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Gestion du diabète traité par insuline en EHPAD

D. Difficultés rencontrées et améliorations possibles

1. Gestion du diabète traité par insuline en EHPAD

Quanto ao último conteúdo gramatical que iremos abordar, a ‘pronúncia’, podemos constatar que corresponde ao terceiro item mais mencionado no grupo dos cabo-verdianos (12%), ao quarto no grupo dos ucranianos (12%) e ao quinto no dos chineses (9%). É, pois, interessante verificar a existência de uma grande preocupação com o domínio do sistema fonológico por parte da comunidade de falantes cuja LM é geneticamente mais próxima da LP, o CCV – em relação à qual se vislumbrariam, à partida, mais analogias com o idioma do país de acolhimento. Analisemos, então, quais as principais dificuldades dos três grupos em relação a este item.

Quanto aos falantes de Mandarim, o único problema invocado nas entrevistas consiste na pronúncia do som /R/ (“É muito difícil, claro! «Erre», é logo no início com aquele «erre»” – R.13). Como causa apresentada para o facto, uma das entrevistadas aponta, uma vez mais, a inexistência, na sua LM, do referido som (“normalmente nós não usamos «rr» e esta som não sai […] é mesmo de origem; não dá para fazer mais nada” – K.163-165). Efectivamente, o problema dos falantes de origem chinesa vai muito para além da pronúncia deste único som, correspondendo, na realidade, a uma dificuldade em produzir consoantes vibrantes (/R/ ou /r/) ao nível do aparelho fonador, por serem inexistentes na sua LM. Como a mesma entrevistada menciona: o som /R/ “sai parece que de garganta!” (K.159). Para além desta dificuldade mencionada pelos sujeitos, poderíamos acrescentar como potenciais dificuldades em LP a inexistência, em Mandarim, das consoantes oclusivas e fricativas sonoras (/b/, /d/, /g/; /v/, /z/, /Z/), bem como das vogais nasais e dos ditongos nasais

(Mateus, Pereira & Fischer 2006). Estas dificuldades, que podem ou não causar obstáculos em termos de comunicação, parecem, sobretudo, constituir factores de inibição para estes indivíduos, os quais podem afectar o desenvolvimento de competências no idioma do país de acolhimento e condicionar a interacção com os portugueses, por exemplo.

No que diz respeito aos entrevistados de origem ucraniana, três dos indivíduos entrevistados identificam a pronúncia como uma dificuldade, tendo um especificado a dificuldade em pronunciar o som /R/, inexistente em Russo e Ucraniano, e dois referido os ditongos nasais. No primeiro caso, a entrevistada explicou que o sistema fonológico da sua LM não contempla o som /R/, sendo este, inclusivamente, considerado um desvio em relação à norma (“Nós não temos; nós pensamos que isso é defeito. […] Lá no fundo… Não sei explicar! Quando as crianças falam assim considera-se um defeito! Aqui é o contrário!” – V.88-92). Acrescentou que no dia-a-dia não se esforça por produzir este som, pois dá mais importância ao conteúdo do que à pronunciação correcta das palavras. No caso dos ditongos nasais a mesma explicação é apresentada: estes sons não existem na sua LM, sendo difícil aprender a pronunciá-los de forma semelhante a um nativo. Ao que foi mencionado nas entrevistas podemos acrescentar que a pronúncia e percepção das vogais é particularmente problemática para falantes eslavos, uma vez que em Português existem sons vocálicos inexistentes nas suas LMs, como é o caso de /á/, /e/ e /ó/. Por outro lado, as diferenças ao nível do sistema alfabético também originam problemas de pronúncia na leitura, bem como de ortografia: em Português, ao contrário do que acontece em Russo, a cada letra pode corresponder mais do que um som e, além disso, cada som pode ser representado por diferentes letras ou até por conjuntos de letras.

Quanto aos informantes cabo-verdianos, e à semelhança do que se verificou relativamente aos outros dois grupos, a principal dificuldade mencionada foi a da pronúncia do som /R/, ficando subentendida, na intervenção de uma das entrevistadas, que a causa do problema reside na ausência deste som na sua LM, como podemos observar: “são «erres», o som diferente! A mim custa muito carregar nos «erres» depois que vim para aqui [Portugal]” (M.252). Neste domínio, poderíamos ainda invocar o sistema vocálico do CCV como podendo estar na origem de algumas imprecisões (resultado, por vezes, de hipercorrecções) a nível da pronunciação de alguns sons em LP, nomeadamente a abertura de algumas vogais que, no país de acolhimento, são de pronúncia (mais) fechada. A este nível, importa destacar a preocupação manifestada pelos entrevistados em atingir um nível de proficiência linguística semelhante ao dos portugueses (“A preocupação de falar um Português correcto; e mesmo eu sinto, portanto, a nível, portanto, da minha pronúncia que, ao

longo do tempo, melhorou bastante!” – Il.334). Muito embora estes aspectos não causem problemas de maior à comunicação, estão, sem dúvida alguma, e a par de muitos outros factores de ordem social, na origem de atitudes discriminatórias dos portugueses em relação a estes falantes. Com efeito, se é verdade que é em relação a este tópico gramatical que os ditos ‘nativos’ se tornam particularmente intolerantes – como refere Carl James:

“[native speakers] are at their most authoritative on matters of phonology, less so on morphology, less still on syntax, and least on semantics […]. Phonetics waywardness […] is seen as a sign of helpless incompetence and just cause for derision” (1998: 47)

–, também é verdade que o nível de intolerância varia de acordo com o grupo em questão. Ao passo que os desvios produzidos (neste ou noutros domínios) por determinadas comunidades (por exemplo, falantes de origem inglesa ou francesa) são vistos como um sinal de ‘exotismo’ ou de ‘esforço comunicativo’ nas suas tentativas de aproximação aos interlocutores portugueses, os produzidos por outros grupos (nomeadamente os de origem africana) são, frequentemente, conotados com sentido pejorativo ou acolhidos como erro, como se – como refere Mia Couto (1997) – estivessem a “desgastar a língua”. Estamos, novamente, no domínio do preconceito linguístico, anteriormente referido:

“O preconceito lingüístico é conseqüência dos preconceitos sociais. Em geral, é exercido sobre as pessoas que sofrem mais estigmas na sociedade – o analfabeto, o pobre, aqueles que não têm acesso à escolarização. Essas pessoas são acusadas de falar errado, de não saber falar, de estropiar a língua. Quando se faz uma análise mais refinada, do ponto de vista sociológico, a gente percebe que há uma transferência daquilo que a sociedade acusa a pessoa de ser para a «língua» que ela fala. Então, se a pessoa é pobre, a «língua» dela é pobre. Se a pessoa vive numa região considerada atrasada, a «língua» dela vai ser considerada atrasada.” (Bagno, 2005)