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7.2 Algorithme de triangulation et limitations

7.3.4 G´eom´etrie de l’´echantillon maill´e obtenu

16 Para o escopo desta dissertação, o tratamento analítico e metodológico das entrevistas, como narrativas

biográficas, estará focado em Gussi (2005;2008) a partir de sua discussão advinda dessa abordagem nas Ciências Sociais. Para uma discussão mais aprofundada, remeto ao próprio autor.

17 Antes de debruçar-me sobre as transcrições, ainda que essa observação se torne objeto de análise mais a frente,

é importante enfatizar que estas retratam a fala de seus locutores, e que por terem dificuldade na língua portuguesa, a falta de vocabulário causou lacunas em expressar-se através da fala, deixando frases soltas no meio das entrevistas. Muitas vezes é preciso ler e reler, contextualizar o sentido para melhor compreender, ressalvando eventuais desvios de pronúncias atrelados a especificidades do português falado em seus países.

Os reflexos das trajetórias eram expressados por meio de relatos característicos de aspectos formativos que vivenciaram em seus países de origem. A educação familiar, social, cultural era refletida nos relatos, vinculando-as como parte fundamental da sua vida no momento presente.

Durante as entrevistas, era impossível eles não tocarem em pontos marcantes de suas trajetórias, formações, memórias, fazendo das entrevistas momentos de reflexões com o próprio passado e a vida atual. As fragilidades de uma experiência em formação se demonstravam ao não saberem identificar ou expressar a exatidão do significado unilabiano para si:

A Unilab, é....não sei, não posso dizer nada, só o tempo dirá isso pra mim. Eu terminei o ensino médio desde 2007, fiquei seis anos sem estudar, e depois eu encontrei essa oportunidade de entrar na Unilab.” (Bernardo guineense).

A vinda ao Brasil demonstra-se ser também, uma segunda oportunidade, uma continuidade de expandir conhecimento no processo formativo educacional. Para Vander de Guiné Bissau, a Unilab proporciona uma segunda graduação, completamente diferente da anteriormente cursada, na qual teve que adaptar-se ao novo perfil do curso estudado. Formado em Contabilidade em seus países de origem, optou pelo curso de Humanidades no Ceará. Essa situação mostra que a Unilab acolhe uma diversidade de perfis estrangeiros: quer sejam já graduados, quer sejam os que estavam sem perspectivas educacionais; quer sejam os que buscam pós-graduações:

“Bom, logo no início era muito difícil para mim porque saí de

disciplinas mais práticas pa ra ir para disciplina s mais teóricas, era essa minha maior dificuldade. Mas isso não significa que era impossível supera r isso. Nada é impossível para o interessado a empenhar-se. Eu graduei em contabilidade lá, vim aqui aprender um outro curso que é Humanidades porque mesmo sendo contabilista eu vou ter que interagir com pessoas, então preciso conhecer como interagir com essas pessoa s, esse era meu maior desafio. Ter vários textos para ler, dava dor de cabeça, mas, acabei ultrapassando essa s

dificuldades.” (Vander - Guiné).

Dentro de cada trajetória, encontrei aquela que tem uma representatividade enraizada na lacuna de oportunidade familiar, em que o caçula de oito filhos foi o único que conseguiu adentrar na graduação universitária. E que a adaptação aqui no Brasil, muitas vezes tida como o maior desafio para os estudantes estrangeiros, foi amenizada pela familiaridade da

realidade encontrada em suas raízes angolanas. Um perfil estudantil autodidata que se destaca pela sua facilidade de aprender e assim ir buscando ganhar a vida:

“A Unilab para mim é uma oportunidade onde eu observo, assim, muitas vantagens. Partindo da base que eu sou a primeira pessoa da minha família que cursa o nível superior né? Sou o último filho dos meus pais, são oito filhos. Eu sou o primeiro a dar esse passo. Desde

muito cedo tive uma independência muito…tive uma autonomia própria

para correr atrá s dos meus objetivos. Então a Unilab para mim é uma oportunidade que eu nunca tive né...É, em Angola eu ia entrar também no ensino superior, só que entrei na Unilab por conta própria. Ia lá fazer uma faculdade privada, no caso. Mas assim, a minha chegada ao Brasil, a minha adaptação, especificamente aqui em Redenção não foi muito difícil, digo, porque a realidade em que eu moro com a de Redenção não é tão diferente dos bairros de Angola, de algumas cidades de lá. E no meu convívio em Angola eu tinha muito contato, por intermédio do meu trabalho, com brasileiros, com franceses, italianos. Eu era designer gráfico. Eu sou autodidata. Eu trabalhei no Ministério, quer dizer, eu trabalho no Ministério do Exterior, mas no caso estou com a rescisão temporá ria do contrato. Aí não sei, se quando voltar eu continuo ou não. Aí eu passei no concurso público, tinha ensino médio, e passei no concurso né. E eu sempre tive contato com pessoas do mundo inteiro, e isso me ajudou muito, na questão de lidar com a língua em si, pois eu já tinha contato com alguns brasileiros, com alguns guineenses, cabo verdianos, moçambicanos. Só não são tomenses e timorenses. Então a adaptação aqui foi muito fácil para mim. A maior dificuldade que tive foi a financeira. Porque na minha forma de ser, no meu dia a dia eu gosto de lidar com as pessoas, eu gosto de fazer amizades, gosto de buscar coisas novas, de trabalhar com pessoas que promovem a integração, então acho que isso me proporciona uma abertura para um leque de conhecimentos no que diz respeito mesmo

até a própria cultura das outras nacionalidades.” (Ricardo – Angola).

A vontade de ir buscar experiências em outros países também é expressa mais de uma vez. Provavelmente, também atraídos pela língua em comum, Portugal é bastante mencionado como país de destino. Percebe-se, também, a diversidade da formação dos núcleos familiares e religiosos que os estudantes emanam:

“Eu já estudava em Angola, nível superior, pagando. Lá tem

universidade publica s também lá. Primeiro comecei por Psicologia, depois fui para Direito na Universidade Agostinho Neto, universidade pública lá, mas eu estava para ir pra Portugal. Então já estava com tudo programado e etc. Só que teve um pequeno problema em relaçã o a concessão do visto, então estava meio acuado já com aquela preguiça. Irmãos de pai e mãe não tenho nenhum. Tenho uma irmã de pai e eu sou único filho único. Mas eu cresci com seis mulheres lá em casa, que a minha mãe cuidava de filhos dos irmãos dela. Meu pai ficou

com a minha mãe, depois separaram. Teve uma outra filha, mas depois também se separou. Comecei a escola com seis anos e terminei com vinte anos. Fiquei um tempo sem estudar durante um ano e meio. Aqui faço Sociologia, pretendo voltar e trabalhar em algo social de lá... Ministério, alguma coisa. E depois ir para a academia, mas só depois. Eu cresci na religião católica, depois fui para testemunhas de jeová,

mas hoje em dia estou sem religião.” (Saulo - Angola).

Outro fator bastante comum que observei durante as entrevistas, foi acerca dos que já cursavam uma graduação no seu país de destino ou já eram formados, e que, ao virem para a Unilab, optam por um curso completamente diferente do cursado anterior. Há nessa característica, a dúvida vocacional inerente a maior parte da juventude, mas me questionei o que poderia existir por trás dessas mudanças: os que já cursavam a universidade nos países de origem eram matriculados em instituições privadas com certo custo mensal. Estavam estudando lá, um curso por caber em seus orçamentos ou por desejo vocacional? Estariam no curso desejado por si ou por influência de seus familiares? Teriam visto na Unilab a oportunidade de cursarem os seus íntimos desejos, que em suas terras natais não seria possível? Essa mudança brusca e repentina nas disciplinas a serem cursadas causaria maior dificuldade ou facilidade de acompanhamento pedagógico? O Vicente cursava Engenharia em uma universidade paga de São Tomé, apesar de sempre ter desejado a Medicina durante o ensino médio, adentrou em Enfermagem na Unilab:

“Porque lá eu já estudava, cursava a Engenharia Eletrônica e de

Telecomunicações, mas durante o ensino médio, o meu foco era medicina. Aí quando veio essa oportunidade de vir pra ca, né, então, eu não perdi a chance né. Na verdade, aqui na Unilab eu escolhi engenharia como a primeira opção e enfermagem como a segunda. Graças a Deus deu enfermagem, e cá estou eu fa zendo. Lá era universidade pública, e era paga mediante o paga mento de uma fatia, a gente chama de propina.Minha família é de três filhos, a mais velha já concluiu, ela fez Direito econômico e Direito administrativo. E a mais nova está cursando agora, está fazendo Relações Internacionais. Não penso mais tentar medicina, os professores quando nos apresentam o material a gente cria essa paixão, que é uma forma diferente de ver as coisas. A enfermagem eu acho que é mais completa do que a medicina, nada contra, mas eu acho. A gente estuda por completo o corpo humano e começa a entender melhor. Não quero Engenharia mais não. Pretendo terminar enfermagem, mas também pretendo especializa r, porque ainda não existem enfermeiros especializados em São Tomé no hospital.” (Vicente - São Tomé e Principe).

No caso de Vicente, a expressão de satisfação ao relatar estar cursando enfermagem chamou minha atenção em seu relato, pois embora a vinda para a Unilab tenha representado brusca mudança da área de curso que já cursava, expressou ser um verdadeiro encontro vocacional com o curso de enfermagem.