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A diferença média de idade de 30 anos entre os (as) participantes mais velhos (as) e os (as) mais jovens6 não impede de fazer uma retrospectiva para situar, de forma breve, o contexto sócio-histórico e político de onde emergem essas pessoas entendendo, porém, que a percepção sobre tal realidade é diferenciada entre eles, considerando os distintos períodos de vida em que se encontravam à época dessas ocorrências e as condições socioculturais e familiares vividas por cada pessoa em um dado momento, situando-os em diferentes gerações. Todos (as) são filhos e filhas do século XX, tendo nascido entre o final da década de 20 e o final da década de 50. Todos (as) vivenciaram ou sofreram as influências de acontecimentos ocorridos na segunda metade do século que Hobsbawm (1995) chamou de “O breve século XX”7

. Embora diversos acontecimentos narrados por esse autor tenham ocorrido em outros países, o Brasil sofreu influência desses fatos, além de ser ele mesmo um promotor de mudanças em diversas áreas, e que deram um novo rumo à vida dos brasileiros, tanto no sentido positivo quanto negativo.

Enfatizo, pois, alguns fatos contemporâneos aos cursos de vida desse grupo, abrangendo os campos da ciência e tecnologia, cultural, econômico, político e social. Algumas situações foram lembradas pelos participantes durante a entrevista, ao referirem-se à vida em família, quando ainda moravam na casa dos pais, ou relacionadas a períodos que coincidem com vivências pessoais em diferentes épocas: a adolescência, o próprio casamento, o nascimento de um filho, a saída da faculdade, ou a mudança para Salvador. Alguns depoimentos ilustram o capítulo ao constituírem uma conexão entre fatos sociais e históricos e o cotidiano revelado por eles e elas.

São exemplos de acontecimentos que remontam a períodos do curso de vida dos entrevistados: o desenvolvimento da ciência e tecnologia nos anos 60 que possibilitou o

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Para facilitar nosso entendimento, quando me refiro aos “mais jovens” estou falando dos que têm idade abaixo dos 65 anos. Já os “mais velhos” são os que estão acima dessa idade, sendo essa uma divisão arbitrária que não pretende tornar rígida a separação de grupos de idade.

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Na obra “Era dos extremos: o breve século XX”, Hobsbawm (1995) analisa o período compreendido entre 1914 e 1991, propondo dividi-lo em três etapas que vão desde a „era da catástrofe‟ passando pela „era de ouro‟ e chegando à „era do desmoronamento‟. No primeiro período, que se estendeu de 1914 até depois da Segunda Guerra Mundial houve uma onda de revoluções, avanço da ciência e do progresso material. Ao mesmo tempo houve crise econômica mundial e o capitalismo mostrava seu lado cruel, havendo concentração de renda, exclusão social, dando-se pouco valor às relações humanas. O segundo período foi marcado por pressões por melhorias sociais. Assiste-se à modernização de países agrários atrasados, ao crescimento do comércio mundial e à implantação de um processo de globalização. O autor descreve esse período como „os 30 anos gloriosos‟ – época em que o cotidiano das pessoas foi transformado pelas grandes invenções tecnológicas. Em meados dos anos 70 surge a „era do desmoronamento‟, quando a sociedade passa a conviver com problemas de ordem econômica e social, incluindo a recessão e o desemprego em massa, a mendicância, a desintegração dos padrões de relações humanas e a desestruturação das formas societárias em geral (Estado, religião, justiça).

lançamento do primeiro computador eletrônico pela IBM , o primeiro transplante de coração realizado no Brasil, a chegada do homem à Lua, cujas lembranças surgem em alguns depoimentos retratando algumas vivências passadas. Outro fato cuja repercussão se estende até os dias atuais é o avanço nas formas de transmissão da televisão brasileira, a transmissão via satélite e a transmissão a cores, cuja importância se faz presente no cotidiano dessas pessoas.

Algumas vezes, tais desenvolvimentos entraram nas casas muito tempo depois de descobertos, refletindo as mudanças de uma posição social para outra: “a televisão foi a última coisa que eu comprei. Hoje minha filha tem até computador” (Daniel, 52 anos). Outras vezes, a penetração dessas tecnologias nas residências representa uma invasão de privacidade, como reconhece Lucas, 76 anos: “É uma invasão, como se diz, invasão de privacidade porque entra na sua casa sem você pedir, mas distrai e você pode escolher o que quer assistir [,,,]”.

Em todo caso, vale dizer que, na experiência de muitos (as) brasileiros (as), a televisão veio ocupar os “espaços deixados pelo analfabetismo com uma cultura visual que, no limite, prescinde de uma instrução básica” (SCHWARCZ, 1998, p. 8). Outras novidades na área tecnológica e eletrônica (fitas cassete, rádios portáteis, relógios digitais, mini calculadoras, máquina de lavar, walkmans e videocassetes, além dos computadores pessoais) continuaram transformando, nos anos 70 e 80, o cotidiano dessas pessoas.

Como este estudo focaliza pessoas casadas sublinho que, na década de 70, quatorze dos vinte e um casais participantes da pesquisa já tinham se casado e já tinham filhos. São pessoas que nessa época tinham idade entre 30 e 43 anos e hoje estão acima dos 70 anos. Outros cinco casais se casaram nessa mesma década, constituindo um grupo de pessoas com idades atuais entre 52 e 67 anos. Portanto, à exceção de dois casais, os demais conviveram com as transformações aludidas acima, já na condição de “casadas”. O depoimento a seguir ilustra a percepção de uma entrevistada sobre as mudanças nessas décadas:

[..]. Depois que eu me casei [meados da década de 60], acho que coincidiu, não sei, eu peguei um tempo totalmente de mudança. A coisa vinha mais ou menos tranqüila, mas quando chegou a década de 70, a coisa deslanchou de vez. Pra pior. Até chegar agora com essa violência, o tráfico [...]. Em 60 eu tinha 12 anos, era adolescente. Eu me casei com 17. A partir daí tudo foi virando de uma forma louca. Só a tecnologia... não existia nada antes, de repente... Geladeira chegou na minha casa, eu era criança. Liquidificador, também. Hoje em dia, é computador, é celular que faz tudo... e por aí vai. Acho que quem vai se dar bem com essa tecnologia é a geração que está chegando (Elisa, 62 anos)

Além dessas mudanças, um dos aspectos relevantes no campo das descobertas e que atingiu, sobretudo, as mulheres, foi o desenvolvimento do primeiro anticoncepcional oral que

provocou um grande impacto social, liberando as mulheres de uma gravidez indesejada, além de ter contribuído com a liberação sexual, já que as mulheres podiam permitir-se a relação sexual sem medo de engravidar. As transformações relacionadas ao controle da natalidade possibilitaram a emergência de novas relações sociais e conjugais, atingindo boa parte da população feminina que integra esta pesquisa, a julgar pelo menor número de filhos nascidos de seus casamentos:

Depois de vir para o Brasil, eu comecei a evitar filho, porque a gente já tinha muita coisa pra cuidar, num país diferente, ia ficar mais difícil. E eu queria trabalhar e o marido também trabalhando... (Clara, 66 anos)

Nesse contexto de maior liberdade sexual, do afrouxamento das normas e valores, ganhou força a „ideologia igualitarista‟, explicitada mediante a contestação da distinção de gênero como conformadora de várias condições que abarcam a união e a dinâmica conjugais. Tal ideologia defende a liberdade no exercício da sexualidade para homens e mulheres, sem a obrigação de ser realizada no contexto de uma união estável; advoga a maternidade voluntária fora do casamento e acolhe a diversidade de arranjos conjugais (HEILBORN, 1995). Com efeito, o final da década de 60 e o início da década de 70 produziram muitas mudanças dos papéis masculinos e femininos na nossa sociedade. O questionamento da divisão tradicional dos papéis sociais tornou-se o denominador comum das lutas feministas, recusando-se a visão da mulher como o “sexo frágil” com a principal função de “esposa-mãe” e reivindicando a condição de sujeito do próprio corpo (GOLDENBERG, 2001).

No entanto, situando esta análise no marco de gênero e considerando as narrativas das entrevistadas em torno dessa questão, o que se vê nas falas é a manutenção de padrões de ordenamentos hierárquicos (SALEM, 2007) nas relações conjugais. Nesse caso, a ideologia igualitarista, nos termos colocados acima, pouco se aplica a esse grupo, ou seja: as mulheres, em sua maioria, casaram virgens, realizando sua sexualidade com o marido, pelo casamento.8 Os depoimentos a seguir dão uma idéia desse ordenamento cultural que ultrapassa gerações,

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A esse respeito, acrescento que uma das mulheres (50 anos) relatou ter praticado relações sexuais com outro homem, fora e antes do casamento, tendo engravidado e parido quando já convivia com o atual marido. As demais mulheres oficializaram a relação conjugal antes de ter os filhos, seguindo o ordenamento previsto na sociedade de seu tempo. Outra mulher (74 anos) informou que se casou grávida, mas sua vida sexual fora inaugurada com o homem com quem se casou e, embora fosse universitária à época, não estava “ligada” nos cuidados de prevenção em relação à gravidez. No entanto, os arranjos conjugais da maioria dos casais entrevistados são diferentes apenas por terem sido oficializados perante a Igreja ou o Estado, inclusive dois dos três re-casamentos também seguiram esse padrão. Somente duas uniões (Pedro e Diana; Clóvis e Norma) foram assumidas pelos próprios cônjuges sem a intervenção de uma dessas instâncias de poder.

abrangendo o discurso das mais velhas e das mais jovens transpondo, ainda, as fronteiras geográficas, atingindo brasileiras e estrangeiras:

No meu tempo a mulher não podia ficar sem casar. Tinha de casar. Eu já me casei, não era tão nova assim. Estava perto dos trinta. Mas casei como manda o figurino [...] Ave Maria, casar era o sonho de toda mulher (Sofia, 79 anos)

Me casei do jeito que minha família queria. E eu também. Vestida de branco (risos) e virgem. Naquele tempo eu não pensava em me juntar e pronto. Era uma coisa normal, ainda era normal, toda moça se casar de véu e grinalda (risos) [...] (Iraci, 50 anos)

[...] Quando comecei a namorar, meu pai já havia morrido e eu já trabalhava. Mesmo assim eu tive uma educação rígida. Minha mãe não deixava eu sair à vontade. Eu tinha um noivo, mas eu era virgem [...] (Clara, 66 anos)

A família conjugal constituída de pai, mãe e filhos é o modelo que permanece, construindo em torno desse padrão os valores conjugais de respeito, seriedade, fidelidade, privacidade do casal e da família, orientação filial, etc. Ainda que existissem projetos particulares, muitas mulheres acabavam cedendo às expectativas da família que eram também as da sociedade. O depoimento a seguir ilustra essa condição:

Antes de casar eu era muito louca, doida varrida. Gostava de paquerar, beijar, não queria nada sério [...]. Mas você sabe que mesmo assim eu não perdi minha virgindade? Me arrependo (risos). [...]. Depois fiquei séria, casei com um homem sério (Luisa, 75 anos).

As transformações que ocorreram em todos os campos atingiram o mundo cultural, possibilitando que a maioria dos (as) participantes acompanhasse, na década de 60, os primeiros festivais de música popular brasileira, o movimento do tropicalismo e o movimento hippie, conhecido como um movimento de jovens rebeldes, com ideais próprios, estigmatizados por defenderem o rock psicodélico e as drogas. O depoimento abaixo reflete o pensamento de um homem que viveu, na juventude, esse momento histórico:

[...]. Eu fui da geração que amava a curtição, da época dos hippies, época das drogas, naquela época já havia isso, depois ficou pior. Mas eu não fui pro lado negativo. Na realidade [...] eu tinha o ideário de ser bancário, mas eu queria mesmo era ser jornalista. Mas ter um emprego fixo era necessário, porque eu já estava pensando em me casar (André, 68 anos)

Mulheres casando, e casando virgens, e homens em busca de emprego fixo como requisito para casar-se, quiçá preocupados como o papel de “provedor familiar”. Esse era o cenário das décadas de 60 e 70, relacionado ao projeto da união de homens e mulheres pelo casamento, o que se expressou nos discursos dos casais pesquisados.

Quando os cinco integrantes mais jovens deste grupo entravam na adolescência, o Brasil registrou, na década de 1970, uma mudança na atmosfera urbana com o rock, o jazz, o consumismo e a conseqüente valorização do efêmero (PEREIRA, 2001), havendo projeção desse cenário sobre os estilos de vida, como relata esse casal:

Eu me casei na década de 70. Era uma fase de muita ebulição, muito movimento, muita guerra... guerra do Vietnã [...] golpe, ditadura, repressão. Mas foi uma época boa também [...] A gente saia todo fim de semana pra dançar. Depois continuamos saindo pra barzinho (Ester, 62 anos)

Quando eu vim para cá, eu queria aproveitar e sair para o lazer que eu não tive quando criança. Eu queria aproveitar tudo [...] Gostava de tudo, MPB, rock... Eu vivi numa época de muita mudança social, a época dos Beatles, das mudanças de hábitos e costumes, do comportamento... (André, 68 anos)

Uma mirada no campo econômico e social mostra que a sociedade brasileira passou por um processo acelerado de mudanças, destacando o processo de industrialização, a instalação da tecnologia e os novos empregos decorrentes dessas mudanças que produziram um novo modelo econômico, social e político de desenvolvimento. Mas, como observam Mello e Novais (1998), essa nova realidade trazida pela industrialização desencadeou alguns aspectos negativos como: inflação, aumento dos problemas com drogas e violência, assuntos relatados pelos (as) participantes durante as discussões nos grupos focais e nas entrevistas.

Foi justamente entre meados da década de 60 e durante a década de 70 que a maioria dos homens e mulheres participantes deste estudo saiu de suas cidades para morar em Salvador, coincidindo com o período de aceleração do processo de industrialização e urbanização descrito acima. Já nos anos 1970, esse processo criou novas oportunidades de emprego nas cidades, estimulando a migração da população rural para os centros urbanos9 e criando a ilusão de que as oportunidades eram iguais para todos. No entanto, havia muita desigualdade e poucos eram os donos de negócio, e os negros, na maioria das vezes, ficavam com o trabalho rotineiro e mecânico (MELLO; NOVAIS, 1998).

O depoimento abaixo sinaliza o sonho de uma mulher jovem, negra e com pouca escolaridade, que veio para a capital, no final da década de 70, em busca de melhores condições de vida:

[...] Depois eu vim pra Salvador... com uns 20 anos de idade. Vim em busca de liberdade. Pensando em estudar e arranjar um emprego de carteira assinada. Na roça

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De acordo com Camarano e Abramovay (1999), o êxodo rural, especialmente da população feminina, deve-se ao fato de sua maior escolaridade em relação aos homens. Tal situação contribui para sua inserção no mercado de trabalho na cidade e, de outro lado, para a predominância do cenário de masculinização das regiões rurais, constituída, sobretudo, de homens idosos. Na presente pesquisa, não foi constatada maior escolaridade das mulheres em relação aos homens que vieram de cidades do interior da Bahia para a capital.

a gente não vai pra lugar nenhum, não tem chance de crescer, de estudar... Eu queria trabalhar numa fábrica, mas devido o pouco estudo... [...] (Diana, 50 anos)

Embora nas últimas décadas do século XX tenha havido uma intensa entrada do contingente feminino no mercado de trabalho, consolidando mudanças comportamentais e os novos papéis sociais de homens e mulheres delineados na sociedade dessa época (GUEDES; ALVES, 2004), observa-se diferenciais nesta participação que indicam a posição desvantajosa na inserção das mulheres negras nesse mercado, de acordo com o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos (DIEESE, 2005).

Vivendo em um país com tantas crises financeiras, nos anos 80 e 90 os trabalhadores enfrentaram a concorrência e a monopolização das oportunidades por parte dos que ocupavam o topo da pirâmide, ampliando as desigualdades sociais, com o aumento do desemprego nas áreas metropolitanas embora, por outro lado, tenha havido um aumento do trabalho autônomo precário, com remuneração incerta. Somando-se a isso, a última década do século XX começou com o confisco das poupanças no governo de Fernando Collor que acabou saindo da presidência após sofrer o impeachment. Na área econômica foi uma época de instabilidade, inflação alta e política de redução de custos, contribuindo com o crescente aumento de problemas psicossociais (MELLO; NOVAIS, 1998) e atingindo pessoas dos segmentos médios da população, em um momento de ascensão social, como relatado abaixo:

Quando eu tava quase pronto pra comprar um terreno lá no meu interior, veio o governo e levou minha poupança (Adão, 58 anos)

Além da inconstância no campo econômico, no plano político, os entrevistados conviveram com o regime militar, a repressão severa em todas as áreas, o golpe militar de 1964 seguido de movimentos de resistência ao regime. Aliando-se ao clima da época, o movimento feminista que tivera seu auge na luta sufragista, desponta dos movimentos contestatórios surgidos em outros países nos anos 60, mudando o clima no cenário brasileiro pela sua participação ativa.

Esse movimento “ressurge em torno da afirmação de que o „pessoal é político‟, pensado não apenas como bandeira de luta mobilizadora, mas como um questionamento profundo dos parâmetros conceituais do político” (COSTA, 2005, p. 10). Para essa autora, o conceito de político que era até então identificado com o âmbito da esfera pública e das relações sociais

inerentes a ela, passa a ser vinculado ao poder político nas questões relativas ao “privado”, quebrando a dicotomia público-privado na qual se baseava o pensamento liberal10.

Nesse momento, o feminismo que antes fora mais conservador revela-se como um feminismo de resistência, interessado em discutir a condição feminina na sociedade, articulando “as lutas contra as formas de opressão das mulheres na sociedade com as lutas pela redemocratização” do país (COSTA, 2005, p. 15), mostrando uma ampliação da agenda do movimento antes restrito à conquista de novos espaços para as mulheres no mercado de trabalho e à luta pela igualdade de oportunidades no plano educacional e nas áreas de poder.

A participação do movimento feminista desde décadas anteriores nas lutas a favor das mulheres foi fundamental para a consolidação das conquistas que modificaram suas vidas: o direito a votar e ser votada, a inserção no mercado de trabalho, o controle da sexualidade e da procriação, além de outras11, são conquistas que se expandiram para além dos setores de elite, e refletiram sobre o grupo feminino desta pesquisa, a julgar pelo seu nível de escolaridade, a condição de trabalhar fora de casa e o menor número de filhos.

No que tange, ainda, aos acontecimentos políticos e sociais, os anos 80 marcaram fortemente o século XX. No Brasil, houve o “Movimento das Diretas já” que pleiteou e obteve sucesso com a volta das eleições diretas para presidente da República. Outro acontecimento de grande impacto foi a promulgação da Constituição de 1988, contendo avanços significativos em relação à Constituição anterior.

Considerando o foco de interesse deste estudo, é válido ressaltar que, em relação à preocupação com os (as) idosos (as), a Constituição de 1988 avançou ao estabelecer o valor da aposentadoria correspondente a um salário mínimo, expressando a preocupação com a questão da velhice. Antes, o valor da aposentadoria-velhice correspondia a 60% do salário mínimo para as mulheres com mais de 60 anos e para os homens acima 65 anos de idade (PEIXOTO, 2007). Segundo observa essa autora, as modificações na legislação acentuaram a representação social do aposentado que passou a ser vinculada à velhice, enquanto os

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Acerca do pensamento liberal Costa (2005, p. 10) observa que este constitui-se pelo entendimento de que o „público‟ é relativo ao Estado, às instituições, à economia e a tudo relacionado ao político, enquanto o „privado‟ diz respeito à vida doméstica, familiar e sexual, sendo identificado com o pessoal, alheio à política. Ao redefinir o poder político, chamando a atenção para o caráter político da opressão, o movimento feminista revela seu caráter de subversão, criando espaço para a geração de novas práticas.

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A incorporação, pelo feminismo, das demandas de grupos específicos como os homossexuais, as lésbicas e os negros (faltam os velhos) deu ao movimento um caráter mais diversificado, concretizando políticas que garantem mais igualdade de oportunidades não só no âmbito estrito de gênero, mas relacionadas a outras dimensões sociais, considerando, como assinala Guzmán (2000), a heterogeneidade das sociedades, cada vez mais plurais, e reconhecendo na igualdade de oportunidades e no diálogo com os diversos atores os fundamentos da construção da democracia. Entretanto, sabemos que, ao desfazermos certas amarras e vencermos certas opressões, produzimos novas questões e criamos novas exigências que demandam ações políticas organizadas, sempre.

aposentados passaram a ser vistos como não-produtivos, sendo designados de velhos, independentemente de sua idade.

Os problemas relacionados à Previdência Social e à aposentadoria ganharam visibilidade política no Brasil dos anos 90 com o “movimento pelos 147%”12– uma

mobilização dos aposentados que ganhou dimensão coletiva ampliada pela perspectiva de luta em prol dos direitos dos aposentados e também dos idosos. Esse movimento que começara nos anos 80 expôs a crise da Previdência e a situação de orfandade política dos aposentados

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