personagens brancos.
Segundo Cerqueira Filho (2013), o morro do Salgueiro real começa a ser ocupado nos fins nos anos 1920 e a expressão “Salgueiro” começou a ser associada à negritude, à afro- descendência, ao batuque e ao samba, que aparece sutilmente no romance: “Um silêncio profundo caíra no Salgueiro. De vez em quando, vinham do Terreiro Grande o som rouco de uma cuíca e o grito dos negros no saracoteio da dança Caxambu” (p. 25).
A partir dessa caracterização da cor da pele, é possível identificar um traço social do Salgueiro ficcional na medida em que caracteriza seus moradores como negros ou como
4 SCHWARZ, L.M. Gilberto Freyre: adaptação, mestiçagem, trópicos e privacidade em Novo Mundo nos
mestiços, pois acaba estabelecendo uma vinculação entre a raça e o ambiente de exclusão social do morro.
A relação entre a cor da pele e a situação econômica acaba ficando tão evidente que nenhum branco, considerado superior nas teorias naturalistas, mora no Salgueiro ficcional. Essa constatação acaba refletindo um aspecto cultural brasileiro, especificamente a ideia na qual às raças consideradas inferiores, na sua maioria descendentes de negros libertos da escravidão, são historicamente relegadas aos espaços marginais das cidades.
Especificando apenas os personagens negros nos romances de 1930, Luís Bueno enfatiza o aspecto da cor da pele de Geraldo:
Veja-se o caso dos protagonistas negros. Não é coincidência que num único ano, 1935, três escritores muito diferentes — Jorge Amado, comunista, Lúcio Cardoso, católico muitas vezes rotulado como de direita, e José Lins do Rego, autor visto como regionalista, mas não ligado à esquerda — tenham publicado romances com protagonistas pobres e negros. [...] Em Salgueiro, de Lúcio Cardoso, era Geraldo, também criado no morro, mas no Rio, como indica o título, que procura fugir da pobreza e busca uma solução espiritual para si. [...] (BUENO, 2014)
Assim como Rosa, Geraldo também chega a ser animalizado pelo narrador, só que diferentemente dela, apesar de também ser negro, a cor de sua pele não é posta em destaque pelo narrador e nem por outros personagens, aliás ela não é nem mencionada, como dissemos anteriormente.
Após esse levantamento dos traços animalizados dos personagens e do determinismo do ambiente, elementos que aproximam o romance Salgueiro da estética naturalista, a seção a seguir mostrará a superação do meio obtida pelo personagem Geraldo, fato que acaba distanciando a narrativa do naturalismo e aproximando-a da vertente intimista do romance de 1930.