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Gestion du risque de crédit

3 RISQUES DE CRÉDIT

II. Gestion du risque de crédit

Em um exaustivo estudo sobre o tema, Ricardo Bielschowsky (1988) examina a historicidade e as características conceituais do pensamento desenvolvimentista brasileiro. Nessa obra (que se trata de sua tese de doutoramento) o autor realiza a classificação interna referente às diferentes correntes do desenvolvimentismo, seriam elas: o desenvolvimentismo do setor privado; o desenvolvimentismo do setor público não nacionalista; e o desenvolvimentismo do setor público nacionalista. Os membros do primeiro tipo eram compostos predominantemente por empresários e

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Segue uma nota explicativa a respeito do assunto: "Simonsen morreu em 1948, ano de início do funcionamento da Cepal. Essa coincidência histórica teve sua importância na evolução do desenvolvimentismo: a Cepal, organismo que ostentava a credibilidade da ONU, tornou-se o principal órgão a dar sequência imediata ao trabalho de legitimação que Simonsen vinha realizando através da Fiesp e da CNI. A Cepal representou, em relação a Simonsen, um avanço importante: forneceu um poderoso instrumental analítico antiliberal, que foi parcialmente incorporado pelos desenvolvimentistas da área privada e integralmente incorporado pela maioria dos desenvolvimentistas nacionalistas do setor público" (BIELSCHOWSKY, 1988, p. 92-93).

industriais civis, tendo como principais órgãos de vocalização a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e a Confederação Nacional da Indústria (CNI). As correntes desenvolvimentistas do setor público, nacionalista e não nacionalista, eram compostos pela intelectualidade nacional e também por funcionários públicos de alto gabarito. Com efeito, os três setores do pensamento desenvolvimentista concordavam a respeito de a industrialização ser a única saída para o desenvolvimento econômico brasileiro à sua época. Contudo, as discórdias situavam-se no tocante à natureza da intervenção estatal, à maior permissividade (ou não) com o capital estrangeiro, à tolerância com um certo índice de inflação e aos conflitos distributivos.

No setor público havia duas posições de desenvolvimentistas básicas quanto à intervenção estatal: os economistas que denominamos "não nacionalistas" preconizavam soluções privadas, de capital estrangeiro ou nacional, para projetos de inversão na indústria e na infraestrutura, admitindo a intervenção estatal apenas em último caso; e os "nacionalistas", ao contrário, advogavam a estatização dos setores de mineração, transportes, energia, serviços públicos de modo geral e alguns segmentos da indústria de base. Já entre os desenvolvimentistas do setor privado, as posições sobre o assunto não eram uniformes, encontrando-se economistas que se aproximavam da primeira posição e outros de visão mais nacionalista (BIELSCHOWSKY, 1988, p. 91).

Roberto Simonsen, como exposto anteriormente, foi o principal ideólogo e precursor do grupo de desenvolvimentistas do setor privado. Os desenvolvimentistas não nacionalistas compunham um grupo peculiar: contrários ao aumento exponencial nas atividades estatais na economia, defendiam que o Estado não deveria imiscuir-se nos setores onde a iniciativa privada possuía competência para tomar a frente; a essa característica, somam-se a maior flexibilidade quanto a utilização de financiamento estrangeiro e a ênfase dada quanto ao combate à inflação. Observados por essa ótica, esse setor específico do pensamento desenvolvimentista aproxima-se consideravelmente do pensamento liberal – tendo como ponto de distinção a decidida defesa da industrialização como meio de se alcançar o desenvolvimento econômico. O maior representante desse grupo foi o economista Roberto Campos18 (BIELSCHOWSKY, 1988).

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Bielschowsky não se furta de fazer comentários a respeito da importância do pensamento camposiano para a economia nacional, para fins do presente trabalho, extrai-se o seguinte: "Observado retrospectivamente à luz do processo histórico efetivamente ocorrido no país, Campos destaca-se nos anos 50 como um pensador certeiro. Foi, sem dúvida, o melhor economista da nova ordem do Brasil, que passava da velha estrutura agrário-exportadora à nova estrutura de economia industrial internacionalizada. Campos apostou na industrialização pela via da

A respeito do pensamento desenvolvimentista nacionalista, segue uma extensa citação que, por sua objetividade e clareza, é merecedora de ser transcrita na íntegra:

Os desenvolvimentistas nacionalistas defendiam, como os demais desenvolvimentistas, a constituição de um capitalismo industrial moderno no país. Tinham, como principal traço distintivo, uma decidida inclinação pela ampliação da intervenção do Estado na economia, através de políticas de apoio à industrialização, integradas, na medida do possível, num sistema de planejamento abrangente e incluindo investimentos estatais em setores básicos. Tratava-se de um conjunto de técnicos de órgãos do governo que pautavam seu exercício profissional pela ideologia da industrialização planejada como solução histórica para o atraso da economia e da sociedade brasileiras. Consideravam que a acumulação de capital nos setores estratégicos não podia aguardar a iniciativa e o arbítrio do capital estrangeiro e necessitava de controle e comando interno de agentes capitalistas nacionais. Vale dizer, do Estado, já que era consensual que a debilidade do empresariado nacional inviabilizava soluções privadas. Eram céticos quanto às possibilidades de contribuição do capital estrangeiro na fundação dos alicerces da estrutura industrial a ser formada. Particularmente no que dizia respeito aos setores historicamente dominados pelo grande capital estrangeiro, como transporte e energia elétrica, ou por ele cobiçados, como petróleo e mineração em geral, a ideologia da industrialização ganhava conotação fortemente nacionalista e estatizante. O mesmo se dava com o caso de setores industriais básicos, em particular, com a grande indústria química e com a siderurgia (BIELSCHOWSKY, 1988, p. 152).

Para além da já citada "decidida inclinação pela ampliação da intervenção do Estado na economia", outros dois traços distintivos caracterizavam essa corrente de pensamento: uma maior permissividade com a política monetária, sendo essa subalterna à política de desenvolvimento econômico, e uma maior relevância dada às questões de cunho social – quando comparada com as outras duas correntes desenvolvimentistas. Nesse recorte, a maior flexibilidade a respeito dos índices inflacionários compunha o aspecto mais marcante da distinção dos desenvolvimentistas nacionalistas dos desenvolvimentistas do setor privado e dos não nacionalistas. A dimensão social subordinava-se à importância da industrialização: o processo de industrialização, por si, seria transformador o suficiente a ponto de alterar as relações de classe na sociedade brasileira, arrefecendo dessa maneira as desigualdades, sendo também o principal instrumento

internacionalização de capitais e do apoio do Estado e ganhou" (BIELSCHOWSKY, 1988, p. 124). Conforme um estudioso do pensamento político de Roberto Campos, em um segundo momento, ao se aproximar do pensamento político econômico gudiniano – após a derrocada do modelo desenvolvimentista já nos anos 1980 –, Campos ganharia pela segunda vez o debate público institucional a respeito do modelo econômico nacional (PEREZ, 1999).

do combate à miséria19. Dos desenvolvimentistas de tipo nacionalista, Celso Furtado20 foi aquele que melhor soube decodificar o projeto em questão, somando a ele o pensamento estruturalista cepalino.

Furtado foi o principal pensador brasileiro a trabalhar na Cepal. Tendo estado em contato com Raúl Prebisch, absorveu os principais ensinamentos do economista argentino, adaptando os seus postulados à realidade brasileira de sua época. Com Prebisch, compartilhava a noção de que a teoria econômica ortodoxa não daria conta das complexidades estruturais e estaria ultrapassada frente à realidade dos fatos latino-americanos. Como é observável na citação seguinte, Prebisch computava também à marcha da história a falência das teorias "duras":

Na América Latina, a realidade está minando o esquema ultrapassado da divisão internacional do trabalho, a qual alcançou grande importância no século dezenove e, como uma concepção teórica, continua a exercer uma influencia considerável até muito recentemente. Sob esse esquema, a tarefa específica que recaía à América Latina, como parte da periferia do sistema econômico mundial, era a de produtora de alimentos e matérias-primas para os grandes centros industriais. Não havia lugar para a industrialização dos novos países. Essa, no entanto, está sendo imposta pelos eventos. Duas guerras mundiais em uma única geração e uma grande crise econômica entre elas mostraram aos países latino-americanos que suas oportunidades, claramente apontam para o caminho da atividade industrial21 (PREBISCH, 1950, p. 1).

19 A respeito do ponto em questão: "A ‗fé‘ na industrialização como via de superação da miséria era,

sem dúvida otimista e mesmo ingênua, mas estava longe de ser conservadora. Afinal, o amadurecimento político da sociedade brasileira não permitiu, antes do final dos anos 50, a politização do debate desenvolvimentista ao nível da discussão de reformas progressistas que tangenciassem as questões básicas associadas às relações de produção entre as classes sociais [...]. Por isto, embora o "reformismo" dos desenvolvimentistas nacionalistas contribuísse para diferenciá-los das outras correntes de pensamento, não chegou a ser fundamental para o cerne do que constituía o elemento definidor de seu pensamento. Em outras palavras, não constituiu o elemento essencial à definição de seu projeto básico, ou seja, da proposta de garantir a presença maciça do Estado na economia, de modo a viabilizar a superação do subdesenvolvimento e a emancipação econômica e política através de um processo de industrialização" (BIELSCHOWSKY, 1988, p. 156).

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Conforme Bielschowsky: "Celso Furtado foi o grande economista da corrente desenvolvimentista de tendência nacionalista no Brasil. Coautor das teses estruturalistas, aplicou-as ao caso brasileiro e divulgou-as no país com grande competência, dando consistência analítica e garantindo unidade mínima ao pensamento de parcela significativa dos técnicos governamentais engajados no projeto de industrialização brasileira" (BIELSCHOWSKY, 1988, p. 157).

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Tradução minha do original: "In Latin America, reality is undermining the outdated schema of the international division of labour, which achieved great importance in the nineteenth century and, as a theoretical concept, continued to exert considerable influence until very recently. Under that schema, the specific task that fell to Latin America, as part of the periphery of the world economic system, was that of producing food and raw materials for the great industrial centers. There was no place within it for the industrialization of the new countries. It is nevertheless being forced upon them by events. Two world wars in a single generation and a great economic crisis between them

Assim, Prebisch lançava um novo desafio aos economistas latino-americanos: o de interpretarem a realidade dos países do continente a partir de um prisma diferente dos postulados ortodoxos. Essa abordagem original seria conhecida como

estruturalismo. Como um dos formuladores das teses estruturalistas, Furtado dividia

com os demais autores cepalinos posições de matiz antiliberal. Nesse sentido, por serem anacrônicas, as teorias ortodoxas, além de não comporem um ferramental atualizado para se analisarem as economias latino-americanas, também contribuiriam para a permanência dessas em uma situação periférica e subdesenvolvida. Outra característica do pensar furtadiano é um peculiar keynesianismo:

Além de estruturalista, Furtado era um keynesiano. Um keynesiano atípico, pode-se dizer, porque, dado o seu entendimento das características das economias subdesenvolvidas – insuficiência de poupança, ao invés de excesso, como nas desenvolvidas –, não cabia, em geral, uma aplicação da macroeconomia keynesiana de forma idêntica à da análise de economias maduras, isto é, para lidar com a problemática anticíclica (BIELSCHOWSKY, 1988, p. 160).

Isso porque as semelhanças com o keynesianismo esgotar-se-iam na posição defendida em conjunto – propalada por Keynes, mas adotada por Furtado – de que o sistema econômico não tenderia à máxima eficiência se deixado operar livremente. No pensamento keynesiano, a atitude do Estado deveria ser a de produzir políticas anticíclicas com o intuito de renovar o fôlego e o pleno emprego das economias capitalistas. Contudo, para Furtado, a realidade latino-americana constrangia o Estado à coordenação da atividade industrial, tendo em vistas o rompimento com a lógica do subdesenvolvimento.

Como abordado anteriormente, o desenvolvimentismo alcançaria o seu auge nos anos que compreenderam a década de 1950. Somado ao populismo dos presidentes mandatários durante o ínterim que vai de 1945 a 1964, o nacionalismo dos desenvolvimentistas pautou o caráter da economia brasileira durante o período. Todavia, ao passo que os anos 1950 findavam, o desenvolvimentismo nacionalista e privado perde relativamente o fôlego, abrindo espaço, então, ao desenvolvimentismo não nacionalista de Roberto Campos. Conforme Bielschowsky (1988), Campos teria

have shown the Latin-American countries their opportunities, clearly pointing the way to industrial activity". Disponível em: <http://archivo.cepal.org/pdfs/cdPrebisch/002.pdf>. Acesso em: 17 jul. 2014.

sido de todos os economistas brasileiros mais ativos, aquele cujo projeto desenvolvimentista esteve mais próximo da política efetivamente realizada.