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L’appropriation locale des quatre initiatives : une comparaison au sein de l’espace marseillais

3.1. Marseille : sa MDE, son COTEF, ses PRIDES et ses CLEE

3.1.4. Le double jeu du COTEF

3.1.4.4. Forum et instrument de territorialisation

Mathieson e Wall (1982: 1) definem procura turística como o “número total de pessoas que viajam ou desejam viajar, utilizando equipamentos ou serviços turísticos em lugares afastados da sua residência e trabalho”. Mas procura “é uma palavra ambígua”, com várias definições relevantes para o Turismo, como salienta Smith (1995: 119). Neste âmbito, o conceito de procura deve ser alargado por forma a abranger as necessidades individuais de consumo e experiência de lugares, que se manifesta como a experiência subjectiva do turista (Paajanen, 2000: 46).

Para o enquadramento da questão em estudo, a par da procura turística, é particularmente pertinente examinar igualmente a noção de procura de recreação. Tendo muitas viagens propósitos múltiplos e envolvendo um conjunto de actividades principais e secundárias (Shaw e Williams, 2002: 78; Inskeep e OMT, 1998: 20); é razoável considerar que alguns dos visitantes de atracções turísticas não viajem em lazer e a ida a um qualquer destes espaços seja meramente complementar da finalidade principal (motivos de saúde, negócios, congressos, visita a familiares e amigos, etc.) ou até imprevista ou acidental. Ainda assim, no período de tempo em que decorreu a visita houve necessariamente um propósito e uma actividade de recreação21. Por outro lado, a

actividade recreativa pode acontecer tanto fora do ambiente habitual como num contexto local (o que a Figura 2.2., no Capítulo 2, pág. 21, ilustra). Não é assim crível que todos os clientes de atracções turísticas caibam efectivamente dentro da categoria de visitantes segundo a referida definição da OMT, e, por conseguinte, no âmbito do turismo.

De acordo com Pigram e Jenkins (1999: 19, citando Driver e Brown, 1978), “ao termo procura de

recreação correspondem geralmente as preferências ou desejos de indivíduo(s) quer se disponha

ou não dos recursos económicos e outros necessários à sua satisfação”. Nesta definição, a procura não equivale à participação em recreação porque abrange também aqueles que não têm oportunidade de satisfazer os seus desejos nesse sentido. Num outro nível, “há as actividades específicas ou participação em actividades, frequentemente expressas em taxas de visita e medidas por forma a reflectir o comportamento actual observado” (Hall e Page, 2002: 31). Esta noção de procura efectiva é função da oferta das oportunidades de recreação. Embora Smith (1995: 121) saliente a importância da procura latente - designadamente no âmbito do planeamento, para estudar tendências e avaliar questões relativas aos potenciais consumidores -, neste estudo, é privilegiada uma abordagem da procura efectiva ou actual, sendo considerados sobretudo os visitantes que efectivamente procuram atracções. Segundo Hall e Page (2002: 32), a maioria da investigação desenvolvida tem-se exactamente debruçado sobre esta procura efectiva, que corresponde à participação actual, mais que sobre a procura latente.

21

A noção de recreação é entendida aqui de uma forma alargada, de acordo com a discussão desenvolvida no capítulo 2, abarcando para além da pura diversão, propósitos mais educacionais como a apreciação da arte e da cultura, aprender mais sobre a História e monumentos, etc.; motivações que se podem aproximar, em certa medida, do “lazer sério” de que falam Torkildsen (1999) e Hall e Page (2002).

A referência à procura recreativa e à procura turística não tem como intuito proceder à destrinça entre uma e outra: procurar fazê-lo com clareza e rigor, é uma tarefa complexa, senão impossível. Como amplamente se discutiu no Capítulo 2, os dois conceitos – recreação e turismo- não são de todo inteiramente distintos nem, por outro lado, perfeitamente coincidentes e as fronteiras entre ambos são, em muitos casos, imprecisas. A sistematização de sistema turístico proposta por Inskeep (na sua colaboração com a OMT, 1994: 5) acaba por cobrir todas as formas de procura de atracções, reconciliando, em larga medida, a procura de turismo e a procura de recreação fora de casa. Isto porque a lista de factores da procura [turística] integra: “mercados turísticos internacionais”, “mercados turísticos domésticos” e o “uso das atracções, equipamentos e serviços turísticos por parte dos residentes”.

Nessa medida, afigura-se como caminho mais próprio, sem tentar obviamente ignorar atributos diferenciados de cada um dos fenómenos, procurar os traços e factores comuns entre aqueles dois conceitos de procura. Com efeito, são vários os autores que sustentam esta mesma abordagem. Hall e Page (2002: 30) citam, a este propósito, Leiper (1990) – que defende a existência de um grau de comunalidade entre os factores de motivação das actividades turísticas e recreativas; muitas das necessidades como relaxamento ou estar com os amigos podem ser, em seu entender, igualmente preenchidas num contexto recreativo ou turístico. Também Moore et al. (1995)22 sustentam que há linhas comuns nas relações entre os vários factores motivacionais aplicáveis tanto ao lazer como ao turismo. Enquanto o debate entre turismo e recreação continua, também Simmons (2000: 490) advoga não haver dúvidas que a actividade recreativa é um factor central na escolha e tomada de decisão em turismo.

A nível individual, de acordo com Cooper et al. (2001: 62), a procura turística “pode ser tratada como um processo de consumo influenciado por certos factores”, podendo estes ser “uma combinação de desejos e necessidades, disponibilidade de tempo e dinheiro, ou imagens, percepções e atitudes”. Nesta linha, Uysal (1998, citado por Hall e Page, 2002: 62) explica a procura com base em determinantes de três ordens: económica, sociopsicológica e exógena (relativa ao ambiente externo). No processo de tomada de decisão, Ryan (1997) salienta as predisposições individuais do turista. Como escrevem Cooper et al. (2001: 62), “não há dois indivíduos iguais, e as diferenças de atitude, percepções, imagens e motivação têm uma influência importante nas decisões sobre viagens”.

No que respeita à recreação, Pigram (1983, citado por Pigram e Jenkins, 1999) tentou sintetizar os factores que influenciam a decisão de participar em actividades recreativas na Figura 3.1., que ilustra com clareza o complexo conjunto de variáveis que condicionam esse processo.

22 Estes autores (Moore et al., 1995) sustentam a fusão destes campos de estudo a partir das origens ideologicamente diversas de ‘lazer’ e ‘recreação’ como bem-estar e ‘turismo’ como actividade económica.

Figura 3.1 І O Processo de tomada de decisão em recreação

No contexto da motivação recreativa, Hall e Page (2002: 33-34) referem como factores comuns aos estudos de Krandall (1980) e Kabanoff (1982): o relaxamento, a necessidade de excitação e auto-satisfação; não ignorando o juízo de Argyle (1996) de que, em formas particulares de recreação, são evidentes motivações específicas.

Por sua vez, Tillman (1974, citado por Hall e Page, 2002: 35) sumariou algumas necessidades latas de lazer, no seio das quais se registam as necessidades de recreação, entre as quais se incluem a procura de:

• novas experiências (isto é, aventura);

• relaxamento, escape e fantasia;

• reconhecimento e identidade;

• segurança (libertação de sede, fome ou dor);

• domínio (em controlar o seu ambiente);

• resposta e interacção social (relação e interacção com os outros);

• actividade mental (perceber e compreender);

• criatividade; necessidade de se sentir preciso;

actividade física e de estar em forma.

Características demográficas Características socioeconómicas Características situacionais Características do recurso Acessibilidade Indivíduos Famílias Percepção Oferta Oportunidades de recreação fora de casa Procura Propensão para a recreação fora de casa Tomada de decisão Actividades Tempo de duração Sítio Participação em recreação fora de casa

Entre a literatura da psicologia social da recreação e turismo, a hierarquia das necessidades de Maslow mantém-se como uma das teorias da motivação mais citadas (Hall e Page, 2002: 34), provavelmente dada a sua simplicidade e leitura intuitiva (Cooper et al., 2001: 64). Este modelo sugere um princípio de ordenação das necessidades individuais, baseado na premissa de que a auto-realização é o nível a que todos deviam aspirar (Hall e Page, 2002: 34). Aplicada ao contexto do turismo e recreação, a teoria de Maslow permite associar as diversas motivações às necessidades sentidas pelos indivíduos.

Ryan (1997: 28-33) cita as quatro categorias de necessidades motivacionais de Beard e Ragheb (1983), derivadas do modelo de Maslow, para sintetizar a diversidade de factores, muitos coincidentes, referidos na literatura da motivação turística: componente intelectual (relativa à motivação que leva o indivíduo a envolver-se em actividades de lazer; como aprender, descobrir, pensar, imaginar); componente social (que deriva de duas necessidades básicas – de amizade e relações interpessoais e de estima de outros); componente de competência-destreza (relacionada com actividades de natureza física) e componente de estímulo-evasão (relativa à necessidade de escape e fuga das situações quotidianas sobreestimulantes). Este é também um exemplo de aplicação de uma teorização do âmbito do lazer à motivação em turismo23.

O reconhecimento de factores push e pull24, no que respeita à motivação, é uma questão central

em grande parte da literatura da recreação e turismo. Dann (1977, citado por Shaw e Williams, 2002: 87) sublinhou a importância inicial dos factores push que determinam a necessidade de viajar, enquanto que os factores pull tendem a influenciar a escolha do destino.

Embora a motivação seja um conceito essencial quanto aos vários padrões de procura, a complexidade em determinar o processo da motivação turística [e de recreação] é explicada por Hall e Page (2002:66) por via dos seguintes factores:

• o turismo não é um produto específico mas antes uma combinação de produtos e experiências que vão ao encontro de um grupo diverso de necessidades;

• os turistas não estão sempre conscientes das suas necessidades profundas e ideias e, mesmo se o estiverem, podem não revelá-las;

as motivações turísticas podem ser múltiplas e contraditórias (factores push e pull);

• as motivações podem alterar-se ao longo do tempo e estar indissociavelmente ligadas entre si; as conceptualizações dinâmicas são, por isso, cruciais no desenvolvimento e compreensão desta área de estudo.

23 Na verdade, o estudo de Beard e Raghed, publicado em 1983, no Journal of Leisure Research, intitulado

“Measuring Leisure Motivation”, debruçava-se não sobre a motivação turística, mas sobre a motivação em lazer. Dada a inter-relação entre os conceitos de lazer, recreação e turismo, as teorias e modelos que a eles se referem são, muitas vezes, comutáveis na sua aplicação, conforme já defendido neste ponto.

24 No inglês, os factores de atracção (estímulos externos) que influenciam a motivação são designados pelo termo

“pull”, enquanto que os factores “push” (intrapessoais) são gerados no interior do indivíduo provocando o desejo de viajar (Shaw e Williams, 2002: 87).

Como vimos, na tomada de decisão em recreação e turismo, podem identificar-se elementos comuns ao comportamento de compra em geral e outros específicos, designadamente pela natureza e características especiais dos produtos turísticos. É sobre a oferta de turismo e recreação e os produtos que esta torna disponíveis que recai a discussão do seguinte subcapítulo.

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