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EXPERIENCES PROFESSIONNELLES

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153 TÉMOIGNAGES ET CONTRIBUTIONS

EXPERIENCES PROFESSIONNELLES

O assunto geração tem-se colocado com grande força nas pesquisas e nos debates em ciências sociais, resultando em diversos pontos de vista oriundos das ciências e da filosofia. Para Attias-Donfut (1995), o conceito de geração tem vários significados, sendo polissêmico e impreciso. Do ponto de vista teórico, a questão demanda atenção desde Mannheim (1928), cuja proposta indicava à sociologia um direcionamento ao problema de modo a buscar as contribuições de outras disciplinas. Para ele, a elucidação desta questão depende do movimento teórico entre o plano estático formal e o dinâmico formal realizado através da sociologia histórica. Isto significa incluir os vários aspectos como parte do problema, sem deixar de lado as contribuições de outras “disciplinas e nacionalidades” (MANNHEIM, 1928, p. 130-131).

Na antropologia, a noção de geração indica um produto da afiliação, onde se considera a existência de ascendentes e descendentes de uma mesma família (pais e filhos), sendo definida pela relação de parentesco, formando gerações familiais. Para os demógrafos, a definição de geração contém precisão matemática, representando o conjunto de pessoas nascidas em um determinado intervalo de tempo. Já para os sociólogos, a idade cronológica tem menor importância nessa conceituação, sendo valorizado o agrupamento de pessoas numa faixa de idade, cujas experiências fornecem referências sociais e históricas comuns e orientam suas concepções de mundo (ATTIAS-DONFUT, 1995), não sendo ressaltada a noção de sucessão característica das duas primeiras abordagens.

Retomo, aqui, a revisão acerca das perspectivas que abordaram o problema das gerações, discutida por Mannheim (1928), em que ele mostra as divergências de idéias entre a visão positivista e a visão romântico-histórica, ilustrando as contribuições dessas concepções para resolver esse problema. Em relação à padronização dos períodos da vida para delimitar as gerações existiam, segundo esse autor, caracterizações com divisões de espaço de tempo variando de 15 a 30 anos. Essas análises têm por base concepções positivistas, históricas, filosóficas, mudando as definições conforme a prevalência de uma concepção ou outra.

No que tange à concepção positivista interessava quantificar os fatores determinantes da existência humana, definindo espaços mensuráveis, regulares, de modo que uma geração sucederia a outra. Tal ordem biológica era aplicada ao princípio da continuidade política e correspondia à continuidade biológica de gerações, com substituições de uma pessoa por outra, visando preservar as formas de governo. Essa perspectiva era pensada, ainda, a favor de uma concepção linear de progresso em que “a duração de vida e o período médio de 30 anos de uma geração eram correlativos necessários do nosso organismo, e que o progresso lento da humanidade estava diretamente relacionado com esta limitação orgânica” (MANNHEIM, 1928, p. 117).20

Para Sirinelli (1991), existem dificuldades historiográficas relacionadas à periodização referente a gerações, pois essa remete à regularidade. Como os fatos são irregulares, há gerações “curtas” e gerações “longas” e, do mesmo modo que as esferas política, econômica e cultural não avançam no mesmo ritmo, também as gerações variam em relação ao tempo.

Outra perspectiva de análise das gerações baseava-se em dados fornecidos pela observação, contrapondo-se à visão positivista. Pela perspectiva romântico-histórica, “o tempo de intervalo que separa as gerações é agora tempo subjetivamente experimentável; e a contemporaneidade é uma condição subjetiva de sujeição às mesmas forças determinantes” de um “tempo interior que não pode ser medido” (MANNHEIM, 1928, p. 122-123).

Essa noção, inscrita numa ótica historicista, substitui a idéia de um desenvolvimento linear da história e do mero significado cronológico (positivista) de geração. Por essa ótica, os indivíduos receberiam influências decorrentes de fatos sociais, intelectuais e políticos constituindo uma geração por estarem sujeitos a influências comuns e por terem a potencialidade de agir conforme tais influências. Como coloca Debert (1998, p. 60), “a geração não se refere às pessoas que compartilham a idade, mas às que vivenciaram

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Por essa perspectiva uma solução para o progresso seria mudar os dados da sucessão das gerações, tornando qualquer fenômeno susceptível de análise matemática. A partir dessa simplificação, reduz-se a história das idéias a um quadro cronológico, numa tentativa de identificar o tempo médio para a substituição de uma geração por outra na vida pública e demarcar o início de um novo período na história.

determinados eventos que definem trajetórias passadas e futuras”, ultrapassando o sentido clássico de geração relacionado com posição na estrutura familiar, para incluir as mudanças sociais e as experiências coletivas vividas por determinados grupos. Nesse sentido, fala-se em “geração pós-guerra”, “geração 68” para sugerir os diferentes contextos que informam sobre costumes, singularidades e comportamentos relativos a determinadas gerações.

Para essa autora, as pesquisas sobre grupos de idade evidenciam que a geração, mais do que a idade cronológica, constitui uma forma privilegiada de os atores revelarem suas experiências extra-familiares e indica que mudanças na experiência coletiva dos grupos não são causadas apenas por mudanças sociais estruturais. Os grupos de idade direcionam mudanças de comportamento, atuam na produção de uma memória coletiva e na construção de uma tradição, revelando que a efetividade do conceito de gerações ultrapassa o nível das relações familiares e aponta mudanças que a esfera da política deve incorporar (DEBERT, 1998).

No que tange à idéia qualitativa de tempo vale salientar que “cada momento do tempo [...] é um volume temporal com mais do que uma dimensão, porque é sempre experimentado por várias gerações em diferentes estados de desenvolvimento” (MANNHEIM, 1928, p. 125), sendo que para cada pessoa há um tempo interior, através do qual ela experimenta a vida e o mundo21. Apoiando-se nesse conceito qualitativo de tempo, Mannheim (1928) esclarece que é importante pensar não só a sucessão de gerações, como fazia a concepção positivista, mas pensar a sua coexistência, cujo significado é diferente do mero significado cronológico e de sucessão. “Do ponto de vista da história das idéias, a contemporaneidade significa o estar sujeito a influências semelhantes” (MANNHEIM, 1928, p. 123).

Domingues (2002, p. 75) também defende que uma geração não se define isoladamente. Para ele, “é na interação com outras gerações que cada uma delas delineia sua identidade e contribui para a produção das outras”. Nesse sentido, sua visão sobre gerações contempla a interatividade das gerações sem, contudo, deixar de lado seu substrato material e biológico. Desse modo, afirma o mesmo autor, não seria possível compreender como a juventude se vê e vê a sociedade sem entender como os idosos vêem a sociedade e a juventude.

Nesse sentido, resgato dois aspectos destacados por Britto da Motta (1999b; 2005) acerca da perspectiva mannheimiana. Para essa autora, cada conjuntura social atinge diferentemente os grupos de idade que formam as gerações, determinando posturas distintas face às influências recebidas dos movimentos políticos, sociais e culturais de qualquer

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Sobre a concepção do ser como temporalidade pode-se buscar uma clarificação na obra de Heidegger “Ser e Tempo”. Petrópolis: Vozes, 2006

natureza que atuam em determinado contexto. Por outro lado, embora as gerações co-existam no mesmo tempo histórico, elas não possuem as mesmas experiências e trajetórias de vida. Elas são modeladas por cada conjuntura histórico-social, mas diferenciam-se pelas categorias de idade presentes em cada geração.

Ao discorrer sobre a co-existência das gerações, tomando por base a idéia da “não contemporaneidade do contemporâneo”, Mannheim (1928) expõe que

Diferentes gerações vivem no mesmo tempo. Mas porque o tempo experimentado é o único tempo real, todas elas na verdade, vivem em eras subjetivas qualitativamente diferentes. „Todas as pessoas convivem com pessoas da mesma e de diferentes idades, numa variedade de possibilidades de experiência que as confronta a todas. Mas, para cada uma o mesmo tempo é um tempo diferente, isto é, ele representa um diferente período do seu eu, que só pode ser partilhado com pessoas da mesma idade (MANNHEIM, 1928, p. 124).

Embora o autor em pauta admita que o fenômeno das gerações possua relação com o ritmo biológico, ele esclarece que o mesmo não pode ser deduzido desse aspecto. Ao contrário, “se não fosse a existência da interação social [...], da estrutura social [...], da história que se baseia numa espécie de continuidade, nenhuma geração poderia existir como um fenômeno social localizado” (MANNHEIM, 1928, p. 135). Para ele, o problema das gerações tem importância prática, pois ajuda a compreender a estrutura dos movimentos sociais e intelectuais, as mudanças sociais e as relações dos indivíduos que constituem uma unidade de geração.

Seu conceito de geração implica num sentido histórico e social e vem articulado com o conceito de grupos de idade:

[...] nada mais representa do que uma espécie de posição, que compreende grupos de idade mergulhados num processo histórico-social [...] é determinada pelo modo como certos modelos de experiência e pensamento tendem a ser trazidos à existência pelos dados naturais da transição de uma geração para outra (MANNHEIM, 1928, p. 137)

Com efeito, importa levar em conta o jogo mútuo de influências, a fim de perceber como as coletividades se constituem. Essa estratégia permite relacionar as gerações com outras instâncias coletivas (família, estado, gêneros, empresas), também constituídas relacionalmente com base em múltiplas dimensões. Por esse ângulo, é possível pensar nas diferentes formas de organização desses grupos e, ao mesmo tempo, na pluralidade dos estilos de vida dentro dessas coletividades, cuja tendência aponta para a diversificação e a individualização das experiências.

Ao apresentar seu argumento sobre esse assunto, Britto da Motta (1999b; 2002a) e (2005, p. 3) observa que “geração é uma categoria de grande complexidade analítica” que tem vinculação com outras categorias fundantes da vida social, porém projetando-se mais do que as outras categorias na dimensão “tempo”, o que possibilita a mudança de seus sentidos.

Por essa ótica, a geração é um fato cultural demarcado por acontecimentos e pelo sentimento de pertencer a uma faixa de idade que possibilita uma identidade diferencial, representando uma escala móvel do tempo (SIRINELLI, 1991). Entendo que esta variação da estrutura da geração no tempo diz respeito não só ao tempo cronológico que abarca gerações constituídas por grupos de idade (MANNHEIM, 1928), mas refere-se particularmente à idéia de tempo social que relaciona e integra as dimensões individuais aos padrões socialmente reconhecidos. É dentro desse escopo que penso sobre as gerações reconhecendo, como o faz Sirinelli (1991), que este conceito reflete a inserção de mulheres e de homens na história, não sendo um produto da natureza, o que poderia confundi-lo com um parâmetro invariável de uma sociedade ou época, sujeito à padronização de sua duração.

Assim, utilizo a noção de geração de Mannheim (1928) compreendendo esta como sendo um grupo de pessoas localizadas em uma determinada faixa de idade e inseridas num processo histórico-social que as coloca, ao mesmo tempo, sujeitas a influências similares, mas experimentando de modo diferente o seu tempo interior. Por esse ângulo, admito a relação de geração com o tempo cronológico, mas também com a perspectiva de interação social que propicia a transformação das experiências subjetivas. Além disso, a determinação geracional envolve a compreensão acerca do cruzamento de dimensões como idade e gênero e produz, em cada conjuntura social, experiências específicas relacionadas a tais dimensões. Em virtude disso, destacarei no próximo item algumas experiências de envelhecimento que abordam tais dimensões.

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