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Optimisations et problemes ouverts

VIII.2 Problemes ouverts

VIII.2.1 Gestion de dependances

Ao seu modo, como já observado, empreendedores podem ser considerados como construtores de modelos de negócio viáveis. Por essa razão, no presente estudo, se estabeleceu como premissa que a atividade exercida por empreendedores em startups é semelhante àquela realizada por cientistas e engenheiros, conforme descrição presente nos estudos de Latour (2000). Enquanto cientistas buscam construir fatos e engenheiros, artefatos, infere-se que empreendedores procuram criar modelos de negócio viáveis, escaláveis e lucrativos, ou seja, que possam se difundir e se perpetuar no espaço e no tempo.

Essa analogia, como se verá a seguir, possibilita transpor pelo menos quatro pontos de reflexão que Latour (2000) desenvolve no campo da ciência e da tecnologia para o universo dos empreendedores de startups.

O primeiro ponto diz respeito à afirmação de Latour (2000), de que fatos ou objetos são construções coletivas e de que “o destino de fatos e máquinas está nas mãos dos consumidores finais” (LATOUR; 2000, p. 423). Tanto cientistas quanto engenheiros seriam, portanto, porta-vozes de novos objetos, formados a partir de sua atividade científica ou técnica.

Note-se que essa afirmação de Latour (2000) não significa dizer que ciência é uma construção social, mas sim que as alegações de cientistas – para que sejam transformadas em caixas-pretas necessitam passar por processos de convergência que tornem as traduções irreversíveis – tem sua origem em uma determinada rede de atores, que em conjunto, conduzem um processo de construção de fatos científicos ou de artefatos tecnológicos, mobilizando recursos e arregimentando apoiadores. Daí que, embora, segundo Latour (2000), ciência e tecnologia sejam

construções coletivas, cientistas e engenheiros são os porta-vozes de suas traduções.

Em um paralelo, modelos de negócio viáveis também podem ser considerados construções coletivas, pois dependem de toda uma sorte de atores inseridos em uma rede – empreendedores precisam desenvolver produtos ou serviços que sejam aceitos pelos clientes, por vezes mobilizar parceiros e angariar investidores, entre outras coisas. Pode-se dizer também, por essa razão, que o destino dos modelos de negócios de uma startup também está vinculado à aceitação de “consumidores finais”, sejam eles clientes, parceiros, investidores.

Note-se que, da mesma forma que cientistas e engenheiros precisam convencer pessoas e conseguir recursos para terem êxito na construção de fatos e artefatos que adquiram o status de verdade (LATOUR; 2000), infere-se que empreendedores necessitam que seus modelos de negócio sejam aceitos para se tornarem viáveis. Portanto, também se comportam como porta-vozes de seus modelos de negócio – até porque, como afirmam Tonelli, Brito e Zambalde (2011, p. 598), o comportamento do empreendedor em uma rede “se constrói e é construído na legitimação de uma ideia inovadora”.

O segundo ponto de reflexão relevante é que, para Latour (2000), ciência e tecnologia têm características de rede e seu estudo só é possível ao se observar as relações entre atores humanos e não humanos, seus pontos de passagem, seus porta-vozes e como os elementos que compõem essa rede se modificam ao longo da controvérsia. De forma análoga, segundo Tonelli, Brito e Zambalde (2011), processos empreendedores são formados por uma extensa rede simétrica de atores humanos e não humanos (artefatos técnicos e tecnológicos, recursos financeiros). Estudar startups, assim, se torna possível quando se observa a formação da rede de atores, as relações entre eles, a forma como se dá a formação de pontos de passagem para compreender o segmento de clientes em que se pretende atuar, a forma como empreendedores se portam como porta-vozes, como ocorre a dinâmica de interação entre os elementos que formam a rede e como eles se transformam ao longo do processo de descoberta de um modelo de negócio viável.

O terceiro ponto a ser considerado é o papel atribuído aos instrumentos – ferramentas, artefatos – e à codificação formal que conferem um caráter cumulativo à ciência. Os instrumentos, quando mobilizados em ampla quantidade, permitem

que um pequeno número de cientistas possa agir à distância e em grandes proporções. De outro lado, a codificação formal, por meio de esquemas, de fórmulas matemáticas e geométricas, permite abstrair o mundo, e, ao criar representações simbólicas dele, torna mais fácil a construção de fatos e objetos, assim como os torna mais precisos ou eficazes na sua interação com a realidade (LATOUR, 2000).

Para o presente estudo, entende-se que em busca de um modelo de negócio viável, de modo semelhante ao que ocorre no campo científico, é frequente que empreendedores utilizem diversos instrumentos técnicos e tecnológicos para compreender o mercado em que pretendem atuar e empregam métodos para traduzir em conhecimento dados que coletam. Infere-se que procuram abstrair um nicho de mercado – valendo-se de quadros de modelos de negócios, pesquisas junto a clientes, potenciais parceiros e investidores, análise de levantamentos estatísticos, ferramentas tecnológicas, entre outros elementos – para mais facilmente procurarem caminhos que viabilizem seus modelos de negócios. É possível supor também que, de certo modo, as abstrações criadas permitem que possam agir à distância e, a depender da tradução do modelo de negócio criado, desenvolver até mesmo negócios globais.

O quarto ponto de reflexão se refere ao fato de que a importância dos instrumentos cresce na medida em que aumenta a controvérsia. Isso ocorre porque os debatedores precisam dos melhores recursos e das melhores ferramentas disponíveis para conseguir tornar sua posição – o ponto de passagem obrigatório – de forma irreversível (LATOUR, 2000). Ou seja, para Latour (2000), vencer uma controvérsia não é uma questão meramente de melhores argumentos, ideias, perícias na execução de tarefas, mas de quem consegue mobilizar mais recursos financeiros, melhores instrumentos técnicos e tecnológicos e maior adesão de apoiadores em uma rede, de modo que consiga rebater posicionamentos contrários e avançar na construção de fatos ou artefatos.

Em uma analogia com o mundo dos empreendedores, é possível imaginar que quanto maior o risco de mercado e quanto maior a concorrência, mais importante tenderia a ser o fato de se empregar instrumentos técnicos e tecnológicos de última geração, boas práticas metodológicas, acesso facilitado a especialistas, a conhecimentos altamente especializados, a investimentos financeiros, a bases de clientes. Em outras palavras, quando as controvérsias estão

em aberto no mundo dos negócios, é possível que aumente também a importância de se ter bons recursos à disposição dos empreendedores, a fim de que consigam que o desenvolvimento de seus produtos ou serviços se tornem pontos de passagem obrigatórios, dificultando a ação de concorrentes na conquista de mercados.

Se for válido dizer que a importância de instrumentos cresce quando a competição e o risco são elevados, ambientes de construção de conhecimento que tornem acessíveis recursos que de outra forma seriam muito caros para se obter tornam-se atrativos para empreendedores de startups. Nesse contexto, como já foi visto, é preciso lembrar que programas de capacitação são relevantes justamente por combinar diversos serviços e facilidades para obtenção de conhecimento e capital que, de outro modo, tenderiam a ser caros, ou de difícil acesso para empreendedores de empresas nascentes (SARMENTO; CARVALHO; DIB, 2016).

Os programas de capacitação, infere-se, poderiam ser compreendidos como, além de ambientes de construção de conhecimento, uma forma de reduzir custos de transação – de tempo e de dinheiro – para que uma startup conseguisse construir os saberes necessários para viabilizar seu modelo de negócio.

Mas, além de poderem ser compreendidos como ambientes de construção de conhecimento, e um local em que se reduz custos de transação, supõe-se que aceleradoras podem ser também entendidas como centros de tradução, nos moldes propostos por Latour (2000). No próximo tópico, analisa-se, a partir da TAR, o comportamento de aceleradoras e startups e suas semelhanças com laboratórios e outros atores cuja característica principal é serem locais em que são desenvolvidas estratégias para se concretizar traduções.