CHAPTER V: Indicators for Measuring Progress of MDGs
F. Goal 6: Combat HIV/AIDS, malaria and other diseases, reduce child mortality
A realização do trabalho de campo requereu alguns itens essenciais: vestimenta composta de calça jeans, uma camisa com bolso para ficar mais fácil colocar a caneta e a carteirinha pessoal de identificação da universidade e tênis, uma bolsa de alça com o logo da UFSCar com o diário de campo, canetas sobressalentes, gravador digital de áudio (para gravar as entrevistas), pilhas sobressalentes para o gravador, prancheta, formulários, termo de consentimento livre e esclarecido e os mapas com os endereços anotados. Pensei também em como seriam as conversas que iria estabelecer com as pessoas. Lembrei de Whyte (2005) descrevendo suas tentativas de inserção no campo de pesquisa e que certa vez tentou parecer como um dos moradores de
Cornervill e e foi censurado por um dos rapazes da esquina que aconselhou:
“Bill, não queira falar como um de nós, sabemos que é diferente e o aceitamos da forma como é, seja você mesmo”. Por outro lado, já havia sido alertado por pessoas das Instituições que atendiam os adolescentes de que eu teria dificuldade para conversar com os jovens pois não entenderiam minha linguagem. Fiquei com Wh yte. Afinal se eu chegasse falando, “aí mano, beleza? Vim fazer uma pesquisa, tá ligado? ” beiraria o estereótipo de algo que não me representa e que não era o que os entrevistados esperariam ver em um pesquisador. Contudo, a preocupação com o vocabulário era necessária. Seria adequado evitar utilizar os termos técnicos, conceitos etc. frequentes na área acadêmica.
Apesar da novidade do contato com os jovens específicos a serem entrevistados eu não era de todo estreante nesse campo. Em dezessete anos de magistério já havia vivenciado inúmeras situações nas quais interagi com pessoas semelhantes com as que iria estabelecer contato e entrevistar, sobretudo pelo início da carreira docente ter se dado na rede pública estadual e ter atuado em escolas de periferia me colocavam razoavelmente à vontade para abordar as pessoas e as entrevistar. Já conhecia, por isso, a dinâmica dos bairros periféricos. Sabia dos territórios os quais tinham “responsáveis” que nada se fazia ali sem a autorização dele. De todas as experiências a mais importante talvez tenha sido aprender que ser diferente não era empecilho
para convivência e adquirir confiança e despertar o respeito dos outros para comigo. S er diferente sem estar imbuído de ar esnobe ou de superioridade – não agir como um estabelecido no sentido de Elias & Scotson (2000) era o caminho. O contrário geraria o conflito.
Pensei nisso ao me preparar para a pesquisa de campo. Lembrei de uma das experiências mais ricas de meu trabalho como professor. Numa das escolas eu ingressei substituindo uma professora que havia sido ameaçada pelos alunos. Era curso noturno, bairro periférico, longe da minha casa. Fazia três anos que dava aula, estava com 23 anos naquele momento. A turma não era fácil de lidar, contudo, com muita paciência conseguia realizar o trabalho. Tudo correu bem até que um dia escrevendo na lousa fui atingido nas costas. Quis saber quem havia jogado a bolinha de papel em mim e ninguém se manifestou. Disse que estava magoado com eles e que sabiam que saía da minha casa para dar aula só para a turma deles (dava quatro aulas na sala por semana sendo que era uma aula por noite e eu só tinha essa turma na escola) e que os tratava com respeito e consideração e esperava o mesmo deles para comigo, mas que sabia que aquilo tinha sido uma ação isolada de uma pessoa e que não representava a sala toda. Como ninguém se identificou como sendo autor do ato, retomei a aula até o sinal bater, dei boa noite e fui embora. No dia seguinte, um dos rapazes da turma estava me esperando na porta e disse que precisava falar comigo. Respondi que tudo bem e que entrasse para conversarmos. Ele disse que não, que precisava falar comigo antes de eu entrar e começar a aula. P edi que falasse então. Ele disse que a turma o tinha pressionado a confessar ser ele o autor do fato do dia anterior, desculpou-se e afirmou que eu poderia encaminhá-lo à direção e pedir a suspensão ou a expulsão dele da escola e que ele entenderia. Aceitei as desculpas e falei a ele que para mim o caso estava encerrado e que ele entrasse na sala pois a presença dele na aula era importante para mim e pedi que refletisse mais antes de agir ponderando sobre as consequências. Esse rapaz sempre foi bastante agitado na sala e às vez es me confrontava. Depois deste dia ele se tornou outra pessoa na sala de aula. Não apenas ele: o conjunto da turma mudou. Talvez percebessem em mim um professor que não estava ali para humilhá- los, ridiculariz á-los ou menosprezá-los, como alguns outros infelizmente faziam. Em termos sociológicos, não havia uma relação estabelecido-
outsi ders. Em m uitos aspectos eu não era um i gual a el es, a di ferença era
evidente, sem contudo que eu me colocasse como estabelecido, portanto diferença não representava uma relação de superioridade minha em relação a eles. Ao invés de ressaltar um comportamento negativo dele havia focado e valoriz ado uma atitude positiva, o reconhecimento do erro e o pedido de desculpas. Não havia lido Wh yte e Elias nessa época, mas pensei nesse episódio que ocorrera comigo quando os li. O caminho era esse mesmo. Estava seguro disso. Estava ansioso na expectativa de que tudo desse certo.
O gravador também me deixou apreensivo. Sabia que utiliz á-lo seri a ótimo para que nada que fosse dito se perdesse. Não é importante apenas o que se diz, mas a entonação, as pausas, etc. que só o gravador capta. Por outro lado sabia que o teor das entrevistas poderia gerar a negativa por parte do entrevistado do registro oral, afinal, poderia ser uma prova contra ele. Eu era um estranho coletando um depoimento de acontecimentos muito sérios das vidas daquelas pessoas. Além disso, lembrava sempre de uma aula de Antropologia da graduação em Ciências Sociais na qual discutíamos sobre pesquisa de campo. A professora relatava a nós os erros que já havia cometido em campo. Conta ela que certa feita estava pesquisando população ribeirinha e, depois de alguns contatos com a população do local, achou que já havia adquirido confiança suficiente entre eles a fim de que pudesse dar início às entrevistas. Na primeira tentativa, senta-se com a pessoa, tira o gravador da bolsa, coloca sobre uma superfície e o liga. Era gravador antigo. Essa aula foi em 1994 e o fato relatado havia ocorrido muitos anos antes. Gravador antigo requeria microfone. Gravador ligado, inicia-se a entrevista. Após a pergunta o microfone é devidamente posicionado próximo à boca do entrevistado para que fosse dada a resposta. Ele olhava para aquele objeto evidenciando não estar à vontade. A pergunta crucial que a desmontou, segundo ela foi: “Fale sobre a sua vida, ela era melhor antes ou agora? ” E ele diz: “Antes.” E ela: “Por quê? ” Ele responde: “Por que antes não vinham aqui pessoas estranhas nos faz er falar com um negócio desses na boca.” Ela aposentou o gravador naquela pesquisa.
Antes e durante o trabalho de campo isso sempre esteve na minha mente. A minha vantagem, pensava eu, é que o gravador de hoje é digital, sem aquelas enormes fitas que faziam um ruído que denunciava que a gravação
estava sendo executada. Hoje o gravador não requer microfone externo e, de tão pequeno, poderia colocar no bolso da camisa sem que o entrevistado percebesse. Aliás, algumas pessoas sugeriram isso: “Ah! Grava a conversa e nem avisa.” Retrucava que não poderia faz er isso, que a ética da pesquisa exige certos procedimentos e um deles é a gravação ser feita sob o consentimento do entrevistado. Porém, depois de consentida a gravação da entrevista, o aparelho não deveria ser o centro das atenções. O gravador também seria fundamental para a execução do trabalho de campo dada a péssima capacidade de memoriz ação que o pesquisador possui.
O trabalho de campo seguiu um roteiro determinado pelo zoneamento cartográfico realizado. O mapa da área urbana do município d e São Carlos foi desmembrado nos trinta e um mapas23 abrangendo cada uma das zonas que continha pelo menos um sujeito a ser entrevistado. As trinta e uma áreas foram percorridas utilizando o veículo particular do entrevistador, à exceção da zona 6 que foi percorrida a pé devido ao fato de que concentrava em uma área relativamente pequena um grande número de indivíduos a serem entrevistados (27). O contrário ocorreu nas outras zonas nas quais embora pudessem conter mais de um endereço a ser visitado, apresentavam certa distância entre um domicílio e outro. Além disso, o veículo se fez necessário devido a uma característica existente na quase totalidade dos bairros visitados que é a irregularidade do ordenamento da numeração dos domicílios. Muitas vez es era necessário percorrer uma mesma rua diversas vezes em busca de um endereço. A primeira tentativa era por aproximação. Observava-se o número desejado, onde estava o início da rua e uma certa progressão na numeração de maneira a que o número procurado poderia estar uma quarteirão antes ou um depois. P or exemplo, se numa rua procurava o número 850 e em determinado quarteirão verificasse que as casas tinham numeração entre 700 e 1000 era bem provável que o número 850 estivesse naquele quarteirão ou no anterior ou no seguinte. Todavia isso nem sempre funcionava. Muitas vez es era necessário percorrer a rua bem devagar e tentar identificar o número das moradias para ver se identificava a procurada. Outro fator dificultador é que nem sempre as moradias possuem numeração expressa, algumas possuem mais
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de uma numeração (provavelmente por alterações realizadas ao longo do tempo na sistemática de identificação naquela rua), outras possuem numeração oculta dentro de alguma garagem, coberto ou pequeno alpendre. S e o número não fosse localiz ado passava-se à segunda estratégia que era perguntar, no raio dos três quarteirões de numeração próxima, aos moradores se sabem onde fica o número pretendido ou se conhecem a pessoa procurada.
Aí residia outra dificuldade. Em muitos casos os vizinhos ou conhecidos desconhecem o nome da pessoa quando esta possui codinome. E a menos que tivesse a sorte de estar indagando a algum parente ou pessoa bem próxima ao sujeito a ser entrevistado e que, portanto, conhecesse o nome dele, a resposta com muita certez a seria negativa em relação ao nome pronunciado pelo pesquisador.
Até mesmo quando o endereço era encontrado e havia alguém em casa, chamar pelo nome não era garantia de que saberiam de que pessoa se tratava. Bati em uma casa, um senhor me atendeu, perguntei pelo nome que estava procurando. Confirmou o primeiro nome, fiz que sim, ele disse não conhecer. Aí anunciei o nome completo, mesmo assim dizia para mim que não sabia. Até que houve uma pausa, e me disse que talvez fosse o sobrinho dele. Pediu que eu aguardasse que iria chamar a bisavó do jovem que ela sabia o nome completo dele. Sai de um longo corredor lateral uma senhora bem franzina e me atende. Confirma ser seu bisneto todavia afirma que o mesmo estava preso há dois anos por roubar um botijão de gás. Disse que pelo menos lá ele está seguro pois está vigiado.
Não foram poucos os dias em que ao longo de horas percorrendo os endereços de uma ou mais zonas próximas, voltava para casa sem conseguir faz er nenhuma entrevista. Muitas vez es, mesmo que endereço do sujeito fosse encontrado e houvesse alguém na casa que confirmasse que ele mora ali, outra dificuldade aparecia que era conseguir encontrá-lo em casa. Mesmo entre os que trabalham e que, portanto, obedecem uma rotina de horário mais rígida, tinha-se dificuldade de encontrar um horário em que pudesse encontrá-lo em casa.
O relato de um dia de trabalho de campo ilustra isso. Moradi a localiz ada, bato palmas, alguns meninos brincam de bola na rua, um deles grita para o outro que estão batendo na casa dele, vem o menino, grita para a
mãe lá dentro que “chegou gente”. Uma adolescente de cerca de quinze anos me atende, identifico-me apresentando a carteirinha da universidade, explico o que tinha ido fazer, ela diz que vai chamar a mãe. Um instante depois a mãe me atende, fala que o filho está trabalhando e que retorna às 17h30min. Sugere que eu retorne mais tarde. Agradeço e digo que voltarei mais tarde. Dei continuidade à jornada de buscas. Aquele dia o céu estava com poucas nuvens, o frio havia amenizado com o sol. Era um dia de julho, característico de inverno. Retorno ao endereço pouco antes do horário indicado, por volta de 17h15min o sol já baixo, esfriava. A irmã está na calçada e, ao me ver, fala que ele ainda não chegou mas que eu espere um pouco. Aproveito e converso um pouco com ela. O aparelho de telefone celular na mão dela é trocado de mão em mão durante a conversa. P ergunto sobre os estudos. Ela explica e fala que quer faz er universidade, que tem amigos que faz em e ela também quer. Já são 18h30min. A conversa já esfriou, assim como a temperatura. Estava sem casaco que ficou no carro. Fui buscá-lo. Não tinha gorro e o vento forte e frio me dava dor de cabeça. “Tomara não pegue gripe senão atrapalhará a pesquisa,” pensei. Cada motocicleta que apontava na avenida que era visível por um amplo terreno baldio ela me dizia que talvez fosse ele. Várias motocicletas passaram até que fosse a dele. Já eram quase 19 horas quando chegou. P arou a motocicleta, guardou na garagem, a irmã foi falar com ele que veio até mim. Dou a mão, cumprimento e me apresento. Explico sobre a pesquisa e ele diz que aceita e marca comigo no sábado na universidade. Dei o número do meu telefone celular e pedi que ligasse a cobrar caso ocorresse algum imprevisto que o impedisse de comparecer no sábado. “Ao menos uma esperança de ter pelo menos uma entrevista”, pensei. Afinal, o resultado daquele dia foi: conversei com a irmã de um jovem a ser entrevistado, ele não estava em casa, ela falou para eu tentar mais tarde (após outras duas tentativas em dias posteriores ele foi entrevistado); consegui localiz ar o endereço e o jovem, eram duas da tarde, a avó disse que ele morava no fundo, não sabia que já tinha chegado em casa (tinha saído a noite), ela chama, ele demora mas responde, depois de um tempo vem conversar comigo, apresento- me e explico sobre a pesquisa, mas ele não aceita conceder a entrevista, agradeço e vou tentar localiz ar o próximo. Localiz o o endereço, bato, ninguém. P assar de novo. Localizo o endereço, bato, ninguém. P assar de
novo. P ercorro a rua, o número não existe. P ergunto, ninguém sabe informar. A mesma coisa ocorreu no próximo. Em outro, o endereço existe, mas não tem ninguém. Passar de novo outro dia. O mesmo ocorreu no seguinte. O próximo não localiz ei o número, mesmo esquema, perguntas e nada. Rua e número localiz ados, alguém atende, que bom, sucesso, obtenho a informação de que a pessoa mudou-se mas não sabe para onde. Quem sabe terei mais sorte na próxima casa, bato, mas ninguém atende. Próxima. Conjunto habitacional, rua sem saída, chego quase ao final, identifico o número, paro o carro, bato palmas, ninguém atende, mas há pessoas na casa, insisto, alguém olha par a fora era uma jovem, indaga o que é, pergunto pelo nome e se mora ali. Notei que no mesmo instante a jovem ficou assustada, era irmã dele, e me informa que o irmão havia falecido há quatro anos. Aí foi minha vez de fazer cara de susto. Penso, “o que digo? ”, peço desculpas, mas pergunto do que havia morrido pois era uma informação importante para a pesquisa e fui informado que foi assassinado. Contudo ela não quis especificar a razão. S abia que o risco de morte era algo muito próximo dos jovens a serem entrevistados, mas tinha sido a primeira vez que anotava a informação. No decorrer da pesquisa isso ocorrerá outras vez es. No último endereço visitado obtenho a informação de que ele não mora mais ali. Um dia todo sem uma entrevista sequer, porém, uma agendada para sábado ao meio dia.
Chegou o sábado e quando era meio dia, o horário combinado, já estava há meia hora na universidade em frente à biblioteca esperando o jovem para a entrevista. Uma e quinze, nenhuma ligação no celular, nenhuma motocicleta. Fui embora. Depois do almoço vou à casa dele. A irmã fala que ele saiu e não sabe onde está. Peço que o avise que estive lá para saber s e havia acontecido algo com ele pois não tinha ido ao meu encontro como combinado. Ela diz que dará o recado. Na manhã do domingo o telefone celular toca, era ele, pergunta se poderíamos marcar a entrevista para depois do almoço. Digo que sim, marcamos às 13h30min na universidade. Desta vez deu certo.